Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Casa da Gorda

Casa da Gorda

Sab | 30.03.19

Concursos quotidianos permanentemente em voga

Gorda

 

 

 

Depois de uma conversa amena com um dos elementos da vizinhança, circunstância que me causa sempre alguma taquicardia acompanhada de falta de ar, tudo em resultado do stress imposto ao corpo que resulta da ansiedade por me ver livre dessa situação, decidi falar sobre os concursos da vida.

E o que é isso dos concursos da vida? Estará por esta altura uma mão cheia de pessoas a pensar. São aquelas situações de permanente competição, nas quais nos vemos envolvidos sem saber muito bem porquê, essencialmente porque são parvas.

Assim, e porque me parece que não me estou a sair muito bem no enunciado da questão, vou passar de imediato aos concursos.

 

1. O meu filho é melhor que o teu

Este subdivide-se em tantas categorias que eu decidi compilar numa só generalizada. É uma batalha perdida para o mundo, mas ganha na cabeça de cada mãe e de cada pai que de facto não consegue entender que o ser que trouxe ao mundo é só mais uma pessoa para povoa-lo. Comparam o filho com os filhos de toda a gente e, por mais voltas que se dê, os deles têm de ficar sempre por cima. Mesmo que depois se venha a saber que não sabem a tabuada do 2 e já vão no 7º ano.

 

2. O meu filho é mais bem comportado que o teu

É uma subcategoria do anterior, mas esta não podia deixar passar. Isto é gente que quer fazer acreditar que os seus filhos de 3 anos não fazem uma birra, não dizem uma asneira, não desarrumam um brinquedo, não pedincham um chocolate. Porra, esta gente não tem um filho, comprou um Nenuco há 3 anos e lava-o a sítios.

Na via das duvidas, quando me aparece gente desta peço para ver fotos da criança com vista a certificar-me de que é mesmo um ser humano. Se for peço a todos os santos para um dia os encontrar a todos no supermercado; normalmente vou dar com a mãe ou o pai a negociar enquanto o miúdo berra porque quer comprar uma alheira só para implicar.

 

3. O meu filho é mais irrequieto que o teu (ou, nos tempos modernos, é mais hiperativo que o teu)

Isto é gente que compete e não sabe perder nem a feijões. Isto é daquela gente que se estiver na competição 2 tem de ganhar, mas se houver um grupo a defender a 3 também molha a sopa. Falamos de gente que das três uma: ou tem 5 filhos e consegue que cada um fique numa categoria, ou o puto é bipolar, ou então o chavalo tem um azar do caraças porque os pais são parvos. Eu aposto na última.

Em pleno UFC* da hiperatividade do descendente estes pais não descansam, suam frio e maquinam tramoias que até aos putos deixam de olhos abertos.

- O meu no outro dia espalhou os Legos todos e depois recusou-se a apanha-los.

- Ai o meu desarrumou os Legos e espalhou-os em todas as assoalhadas da casa.

- Sim, mas o meu no outro dia abriu a porta e saiu de casa sozinho, só tem 3 anos.

- O meu com 2 lançou um haltere de 5 quilos pela janela e quase fez quinar o vizinho de baixo que ia despejar o lixo.

- O meu com 1 já tentava torturar o caniche com 2 fusíveis e uma toalha molhada.

- O meu com 6 meses tentou vazar-me uma vista ao cagar de esguicho para cima da minha cara. Nada me tira da ideia que ele fez pontaria.

- O meu quando nasceu trazia um documento com ele, quando abri vi que era o registo criminal. Trazia cadastro.

*UFC - Ultimate Fight Championship (é a liga que gere aqueles torneios de MMA onde a malta está numa espécie de gaiola a andar à trolha)

 

4. O meu filho é mais inteligente que o teu

Isto é gente que liga com o campeonato 1. Os filhos são sempre de uma espécie de supremacia intelectual, mas na maioria dos casos a vida pregou-lhes partidas e por isso não são tudo o que podiam ser. O facto de terem chumbado 3 vezes no 9º por faltas não tem nada que ver com isso.

Também há os que até têm filhos certinhos e que por isso têm de estar sempre a ver se são melhores que os outros.

- Ai o meu filho lê tanto que já lê na diagonal.

- Pois o meu já salta páginas porque sabe o que vem a seguir. Lê de grosso modo, é muita experiência.

Tá bem tá. É a Wikipédia e os resumos dos livros, é o que é.

Isto é gente capaz de dizer que o filho já citava Lobo Antunes aos 14 meses e ainda o desgraçado do homem não era publicado. É malta que garante que o filho começou a mijar de pé aos 8 meses e que a irmã foi ainda mais cedo.

 

5. Já viajei a mais sítios que tu

Fugindo ao registo dos pais e dos filhos passamos às competições entre adultos. Agora viajar é moda, as conversas nunca resultam numa troca de impressões sobre o sítio visitado, o Manel diz ao Joaquim que foi ao Egito e o Joaquim responde logo que também já foi não sei onde; não há cá nada daquilo de "ai que bom e gostaste?".

 

6. Eu corro mais do que tu

Há menos de 20 anos atrás andar a correr na rua era coisa de tolos. Não se via uma alma a correr na rua, a menos que fosse gente do atletismos. Agora o running ganhou uma projeção brutal e as pessoas competem entre si. Para isso inventam-se gadjets para os telemóveis que permitem às pessoas publicar - com evidências - as suas corridas. Colocam o percurso e a sua corrida cansados. Há sempre um hashtag que diz #noexcuses e uma contagem do total de quilómetros que já correram este ano. Estas publicações fazem-me sempre pensar que o zucherberg ainda podia melhorar o facebook, porque falta lá a escolha do "I don't give a fuck", porque quero lá eu saber se foste correr pá! Ainda bem para ti, meu. Adeus e boa tarde.

