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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Qui | 28.02.19

As (mais que) educadoras de infância

Gorda

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- Mãe não te esqueças de dizer à Maria que eu hoje não vou.

- Está bem.

- Quem vai é o Homem-aranha!

- Sim, eu sei. Não me esqueço, vamos pregar um grande susto à Maria.

- Pois vamos. Não te esqueças.

Quando chegamos à escola enfia a máscara na cara e finge que é o Homem-Aranha, o menino que vai todos os dias não está. A Maria faz de conta que não o encontra e ele fica radiante pela surpresa que levou a cabo.

A Maria, chamo-lhe assim para efeitos deste texto, toma conta do meu filho e de mais 24 crianças no jardim de infância. A Maria e a Sabrina, também de nome fictício. Deixam os filhos em casa e rumam para tomar conta dos filhos de outras mães, para lhes dar colo, atenção e para os ensinar aquilo que por vezes não há tempo para ensinar em casa. Lidam com birras, com tristezas e com frustrações. Gerem o temperamento de 25 pessoas em miniatura.

Têm às costas uma responsabilidade incalculável, têm nas mãos o mundo de tantas mães e pais, que lhes confiam os seus filhos porque têm de trabalhar, porque as crianças não podem viver para sempre debaixo das saias das mães.

Dois pares de olhos têm de ensinar, de cuidar, de garantir que não andam à batatada, que se entendem, que vão à casa de banho, que comem o lanche e o almoço, que não se pisgam do sítio deles. Tem de garantir o bem estar de uma sala cheia de crianças e tantas vezes gerir a parte mais difícil: os pais.

Coloco-me no lugar da Maria muitas vezes e o peito enche-se de medo e ansiedade. A responsabilidade que ela tem é tão grande que me causa uma pequena vertigem. Faz o melhor que pode, o que a experiência e a vocação lhe têm ensinado e vai para lá do seu papel quando tem de palmilhar por caminhos sinuosos ao encontro dos desejos e requisitos de pais que acreditam que o mundo se irá moldar às criaturas que trouxeram ao mundo.

"Elas têm de ver", "Elas têm de saber", "Elas têm de gerir", "Elas têm de ensinar", "Elas têm de garantir". Elas, elas, ELAS.

Elas são pessoas comuns. Pessoas que têm dores de cabeça, familiares que adoecem, filhos com febre, chatices com maridos, eletrodomésticos que avariam, acidentes de trânsito, dificuldades para pagar a renda, animais de estimação que morrem, familiares que partem, dias menos bons, filhos com birras, noites mal dormidas. Elas, têm dias como os de qualquer pessoa e mesmo assim têm de estar no jardim de infância para receber os nossos filhos, para lhes dar colo, para lhes aturar o temperamento, para os ensinar o que não tivemos tempo para ensinar e casa, para cuidar, para pôr gelo no galo que fizeram a correr para onde não deviam; têm de sorrir e estar sempre positivas.

É um trabalho hercúleo e de muito valor. Não é apenas o trabalho "delas". É mais do que isso.

Cuidam dos nossos filhos como se fossem os seus meninos durante anos, criam laços, sentem saudades e depois, tal como já sabem desde o primeiro dia, os passarinhos têm de voar e serão o que a vida permitir, um mundo de hipóteses. Chega uma nova fornada para ensinar, cuidar e amar. É preciso seguir em frente. É preciso ter coração para isto.

Sendo certo que existem más pessoas e maus profissionais em todas as profissões, estas são mais do que educadoras de infância, são o colo dos nossos filhos, são as cuidadoras, são as mães substitutas que dão carinho quando o colo da mãe não está.

Hoje ao ver a satisfação do meu filho quando mostrou a sua máscara de Homem-aranha à Maria percebi o quanto gosta dela. E se ele gosta dela, eu gosto da Maria.

Amanhã vai acontecer o desfile da escola, dezenas e dezenas de crianças mascaradas, com uma dúzia de mulheres do caraças a cuidar delas, com o coração apertado e o pensamento positivo para chegar ao fim, contar as cabeças e estar toda a gente feliz na escola.

O suspiro do "correu tudo bem, para o ano há mais". O aparente relativizar tem de existir, porque de outra forma teriam enlouquecido a pensar em tudo o que pode amedrontar um ser humano.

O meu querubim não vai ao desfile porque o acho muito pequeno para isso, mas espero que seja um sucesso, que tudo corra bem à Maria e a todas as Marias.

Não é só o trabalho delas, é muito mais do que isso.

 

 

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Qua | 27.02.19

Cinco micro contos que, se fossem verdade, faziam o mundo melhor

Gorda

(importa desde já esclarecer que a personagem que escreve isto não tem personalidade jurídica, não podendo assim ser processada, acresce ainda que as micro histórias abaixo não pretendem refletir a realidade e resultam completamente da imaginação da personagem que na verdade não existe)

 

Um

Era uma vez uma mulher que vestia saias curtas e usava decotes. Essa mulher, cujo nome não vale a pena criar porque pode ser qualquer uma de nós e não interessa nada para o que aqui se quer transmitir, passeava na rua sem ser bombardeada com comentários de neandertais. Essa mesma mulher seguia para o emprego sem ser avaliada como fácil por todos os homens e não era alvo de julgamento fácil das que mais a deviam defender, as suas “colegas de equipa”, aquelas que devem gozar dos mesmos direitos. Outras mulheres. Essa mulher, a quem, se quisermos mesmo muito dar um nome, podemos chamar de Amélia, é responsável de uma equipa porque é a pessoa mais competente para a função. Ninguém ponderou se tinha um pénis ou uma vagina para levar a cabo a sua função. Ninguém acha que se deitou com um diretor para conseguir chegar a tal cargo e é respeitada por todos.

Fim

 

Dois

Era uma vez uma mulher que foi mãe. Não sabia tudo e não tinha tempo para ser perfeita. Não perdeu todo o peso nos primeiros 15 dias do pós-parto, não dançou porque tinha dores e negou a amamentação por convicções suas. Ninguém questionou porque é o seu corpo e é uma decisão sua. Essa mesma mulher, mãe, nem sempre faz as melhores escolhas, faz o melhor que pode e ama os filhos incondicionalmente. Chega a casa cansada do trabalho, nem sempre brinca, faz um esparguete com salsichas e toda a gente acha normal. Tem o apoio das outras mães que lhe conhecem as dificuldades. Ninguém a pressionou sobre a amamentação e nunca foi um tema falar da cesariana.

