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Casa da Gorda

Casa da Gorda

28
Set18

"Pa mim, olhe, pá mim, pa mim era pena de morte"

Gorda

Boa tarde, estamos aqui hoje à porta do tribunal à espera da chegada dos arguidos que são responsáveis de serem suspeitos do crime que foi assassinarem o shôr...o shôr...ó Gaspar como é que se chamava o homem? Não sabes?! Tá bem, bom ahhh, o shôr que foi assassinado.

Vamos aproveitar para falar com alguns populares.

 

Jornalista - Boa tarde, está aqui para ver a chegada dos arguidos?

 

Popular 1 - CRIMINOSOS, PENA DE MORTE! Havia de haver pena de morte. Eu sempre soube que tinha sido ela. Logo no primeiro dia, vi logo, a gente olha para ela e sabe. ASSASSINA. Olhe era pena de morte. Pena de morte pa esta gente. Anda uma pessoa a trabalhar e a descontar para esta gente ir comer e beber à nossa conta. Era pena de morte. Alguém havia de rever isto porque pa esta gente havia de haver pena de morte. O problema é o Estado que deixa esta gente andar pr'aí, sabe?

 

Jornalista - Obrigada pelo seu contributo, vamos agora falar com outro popular. E a senhora, está cá desde cedo. Veio ver a chegada dos arguidos?

 

Popular 2 - Eu já sabera que foi ela. Atão uma pessoa vê logo. Eu primeiro desconfiei e depois ao fim do primeiro dia disse logo comigo "ó Lurdes isto foi a mulher dele". E foi. Havia de haver pena de morte para esta gente. A ser confirmado que foi ela, havia de ser pena de morte.

 

Jornalista - Mas a senhora ainda agora tinha a certeza que foi a mulher a assassina...

 

Popular 2 - Pois, e foi. A confirmar-se eu tenho a certeza. Faltei ao trabalho pa vir aqui dizer que ela havia de morrer em vez de andar a comer com os meus descontos.

 

Jornalista - Muito obrigada. Vamos falar com mais um popular. Boa tarde, o senhor o que acha deste caso?

 

Popular 3 - jhgyashdbkh khjduhwk khuhdjd o pior são os juízes khhd kuhiudh khaduh são a pior escumalha kuhidewb keudew khuedh a gente não pode ter medo kjhiudh khiudh atão estão aqui estes policias a ganhar uma ninharia para os juízes estarem lá dentro no bem bom.

 

Jornalista - Porra que não se entende nada. Ó Gapar tu percebeste o que homem disse? Não? Porra. Continuo? Tá bem. Mas e sobre o caso o que é que o senhor acha?

 

Popular 3 - khyide khiueh khiuhd haviam era de ver o que os agentes passam kdiweh nhdiewhd como aquele GNR que kjh nihiue sabia lá ele que o gajo levava kjhiuew khiuhde. Este país, o mal é este país kjhiewhhb. Mas a gaja é culpada, soube logo no primeiro dia.

 

Jornalista - Muito obrigada, vamos passar a mais uma popular. Boa tarde minha senhora, o que acha deste caso?

 

Popular 4 - Pena de morte. Olhe pa mim, pa mim, era pena de morte. Havera de haver pena de morte pa estes casos. Eu trabalho noite e dia pa isto. Vi logo que tinha sido ela, porque uma pessoa olha e vê que não é flor que se cheire. Havia de ir presa e ficar numa caixa sem ver sol nem lua. Olhe, sem sol nem lua. Pena de morte. Era isso. Pena de morte sem sol nem lua. Anda aqui uma pessoa a descontar pa isto. Tenho uma grande tristeza de viver neste país. Uma grande tristeza. Só neste país é que coisas destas acontecem e os criminosos saem impunes...

 

Jornalista - Mas estão agora a ser julgados...

 

Popular 4 - Pois, mas mesmo assim. É muito triste viver neste país, eu se pudesse ia-me embora. O Estado não faz nada. Isto era pena de morte, pa mim era pena de morte. Isto temos um ordenado pequeno, não dá pa nada, é uma miséria. Depois acontecem estes casos. É uma tristeza, este Estado, eu não sei, é uma vergonha viver neste país.