Esta malta fica doida com as corridas; medem tempo, falam disso na pausa do café, medem nano segundos entre eles e ficam doidos para acabar uma corrida mais depressa, com vista a receber uma medalha igual à do gajo que ficou no último lugar e um gelado da Olá perto do fim de prazo.

Boa! Ainda bem que corres mais do que eu. Vai lá Trovão, vai lá!

 

7. Eu como menos açúcar do que tu

"Olá, o meu nome é Jaqueline, não como açúcar há mais de 6 meses e sinto-me tão feliz que me apetece arrear umas porradas no tipo que me ficou com o lugar de estacionamento no shopping."

Jaqueline, acho que se comesses esta goma se te abririam os olhos e verias que ao lado desse lugar havia mais 2 vagos.

Estás frustrada e precisas de maltisers.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Seg | 25.03.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 4

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_4.png

 

 

 

Não nos vimos durante um mês. Liguei vezes sem conta, umas para casa, outras para a churrasqueira, mas o Quim Tó não atendia. Deixava recado para que me ligasse e ele não retribuía as minhas chamadas. Estava distante, parecia estar magoado pelo que aconteceu naquela noite, apesar de me ter parecido um momento tão bonito.

Comecei a sentir-me em baixo, tentei concentrar-me no trabalho que havia na Junta, entrava mais cedo e saia mais tarde. Ofereci-me como voluntária para ler aos fins de tarde para os velhotes do dar de Chão Duro, mas ao fim de duas sessões de leitura a diretora falou comigo e pediu-me que parasse de lá aparecer. Ao que me explicou os idosos ficavam demasiado excitados com a história erótica que lhes estava a ler, perdiam as estribeiras e até já tinham arranjado um dealer de Viagra para lhes ir entregar o comprimido azul. Tinham perdido o senhor Clemente que, depois de ter tomado o "remédio", tentava saltar para a cueca da senhora Justina. Deu-lhe um enfarte e foi difícil explicar à família porque raio não conseguiam vestir o idoso, dado que havia uma área do corpo que tinha ficado numa posição pouco agradável para que fizesse uma figura decente no funeral.

- Tivemos de lhe partir o mangalho, Cremilde. Entende? O homem chega ao Céu de mangalho escangalhado. Pobre coitado, até era boa pessoa.

 

Por isso os meus finais de dia passavam-se em casa, agarrada a caixas de gelado e a ver filmes pornográficos para aprender mais truques para o dia em que o meu Quim me haveria de ligar.

 

O Zé da Pá mandava-me mensagens quase todos os dias, tinha arranjado o meu telemóvel e insistia que queria que eu fosse conhecer o seu "Império dos Tomates", era este o nome que escolhera dar ao seu pequeno negócio de tomates biológicos. Ainda só tinha vendido uma caixa à mãe dele, mas estava confiante que era apenas o começo.

Não aceitei sair com o Zé, afinal de contas compreendia as suas intenções e sabia que sentia alguma atração, não podia correr o risco de ser o tipo de mulher que sai com um homem, sabendo o que pretende e que, num breve momento de fraqueza, cede aos desejos do corpo e trai aquele que mais ama.

 

 

Estava um dia particularmente bonito naquela quarta-feira. Eu decidi vestir o meu vestido de cetim verde, umas sandálias rasas douradas e a minha mala nova com padrão floral. Estava decidida a mudar a minha atitude, não podia deixar que um homem comandasse a minha vida. Se o Quim já não me queria eu tinham quem me quisesse, quem me desejasse, um homem bom que ia ser dono de um império vegetal e que daria um tomate por mim.

Quando saí à rua tinha a caixa de correio forrada a post-its. A maioria sem nada escrito e apenas um tinha uma mensagem.

“Mandei uma caixa para a Junta hoje, veste o que lá mando e não te esqueças do apetrecho. Encontramo-nos em minha casa às vinte horas, nem mais um minuto.”

O Quim, o Quim finalmente tinha voltado a si e queria ver-me de novo.

 

Dentro da caixa estava um corpete vermelho, um vestido dourado e umas sandálias que combinavam perfeitamente com os dois. Num saco de veludo à parte encontrei um vibrador cor-de-rosa. Tinha o formato de um pénis enorme e deixou-me imediatamente excitada. Podia sentir o Quim a enfiar-me aquele objeto...ahhhh, tive de afastar o pensamento, tantos carimbos para pôr até às cinco da tarde.

O dia passou mais demorado do que vinha a ser hábito nos últimos dias, mas pelo menos desta vez as investidas da minha colega invejosa não me estavam a afetar, suspeito que o meu sorriso a estava a desafiar, estou certa de que estava perdida de curiosidade por saber o que continha a misteriosa caixa de bananas que eu pousara em cima da secretária. Mas jamais ficará a saber.

 

Saí à hora certa e fui a correr para casa, tomei banho, perfumei-me e vesti a roupa que o Quim me mandou. Mais uma vez sofri com as sandálias porque o Quim não acertava com a porra do número.