Vive cansada como a maioria das mães, mas sem pressão por aquelas que mais a deviam compreender.

Vive com o stress de tentar chegar a todo o lado, mas a família não a critica a cada oportunidade.

Fim.

 

Três

Era uma vez uma mulher que dizia o que pensava, podemos chama-la de Margarida, já que é sempre agradável ter um nome. Dizia o que pensava e não se sentia pressionada para ser uma senhora. Nunca ouviu a expressão “comporta-se como uma senhora” associada ao seu discurso, à sua forma de vestir, à sua essência. Afinal de contas o que é isso de “ser uma senhora?”.

Fim.

 

Quatro

Era uma vez um tipo que ia dar um soco na mulher. Não havia mais nenhum motivo para além do facto de este ser um Neandertal incapaz de raciocínio que, dotado de maior força física, considerou que podia impor força sobre outro ser humano porque o vê como sua propriedade, um ser inferior, um objeto sobre o qual pode pôr e dispor a seu bel prazer. Um dia esse tipo entrou em casa, fechou a mão num punho o puxou o braço para ganhar balanço. Nesse dia a mulher pegou numa faca e encostou-lha ao pescoço, ameaçou que o havia de cortar. Apresentou queixa e o criminoso foi preso. Ficou preso. Foi controlado num sistema que efetivamente trabalha para defender as vitimas. A vizinhança ajudou. A família não virou a cara sob a alçada do “entre marido e mulher não se mete a colher”, a mãe dele não defendeu o filho só porque o trouxe ao mundo e a nora tem de ser uma vaca, a mãe da mulher não achou que ela talvez se tivesse demorado a cumprimentar o vizinho do 4º direito.

Fim.

 

Cinco

Era uma vez um juiz que ninguém compreende como algum dia foi autorizado a exercer funções, uma pessoa retrograda e incapaz de tomar uma decisão adequada, justa e convenientemente sustentada na lei. Um tipo que, aparentemente tem uma visão deturpada da mulher e que a define como um ser inferior, como se esta fosse um objeto conquistado pelo homem. Um dia este juiz decide tirar a pulseira eletrónica a um homem que estava em prisão domiciliaria por ter agredido violentamente uma mulher, uma mulher que julgava ser tão sua como a camisa que trazia no corpo. Este homem estava mentalmente instável e por razões que a razão compreende tão bem como as decisões deste juiz, entrou num camião e esperou que o juiz saísse do tribunal. Passou-lhe por cima sem dó nem piedade.

O juiz, ao contrário do que a bíblia o fazia acreditar, não foi para o céu, uma vez que este nunca tinha entendido a mensagem de amor do seu autor.

Este juiz teve bilhete direto para o inferno onde é agraciado duas vezes ao dia com 20 arremessos com uma moca com pregos.

O juiz foi substituído por um profissional competente que conhecia o código penal e que voltou a encarcerar o homem desequilibrado, mantendo contudo uma ressalva de que o mesmo poderia sair em liberdade, se um juiz voltasse a tomar decisões tantãs.

Fim

 

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Ter | 26.02.19

Jantares de família

Gorda

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A família é das melhores coisas que a uma pessoa tem e quanto a isso não há dúvida nenhuma, a menos que a pessoa tenha uma família de ladrões, sequestradores e violadores. Ai é capaz de já não ser assim tão bom estar inserido numa família, de outra forma, à partida, é uma coisa agradável. É por isso mesmo que dar aqueles conselhos do “devias estar grata por ter uma família” e mais não sei quê, é um cliché e um lugar comum tão banal que até se me faz revirar os olhos até as órbitas ficarem confusas. Eu pessoalmente sou uma pessoa que agradece muito, começo pelo facto de agradecer sempre que vou aos sítios e os funcionários têm a amabilidade de me trazer o que eu peço, o que já é mais do que a maioria das pessoas faz, agindo como se dizer “obrigada” fosse pagar mais 20 cêntimos pela bica. Não é. Gosto de agradecer e de estar grata (que é mais ou menos a mesma coisa, mas assim dá mais caracteres e até parece que estou aqui a fazer jogos de palavras à Lobo Antunes para que este texto seja parvamente encapotado, permitindo a sua leitura por intelectuais e pseudo intelectuais, que seriam quase a mesma coisa se os segundos não fossem burros) por tudo, pela família que tenho, pelo marido que me calhou, pelo meu filho, pela saúde do meu filho, por ter um emprego, por ter órgãos dentro do corpo; parecendo que não há pessoas a quem falta peças ao nível do interior e isso é chato para caraças. Contudo, não é por ter as peças todas cá dentro que passo o dia a agradecer ao pâncreas, ou ao baço, ou aos pulmões e por aí fora, agradeço num bolo e exijo-lhes que trabalhem forte e feio sem contemplações, não vá os gajos acharem que me estão a fazer algum tipo de favor ou assim. Não estão.

O mesmo acontece com a família. A pessoa já que a tem, disfuncional, marada ou certinha (ali sem molécula de pó) está grata por isso, o que não quer dizer que a pessoa tenha de ter sempre vontade de estar com toda a gente e de conviver e de conversar e todas aquelas coisas inerentes à condição social que um evento familiar obriga.

Adoro a minha família, mas há coisas que me moem, particularmente quando são comemorações que expandem o convite à família dos familiares, que são pessoas a quem nós chamamos família afastada, mas que na realidade não são família. São pessoas com as quais existe uma ligação tão próxima como a que temos com Bocage. Está lá o fio no nosso coração mas não bate forte cá dentro.

 

Dito isto, as celebrações familiares são aqueles momentos que eu vivo com antecipada ansiedade, já sei que há coisas que inevitavelmente vão acontecer, coisas que potencialmente podem acontecer e coisas que sou eu que imagino só mesmo para me preparar para um cenário mais macabro e afinal não ter um custo tão forte.