 

Jornalista - Mas a senhora trabalha?

 

Popular 4 - Trabalho sim, por conta própria que é a única forma de a gente fazer uma rabeta ao Estado, essa cambada de ladrões. Mas hoje tirei o dia, desmarquei as minhas clientes e vim exigir justiça.

 

Jornalista - Vai-se embora só depois de saber as medidas de coação?

 

Popular 4 - Ah? Nem sei o que é isso. Vim exigir justiça. Pena de morte, pa mim era pena de morte. Entreguem os gajos ao povo.

 

Jornalista - Obrigada pelo seu contributo. Vamos falar com mais um popular. Boa tarde, a senhora o que acha de tudo isto?

 

Popular 5 - Está a filmar-me? Porque se está eu não quero dizer nada. OK, então tá bem. Olhe eu moro aqui desde que nasci vai pa cima de 60 ianos, nunca vi coisa assim, mas é que nunca ouvi falar.

 

Jornalista - E o que acha dos suspeitos?

 

Popular 5 - Eu sabia que era ela. Com certeza que sabia, basta uma pessoa olhar que vê logo. Ao fim do primeiro dia eu pensei logo comigo "ó Lucinda, foi a gaja". E foi. Foi ela. Havia de haver pena de morte. Era um tiro, logo, ali.

 

Jornalista - Obrigada. Vamos só falar com mais este senhor. Boa tarde, veio aqui para ver os suspeitos?

 

Popular 6 - Sim. Ainda não os tinha visto, agora já vi.

 

Jornalista - Então não conhecia o rosto dos suspeitos.

 

Popular 6 - Não.

 

Jornalista - E o que é que acha deste caso?

 

Popular 6 - Foi ela. Eu soube logo, assim que olhei para a cara dela vi logo. É que ao fim do primeiro dia eu pensei para comigo "hum, ó Aníbal, isto foi ela".

 

Jornalista - Mas pensei que tinha dito que só os viu agora pela primeira vez...

 

Popular 6 - E é verdade. Mas estas coisas uma pessoa sente. Agora tenho ainda mais certeza.

 

Jornalista - E o que sente relativamente a isto.

 

Popular 6 - Olhe, não é hómano. De maneira nenhuma que não é hómano. É o que as outras pessoas dizem.

 

Jornalista - E o que é que as outras pessoas dizem?

 

Popular 6 - Mas ainda não falou com mais ninguém? Havia de falar com a minha vizinha Lurdes, ela acerta sempre.

 

Um pouco de cultura

Popular - Pessoa que se abeira de tribunais e outras circunstância onde há repórteres, que grita impropérios e pede justiça sem conhecer a lei. Queixa-se sobejamente do Estado e diz que o Governo tem culpa até dos seus joanetes. Faz observações que não vêm ao caso. Pessoa que gosta de falar com jornais sensacionalistas, que, por sua vez deviam ser condenados por maltrato da língua de Camões. São, geralmente pessoas sem nada que fazer que, em vez de estarem a ver novelas em loop, vão para o meio do regabofe, mesmo que isso não melhore em nada a sua vida quotidiana.

27
Set18

Dividimos?

Gorda

Ele - Queres pedir sobremesa?

Ela - Quero. E tu?

Ele - O que é que vais comer?

Ela - Uma mousse de oreo.

Ele - Pedimos com duas colheres?

Ela - Partilhamos a casa, o carro, a conta bancária, as despesas, o lavatório da casa de banho, o copo das escovas de dentes, a cama, o edredon - ainda que o roubes todas as noites -, o guarda-fatos. Se queres sobremesa pede uma para ti.

 

A mousse estava deliciosa.

 

27
Set18

Meu querido Gregório Duvivier

Gorda

Estou lhe escrevendo esta carta tendencialmente idiota porque ambos sabemos que ela não vai ser lida, ou melhor, eu sei que não vai ser lida, você não sabe sequer que ela existe, o que é algo que me deixa bastante descansada.