Toquei à campainha e encontrei um Quim alegre e livre de dor. Tinha vestida uma camisa particularmente garrida e tinha pintado o cabelo com algumas nuances. Explicou-me que aquela noite tinha tido um impacto muito grande nele, que as dores o obrigaram a ficar de cama vários dias e, forçado a parar, tinha aproveitado para pensar na vida. Farto de agoniar recorreu ao endireita dos falecidos, que afinal tinha um nome bastante banal e se chamava João. O João era psicólogo, mas como não arranjava trabalho na área tirou um curso de massagens e começou a trabalhar por conta própria. Quando atendia os seus clientes procurava resolver os problemas de fundo, porque, segundo o João lhe havia explicado, os males nunca são apenas físicos, há sempre uma dor interior que impede que a pessoa sare e siga em frente. O João escrevia uns livros de merda nos tempos livres, daqueles que têm muitas palavras, mas na verdade não dizem nada porque são lugares comuns e absurdamente redundantes.

Numa das muitas sessões que o Quim fez com o João, este disse-lhe que ele tinha de se descobrir, que havia algo no Quim que era obscuro. O Quim, sentindo uma ligação forte com o João, acabou por lhe contar do seu vicio de depenar frangos antes de ter sexo. O João fitou-o sério por um tempo e enfiou-lhe um dedo no ânus, depois disse «Nã, pela cara de alegria que acabaste de fazer o tem mal não é depenar frangos. Faz o seguinte….»

E lá lhe explicou o que o Quim devia fazer.

- Cremilde, mandei-te essa roupa para que possamos fazer um teste, vais vendar-me os olhos, quero que fales com uma voz grossa para mim e que introduzas esse vibrador lubrificado no meu ânus.

Assim fiz. Repetidas vezes enquanto o Quim gemia de prazer e gritava pelo Thor.

Ao que parece, havia de me explicar mais tarde, quando me via de costas achava-me parecida com o Thor, o príncipe dos martelos.

 

A noite foi longa e aparentemente agradável para o Quim. Eu voltei cabisbaixa para casa, com sede de sexo e uma frase do Quim «daqui a uma semana bebemos café na casa de chá à entrada de Sarilhos Grandes.»

 

 

Eram cinco e meia da tarde quando me sentei na mesa do canto e pedi um chá de camomila e dois palmieres. Estava a levar um dos bolos à boca quando vejo o Quim entrar, trazia vestida uma espécie de toga florida e ao pescoço tinha pendurados para cima de cinco colares de contas.

- Olá Cremilde.

- Olá Quim, pareces feliz.

- Estou, Cremilde. Estou a descobrir-me, estou a descobrir o que me faz feliz.

- Ainda bem para ti.

- Ou para nós, ainda não sei. Olha Cremilde, falei com o João e ele aconselhou-me a ir três meses para um retiro espiritual em Sintra. Diz que eu tenho de estar comigo mesmo para me descobrir, para perceber o que se está a passar com os meus chakras, para ouvir as minhas vibrações. Tenho de experimentar coisas novas e não posso arrastar-te para isto. Seria injusto. Por isso proponho que nos afastemos por este período.

- Como assim Quim?

- Tu fazes a tua vida. Podes até sair lá com o Zarolho, se assim entenderes. Investe em ti, que eu vou descobrir quem sou. O que tiver de ser será, Cremilde.

Pôs os óculos Rai banni (porque eram da feira) e saiu com a mesma leveza com que entrou na sala de chá.

Acabei a comer mais seis palmieres porque os nervos dão-me fome.

 

Estava de rastos e caminhei para casa com o peso de quem sabe que acaba de perder o amor para sempre. Balança a mala na mão direita de forma distraída e acabei por acertar uma mocada num pombo que estava entretido a bicar uma fatia de pão. O pombo era claramente um animal vingativo, porque veio atrás de mim e cagou-me na cabeça.

Estava desesperada a limpar a merda que tinha no alto da pinha quando apareceu o Zé da Pá.

- Olá Cremilde.

- Olá Zé.

- O que é que aconteceu?

- O pombo para o qual estás a olhar cagou-me em cima.

- Qual pombo? Eu estou a olhar para ti.

- Esquece, estou de rastos e preciso descansar.

- Se calhar precisas de carinho. Já sei que o Quim vai para um retiro espiritual?

O Quim teria contado a toda a gente antes de falar comigo? Traste.

- Como é que sabes? Eu acabei de saber.

- Porque o Quim deixou a gerência da churrasqueira com a Lúcia e ela está a fazer uma festa lá no tasco. Deves estar de rastos, deixa-me dar-te carinho.

Quebrei nos braços do Zé, nem reparei se ele estava a olhar para mim, mas era natural que não estivesse. Pobre coitado, com uma doença nos olhos e agora com uma mulher esborratada nos braços.

 

Não me lembro do caminho, só sei que falei sem parar e chorei como uma Madalena. Acho que o Zé não me ouviu, é o que me consola, porque fomos de trator até à horta comunitária e aquilo faz tanto barulho que não conseguimos ouvir nada do que o outro diz a menos que gritemos muito alto.

O Zé era um homem que investia no futuro, acreditava no seu império por isso, assim que recebeu aqueles cinquenta metros quadrados de chão biológico foi ao banco e pediu dinheiro emprestado para comprar um trator. Não tinha onde o usar, mas como ele próprio dizia, se queria ser tinha de parecer. Pelo menos no cheiro a estrume já conseguia.

 

Quando entrei na horta vi uma pequena mesa de plástico com uma vela acesa quase toda queimada, o Zé queria que tivesse impacto ao chegar, mas esqueceu-se que a cera queima depressa e que mal íamos ter vela para a noite. Foi uma sorte que ele tivesse comprado um pack de seis velas quando foi ao Intermarché. Este Zé pensava em tudo.