Se eu fosse uma profissional da escrita com competências supimpas gastava agora aqui um bocado de tempo a ligar estes eventos num texto que valesse a pena ler, mas como não passo de uma preguiçosa com pouco tempo que mal terá oportunidade de ler o que está para aqui a balbuciar, vou elencar alguns fenómenos que acontecem nos jantares de família:

 

1. Há tanto tempo que não ligas, pensava que já não gostavas de nós ou que andavas chateada

 

As pessoas acham sempre que a sua vida é incomensuravelmente mais difícil que a dos outros. Elas têm sempre menos tempo, menos oportunidades, menos dinheiro, menos tudo. Mesmo que não saibam nada da vida dos outros. Isto são medidas tiradas unilateralmente e que não servem para ser contestadas, servem para cobrar. Ponto. As pessoas gostam que lhes liguemos, que nos lembremos delas, que as recordemos a cada 5 minutos das nossas vidas. As pessoas não sabem o que dizer quando veem os outros e então pegam sempre nesta merda desta frase para mostrar o quanto gostam de nós, mas nós não queremos saber delas. Gente mais tranquila e que não quer arrufos (como eu) lá se põe com conversas que matam qualquer ser humano por dentro, tentando justificar-se como se estivessem a falar com o patrão por não terem feito o seu trabalho. As pessoas mais despachadas (que são como eu gostava de ser) dizem “e tu ligaste-me?”, o que sana o tema mas deixa um filho da mãe de um clima que dá para cortar à faca.

 

2. Paulo Miguel dá lá um beijinho à tia do primo que tu nunca viste mais gorda mas que gosta muito de ti

 

As crianças devem ser educadas e cumprimentar as pessoas. Informo desde já que me estou obrando para aquela conversa de que não se deve obrigar as crianças a dar beijinhos e rebeuneubeu. Deve educar-se as crianças a ser educadas (é redundante, bem sei) e a cumprimentar as pessoas. Enfim, não querendo passar a ideia de que estou a falar de um cão, devem educar-se as crianças a ser civilizadas e sociaveis (na medida do que lhes é permitindo e excluindo quaisquer condições de saúde inerentes). Isto passa pelas crianças aprenderem que quando chegam a um sítio devem cumprimentar as pessoas presentes, seja com 2 beijinhos, seja com um aperto de mão, ou, em última instância com um “olá”. Dar dois beijinhos no rosto da tia Clotilde não rouba nada à criança. Mas, ultrapassada a forma de viver de cada um, o que importa é que toda a gente quer que as crianças digam qualquer coisa, mostrem a sua graça, por isso metem conversa, pedem beijinhos, querem que a criança conte como anda a escola. Mas a verdade é que os miúdos muitas vezes mal contam em casa quanto mais a quem devem ter como família mas mal viram. Gera-se então aquele momento constrangedor em que a criança se esconde nas pernas da mãe ou do pai e o progenitor está ali, aflito, entre despachar o familiar chato e convencer a criança de que aquilo se resolvia com um “a escola vai bem, obrigada!”.

(se não fossem estes momentos que histórias havíamos nós de contar nos casamentos das tias que apertam bochechas e da chata da mãe que obriga a cumprimentar? Hum?)

 

3. Contemplação de bebés de várias pessoas

 

Quando há bebés há contemplação. A criança tem de ser contemplada e bajulada por toda a gente. Cria-se a ideia de que quem não quer pegar na criatura não gosta muito de crianças e olham-se de lado as mães que não querem os filhos de colo em colo como se fossem um saco de batatas. É esperado que toda a gente se debruce sobre o carrinho, que venere a criança, que diga com quem considera que a criança é parecida, o que acha que vai ser o futuro dela, se tem olhos inteligentes e que se manifeste completamente abismado com o facto de já rir. Eu não bajulo nem venero ninguém, muito menos um ser humano cujo maior feito até ao momento foi fazer coco até ao pescoço e que não consegue dizer de forma inteligível a capital de, pelo menos, cinco países.

 

4. O tio bêbado

 

Há sempre um tio que bebe mais do que devia e que conta histórias do Ultramar. Este tio só é ultrapassado pelo tio que só diz baboseiras mesmo estando sóbrio.

 

5. O tio que só diz baboseiras quando está sóbrio

 

O meu pai ou está no 4 ou está no 5. Enfim, eu tinha de sair a alguém.

Nos jantares de família há sempre aquela pessoa que conta histórias do antigamente, sempre as mesmas, e que põe o cérebro de uma pessoa em estado comatoso. A pessoa fica ali a reter a baba porque só quer falecer. A pessoa quer uma ponte para poder saltar mas nunca há uma ponte à mão quando a pessoa precisa.

 

6. Isto estava bem era o tempo de Salazar

 

Porque há sempre um gajo que percebe de política como ninguém. Não dá uma para a caixa, mas se lhe derem margem transforma o jantar na Assembleia da República em menos de nada. Não concorda com nada do que faz nenhum partido e quando lhe pedimos soluções engasga-se. Este familiar só não é ministro porque não conheceu as pessoa certas e isto é um pais de cunhas.

 

7. Então quando é que têm filhos? O casamento não é a mesma coisa sem crianças. Vão conhecer o amor a sério

 

As pessoas casaram há menos de um mês, ainda andam a testar as assoalhadas da casa toda e já há malta a pressionar para que haja procriação. Minha gente, tenha calma! Se querem bebés tá a faze-los e a deixar os outros sossegados.

 

8. Ah então não vão dar um irmão ao menino? Coitadinho vai crescer tão sozinho

 

A criança ainda não tem um ano, o útero ainda está a sarar da cesariana e já há quem pergunte se estamos com coragem para ir ao segundo, se queremos mais, se vamos dar um irmão. Vão contar como queriam ter tido mais filhos, mas que não conseguiram engravidar, porventura porque andavam derreados demais para ter tempo para os fazer. Quem tem filhos sabe bem que uma pessoa às vezes, até para isso se vê à rasca. A criança não vai ficar com uma deficiência porque não tem irmãos, em princípio pode vir a ser uma pessoa perfeitamente normal, com a vantagem de que tem mais probabilidades de ter pais que se mantém sãos e é certo que não vai comer carolos, a menos que seja vitima de bullying na escola.

