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Casa da Gorda

Casa da Gorda

31
Ago18

Digamos que vou falar de odores

Gorda

Na passagem de uma estação para outra há sempre uma qualquer blusa que fica guardada mesmo no fundo do armário, vai sendo empurrada, empurrada, empurrada, até ser a última peça de roupa, aquela que, quando voltamos ao verão nunca sabemos onde raio a enfiamos.

Um dia, já no fim de agosto, depois de revolver tudo à procura daquela peça que ainda não envergámos, lá a encontramos, estrafegada debaixo de camisolas de lã.

 

Vestimos a blusa que nos assenta até bastante bem em resultado dos quilos que ser perderam na dieta de fome com dentes. Sentimos a confiança a subir e a descer “sim sinhores! Até está melhor que no ano passado”.

 

Mas depois ocorre aquele momento em que nos chega um cheiro estranho ao nariz, uma mistura de mofo com muito mofo, não sabemos a que se deve, os outros não o sentem e a nossa cabeça acaba por perceber: somos nós, cheiramos a gaveta. A camisola desaparecida absorveu todo o cheiro a contraplacado da cómoda. Foi demasiado tempo de convívio entre o material têxtil e a madeira falsa.

 

Corremos para a casa de banho, vamos banhar-nos em perfume. Mas acabou. Já acabou na segunda-feira. Carregamos desenfreadamente no pulverizador, mas não funciona, as moléculas de perfume não se multiplicam a pedido, nem em cenário de desespero.

 

Hoje cheiro a gaveta.

 

Fim.

30
Ago18

Nasceu uma nova estirpe de emigrante

Gorda

Já todos conhecemos o emigrante que volta a Portugal esquecido da sua língua materna, apesar de estar a viver nos arredores de Londres há menos de 12 meses. Já todos conhecemos as histórias de chamarem os filhos pelo sobejamente conhecido vien ici, proferido o número de vezes bastante para que o emigrante liberte do seu "eu" mais animal um "anda cá seu cabrão senão levas uma lamparina no focinho". Já todos conhecemos o emigrante que volta para contar as maravilhas do país onde agora vive, de como tudo é tão melhor do que em Portugal, as pessoas são melhores, a gestão nem se aproxima, a pessoa quando está de baixa recebe beaucoup de dinheiro (porque "ai" já não se lembram como se diz muito). É extraordinário o poder do vernáculo da nossa língua, esse nunca se esquece. Já todos conhecemos as histódias do emigrante que tem um Mercedes todo polido, fechado numa garagem 11 meses do ano, o mesmo que é usado nos primeiros dias de agosto, na auto route em direção a Portugal, carregado de mantas e croquetes e pasteis de bacalhau e sandes de panado; o mesmo que vai impressionar as pessoas da terra, que, ao ver aquele belo material de 4 rodas, perceberá de forma inquestionável, que aquela gente vive num conforto tremendo lá na terra dos estrangeiros. Tudo se torna mais credível.

Pois que com a evolução dos tempos nasce uma nova estirpe de emigrante, o que, já não se conseguindo valer do Mercedes de garagem - porque hoje em dia qualquer cão e qualquer gato têm um Mercedes, basta fazer um crédito por 10 anos - vêm acompanhados da tecnologia que não sabem usar e dão largas à idiotice, querendo fazer crer que vão levar provas do que por cá se vê, para mostrar aos amigos estrangeiros que isto ainda é uma selvajaria. Ou seja, acreditam, mais uma vez, que se conseguem colocar num patamar superior ao pobre tuga que não teve os testículos para emigrar e fazer no estrangeiro o trabalho que os nativos de correspondente país se recusam a fazer.

Vai daí e encontro o vídeo do emigrante que, não tendo mais que fazer, passa os dias a observar o comportamento dos policias que andam de bina e atravessam a passadeira montados na mesma. Ou seja, falamos de um tipo que conduziu mais de 3000 km sob calor intenso, para vir para Portugal fechar-se no T1 que tem com vista para a estrada, onde se põe à janela a ver o comportamento das pessoas na estrada e afins. Diz uma serie de bacoradas respeitantes à documentação que tem ou não de ter e acaba na esquadra para esclarecimentos.

Como se não bastasse há outro que se lembra de se pôr a filmar um policia a multar carros. 

Confesso que não sei qual é a ideia de se meterem com os agentes de autoridade, mas pelos vistos devem achar que porque passam o ano a servir o Francês e a aturar o Inglês, isso lhes confere algum tipo de supremacia da cidadania ou lá o que for.