Comemos salada com tomates biológicos, esparguete com refogado de tomates biológicos e no fim, como sobremesa, comemos tostas barradas com doce de tomate.

- Cremilde, o que eu gostava mesmo era de te barrar toda com esta compota.

- Aí Zé não digas isso.

Ato continuo o Zé levanta-se da cadeira e arrebata-me com um beijo. Sabia a tomate. Pousou-me em cima da mesa, mas como era de plástico, velha e com muitas horas passadas à torreira do sol, assim que as pernas da mesa sentiram o meu peso cederam e nós esbardalhamo-nos no chão. A terra estava fofa e por um milímetro não fiquei com uma estaca enfiada no rabo.

- Ai Cremilde, dás cabo de mim.

- Então olha para mim. Estás sempre a olhar para os tomates.

- Mas eu estou a olhar para ti Cremilde. Estou sempre a olhar para ti.

Despimo-nos e ele possuiu-me com vontade. O Zé percebia de tomates e sabia como comer uma mulher. Recordo-me de esborrachar dois tomates chucha no auge do prazer, os sucos a escorrerem por entre as minhas mãos. Uma sensação indescritível.

 

Deixámo-nos cair exaustos no chão, habituados ao cheiro da terra estrumada, saciados da paixão.

- Vais ser a rainha deste Império, “Cremilde, a rainha dos tomates”, isso posso prometer-te.

 

Foram as últimas palavras do Zé antes de o sol nascer e eu, inebriada pela sensação de ser amada por dois homens, adormeci encostada a um tomateiro enquanto sonhava com uma coroa vermelha.

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Ter | 19.03.19

Dia do Pai

Gorda

dia do pai.png

 

 

O que é isto de ser pai afinal de contas? À falta de resposta mais informada não tinha outra hipótese que não fosse ir ao dicionário confirmar de que se trata então esta espécie de gente.

Diz então o dicionário que estamos perante:

 

  1. Aquele que tem um ou mais filhos.
  2. Homem que cria e educa criança ou adolescente que não foi gerado por ele mas com quem estabelece laços paternais e a quem pode estar ligado por vínculos jurídicos.
  3. Gerador, genitor, progenitor.
  4. Criador, autor.
  5. Protector, benfeitor.
  6. Tratamento respeitoso dirigido a um homem.
  7. Distribuidor de estupefacientes.

 

Gosto particularmente da hipótese 7, nunca tinha pensado nas coisas dessa forma, mas pensando bem, efetivamente há um dealer de bolachas lá em casa quando eu digo que está quase na hora de jantar e “depois não tens fome para a sopa!?”.

 

O dicionário não me ajudou, pai para mim não é muito do que aqui ali se descreve, é mais do que palavras possam descrever, são momentos, pequenas coisas, sentimentos que não se conseguem explicar. Hoje é dia do pai, é dia daquele que é pai todos os dias, mas que hoje tem o seu bocadinho especial, é dia de receber desenhos da escola, um abraço especialmente apertado, uma bugiganga para guardar na gaveta e lembrar daqui a quarenta anos, quando os filhos, aqueles que já estão fartos da conversa igual de todos os anos, dizem “ó pai guarda lá isso, sabes que quando patinares vou dentar fora”.

 

Hoje é o teu dia, meu Bucha valente.

 

O colo no primeiro dia. A calma no choro. A espera impaciente. As noites mal dormidas. O tempo exato para trazer o leite ao fim da noite. O torcicolo permanente por dormires dentro da mesa de cabeceira. A dança das cadeiras para que coma a sopa. As conversas no carro. O ensinar. A alegria nas perguntas mais estapafúrdias que uma criança consegue enjorcar. O espaço para a mãe e o filho sabendo que não perdes o teu lugar. O colo incansável nas noites de gripe. Os serões a fazer Legos. Os livros. Ah, a importância dos livros. As mãos que se lavam com demasiada água. As birras. O pai que espera à porta de casa todos os dias, porque tem de ser ele. As roupas que não condizem.

 

Por tudo e mais qualquer migalha hoje o dia é teu, que és o melhor pai que o teu filho podia ter.

 

Que seja um dia tão especial como todos os outros em que estás lá para ele.

 

Feliz dia do Pai.

Seg | 18.03.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 3

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_3.png

 

Acho que ando a comer frango assado a mais. Passei a noite a sonhar que conseguia pôr ovos e que quando espirrava libertava tufos de penas. Para além disso o carvão tem-me feito mal ao estômago e eu tenho andado com mais gases do que é habitual. O Quim Tó diz que não se importa, mas eu dou conta que ele acende aqueles incensos do chinês, escolhe sempre os que têm efeito na macumba da paixão e eu derreto-me apesar de saber que os paus são sempre os mesmos, só mudam a embalagens. Os chineses são pessoas pequeninas com olhos em bico que são também muito engenhosas.

Tenho passado uma parte das noites na casa do Quim e depenamos pelo menos trinta frangos por noite. Ele é insaciável e eu não me importo. Nas ultimas noites temos só depenado os frangos e ele não me tem comido, ele promete que o vai fazer, mas quando acabamos uma caixa de dez frangos ele traz outra. Acho que deve ser porque anda com falta de empregados lá na churrasqueira e assim fazemos coisas juntos. Estou sempre a ler nas revistas de mulheres que um homem que nos ama gosta de fazer coisas connosco. O Quim gosta de depenar frangos comigo.