 

Desta feita, conhecendo as dificuldades e tendo já conjeturado todos os cenários macabros que conseguia, decidi solicitar apoio a algumas pessoas para que me dessem dicas sobre como ultrapassar um jantar de família. Constatei que a maior parte dos meus leitores são aquilo a que a gíria jurídica chama de “uns tangas”. São capazes de contrair viroses que deixam as tripas em estado calamitoso só para não porém o befe num jantar de família. Isto é malta que sabe do que fala. A outra parte sugere a ida, mas regada a muita pinga. Isto mostra porque motivo esta malta por aqui anda, tudo uma cambada de alcoólicos, sempre agarrados ao tinto.

 

Maneiras que não houve oportunidade para beber porque a gripe não o permitiu e a desculpa da disenteria não pegaria porque fiquei sentada a 1 metro da casa de banho, assim aproveitei para fazer observação e escrever este maravilhoso texto. Nada se perde, tudo se transforma. Digam lá que não é uma maravilha?

 

 

(nota de apoio à leitura: este texto não pretende ofender as famílias de pessoas muitas, nem quer mandar larachas sobre a senda do cumprimento pelas crianças, cada um lá sabe da melhor forma de educar os seus, eu cá faço o melhor que posso pelo meu e reflito apenas a minha forma de estar na vida nos meus textos, não devendo estes constituir uma afronta a malta mais sensível ou epilética)

 

 

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Sex | 22.02.19

O colo dos nossos “velhotes”

Gorda

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Não há colo como o colo da avozinha. Não há passeio mais encantador que o de um neto de mão dada com o avô grisalho, o extremo oposto da sua idade, aquele que já aprendeu e já esqueceu o que agora volta a ensinar. O que já foi pai e perdeu a paciência, o que hoje é um segundo pai para filho ao quadrado, tem o tempo e a disponibilidade que não conseguiu entregar à primeira volta. A avó será para sempre o cheiro a bolos numa cozinha, o arroz doce com mais canela, o bife partidinho em pedaços. O avô será sempre o chapéu alentejano, o colo cansado de um velhote de 70 anos que carrega o neto escada acima para evitar uma birra, afinal de contas “porque havemos nós de nos chatear, o menino está ensonado, meu rico menino!”. O avô serão sempre os passeios de mão dada com todo o tempo do mundo, com compasso de tartaruga, tempo para todas as respostas, graça em qualquer pergunta, uma vida com mais sabor e menos pressa.

 

Eu mal posso dizer que tive avós, é uma grande pena que tenho. Nasci tarde e a más horas, uns já tinha falecido e outros já estavam demasiado avançados na idade para poder ser os avós que dão colo. Por isso quis que para o meu filho essa fosse uma realidade diferente, dado que tinha possibilidade para ser assim. Os avós são segundos pais, com mais paciência, que levam à escola, que vão buscar, que levam ao jardim, que vão ver os preços ao continente, que ensinam com paciência. Toda a paciência.

 

Para os avós os netos não choram, tem de haver uma solução, uma conversa, um chupa, um bolinho de laranja, um passeio ao jardim, uns desenhos animados, qualquer coisa que lhe amenize a insatisfação e torne o mundo mais aconchegado. Para os avós não há perguntas tolas, nem colos em excesso. Há amor para dar em quantidades industriais e o medo de não ter tempo para o entregar na medida certa. Há a sabedoria de que a vida corre num sopro e pouco mais importa do que os momentos que passamos juntos. Uma noção clara de que são as tardes passadas em brincadeiras que mais lembramos, são os abraços de despedida que mais guardamos, são os beijos sem razão que guardamos como a mais preciosa relíquia.

 

Não há amor como o dos avós, não o conheço por experiência, mas vejo-o acontecer todos os dias à minha frente e sempre que penso em dizer que não o devem mimar tanto, recuo. Que o mimem, que lhe deem esse colo indispensável e insubstituível, que o abracem e que lhe façam as vontades, que sejam os segundos pais que eu já não tenho dúvidas do meu papel, já não tenho dúvidas de que este amor só construirá as peças boas que ele guardará lá dentro.

 

Acredito que não há colo como o dos nossos “velhotes”, aqueles que fazem um gesto de ombros quando não concordam com o que fazemos, mas que encontram sempre um colo, mesmo quando já não cabemos nele.

 

 

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Qua | 20.02.19

Esta coisa de escrever coisas

Gorda

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(isto são títulos de uma pessoa que não tem qualquer competência para escolher títulos e que, a par disso, tem uma imensa preguiça de escolher alguma coisa para chamar ao que escreve)

 

Tenho uma curiosidade imensa pelo processo criativo por detrás do que quer que seja. O que leva um argumentista a escrever um filme, como o faz, como se processa, fá-lo sozinho ou em parceria, como escreve o documento para que seja percetível ao ator a emoção esperada? O que leva o autor a escrever um livro? É a vontade imensa de escrever ou de contar uma história? Por que caminhos recônditos da mente desponta o elencar de palavras que permite, numa trança de letras e expressões, misturar palavras banais de uma forma ainda não pensada. Trechos de texto que nos marcam e definem passagens que nos fazem repensar a vida e percecionar acontecimentos de uma forma, até para nós, inesperada.

O ano passado li o livro “Aqui estou” do Jonathan Safran Foyer”, fiquei tão apaixonada pela forma como está escrito - pela simplicidade das palavras que descrevem questões existenciais pelas quais me deparo nos momentos mais mundanos da minha vida - que quis saber como é que aquele homem tinha conseguido escrever um livro tão…tão…

Tinha sido num sopro? Tinha custados noites sem dormir? Drogas?

Encontrei a explicação num vídeo filmado numa das sessões de apresentação do livro. Um processo com 3 anos. De manhã o autor pensava em algo que lhe tivesse ficado presente do dia anterior ou dessa manhã, alguma coisa que por uma certa razão inexplicada se tivesse mantido a pendular pela sua mente. Escrevia toda a manhã sobre isso. De tarde seguia o fio condutor da ideia que tinha inicialmente pensado. No princípio a maior parte dos textos da manhã eram desconexos e não tinham qualquer serventia para a livro em questão. Mas ao fim de algum tempo começaram a ser mais e mais os textos da manhã que se enquadravam na história que queria contar. A determinada altura o seu processo criativo estava embrenhado na história de tal forma que a maneira como pensava os temas ia ao encontro dos seus personagens e da emoções que pretendia transmitir.