Pra me fazer entender melhor – e porque tenho a mania que sou engraçadinha (o humor é o refúgio das gordas, já que a salvação só a encontramos no açúcar e no pão com manteiga) – decidi escrever essa missiva abusando dos acentos, árrastando as vogáis e exácerbando as consoantes. Dessa forma acredito que vai párecer que estou escrevendo num brásileiro que de facto não existe. Assim poderei também dar inúmeros erros que toda a gente vai achar que foi de propósito.

Pensando bem, talvez fosse boa ideia fazer meus textos sempre em brásileiro inventado – seria uma optima solução para não voltar a receber comentários de ódio da Tropa de Elite da Gramática, isso é gente fanática pela língua que fica capaz de arrancar seus próprios cabelos quando lê uma palavra com erro. Tenha cuidado com eles, estão por todo o lado e estão sempre átentos.

É isso, escrever num pseudo-brásileiro poderia parecer mais engráçado e menos ignorante.

Qui é qui cê acha?

Acha bem, né? Eu sábia.

(Tá ficando egoísta esse texto, pô! Não era essa a intenção)

Falando de coisas mais “nossas”, estou terminando de ler seu último livro e fiquei com uma vontade doida de dizer algumas coisas pra você, especialmente áquelas que eu sei que nunca te diria. Prá começár acho você brilhante. Mesmo sem purpurinas. E isso me dá uma baita de uma raiva, porque eu sou uma pessoa que é invejosa. Queria ser esperta que nem você e escrever com esse talento.

Outra coisa que eu percebi é que a gente tem um monte de coisa em comum, por exemplo: ambos somos piquenos, eu de saltos altos sou do seu tamanho; você é brasileiro e está acostumado com o calor, eu nasci no verão e meu ascendente é o sol; você escreve e vive disso, eu gosto de escrever e por isso meu chefe me manda redigir todos os relatórios de merda que ele não quer fazer.

Você já viu como a gente não é párecido? Que loucura.

Sempre achei que as pessoas mais novas ainda têm algo que aprender comigo – acho que isso acontece porque meus pais nunca me deram um irmão mais novo e eu arrasto esse trauma comigo, na terapia ainda não chegamos nessa fase -, mas lendo seu livro foi você quem me ensinou. O que é uma porra porque eu levo 3 anos de avanço na vida.

Vai daí e eu fico pensando: foi sua vida que deu certo ou a minha que deu errádo?

A vida profissional, claro! Que a vida pessoal eu prefiro a minha mil vezes.

Admiro muito um português seu amigo, o Ricardo Araújo Pereira. Já li todos os livros dele e sigo as crónicas. Nunca conheci ele. O que é bom - pra ele - porque eu não teria nada de interessante para lhe dizer.

Ainda assim às vezes penso que um dia estarei no corredor das águas de um qualquer hipermercado, tentando encontrar uma solução pra pegar a última garrafa de Evian que está na práteleira mais alta (não chego nela nem de salto); nesse momento chega Ricardo que me pergunta “posso ajudar?” e eu respondo (esquecendo a garrafa de água) “Boa tarde, gosto muito do seu trabalho. Me diz uma coisa: você alguma vez teve um caniche branco? É que eu acho que vi você uma vez, num hospital veterinário, com um caniche branco no colo”. Aí ele vai dá a garrafa pra mim e vai embora desejando o resto de uma boa tarde. Eu vou desistir de comprar a garrafa de água, porque quando faço figura de idiota tenho tendência pra perder a sede.

Se você encontrar com o Ricardo, não esquece de perguntar pra ele se ele teve um caniche branco. Caso o bicho se tenha chamado Benfica, lhe diga que isso não é nome que se dê pra um cachorrinho de dondoca.

Acho que é isso.

Vou terminar o nosso livro (seu porque o escreveu, meu porque o comprei).

Um beijinho caprichado.

 

Estou a terminar de ler o livro "Caviar é uma ova" (do Gregório Duvivier), estou a adorar e aconselho vivamente a sua leitura. Podem comprar em qualquer livraria. Podem também comprar diretamente na Tinta da China.