Eu cá gosto de ver os pategos em ação, mas só quando estamos perante vídeos nas redes sociais, onde me posso rir e o comportamento não me aleija.

Tudo muda quando a nova estirpe se me aparece à frente.

Fui dar uma corrida. Puxar por mim, gastar as calorias, mexer as nalgas, essas coisas.

Chego a uma estrada que precisava de atravessar - a mesma que, de setembro a julho não tem um único carro a passar - e paro naquela corrida ridícula em que a pessoa saltita no mesmo sitio mas está parada. Passa um carro, passam dois, passam três e quando chega o quarto o tipo trava mesmo à minha frente, ocupando o espaço por onde eu podia passar, um velho abre o vidro e diz (li os lábios porque a Jennifer estava a dar forte nos meus phones) "PASSE LÁ PÁ!". Eu, acenei que não com a cabeça e contornei o carro por trás, momento em que vi que o velho "esperto" vinha da Suíça. Ou seja, não tendo nada para fazer, isto é gente que não sabe "ir à sua vida", tem de defecar postas de pescada para a dos outros. Eu estava parada, civilizadamente à espera do momento em que não houvesse carros para passar, mas como isto não são férias sem identificarem selvagens à solta, pessoas de quem falar à hora de jantar dizendo coisas como "isto não muda nada, vejam só que se ia mandando para cima do carro!", há que arranjar sarna.

Nestes momentos penso porque é que tanta gente boa e nova falece e estas pessoas continuam a povoar o planeta? Rapidamente chego à razão: Deus tenta, manda vagas de calor e tudo, mas a morte chega e quando ouve as primeiras reclamações do visado diz para Deus "eu não ganho pa isto, pá!", e vai fazer quinar outro. 

 

29
Ago18

A vossa atenção por favor!

Gorda

Tendo em atenção que o verão está a chegar ao fim. Considerando que é uma dor que partilho com grande parte dos meus compatriotas. Valorizando o destaque que o próprio Sapo deu a este flagelo. Para que fique resolvido este fragmento que passará para sempre a fazer parte de nós....

 

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Sugiro que façamos 1 minuto de silêncio por todos os melões, melancias e meloas que este ano foram vítimas, alvo de pessoas que procedem ao esventramento frutal. Que sejamos todos capazes de olvidar as imagens agressivas com que nos deparámos ao abrir os frigoríficos das nossas casas.

 

E já que estamos neste momento sério e de pesar, aproveitemos um instante para comungar pelas bananas que são levianamente esborrachadas por pessoas que torcem uma das pontas em vez de dar um golpezinho geométrico para abrir a banana e então, cuidadosamente, proceder à extração da casca.

(normalmente é gente que come aqueles fios nojentos da banana...até se me arrepiam os cabelos da nuca)

 

Obrigada.

27
Ago18

Como conseguir um bom emprego

Gorda

Estava para aqui com alguns minutos livres, que é coisa que raramente me acontece, e, dotada de uma total incapacidade de estar quieta decidi ir ver as ofertas de emprego num site qualquer da internet.

Afinal de contas estamos a chegar ao final do mês de agosto, as pessoas estão a regressar aos seus entediantes trabalhos, todas carregadas de depressão pós-férias, imbuídas de um desejo profundo de mandar tudo às urtigas e mudar de profissão, arriscar, ver o que a vida tem para lhes oferecer, mostrar aos filhos que estão dispostos a dar um passo em frente quando estão mesmo no abismo, tudo em prol da busca pela felicidade suprema (e tudo com recurso nas frases de Facebook que os amigos postaram no dia anterior, os mesmos que detestam e que mantém como amigos porque não querem conflitos com colegas de trabalho).

Então, depois de analisar com detalhe algumas das propostas apresentadas, a única coisa que aprendi foi o seguinte: se quer arranjar um bom emprego minta com todos os dentes que tem na boca, incluindo os falsos e já agora use e abuse da placa dentária da avó. Porque sem imaginação jamais conseguirá o posto de “business analysit of a major account of slamollacomenal”.

Espero que os meus conselhos ajudem a conseguirem tudo o que mais desejam desta vida.

 

Uma coisa antes de começarmos: será que já não há ofertas de emprego em português?

Já não se oferece emprego na língua materna. Em vez disso dão-se nomes pomposos para postos de trabalho que, a ver bem, qualquer pessoa com vontade e minimamente letrada conseguia fazer.