 

Criei este blog por acaso. Meti-me a fazer uma gracinha e dei comigo a criar textos e pequenas palermices que não tinham nada que ver com a gracinha inicial, pareceu-me uma ideia supimpa arranjar um blog para as pôr lá, por alguma razão, apesar do seu valor inexistente, custava-me deitar forma a minha própria palermice. Olhava para ela ali, amachucada no lixo e dava-me pena.

Depois do blog veio relutantemente a conta de Facebook, porque não percebo nada da poda e ainda ando às apalpadelas. Como se não bastasse “ora quem tem Facebook, tem Estagrã” e lá está a conta aberta. Palermices por toda a parte.

Há dias em que dou por mim a pensar “e se as ideias se me secarem”, como fica? Se um dia acordar e a cabeça pensar “epá já não estou para isto! Não me apetece!” e fico ali, a olhar para o cursor a piscar, à espera que eu tenha palavras para escrever e eu engasgada, sem piu para deitar cá para fora.

 

Tenho cadernos, caderninhos, blocos e um notepad digital que está sempre a ganir com falta de memória. Os cadernos e caderninhos estão espalhados pela casa, uns no escritório, outros na mesa de cabeceira. Para não falar nos que andam na mala. Ocorre-me qualquer coisa e lá vou eu escrevinhar uma frase ou duas numa tentativa de apanhar a ideia que começa a querer bater asas mal aparece. Compro sempre cadernos baratos, as minhas ideias não têm valor para que eu gaste mais de 2 ou 3 Euros num caderno. Tenho alguns bem bonitos, que me foram oferecidos, mas sempre que penso em escrever lá assalta-me uma tristeza terrível pelas folhas tão bonitas de papel que vão ficar estragadas com as minhas ideias parvas, não merecem que lhes faça isso, se é para ficarem escritas que seja com alguma coisa que valha a pena.

 

E isto a propósito do quê? Na verdade a propósito de nada. A desproposito talvez do simples facto que escrever me acalma, me serena, me faz ficar concentrada no jogo de palavras e consigo manter os problemas e as ansiedadezinhas do dia a dia à distância, nem que seja por alguns segundos.

Descansa-me saber que ninguém paga para ler isto, de outra forma seria uma vergonha, material de tão fraca qualidade, mal é revisto, escrito assim numa lufada de ar, e as pessoas a gastar dinheiro para ler. Gastam tempo, que também é caro.

 

Hoje é isto. Podia ser pior, podia ter-vos passado a gripe.

 

 

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Seg | 18.02.19

Culpa

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Este fim de semana pensei várias vezes nisto e esta manhã, depois de um acesso de culpa que ainda estou a deixar que se dissipe no meu organismo, decidi que, se um dia tiver uma gata, a vou chamar de Culpa.

Já me imagino a gritar por ela "bichaninha, bichaninha, Culpa anda cá comer o teu atum!".

Os gatos detestam-me. Eu gosto deles, mas ao que parece eu sou demasiado efusiva e excessivamente dengosa para os felinos, pelo que em menos de 5 minutos estou a comer com duas lambadas na cara, garras de fora e tudo.

Os gatos são "donos disto tudo", aparentam conjeturar a nossa morte de formas escabrosas e têm o poder de nos vazar uma vista. Escolhem quando querem ser mimados e apoderam-se dos espaços da forma que entendem, demonstrando uma total desconsideração pelo outro.

A culpa é mais ou menos assim, aparece sem razão justificada, cresce de forma nada fundamentada e deixa-se estar ali, a fazer corpo morto em cima do teclado quando temos coisas para fazer.

 

Sempre fui dada a sentir culpa. Acho que se houvesse condenação para crimes mundanos leves eu já estava em perpétua. Culpa por comer demais. Culpa por exercitar de menos. Culpa por não ter estudado o suficiente. Culpa por não ter arriscado naquela oportunidade. Culpa por ter arriscado noutra e não ter visto logo que não ia correr bem. Culpa por ter confiado naquela pessoa. Culpa por não fazer nada este fim de semana. Culpa por estar de rastos e não ter percebido que afinal devia ter ficado a descansar.

Eu já sei que no mundo de hoje a maioria das pessoa vive sobre duas máximas (ou diz viver): "só me arrependo do que não fiz" e "tomei a melhor decisão com a informação que tinha no momento". São frases maravilhosas mas que para mim não servem.

Eu arrependo-me de muita coisa que fiz, é raro o dia em que não me arrependo de qualquer coisa e nem sempre tomo as melhores decisões com a informação que tenho. Porventura não terei força suficiente ao nível do intelecto que me permita ser tão meticulosamente correta e de tão bom senso.

Faço merda. Faço más escolhas. Cometo erros. E mesmo quando assim não é a culpa cai em cima de mim como um martelo.

 

E quando falamos de culpa é inevitável entrar na maternidade. Hoje penso que ser mãe é saber que temos sempre um depósito de culpa atestado. Combustível suficiente para que nos sintamos farrapos em menos de nada e por razão nenhuma.

As dúvidas, as decisões, os arrependimentos pelos gritos, as festas de aniversário a que não os conseguimos levar, o colégio que poderia ser melhor e quadrilingue mas afinal é publico, as roupas, os desentendimentos, os livros, a paciência e a falta dela, os dedos acusadores, as atividades extra-curriculares-extra-sensoriais-ó-desenvolvedoras-de-super-génios (e o meu não vai ser porque não anda em nenhuma), as opiniões não solicitadas que fingimos desconsiderar mas que perduram no fundo da nossa mente com aquele toque de requinte "será? será que fizeste merda?", o não ser quanto-baste para aqueles que, afinal de contas, carregam o nosso coração de forma atabalhoada naquelas mãos pequenas e sapudas.

Porque é isso não é? Ser mãe e parir e minutos depois tirar o coração do peito, coloca-lo nas mãos daquele ser e dizer baixinho para ninguém ouvir "agora não deixes que te aconteça nada pequenito, porque se alguma coisa corre mal, o meu coração cai ao chão e vai quebrar-se em mil pedaços".