Estou tão envolvida neste processo que até mandei pôr unhas de gel, daquelas com nail art. Em cada dedo anelar tenho o desenho de um frango feito em cristais baratos. O Quim diz que é uma grande ideia porque estas “garras” como ele as chama, para além de me ajudarem a depenar os frangos fazem-no achar que está a papar uma galinha quando eu cravo as unhas nas costas dele.

 

Deixei-me adormecer e já não vou ter tempo de passar em casa para trocar de roupa, por isso sigo direta para a Junta, como a roupa está suja também não me parece que valha a pena tomar banho, acho que me ia fazer mais impressão. Passo os dedos pelo cabelo e saio confiante. A confiança compensa por muito.

 

Quando cheguei à porta está lá o Zé da Pá, olhava fixamente para uma poia que estava no chão e eu pensei que aquela sujidade o estaria a incomodar, afinal de contas o trabalho dele é manter Sarilhos Grandes um brinco e merda de cão no passeio é uma falta de respeito pelo trabalho dele.

- Olá Cremilde, estás especialmente bonita hoje.

- Obrigada Zé, mas nem olhaste para mim, como é que sabes?

- Eu estou a olhar para ti Cremilde. Estou sempre a olhar para ti.

- A Custódia diz que és estrábico e que não estás a olhar para mim porque tens um problema nos olhos.

- E tenho Cremilde, quando me vês a olhar para ti não estou.

- Porque não paras de olhar para aquela poia.

- Eu não estou a olhar para uma poia, qual poia?

- Aquela gigante ao pé da arvore. Deve ser merda de um Labrador.

- Ah aquela, já vou limpar.

- Finalmente estás a olhar para mim. Isto é confuso.

- Eu sei que é. Eu também estou confuso, pensava que te interessavas por mim, estava à espera do momento certo e aquele traste da churrasqueira adiantou-se.

- O Quim não é um traste.

- Roubou-te de mim.

Ia explicar ao Zé que ninguém tinha roubado ninguém quando a Ana chegou ao pé de nós. A nossa Presidente era uma mulher ilustre que só aparecia de vez em quando porque gostava mesmo era de passar tempo no salão de cabeleireira da sobrinha. Mas hoje tinha algo a anunciar e queria ser ela mesma a dize-lo.

 

Passamos o tempo do discurso da Ana lado a lado, conseguia sentir a tensão do Zé que não parava de olhar para um pisa-papeis velho e fazer olhinhos na direção do boneco que dançava lá dentro. Iam ser criadas umas hortas comunitárias e a Junta queria oferecer os primeiros terrenos aos funcionários que estivessem interessados. Estavam projetados concursos para os melhores vegetais e previa-se que o primeiro fosse para os tomates mais atraentes.

O Zé levantou logo o braço, há anos que queria ser dono de uma propriedade e quem sabe mudar de profissão tornando-se num agricultor de cultura biológica, esta seria a sua oportunidade.

 

- Acredito nas coisas que vêm da terra, Cremilde. Tenho a certeza que os legumes cheios de pesticidas me têm entortado os olhos. Vou criar um império de tomates biológicos e nem tu vais resistir aos meus tomates. Juro aqui mesmo, neste pedaço de chão da Junta de Freguesia de Sarilhos Grandes, que quando nos voltarmos a ver eu vou ser o dono de um império.

Não quis desanima-lo porque sei que a confiança e o amor próprio são fundamentais para que consigamos ultrapassar as barreiras da vida. Li isso numa frase de Facebook, não entendi, mas partilhei porque me pareceu inteligente. Acho que o Zé está a precipitar-se porque amanhã tem de cá vir outra vez buscar a chave do barracão onde está a máquina de limpezas e é difícil que até lá os tomates já tenham crescido.

Mas a vida às vezes surpreende-nos.

 

Estava a acabar de ligar o meu computador quando recebo uma mensagem do Quim.

 

Que conversa vem a ser essa com o zarolho. Não gostei da forma como ele estava a olhar para ti.

 

Sorri e até achei graça aos ciúmes do Quim. Ele não faz ideia que o Zé tem problemas nos olhos e foi isso que lhe fez confusão de certeza.

 

Só tenho olhos para ti. Depenamos mais logo?

 

Respondi-lhe.

 

Não. Mais logo tenho uma surpresa para ti. Veste o que te mandei entregar em casa.

 

Quando cheguei tinha uma caixa de cartão, das que servem para transportar bananas, mesmo à porta de casa. Estranhei que ninguém me tivesse roubado a caixa, porque era das do LIDL e essas são mesmo boas para guardar coisas quando estamos a fazer mudanças.

Dentro da caixa estava um vestido prateado com alças finas e um par de sandálias que eram o número abaixo e ainda por cima tinham uma forma apertada. O vestido era lindo e as sandálias também, só me faltava saber como é que ia enfiar as minhas mamas lá dentro.

Barrei-me com óleo Johnson e consegui escorregar para dentro do vestido. As mamas ficaram dentro de um soutien de renda creme que herdei da tia Lucrécia. Era mesmo a cor da minha pele e ninguém ia dar conta que o levava vestido. Parei mais de dois minutos a pensar se devia calçar as sandálias ou não, mas depois lembrei-me que um dia ouvi alguém dizer que beleza é dor e enfiei os coutos lá dentro.

Caminhei para a entrada com pontadas de dor e uma profunda ansiedade por saber o que é que o Quim tinha preparado para nós nessa noite. Este homem era uma montanha russa de emoções e não parava de me surpreender.