Por exemplo, para fazer o que faço é preciso um pouco mais do que saber ler, mas uma pessoa inteligente (muito, mas mesmo muito inteligente, assim para dar a ideia que eu sou mesmo bestial), com dedicação, aprenderia. No entanto, o nome da minha função é tão mais pomposo do que aquilo que eu faço que quando alguém me anucia indicando o meu titulo profissional, eu fico a olhar para a porta à espera de ver a pessoa entrar. Uma fração de segundos depois dou conta que sou eu.

 

No meio disto tudo só é pena que os vencimentos sejam tão mais fraquinhos que as promessas.

 

É como uma gaja que é engatada por um tipo todo calmeirão, musculado, definido, cheio de falas mansas e depois quando chegam a vias de facto o caso tem de ser gerido com pinças. Ou seja, no que interessa mesmo, onde estão as mais valias, aí é tudo em português curto e…estreito, ou seja, a pessoa mantem-se pobre.

 

Entramos na proposta de emprego e há uma apresentação da equipa ou da empresa. Quando são entidades comummente conhecidas uma pessoa chega a pensar que há ali um qualquer engano, porque a descrição parece falar de uma empresa holandesa e afinal são só os tipos que gerem as auto-estradas. Se calhar é por causa disso que pagamos tanto de portagens, é para eles terem lá vários “business analysit of a major account of slamollacomenal”.

 

E os requisitos mínimos?

Tão gerais, tão gerais, mas tão gerais que aposto que copiam umas empresas das outras:

Trabalhar de forma colaborativa.

A sério que é preciso dizer isto. “Não, não, espera. Para esta função queremos especificamente um morcão, queremos mesmo assim um grunho que não fala para ninguém.” Senhores, pessoas que recrutam tipos que não colaboram, normalmente estão ligadas às mafias e afins. Empresas reconhecidas no mercado têm de colaborar.

 

Capacidade de comunicação

Comunicar é essencial. Seja para estar fechado num cubículo ou para estar na receção de um escritório (importa aqui dizer que rececionista foi a única vaga em português que encontrei).

 

Falar fluentemente inglês

Ao nível da mensagem por whatsup e abreviatura? Ou mesmo inglês? É porque ninguém esclarece. Eu cá sou ótima na primeira, porque uso muito e tenho oportunidade de praticar, mas a segunda é fucked.

 

Iniciativa e Proatividade

O que é que querem com isto concretamente? Iniciativa para quê? E proatividade para o quê concretamente? Como é que uma pessoa manifesta isto se ainda vai aprender a função? Pode ser iniciativa para ter mandado o curriculum e proatividade para pedir já aumento?

 

Foco no atingimento de objetivos

Lá a ver, isto é coisa que pessoas da função publica não são obrigadas a ter. No privado somos sempre pressionados para fazer um pouco mais. No publico sempre pressionados para fazer um pouco menos porque podemos deixar o colega que só chamou 3 senhas mal visto. Ser vagaroso também é um objetivo, certo?

 

Capacidade de tomar decisões e resolver problemas

Ainda esta manhã decidi, sem espinhas, o que ia ser o meu pequeno almoço. Tinha a camisa rosa amachucada – o que é um problema – e decidi que a blusa branca com flores amarelas também ficava bem com as calças xadrez. Resolvi e decidi em simultâneo.

Sou mestre a decidir e CEO a resolver.

 

Capacidade de pesquisa, análise e aprendizagem

De pesquisa?

De analisar o quê?

Se aprendo bem? Já viram aquele macaco que aprendeu a separar o lixo? Sou ainda mais rápida, mas só aceito euros, não queiram pagar-me em bananas.

 

Para isto é preciso, no mínimo, um mestrado e 2 anos de experiência.

 

E que mais? É para já um estágio. Porque mesmo com mestrado e mesmo com experiência, é preciso ter a certeza de que a pessoa já sabe como se trabalha na empresa antes de para lá entrar.

 

Ora vejamos: quantas são as empresas que gerem auto-estradas neste país?

Exato. Uma porrada delas e estamos mesmo a ver um caramelo que está há 2 anos numa casa, ali forte e empenhado, provavelmente nos quadros, a largar tudo para ir para um estágio. É o sonho de qualquer pessoa parva. Como se sabe.

 

Desta feita, sem mais delongas, e depois de ler os requisitos, para conseguir este emprego é fundamental ter:

 

A iniciativa, proatividade e inovação de criar um curriculum que mais parece escrito pelo Tolkien. Pura fantasia.

Pesquisar no Google translater as palavras para apresentar o dito em inglês.

Resolver o problema da inexistência de mestrado, decidindo identificar um mestrado no exterior numa universidade que entretanto faliu e que por isso não há certificado a comprovar (tem funcionado muito bem para pessoas em cargos de política).