 

Se quando era só eu já sentia culpa por tudo e mais alguma coisa, depois de ser mãe a tipa ganhou uma dimensão 3 vezes maior que a minha sombra. E anda sempre atrás de mim, a danada. O miúdo fica doente? O que é que eu podia ter feito para evitar isso? Se calhar não mandei o casaco certo. Se calhar estava uma corrente de ar e eu não vi. Se calhar ele já não estava a 100% e eu não tive a sensibilidade para o perceber. Caiu em casa e bateu com a cabeça? Que raio de organização é que eu arranjei para os móveis? Porque motivo não comprei mobília sem arestas? Aliás porque raio temos mobília? Afinal de contas para além do sofá pouco mais faz falta. O miúdo está a fazer birra no shopping? O que é que eu lhe ensinei mal? Porque raio o trouxe? Devia ter ficado em casa. Vou às compras e não o levo? Que raio de mãe, tão pouco tempo para estar com o meu filho, sempre a queixar-me, sempre condoída com a falta de dedicação que consigo ter e depois o que é que eu faço? Vou às compras em vez de ir com o miúdo ao jardim. Ganhou peso a mais? Que raio de alimentação lhe tenho dado? Chega de douradinhos e chega de conversa de cansaço no fim do dia de trabalho, cansaço é para fracos. Sou fraca, não consigo arranjar forças para cozinhar biológico todos os dias para o meu filho. Perdeu peso? Não tenho insistido o suficiente para que coma melhor, podia emprestar o telemóvel, podia fazer aviões, podia ler 252452 livros de parentalidade positivo-coisas para que ele conseguisse gostar de brócolos. Se calhar não gosta de brócolos porque eu não gosto de brócolos. Janta com o telemóvel? Então e o tempo de família? E as conversas à mesa? E a harmonia familiar?

Como se não bastasse a culpa da mãe, vem a culpa da profissional, que afinal não entregou mais isto e mais aquilo. Vem a culpa da esposa que não é cobrada, mas que sente que na maior parte dos dias é uma sócia e não uma mulher. Tratamos das compras, tratamos do miúdo. Tratamos do trabalho. Tratamos da casa. Desmaiamos.

Depois recomeça.

Culpa por não conseguir levar a cabo outros projectos. Amanhã faço isto, logo faço aquilo, mais tarde, daqui a nada. Nunca.

A culpa de não ser motivo de orgulho para o meu filho.

 

As férias acabaram com o puto cheio de febre na quinta-feira. Ele carregado de tosse. Eu carregada de culpa por o ter levado à neve. Se calhar não lhe devia ter atirado bolas de neve. Se calhar haviamos de ter ficado por casa.

Não dormimos 2 horas seguidas há mais de 5 noites. Nos últimos dias andava a sentir-me mais derreada e pensei que fosse só cansaço, mas não, era uma gripe das boas que se avizinhava.

Desde ontem que estou de rastos e hoje o miúdo foi para os avós, estou incapaz de tomar conta de uma criança de 4 anos. Mal me aguento em pé e tenho dores no corpo todo. Nunca pensei ser possível, mas até as pálpebras estão doridas.

Preparei o miúdo para o avó o vir buscar e estava capaz de me desfazer em choro, a mãe que se deixa ficar doente e não consegue tomar conta do filho. Culpada. Uma mãe insuficiente.

Mandei uma mensagem ao meu chefe, não podia ir trabalhar hoje, estou de rastos. Há trabalho para entregar e coisas que me comprometi fazer hoje. Vão ficar em atraso. Culpada. Uma profissional pouco dotada.

A casa está por arrumar e eu a vaguear pelas assoalhadas sem forças para a limpar. Culpada. Uma dona de casa que fica aquém.

 

Debato-me com estes sentimentos com demasiada frequência e penso o que sentiria a minha mãe que criou 4 filhos, 2 sobrinhas e ajudou com o filho da vizinha. Ela que tinha a casa sempre a brilhar e trabalhava mais de 10 horas em casa. Será que ela sentia culpa? Provavelmente. Será que relativizava? Não sei. Acho que nessa altura as pessoas aceitavam melhor as coisas pelo que elas eram, pensavam menos, ou expressavam menos.

 

Há uns dias davam uma noticia no telejornal que dizia que o sucesso escolar das crianças resulta em grande medida da condição sócio-económica da família e do nível de escolaridade da mãe. Especificamente da mãe. Ou seja o pai até pode ser o Einstein, mas se a mãe tiver a quarta classe a criança muito provavelmente a criança está entregue à ignorância.

A culpa é sempre da mãe não é?

 

Neste momento gostava de enrolar a culpa numa bola bem grande, de a pousar no chão, de dar 3 passos atrás e com toda a força que tenho correr para ela e dar-lhe um chuto como o que o CR7 dá quando marca livres. Mandar a puta para o raio que a parta.

 

(apenas para esclarecimento para o caso de leitura deste texto por pessoas do PAN, o ultimo paragrafo visa a possibilidadade de dar um chuto à culpa enquanto sentimento e não à Culpa enquanto gato, que aqui ninguém faz mal aos bichos)

 

 

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Sab | 09.02.19

Escrever com humor

Gorda

Escrever é um exercício. Escrever com humor é um exercício feito ao contrário, é mais ou menos a mesma coisa que imaginar que estamos a pedalar mas a bicicleta em vez de estar no chão, está aparafusada ao tecto e nós estamos ali, a ver o mundo ao contrário.

Acredito seriamente que existe humor em tudo, pode é não haver vontade de o ver. Aprecio particularmente este exercício de olhar para uma coisa que deve ser compreendida de uma única forma e roda-la na minha mente para lhe ver todos os ângulos. Há sempre um sério, um banal, um trivial, um cómico. É uma ginástica que entretém mas que desgasta, porque nem sempre estamos para aí virados, porque por vezes não apetece, porque queremos barafustar, porque a cabeça está frustrada e só lhe apetece fazer uma birra e mandar que os pés desatem aos biqueiros a toda e qualquer coisa. Mas virar uma situação do avesso pode moldar o resto do dia, obriga-nos a pegar naquele estado de espírito, que estava carrancudo e agora até está mais leve, porque nos lembramos de uma parvoíce qualquer. Faz-nos compreender que a maioria das coisas que nos aporrinha, na verdade não passam de meros sentimentozinhos inúteis cujo unico proposito é desgastar a pouca paciência que temos para isto tudo. Agora, que paro para ver o mundo em câmera lenta, à procura de encontrar o que seria mais engraçado de pernas para o ar, reparo que o penteado do Sr. Silva parece um espanador e naquele momento em que ele está a barafustar eu penso nele a varrer as prateleiras de casa com o coco.