 

Entrei no carro e ele vendou-me os olhos. Pensei que pudesse ter medo, mas a verdade é que todo o momento se revestiu da mais profunda sensualidade. O cuidado com a minha roupa, a Renault 4L, em vermelho esbatido pelo sol, que ele conduzia, aquela que ele tinha sempre guardada na garagem para que não se estragasse, os bancos com bolinhas de madeira que ajudam a massajar as costas, eu a deslizar porque o óleo Johnson me fazia parecer uma enguia.

Conduzimos não sei quanto tempo e quando o carro parou ouvia muito barulho, podia jurar que a Ana Malhoa estava a cantar e fiquei empolgada porque sou uma fã. O Quim tirou-me a venda e estávamos numa pista de Karts. Ia haver uma corrida e o Quim ia participar.

 

Abriu-me a porta para eu sair, fez-me rodar como um naco de carne num daqueles restaurantes de rodízio em que os senhores brasileiros gritam “maminha?”, puxou-me para ele e disse-me ao ouvido:

- Se eu ganhar esta noite quero um prémio.

- Qual?

- Quero comer-te enquanto depenas uma galinha.

- Está bem Quim. E se perderes?

- Como-te na mesma, mas tu escolhes a posição.

- Então vamos para o chuveiro, pegas em mim e comes-me enquanto tenho as minhas pernas à tua volta, ali encostada à parece sujeita a apanhar uma pneumonia.

 

O Kart do Quim avariou e ele não ganhou a corrida. Estava zangado e a caminho de casa chegou mesmo a chorar. Dizia que tinha problemas de costas e que se calhar o melhor era deixar-me em casa.

Eu insisti, uma promessa é uma promessa.

 

Comeu-me como eu quis e depois desmaiou, não sei se de alegria se de cansaço.

 

Estivemos dois dias sem nos vermos. Esteve a fazer tratamentos com o endireita aqui da terra que toda a gente sabe que faz maravilhas com o esqueleto de quem quer que seja. O meu tio Osvaldo tinha uma corcunda de nascença, um dia foi lá e saiu do barracão em que ele dá consultas mais direito que um pau. Morreu três dias depois, mas a verdade é que eu nunca o tinha visto tão alegre e tão direito.

 

Eu estava perdida com os meus pensamentos quando o Zé entrou na Junta, olhou fixamente o pisa-papéis (que raio veria o Zé no pisa-papeis?) e disse-me:

- O teu namoradinho não aparece na churrasqueira há dois dias. Os mesmos que tu vais direta para casa. Anda a ser visto pelo endireita dos finados. Acho que está na hora de te levar para que vejas os meus tomates.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Dom | 17.03.19

Os meninos não brincam com bonecas

Gorda

nenuco.jpg

 

 

- Mãe posso escolher um brinquedo para levar?

- Podes, mas tem de ser uma coisa pequena e barata. Os brinquedos grandes e caros são especiais e para ocasiões excecionais, como o aniversário e o Natal.

- Tá bem. Posso levar o que eu quiser?

- Podes.

E aponto para todos os corredores de brinquedos.

- Mas isso não. As bonecas são para as meninas.

- Isso não é verdade. Os brinquedos são para as crianças, sejam elas meninas ou meninos. Não há bonecos de meninas e bonecos de meninas. Isso não faz sentido.

- A Maria* tem um bebé que faz xixi e cocó.

- Ai sim?! Gostavas de ter um.

- Sim. Achas que posso levar um bebé?

- Acho que podemos ver se encontramos um que seja pequeno e barato.

- Boa! Vamos.

Encontramos um boneco careca pequeno e barato. Era mesmo aquele.

- Vamos, vamos pagar que eu vou dar de comer ao meu bebé. Mãe, sabes que temos de cuidar bem dos nossos bebés?

- Sei filho, é isso que tentamos fazer contigo.

(é possível que eu tenha melhorado um pouco o português para efeitos do texto)

 

Continuámos o nosso passeio pelo Centro comercial com o nosso rapazola que trepa tudo e gosta de rebentar com coisas, que conjetura tramas incríveis e sonha com espiões, agarrado a um boneco careca do tamanho de um palmo.

Na caixa a duvida se seria para oferta.

Nas filas das outras lojas miúdos mais velhos que fingiam conter um riso idiota porque havia um menino com um bebé de brincar pela mão.

Estamos em pleno século XXI, lutamos pela igualdade de direitos entre géneros, milhares partilham frases intrincadas que pretendem passar a ideia de que homens e mulheres merecem o mesmo e que, apesar de serem géneros diferentes, não devem ser apartadas tarefas e papeis sociais para um e para outro. Ainda assim, infelizmente vigora a ideia de que há coisas para menino e coisas para menina na mais básica das acepções, como os brinquedos que os entretém.

Estas acepções não nascem connosco, são-nos entregues pelos que nos educam, pela sociedade em que nos inserimos que nos transmite que, se fizermos determinada coisa, é provável que sejamos uma outra.

Uma premissa adaptada aos símios, que nos acompanha desde o principio dos tempos. Mas depois temos reticências em aceitar que somos primos dos macacos.

 

Algures no tempo e nos espaço passou a ser aceite que uma menina brinque com um carrinho, "é Maria Rapaz" dirão, acompanhando a expressão com um encolher de ombros. O aceitar relutante de que a criança talvez não queira ser uma princesa da Disney. Contudo a mesma aceitação - ainda que com reservas - não se aplica a um rapaz. Um menino não brinca com bonecas. Afinal de contas toda a gente sabe que dar de comer a um Nenuco quando temos cinco anos é meio caminho andado para que gostemos de pénis em adultos. Não é verdade? E quanto mais brincamos com os Nenucos, para agudizamos esse apreço. Pelo que é preciso proteger o macho que trouxemos ao mundo, impingindo-lhe carros, futebol, luta livre, guerra e bonecos com aspeto de sanita. Tiros sim senhor, agora limpar o rabo a um Nenuno onde é que já se viu?!