Caso tenham oportunidade, podem também passar por Óbidos nos próximos dias e ir ao FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos. No dia 30 podem assistir à apresentação do último livro do RAP e ainda ao "Você é o que lê", ao vivo, com a participação de Gregório Duvivier, Maria Ribeiro, Xico Sá e Matilde Campilho. Eu sei que adoraria ir, mas a vida não permite, o que é uma valente de uma porra.

 

26
Set18

Ó shôr Vitor, eu acho que cabe

Gorda

Tenho alguma dificuldade em gerir um bom pequeno-almoço quando estou num hotel. Há qualquer coisa naquele buffet de coisas disponíveis, ali, à mão de semear, que funciona para mim como o canto das sereias; é um chamamento intenso para a mesa do pão, uma música impossível de ignorar que vem das mesas de pastelaria.

Bebo um galão sem açúcar para me sentir menos culpada.

Estou no segundo pão fresco, feito em forno a lenha, quando o parto o som faz-me estremecer, qual orgasmo gastronómico, salivo só com o som. Barro o pão com manteiga e saboreio prolongadamente aquele produto tão simples do qual poderia viver de forma exclusiva. Quando acabo não resisto a ir buscar outro. Só mais este. Depois chega.

Os olhos chamam-me a atenção para a travessa dos waffles.

Há quanto tempo não como um waffle, penso de forma nostálgica e recordo que foi para aí há 2 semanas.

Estou cheia, falta espaço no meu corpo, mas a gula é forte.

Ocorre-me que no meu interior está a haver uma reunião de condóminos entre todos os órgãos, há um inquilino a fazer obras e estão fartos do incomodo.

Entretanto, no 5º B o proprietário e o empreiteiro responsável pelas obras conversam:

- Shôr Vitor eu acho que cabe.

- Shôr Teixeira, a cozinha tem 6 metros quadrados, é arriscado colocar aqui dentro um frigorífico americano de 2 portas.

- Shôr Vitor, ora experimente, à confiança.

E como o empreiteiro que tem de fazer o que o proprietário quer – mesmo sabendo que pode dar merda – como um waffle com chocolate.

 

As duas horas que se seguem são de enfartamento e arrependimento. Estranho as pessoas que dizem que não se arrependem de nada na vida, se eu contar as vezes que venho ao norte e me arrependo do que emborco….

 

(melhor do que a comida do norte, só mesmo ouvir alguém da mesa ao lado dizer “ora binde aqui à minha beira meu amoure”. Tão bom)

22
Set18

Tratar da roupa

Gorda

Cesto da roupa escura. Cesto da roupa clara. Detergente em pó para nódoas mais difíceis. Detergente liquido para roupa menos suja. Detergente para conservar cores. Detergente para um branco imaculado. Detergente para nódoas rambo. Lixívia com cheiro a flores imaginário porque cheira sempre a lixívia. Lixívia que não danifica as cores mas se apenas colocarmos por pouco mais de 30 minutos. Depois o que era creme passa a amarelo. Detergente para lavar a máquina de lavar. Amaciador com cheiro intenso. Amaciador antialergico. Amaciador barato que só dá cheiro quando enfiamos o nariz na garrafa. Programa curto. Programa médio. Programa forte. Duas horas a andar à roda. Até o cão fica baralhado.

Descobrir uma peúga preta no meio das camisas brancas. Pensar em pedir o divorcio. Decidir manter o casamento porque há uma casa para pagar.

Perceber que a blusa de cetim branca que mais gostamos ficou tingida de vermelho pela t-shirt do Glorioso que o marido pôs na cesta errada quando chegou da bola com os amigos. 

Roupa do trabalho. Roupa de fim de semana. Roupa de andar por casa, que é como os restos da roupa. Roupa de ginásio. Roupa de jogar à bola. Roupa dos miúdos. Roupa para miúdos levarem para a escola. Roupa de fim de semana para os miúdos. Roupa de casa de banho (toalhas). Roupa de cama. Roupa de enfeitar (também conhecida por cortinados). Roupa de mesa.

Roupa que se lava na máquina. Roupa que se lava à mão.

Roupa de lã. Roupa de algodão. Roupa de poliéster. Roupa grosseira e roupa cheia de nove horas.

Estender antes de sair de casa.

Roupa que fica sem cor porque está muito sol.

Roupa que não seca porque afinal choveu.