Torna a chatice mais leve.

Rir não é o melhor remédio, mas às vezes é a único que temos à mão para lidar com as agruras da vida.

 

Digam lá, até aparecer o espanador estava sério não estava?

 

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Ter | 05.02.19

Se a Gorda fosse jornalista: entrevista com Diário de um pai solteiro

Gorda

Entrevista Pai Panda.png

 

 

Na entrevista deste mês temos um bicharoco que as más línguas dizem estar em vias de extinção. Os chineses bem que tentam fazer as crias vingar, mas é em Portugal, neste retângulo à beira mar plantado, que vivem dois dos exemplares mais cool que alguma vez se viu.

Se os asiáticos dão nota disto levam-nos daqui. Não lhes chega a EDP…

 

Ora pois que o nosso convidado de hoje é nada mais nada menos que o Pai Panda, autor da página da Facebook “Diário de um pai solteiro”. Como o próprio nome indica é um moço livre que conta as experiências desta coisa da parentalidade pelos olhos de um pai cheio de humor que vem provar que aquela coisa do “mãe é sempre mãe” só vale quando o “pai nem sempre é pai”.

 

Conheci este espaço através da minha primeira convidada, a ilustre “Mãe Imperfeita” e achei que o que estava a fazer falta a este ursito preto e branco não era uma namorada, mas uma entrevista que colocaria à prova a sua capacidade de segurar o sistema nervoso e não me mandar para o raio que me parta.

 

Sem mais delongas deixo-vos com mais uma entrevista parva:

(já sabem, faz de conta que aconteceu aquela coisa do "Bom dia, como está?" e tudo o que a educação manda)

 

CG - É o Pai Panda, tem uma filha panda, a sua ex. é a Pata Hidrofóbica. Seria justo dizer que o seu animal preferido é o canguru? Por favor explique o seu sentimento depois da profundidade desta pergunta.

Pai Panda (PP) - Não seria justo dizer isso. Só conheci dois cangurus na vida e mal. Um foi de passagem, em Tóquio, num bar onde só iam estrangeiros. Falámos pouco. O outro trabalha na Uber Eats e já me veio trazer alguns pedidos. É má ideia pedir comida que não possa ser chocalhada, já agora. Por acaso o meu animal preferido é o cão.

 

CG - Tem por hábito colocar roupa escura e branca a lavar em simultâneo? Se sim, compreende que isso pode ser a razão para ainda estar sem uma Gansa fabulosa? Aliás, se calhar devíamos ter começado por uma questão menos difícil: sabe colocar a máquina de roupa a trabalhar? (esta questão é aquela a que eu gosto de chamar: pergunta kinder).

PP - Não preciso, porque evito ao máximo roupa branca. A excepção são as camisas das reuniões. Tendo a lavá-las todas ao mesmo tempo. E sabe uma coisa? São frequentemente azuis e têm pequenos apontamentos brancos ou riscas, quadrados… E isso leva-me a acreditar que se fabricam uma peça de roupa masculina que tem branco e azul, e que portanto tem de ser lavada na mesma lavagem, é porque essa história é um mito das mulheres. No caso da Panda não há problema porque ela cresce tão rápido e dão-nos tanta roupa que se chego a lavar a mesma peça duas vezes é uma sorte. Quanto à máquina, vivo sozinho desde os 18 anos e a minha mãe é nórdica… Não sei o que é isso da mulher portuguesa. A única que coloco num pedestal é a minha ‘senhora lá de casa’ que lá vai uma vez por semana e a deixa num estado de hotel de 5* em apenas 4 horas. Acho que um homem com empregada não precisa de mulher por lá a tempo inteiro.

 

CG - A maioria das mulheres, quando vê um homem divorciado que é um pai carinhoso, pensa: “Ohhhh, que fofinho!”; eu normalmente penso “deve ter posto as peúgas pretas a lavar com as camisas brancas mais de 20 vezes ou então queixou-se outra vez das almofadas decorativas da cama, são coisas que lixam a cabeça às gajas!”. Depois desta introdução indique quantas vezes fez douradinhos para o jantar da piquena no último mês?

PP - Tecnicamente não sou divorciado, sou só separado. E se uma mulher entrar no meu quarto, quero acreditar que as almofadas decorativas não estão no topo das preocupações naquele momento. Talvez seja mais importante ela não tropeçar no cabo da extensão do aquecedor e dar um tralho monumental em cima da mesa de cabeceira. Douradinhos, ora bem.. uma vez.

 

CG - Por falar em douradinhos, vamos a uma pergunta mais séria: se uma mãe fizer douradinhos para os filhos 1 vez por semana é má mãe, mas se for um pai solteiro a fazer nuggets todos os dias é fofo, porque se está a esforçar rodos. O que acha desta diferenciação?

PP - Estou com o feeling que isto dos douradinhos é um tema que lhe é pessoal… Em qualquer caso acho as mães são sempre más mães não importa o que façam. E elas sabem disso. Por isso é que sentem culpa. É uma boa forma da natureza as capacitar para criar filhos e de se esforçarem. É nosso dever perpetuar essa culpa. Não sei que espécie de mau pai faria nuggets todos os dias quando pode encomendá-los no McDonald’s já feitos. A Panda gosta.