Os pais preocupam-se em transparecer que o filho é macho e as mães, as mesmas que se queixam que os maridos não ajudam em casa, que deixam os copos por lavar dentro do lava loiça, que não sabem passar roupa e que fogem quando têm de trocar uma fralda cagada; essas pegam na mão dos filhos e dizem "parvoíce, isso é para meninas, escolhe outra coisa!".

 

A igualdade de direitos e o respeito entre homens e mulheres não vai acontecer à força de frase idiotas partilhadas nas redes sociais, para que os amigos nos achem muito evoluídos no nosso tempo, a igualdade nascerá da redefinição de conceitos retrógrados na nossa sociedade, no dia em que passar a ferro não for uma tarefa de mulher, no dia em que se deixe de enfiar goela abaixo dos nossos filhos homens que o papel deles não se limita a ver a bola ou a dar tiros com pistolas de plástico, que podem e devem limpar o chão, passar a roupa e trocar a fralda aos filhos. Porque os nossos filhos, hoje pequenos, amanhã serão homens que vão ter se saber que não há tarefas que competem apenas às mulheres.

E se gostarem do mesmo sexo gostarão porque nasceram assim, não porque brincaram com uma Barbie. Essa ideia neandertal de que a homossexualidade se aprende. O conceito dos néscios mal instruídos (redundante eu sei, se são néscios são mal instruídos, isto sim, está implícito).

O problema está aí, no medo de que se expurgue o macho à força do cor-de-rosa.

 

Sou mulher, cresci numa casa de homens, vivo numa casa de homens, gosto de carros e de desportos masculinos e nunca senti qualquer vontade de ter outra vagina na minha cama. O meu foco de atração sexual é e sempre foi centrado em homens, por incrível que possa parecer aos que acham que as mulheres, para serem senhoras têm de ser princesas sensíveis, que não usam vernáculo e não podem dar um traque.

 

Quando penso no meu papel de mãe a criar o meu filho, sei que quero o melhor para ele, quero que seja uma boa pessoa, com princípios e com respeito pelos outros, quero que seja um bom homem que respeita a pessoa que escolher para partilhar a sua vida, quero que seja um ser humano dotado da capacidade de pensamento e capaz de usar esse músculo tão importante que é o cérebro. Não quero criar um bruto, que reage como qualquer outro animal irracional.

As bonecas são de quem quer brincar com elas e isto é algo que deve ser ensinado aos nossos filhos e às nossas filhas. Só assim a sociedade pode evoluir. Guardem lá as frases feitas de redes sociais.

 

Agora que acabei de escrever, ou que me cansei de carregar nas teclas porque seria capaz de falar deste tema horas a fio, sinto tristeza por mim. Afinal de contas este é ainda um tema sobre o qual me ocorre escrever e só terei evoluído o suficiente quando me for indiferente o pensamento dos outros sobre este assunto. No dia em que não me pareça que tal seja necessário, nesse preciso instante, talvez tenha chegado ao patamar de evolução que tanto almejo.

 

*Maria é o nome ficticio de uma colega de escola do meu filho.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Sex | 15.03.19

Quem quer ser a galinha com dentes de um agricultor?

Gorda

chicken-teeth.jpg

 

 

 

Olá, olá a todos.

O meu nome pouco importa, o que interessa é que eu sou a mulher do diretor de programas e tinha que se arranjar alguma coisa para eu fazer. Humhumhum, tenho de me rir assim para ser diferente da gargalhada da gaja do outro canal de programas de bosta, os programas não valem um flato, mas temos de colocar um fator que nos distancia da merda alheia.

E o que é que eu estou aqui a fazer? Cavar batatas? Ordenhar vacas? Apanhar ovos? Entrevistar convidados? Nada disso. Eu estou aqui para aparecer com um vestido sensual e sorrir para a câmera como quem acha que isto vale alguma coisa.

Mas a verdade é que temos uma mão cheia de gente que quer aparecer na televisão. Humhumhum, uns querem fazer publicidade ao seu turismo rural, outros, pobres coitados, são só labregos. É a vida.

Agora vamos lá a isto que está a fazer-se tarde e eu tenho de dar de mamar à minha filha, que por sinal também é filha do diretor de programas.

O nosso primeiro convidado vem de uma terra que tem uma aldeia e mora numa espécie de um monte onde há uma porrada de bichos. Passa o dia a pisar bosta e a desencrustar carrapatos. Humhumhum, que engraçado. Uma verdadeira vida de merda, mas que ele gosta.

Vamos conhecer o Ecleutério.

 

Ecleutério, 36 anos, agricultor a tempo inteiro, parvo sempre que fala com outro ser humano

O meu nome é Ecleutério da Silva Cujões, como já viram nos papeiz que eu preenchi. Vai pa cima de quinze ianos que num tênho uma mulher, que isto na bida do campo a gente num encontra muita gente e acaba sempre por andar de roda dos bichos, sabe cumé?! Eu faço criação de obelhas e de cabraz e tamém tenho umas bacas p'ali. Fazem muita companhia, mas não é o mesmo amor. Eu agora precisaba de encontrar uma galinha cum dentes para a bida, que ponha obos como eu nunca antes bi e que me dê muitas alegriaz.