Roupa que cai do estendal e se torna inútil depois de levar com duas mijas de cães vadios.

Roupa que se seca na máquina.

Roupa que se leva à lavandaria self-service.

Roupa que continua a cheirar mal depois de lavada.

Roupa que faz com que a outra roupa cheire mal.

Apanhar a roupa. Dobrar a roupa. Pensar numa razão minimamente razoável para que se dobrem as cuecas. Acabar de dobrar as cuecas sem encontrar uma razão. 

Escolher a roupa que tem mesmo de ser passada. Separar da roupa que passa bem sem ferro porque quando fica justa ao corpo nem se notam os vincos. Ter em mente esta característica quando se compra roupa. Facilita a vida. Escolher a roupa que vai para a engomadoria. Passar a roupa que se passa em casa. Há que controlar a despesa.

Arrumar a roupa toda e perceber que os cestos já estão a meio outra vez.

Só gosta de roupa quem não trata dela em casa. Porque o maior inimigo do fim de semana é o material têxtil.

 

19
Set18

São belgas amor, são belgas!

Gorda

Pessoa que sempre foi magra encontra pessoa gorda à saída do ginásio e acha que mete farpa:

Magra - Olá, como estás? Deixa-me olhar para ti, estás ótima! Como é que tens feito para manter as curvas?

Gorda - Muito simples, como 6 belgas depois do treino. Sempre. Jamais poderia permitir que a elíptica me adelgaçasse as nalgas, ainda corria o risco de ficar magra, ali com o biquíni a servir e tudo, sem sobrar xixa de lado nenhum. Ca nojo, quem é que quer isso. Este corpinho de esfinge é a belgas. Upa, upa, que me sabem tão bem. E tu amor, qual é o segredo? 20 Talos de aipo e 10 conselhos de merda?

Magra - Ai que estás um pouco azeda....

Gorda - Não, o que acontece é que eu, ao contrario de ti, não estou habituada a andar à fome. Agora deixa-me ir que as belgas já me estão a chamar. Beijinho à familia.

 

19
Set18

Sai uma vela p'a Malveira

Gorda

(nível de sofrimento para escrever este texto: máximo)

 

Quando eu era miúda os passeios de sábado à tarde eram sempre iguais: íamos em família ao Pão de Açúcar para fazer as compras da semana e tínhamos de gostar; afinal de contas era isso ou levar uns calduços e esses nós não gostávamos mesmo. 

Enfim, passeio de pobre no final dos anos 80 era uma tarde bem passada entre os enlatados e o bacalhau por dessalgar.

Quando chegávamos ao supermercado deixávamos a mãe na fila para o peixe e íamos com o pai comprar as coisas de menor responsabilidade. Nessa demanda tentávamos sempre ver se ele nos comprava alguma coisa nova: umas bolachas, uns cereais, uns chocolates. Mas, invariavelmente a resposta era não. Não porque não nos comprasse nada (o pai sempre foi mais fácil de convencer que a mãe), mas porque achava que não fazia sentido comprar coisas que não eram conhecidas. Por regra, quando na semana seguinte estava uma menina a oferecer uma amostra para experimentar e magotes de pessoas a comprar o meu pai aparecia com 2 ou 3 embalagens do que nos tinha sido negado. Resposta "estava toda a gente a comprar, é porque deve ser bom".

Herdei esse gene, o dito não se manifesta para os perecíveis como acontecia com o meu pai, mas tem muito impacto com a forma como presto atenção às noticias cor de rosa: não sei de nada até haver alvoroço, que é como quem diz, quando já está toda a gente a comprar. Ai sim, vou provar para ver o porquê de tanto corrupio.

Vai desta e submeti-me a 20 minutos de televisão generalista, mais concretamente à entrevista da Cristina Ferreira na SIC. Claro que li as letras gordas das revistas a dizer que a mulher ia mudar de canal, certo que consta das fofocas que a pessoa vai ganhar rodos de dinheiro, ri-me que nem uma ensandecida com o vídeo da Filomena Cautela; mas para além disso pouco mais tinha a acrescentar.