 

CG - Ficou sério, por isso, vamos avacalhar outra vez tá bem? (Nunca antes na história das entrevistas alguém disse a um entrevistado que ia avacalhar…sou uma jornalista brutal!). Vamos imaginar que apanhou um avião com destino a Nova York, mas a coisa corre mal e o avião despenha numa ilha quase deserta. O piloto e a tripulação de bordo patinam, mas o Panda sobrevive (é o único passageiro porque não me apetece matar mais gente nesta entrevista). Depois de dar uma volta à ilha e de perceber que vai ter de viver de cocos e pregados até que o encontrem (uma alimentação PALEO, fique contente!), dá de caras com duas moças. Uma é linda de morrer, qual Jennifer Lopez, qual Gisele Bunchen (por favor diga-me que sabe quem são estas pessoas…), mas burra como uma pedra; a outra é igualzinha à Maria Leal mas têm a massa intelectual de uma cientista conceituada. Qual escolheria? E porquê? Já agora estamos todos curiosos.

PP - Se estão as duas sozinhas na ilha deserta acho que poderíamos chegar a um entendimento qualquer e dar-nos todos bem. Não sou possessivo. Se não fosse possível, escolhia a inteligente porque precisaria mais da companhia dela. Na condição dela dar explicações à mais burrinha e de lhe fazer coaching ou mentoring ou algo assim. Quando a Gisele Bunchen fosse minimamente esperta, ficava antes com ela. Já agora, fui googlar porque de facto não sabia como era a Maria Leal. Devo dizer-lhe que é impossível uma mulher com um intelecto elevado ter aquele aspecto. Todas as mulheres muito inteligentes que conheci eram no mínimo bonitas. Além disso na ilha deserta não deve haver creme cor de laranja para a cara aqueles químicos para o cabelo.

 

CG - Como já vem a ser apanágio desta entrevista, não podemos ir embora sem que complete esta frase: quando a Panda não está em casa eu…

PP - … contemplo o vazio da existência humana numa solidão tão intensa que é quase palpável no ar cristalizado da noite fria. E jogo playstation à vontade sem ter de usar os headphones.

 

CG - O que diz o seu frigorífico?

(normalmente pergunto pela carteira, mas no caso de um homem divorciado confesso que estou deserta de curiosidade para saber quantas prateleiras tem vazias).

PP - Que gosto de cerveja? Que uso pouco a manteiga que comprei em 2011. Que tenho boas intenções quando compro aqueles pacotes de saladas no supermercado, mas não passam disso. Que não devia mesmo comprar mostarda dijon e coisas assim porque nunca termino um frasco. Não percebo mesmo que tipo de pessoa consegue gastar a mostarda toda antes dela se estragar.

 

E é muito isto, os entrevistados ficam sempre num estado de júbilo tal, que estão capazes de hibernar meses a fio.

 

 

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Sab | 02.02.19

A vida já é séria que chegue

Gorda

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Alguma vez pensaram que a vida é séria que chegue? Há guerras, há fome, há doenças, há crianças abandonadas, há acidentes, há bombas atómicas, há pedófilos, há violadores, há crueldade animal, há livros do Pedro Chagas Freitas.

Não vos apetece ficar deitados em posição fetal em vez de ir para o emprego? Afinal de contas são 8 horas sentados a uma secretária a fazer coisas pelas quais não temos interesse, ou de pé numa loja a atender clientes que não sabem o que querem, quem sabe na cozinha de um restaurante a cozinhar os pratos que são demasiado isto para uns e insuficientemente aquilo para outros. Porque a verdade é que a maior parte das pessoas tem um emprego para ganhar a vida, não o faz por um imenso amor ao serviço.

Os putos choram e fazem birras, debatemos-nos por saber se lhes havemos de comprar o brinquedo ou não. Fazer com que se calem e aprendam a ser manhosos, ou levar com a gritaria e pôr mais um pedacinho de cimento na esperança de que podem vir a crescer para ser gente decente.

A vida é séria demais para mim. As preocupações são sérias demais, o stress, as exigências, o trabalho, o filho, enfim tudo.

É por isso que me tento rir de tudo. Tudo mesmo. Pode ser uma forma de ultrapassar as minhas fragilidades, mas eu preciso de conseguir dar uma gargalhada para seguir com a minha vida. Nem que seja uma de sarcasmo, ou uma que resulta da desconstrução das desgraças do meu dia.

 

Eu era miúda quando a minha mãe morreu, foi sem duvida o momento mais dramático da minha vida. O meu pai quis que eu ficasse em casa aquela semana, para conseguir pôr a minha cabeça no sítio e ter tempo para lamentar a perda da minha mãe. O meu pai é hoje um velhote com 70 anos, as coisas eram assim no tempo dele, eu estava pronta para ir para a escola no dia seguinte. Eu não ia conseguir arrumar nada numa semana, nem o quarto, quanto mais a cabeça. Quando voltei aos meus dias encontrei uma forma de ter alguma leveza. Contava piadas, ria-me de mim e dos outros. Ria. Uma vez uma amiga disse-me que achava extraordinário que eu estivesse tão bem ao fim de pouco tempo.

É claro que essa amiga não sabia que eu adormecia todas as noites a chorar, nem que o havia de fazer durante anos. Não tinha de saber.

A vida é séria demais, magoa, aperta connosco. A realidade é áspera e não tem contemplações, restando-nos esta capacidade de ver as coisas de pernas para baixo e rirmos-nos de tudo.

Quando eu entrei para o secundário a minha turma mudou quase toda e a maioria das pessoas não sabia que a minha mãe tinha morrido. Não tinham de saber. Por isso no dia da mãe às vezes perguntavam o que é que eu ia dar à minha mãe. As primeiras vezes que aconteceu eu respondi que já tinha morrido e gerou-se um momento um pouco perturbador, os meus colegas ficavam sem saber o que dizer, sentiam a necessidade de se desculpar e eu tinha a necessidade de brincar com a situação para tentar que o ar ficasse menos tenso. Então encontrei uma forma de resolver o problema: sempre que me perguntavam o que ia dar à minha mãe como prenda de dia da mãe eu respondia "flores". E os meus colegas "ah é o que ela mais gosta?", e eu que sim senhora, que naquele momento era o que ela recebia de melhor grado. Os outros não ficavam tensos, eu não sentia a necessidade de "aliviar" o ar, a minha mãe não voltava a estar viva nem morria por causa da minha baboseira, e eu ainda me ria porque tinha ludibriado a questão (era miúda, lembremo-nos).

Rir não é o melhor remédio, mas é uma espécie de paracetamol: alivia os sintomas ainda que de forma leve.

 

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