Ter como principal foco garantir que se consegue ludibriar a pessoa que nos entrevista, à partida será fácil porque a pessoa também foi para ali trabalhar nos mesmos pressupostos: fingiu perceber do que na verdade nunca ouviu falar.

Mostrar que se aprende com facilidade, papagueando pequenas coisas que se leram na internet sobre a empresa.

 

No fim a pessoa é contratada, para ganhar meia dúzia de tostões, dão-lhe mil palmadas nas costas por ter “conseguido aquela oportunidade” de pesquisar a melhor forma de tirar cópias, até ao dia em que chega agosto, quem toma decisões borrifa-se e vai de férias, deixando a pessoa com as decisões de coisas importantes porque quem é bem pago “vai estar incontactável no exterior”, ou numa barragem qualquer a caminho do litoral, mas onde não há rede.

 

Com sorte, se a pessoa for suficientemente tangas e incompetente, receberá uma oferta de emprego e uma retificação salarial. Se for preocupada, ansiosa, zelosa e estiver sempre a ser picuinhas para que as coisas sejam bem feitas, será dispensada após o estágio, porque lhe falta a capacidade de liderança necessária, tem pouco foco nos objetivos da empresa, não encabeça o lema da casa e tem sérios problemas de comunicação, uma vez que incomodou o chefe que estava de férias em Ibiza, com uma cadela fora de série, só porque tinha receio de tomar a decisão errada sobre um processo que estava com ele e a pessoa nunca havia visto na vida.

Devia ter inventado como fez na entrevista.

22
Ago18

Como decorrem as reuniões do trabalho

Gorda

No subject do invite vem um tema.

Quando chegamos e depois de "fazer sala" à espera das pessoas que se atrasam sempre, começa a ser debatido um tema respeitante a outra coisa que não tem nada que ver com o tema principal.

Anda-se à volta de assuntos sobre temas sempre com o mais alto nível de criticidade e urgência para se chegar à conclusão, a 10 minutos do fim, que não se falou do tema em mãos.

Um super entendido - normalmente metido a esperto que está a gerir não-sei-o-quê-mas-que-não-entende-nada-da-poda decide fazer uma espécie de apresentação da periclitância em mãos. Alguém desata a debitar matéria sobre o tema referido para a reunião e, assim que a pessoa que tem resposta para a resolução do problema começa a falar, há uma alma que dá um toque na porta de vidro, porque a sala só estava reservada por uma hora e passaram-se 50 minutos a falar de merda redundante que não interessa nem ao diabo.

Marcamos outra reunião e eu penso se devo aproveitar para ir cortar os pulsos para não ter de repetir a dose.

 

(em época balnear tudo se agrava com as conversas das férias "já foste?" "aí maldito, que sorte, eu já gastei as minhas, coitada de mim, só para o ano", "não, não, coitado é de mim que ainda tenho de esperar uma semana" ahahahahah (aquela risadinha forçada de quem está mesmo a ter uma diversão do catano com aquilo).

20
Ago18

Malas de gaja

Gorda

Antes de mais começo por dizer que “mala de mulher” é uma certa redundância, uma vez que os homens – por regra – não usam malas. Há aqueles espécimes que deviam ser extintos do planeta Terra por andarem de fanny pack à volta da cintura (até o primeiro ministro padeceu deste mal), mas isso não conta como mala (já alguém arranjava uma vacina p'a isto faxavore!).

Mala que é mala e mala que é de senhora (vulgo gaja) é aquela coisa que se carrega ao ombro desequilibrando o ying e o yang da espinha e causando múltiplas lesões dorsais a somar a uma chusma de idas ao homeopata.

 

Quando uma gaja compra uma mala procura alguma coisa que possa usar com todas as peças de roupa, que fique bem com a maioria dos seus sapatos, uma mala não muito grande a ponto de parecer uma sacola, nem muito pequena ao ponto de não caber a pequena pochete onde guarda o seu estojo de socorros (com o baton, uma lima, um rimel, essas coisas, emergências estéticas portanto).

No entanto, o que na verdade acaba sempre por acontecer é que a gaja passa pela montra e vê uma mala que lhe parece perfeita mas que não tem nada que ver com as características que havia listado para a sua próxima mala. Invariavelmente a pessoa que é gaja tem o seu subconsciente toldado pela mala que uma qualquer celebridade usava e que ficava mesmo in com aquele outfit.

Resultando assim em uma seguintes compras:

 

Uma mala pindericamente pequena onde nem a carteira cabe.