Gosto da Tina, é uma tipa que, apesar de apenas possuir ovarios, podemos dizer com um elevado nível de certeza que "os têm bem firmes no sítio".

Compreendo que haja alarido, fomentado pela própria Tininha e pela equipa que a apoiará na SIC, afinal de contas quanto mais suspense e mais fofoca mais gatos curiosos vão apanhar no programa surpresa que para aí vem. Não me encaixa a conversa em torno do ordenado da mulher, afinal de contas qualquer jogador mediano de um dos 3 grandes clubes leva para casa mais do que esta desgraçada que entretém meio país 5 dias da semana.

Dito isto (que são verdades verdadeiras que andam cá dentro de mim e que libertei de forma honesta), sentei-me a comer o meu bifinho grelhado acompanhado de salada enquanto vi a entrevista.

E assim, sem mais delongas (porque já se faz tarde e eu tenho mais que fazer) vamos então ao que eu retive:

 

  1. O Rodrigo Guedes de Carvalho estava tão desconfortável que tenho a ideia que quando chegou a casa esteve mais de 40 minutos debaixo do chuveiro com água morna a bater-lhe nas costas. Podia jurar que o homem pensou o mesmo que o Jaime lá do serviço: "ando aqui há 25 anos e agora chega esta cabra nova e já vai comer mais que eu. Anda um gajo há anos a puxar pelo barco...." O Jaime normalmente não pensa, diz. Mas o Rodrigo é um senhor. O Jaime dá pelo nome de Leila às sextas à noite num bar estranho da Costa da Caparica.
  2. A Cristina refere-se a si mesma na terceira pessoa. Muito negativo, para não usar a expressão dos adolescentes e dizer "bué NOT". Os futebolistas fazem isso e passa despercebido porque toda a gente sabe que eles não tiveram acesso a escolaridade mínima. Não usam o léxico para fazer a vida, é - literalmente - tudo ao biqueiro. Pelo que Tininha filha, caso me estejas a ler, deixa-te disso amor!
  3. Havia alguma confusão naquela mente, pode ser cansaço, saudades dos casacos do Goucha ou uma necessidade perversa de falar pela manhã com o psicólogo choné; mas a mulher não estava a acertar uma. Primeiro diz que se manda para as coisas de mona e depois logo vê, a seguir já sabe bem no que é que se mete antes de se enfiar nelas. Então em que é que ficamos, Tina!? Uma pessoa quer seguir-te as pisadas e assim não há meio de saber se salta se espera, filha.
  4. A história do bebé que a ouvia era desnecessária. Ponto. Mesmo.
  5. A Cristina tem uma amiga que lhe disse que a saída dela da TVI se parecia com a morte da Princesa Diana. Antes de mais essa amiga tem de ir com os porcos. Porque a pessoa tem problemas e ninguém precisa de amigos avariados do chapéu. Eu pessoalmente tento manter longe de mim qualquer comparação com gente que se tenha finado, especialmente com o próprio acontecimento que levou à sua passagem para o mundo dos que já quinaram. Depois ainda não há musica do Elton John. Eu sei que o Goucha tem casacos parecidos e acredito que seja tão diva quanto o Elton, mas O Sir Elton John é o Sir Elton John. De qualquer maneira, caso queiram ainda chamar a Maria Leal para lançar um beat no Candle in the wind eu sugiro um "Sai uma vela p'a Malveira", que me parece mais fiel à destinatária.
  6. O pai da Cristina gosta deles finos. Ai mulher, todos sabemos que te referias aos copos, mas com tantos anos de televisão ainda não aprendeste que se tiram frases de contexto? Raios te partam, pá! Atão primeiro dizes que gostas deles grossos e rematas a dizer que o teu velhote gosta deles finos?! Estás a pedi-las, caramba!
  7. A Cristina começou a trabalhar em televisão a ganhar 500 €. Eu pessoalmente fiquei chocada, porque nunca conheci ninguém que tivesse ganho isso. Só me dou com gente que ganha de 45000 p'a cima. É que nem se sentam à minha mesa sem recibo comprovativo de condição financeira. Depois diz que aceitou o projeto sem saber sequer o que ia ganhar indo mais uma vez contra o que disse no inicio, parece que estava embriagada o lá o que era; porque primeiro é de cabeça, mas logo a seguir é sabendo bem onde se mete. Qualquer coisa de que a estação sabe o valor dela e que sabe que ela vai render mais do que ela vai ganhar. (eu aqui já estava mesmo muito cansada de a ouvir) Suponho com isto que a Tina não estava a contar em ganhar 750€ + passe + ticket restaurante a 1,34€ por dia. Querida ou uma coisa ou outra. Ou sabes o que vales e o que mereces ganhar e que independentemente do projeto não irias por menos; ou então não sabes e não falas de valores.
  8. A entrevista acabou porque o Rodrigo desistiu de continuar a fazer perguntas uma vez que a mulher não intervala. Parece que fala em apneia. Uma coisa é certa, um dia que vá p'a outra banda pode deixar uma pipa de massa, mas não lhe fica nada encravado por dizer. Benzádeus!

Não posso dizer que tenha ficado mais leve depois de escrever isto, porque fui penicando um duchaise para ter inspiração, mas a verdade é que consegui listar o essencial.

Muita sorte à Tina e mais ainda a quem assiste. 

Deus, eu e quem é cá de casa sabemos que não dou nem meio ponto às audiências, nada contra a estrutura do programa que é ultra secreto, é mesmo por questões de saúde, foi o médico que proibiu.

 

18
Set18

A história do segundo molar esquerdo da mandíbula

Gorda

Agosto de 1997

Dentista identifica uma carie a aconselha o seu tratamento com brevidade. Numa próxima consulta.

 

(a pessoa não vai porque carie é bicho que não se vê e porque na década de 90 só ia ao dentista pessoa sem dor se fosse rica ou um valente choninhas)

 

Julho de 1998

Dente parte-se porque não foi arranjado. Proprietário verifica se causa dor. Não causa. Faz uma análise lingual com vista a identificar se há alguma aresta que aporrinhe valentemente. Não aporrinha.

Decisão: escusado ir ao médico.

 

Dezembro de 2000

Dor lancinante no dente visado. É preciso medicação pesada e é inevitável o tratamento por uma pessoa especializada. Na consulta o dentista informa: podemos extrair ou podemos tentar salvar o dente e proceder à colocação massiva de chumbo. Pensamos no dente como um bebé que precisa de apoio, a ideia de o deitar para o lixo atormenta-nos, é como se não houvesse uma história entre a pessoa e o dente, parece demasiado radical. "Vamos salvar, custe o que custar!"

Fazem-se tratamentos de contra-vontade do dentista que mais preferia arrancar o dente em vez de estar a gastar horas a tratar de um dente cujos pagamentos receberia dentro de 6 meses (com sorte) porque a ADSE demorava a pagar.

Dente arranjado, numa gargalhada mas espalhafatosa a pessoa corre o risco de ser assaltada para lhe levarem o cromado.

Conselho: se quer rir com vontade faça-o num espaço sem manfos.

 

Janeiro de 2003

Outro dente doí. Lado oposto, ala superior da boca (não sei nome técnico nem me apetece procurar). É dada uma vista de olhos ao dente de 97 e decidido extrair o chumbo porque ficava mais bonito com uma massa branca, assim tons pérola, que se assemelhava mais ao dente.

Ação concluída findas horas na cadeira da tortura, brocas e desejos profundos de bater em si mesmo pela decisão, "ainda por cima o dente não doía".

 

Fevereiro de 2006

A massa caiu do dente há dois meses, é reconhecida a necessidade de arranjar porque a comida insiste em ficar presa naquele espaço contiguo.

Tratamento numa clínica dentária que parece tratar dos dentes dos pacientes com a mesma atenção e cuidado que os proprietários de gado vacum têm quando põem os brincos nas vacas.

Dente arranjado. Promessa de não regressar.

 

Maio de 2017

Parte da massa parte numa ponta e começa a arranhar a língua. Marca-se consulta.

Consulta cancelada por indisponibilidade de agenda.

 

Setembro de 2017

Marcada nova consulta.

Consulta cancelada por indisponibilidade de agenda.

 

Dezembro de 2017

Marcada nova consulta.