Só depois de ter pago, já em casa, é que a pessoa se dá conta de que nem a carteira lá cabe dentro. Isto demonstra uma incapacidade de raciocínio total, uma vez que no momento de aquisição a pessoa tinha a carteira em sua posse e podia perfeitamente ter experimentado para ver se cabia na pseudo-mala.

 

Uma mala anormalmente grande.

Onde já cabe a mala e, em caso de homicídio de um anão, também terá espaço para esconder o corpo. A pessoa compra a pensar que assim pode colocar todos os snacks do dia, mais as garrafas de água, mais os sumos detox e o camandro, mas a verdade é que acaba com uma saca vazia e quando vai às compras o segurança está sempre a dar nota de onde a pessoa anda, porque dá ar de quem vai preencher o cesto e bazar sem pagar.

 

No momento de aquisição é possível visualizar a futura organização da mala. A gaja sabe que vai colocar sempre a carteira geometricamente alinhada com a agenda, que vai ter uma bolsa própria para os lenços de papel, que o telemóvel vai estar alinhado com a bolsa dos óculos de sol. Não vão coabitar com restos de comida nem lenços ranhosos. Vai parecer o sistema solar, mas em modo que o comum mortal compreende. Ou seja, por dentro, a mala parece uma loja da Staples.

 

Esta organização dura cerca de 48 horas.

 

Depois, quando já houver restos de snacks espalhados no fundo da mala (daqueles que se metem debaixo das unhas quando se procuram as putas das chaves que se refundem sempre nas frestas de qualquer parte da mala – até se me arrepiam os cabelos dos braços de pensar nisso), quando os óculos já andarem sempre fora da caixa, de maneira a que apanham riscos que uma pessoa nem sabe de onde vieram. Quando as chaves aparecerem envoltas em lenços de papel ranhosos e ressequidos. A vida já voltou ao normal e a gaja já chegou à conclusão de que devia era comprar outra mala porque esta tem problemas.

Não dá claramente para a pessoa se orientar.

 

Isto a menos que seja uma Michael Kors comprada com metade do subsidio de férias (upa! Até parece pele a saltar do lombo), ou paga com visa – logo estará verdadeiramente paga lá para novembro do ano que vem; nessa circunstância a pessoa tem mais cuidado, porque aí não comprou uma mala, é um estilo de vida.

 

Mas bom, bom, é quando uma pessoa descobre 10 € perdidos na mala velha. Isso é que é de valor.

 

19
Ago18

Observando a fauna e a flora humana...

Gorda

...que se pavoneira pelas praias deste país.

(e sim, por estranho que pareça há flora, se há flora!)

 

Em duas horas de praia e depois de muita observação e pesquisa, não encontrei uma única mulher que soubesse envergar de forma respeitosa o seu biquíni. Não havia braços esticados em cima da cabeça, assim com um antebraço a querer cair e a dar consigo apoiado na cervical. Não havia uma barriga para dentro com o tronco esticado e um par de órgãos comprimidos. Não havia uma peida excessivamente para fora. Não havia um par de pernas a roçar sensualmente uma na outra enquanto empurram a areia, os braços a segurar o tronco como um cavalete humano e a cabeça a pender para a frente e meio de ladex com o cabelo a parecer que uma rajada de vento o havia soprado naquela direção, assim como que a esbanjar sensualidade no pescoço que segura a cabeça que está perdida em pensamentos vários.

Nada disso.

Só gente relaxada, gente a chapinhar na água, gente ansiosa por passar o homem das bolas de berlim.

Foi um desgosto. Não há uma pessoa com Instagram nas praias para onde vou.

O que até é uma coisa que até me deixa descansada, porque eu quando olho para as fotos dos catálogos de biquínis fico sempre preocupada se tenho de andar sempre assim, naquelas posições de quem ficou com sequelas graves depois de um acidente de significativas proporções a caminho do IC19.

 

Dei contudo com uma moça que estava a dar tudo para uma foto. Estava ela sentada e entediada, de repente pegou no telemóvel, ajeitou-se para a foto, pôs o cabelo de lado, a língua de fora, e fez uma espécie de sinal de cornos como acontece nos concertos de heavy metal. Aconteceu tudo tão depressa, que na verdade não sei se seria pose para a foto se seria uma especie de Tourette das redes sociais.

Depois de tirar a foto regrediu à posição de descanso e continuou a comer o seu pão com paio.

Aquela pessoa estava a divertir-se bué mais na rede social que na praia. Ela própria devia estar com uma inveja dos diabos do seu eu social.

 

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