Consulta cancelada por indisponibilidade de agenda.

 

Fevereiro de 2018

A boca já se habituou à aresta. É deixar estar até haver tempo.

 

Julho de 2018

Nova consulta em clínica perto do trabalho.

Já não se colocam massas mas sim peças que completam o dente dando a impressão de que o dente está intacto.

Pessoa aceita a hipótese, afinal de contas tem seguro dentário para pagar uma parte.

Vai a segunda consulta, com outro dentista. Quando entra está contente porque vai ficar com um dente lindo.

Quando se senta deseja que acabe depressa.

Duas horas depois está para morrer e a preparação do dente já está quase pronta.

Levanta-se banzada e passa a tarde com a boca ao lado.

 

Setembro de 2018

Consulta para colocação de peça, dando a impressão à pessoa de que está cada vez mais próxima da viatura móvel que possui. Como se já não bastasse ambos rangerem em algumas articulações e dobradiças assemelhando-se bastante a abertura da porta direita com o movimento de dobrar o joelho esquerdo.

Deseja ouvir rapidamente um "já está" mas perceber que não vai acontecer quando na verdade o que ouve é um "vou dar um bocadinho de anestesia".

Meia hora depois a pessoa perde-se em pensamentos paranoicos.

"E se me fico aqui?"

"Morrer enquanto arranjo um dente é uma coisa muito estúpida!"

"Se soubesse que demorava desta forma tinha comido uma chanfana antes de vir!"

"Estou a ver uma luz muito forte. Isto não é bom sinal!"

"A luz muito forte é só um das lâmpadas embutidas no teto falso. Ufa, foi por pouco!"

Broca. Lima. Broca. Lima. Aspirador. Broca. Fio dentário.

"Devia ter arrancado o dente em 97."

"Estou farta desta merda deste dente!"

"Porque raio é que eu não pus só massa, tinha de me armar em fina com peças XPTO para um dente que nem se vê. Se ao menos fosse o dente da frente."

A dentista diz que já está e mostra o dente pelo espelho.

"Olha que lindo, valeu mesmo a pena!"

A pessoa sai para pagar, as aplicações das seguradoras são sempre lentas para processar os pagamentos, a menos que seja para receber o pagamento anual da apólice, aí funciona sempre e é rápido o suficiente para a pessoa não começar a achar que passava bem sem o seguro.

A senhora da receção lança todos os itens para pagamento.

Diz o valor.

Pede para confirmar na aplicação.

Dez minutos de pé, em fraqueza, aflita para fazer número 1 e em completa ansiedade por ver todo o espaço pelas costas.

"Olhe vou ter de lançar tudo outra vez!"

De boca ao lado, numa espécie de AVC temporário a pessoa cospe um "então vou aproveitar para ir ao WC que estou aflita".

Quando regressa espera e finalmente paga.

 

A pessoa tem um dente lindo, menos uma quantia de cento e poucos euros na conta, uma tarde de boca ao lado e a promessa interior de que, se acontecer com outro dente, é para arrancar.

 

17
Set18

Resoluções de vida antes da hora de almoço

Gorda

Às vezes acordo com a vontade de ter um corpo igual ao da Carolina Patrocínio.

Mas não consigo convencer-me a ter a vontade de ir ao ginásio 1 hora por dia.

Depois percebo que mesmo que tivesse a vontade não tinha tempo. Então finjo que é por vontade minha, que é para não dar ideia à vida que manda alguma coisa nisto.

Às vezes acordo com vontade de ter o ordenado da Cristina Ferreira.

Mas depois não me consigo convencer que aturar o psicológico tonto meia dúzia de vezes por semana é uma dificuldade pequena para ultrapassar.

Percebo a seguir que ninguém me daria aquele emprego porque eu não consigo mandar uma gargalhada fura tímpanos e porque não tenho um lombo daqueles.

Persisto em dizer que sou eu que não quero é sujeitar-me a aturar aquela gente. A Odete que espia para o meu ecrã, sim senhor, mas o psicólogo chanfrado não, é aí que eu defino o meu limite.

Enfim, não sou boa e rica porque não quero. Embrulhem.

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