 

(volta a apresentadora)

Humumhum, que bom Ecleutério, fantástico! Parece-me que anda mesmo à procura de uma princesa. Vamos lá andar com isto e despachar mais um candidato e entrevistar duas galinhas com dentes porque já está a começar a doer a cabeça à gaja que escreve isto.

O nosso proximo candidato é o Valdemar. Vamos ouvi-lo dizer coisas.

 

Valdemar, 41 anos, desempregado, dá comida aos animais dos pais e finge que é agricultor

Boa noite eu sou o Valdemar e sou um gajo com pinta e que manda uma ganda pausa. Tenho 2334 seguidores no meu Instagram por contas das fotografias que lá pus nu. Não tenho dificuldade em arranjar gajas, até porque me oriento bem com as tipas lá do ginásio, eu tiro a camisola e elas até se arrastam. Mas agora preciso de amor e para isso faz-me falta uma galinha com dentes. Não gosto da agricultura nem do campo, para mim é mais praia, mas os meus cotas dizem que se eu não ajudar com as tarefas da quinta não me dão mesada e eu fica na merda, porque um gajo tem de ter dinheiro para as coisas. Gosto de andar a guiar o meu trator em tronco nu, mas às vezes apanho escaldões e fico mesmo à rasca. Espero arranjar uma galinha com dentes que tenha estilo e os mesmos objetivos que eu, para a gente depois andar para aí a fazer presenças noutras quintas.

 

(volta a apresentadora ainda mais agastada)

Maravilhoso este candidato.

(para para vomitar)

Antes que eu me apague para aqui humhumhum, vamos lá conhecer duas galinhas com dentes para despacharmos isto que está a ficar frio e eu tenho de ir buscar um casaco.

A nossa primeira galinha com dentes é a Maria Aljustrela.

 

Maria Aljustrela, 29 anos, vem de um sítio qualquer

Cocorococó. Eu sou a Maria Aljustrela, venho de uma terra com código postal e não percebo nada de agricultura. Nunca pus um ovo, mas procuro um agricultor que desperte em mim essa vontade de pôr a cloaca a funcionar. Não sei o que pensar de partilhar o meu agricultou com vacas, cabras e ovelhas, mas acho que a gente pode chegar a um acordo e acabar por se entender. De vegetais só percebo de tomates, porque sei ver bem se estão maduros. AHAHAHAHAHAHAHA! Esta era a piada que eu trazia porque o sentido de humor numa galinha com dentes é fundamental. Venho com este vestido dos chineses parecido com o daquelas moças que vão ao programas das casas sem segredos e espero não pisar uma poia a caminho de conhecer o meu agricultor.

 

(volta a apresentadora)

Maravilhoso! Adoro vestidos de uma espécie de cetim reles, especialmente quando vêm para aqui vestidas de gala para se ir sentar em fardos de palha! Humhumhum! É tão encantador que eu nem sei como é que hei-de estar aqui!

Antes que eu pense em cortar os pulsos vamos conhecer mais uma galinha com dentes, desta vez temos a Vizitacion, que vem de Espanha porque não entrou no programa de agricultores lá. Pelo que só podemos imaginar que é uma galinha do catano.

Vizitacion, vamos a isto?

 

Vizitacion, 39 anos, não entrou no programa em Espanha

Buenas! Yo soy Vizitacion e estoy aqui porquê quiero ser uma galina con dientes de un agricultor mui guapo. Yo fico para lá dê dueida quando coneço un hombré con um fardo de pialhia. Pêro que yo fico passada de lós carretios e até mi sinto que mi voy à puer un uevo. Yo quiero encontrar un tontito que págué mis cuentas é quiero ser lá raína de lo Instagram.

Yo no soy una galina con dientes, yo soy lá Jennifer Lopez de las galinas con dientes.

 

(volta a apresentadora pela ultima ve, pela graça do Senhor)

E assim conhecemos uma parte dos nossos conditados. Por hoje para mim chega porque já me doí o corpo todo com pontadas de stress que tenho da planta dos pés até ao ponto mais alto da minha cabeça. Quero ir para casa, quero encher a minha banheira com sais caros pagos pelo meu marido que é o diretor de programas e esquecer este cheiro, porque houve alguém que veio para aqui depois de ter pisado merda e eu estou por um fio.

Sim, estou de casaco com o frio porque eu sou mulher do diretor, não sou como a outra do canal concorrente que teve de se aguentar ao briol.

Havemos de gravar outro programa, mas para já chega porque a gaja que está a escrever já está a ficar com caimbrãs nas pontas dos dedos.

Resto de bom dia. Humhumhum

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Ter | 12.03.19

Quem quer casar com o meu cagado?

Gorda

cagado.png

 

 

 

Olá a todos, muito bem-vindos ao novo programa "Quem quer casar com o meu cagado?", o meu nome é Leonor Bajoja e sou a nova apresentadora que se está a cagar para o facto de isto ser daqueles programas que fazem com que as mulheres sejam vistas como um tacho com boca. Ahahahaha.

 

Rio-me muito de forma parva e despropositada, mas é mesmo assim que isto passa no teleponto e eu tenho de ganhar a vida.

Sem mais delongas porque não há estômago que aguente, vamos ver o vídeo de apresentação dos primeiros néscios.

 

 

Edna (45 anos) e Asdrúbal (22 anos)

(faz de conta que estamos a ver um vídeo, tá bem?!)

 

Olá o meu nome é Edna e este é o meu cagado Asdrúbal. É um menino da sua mãe, um cagado de ouro e a mulher que lhe meter as mãos tem de ser uma princesa, tem de saber cozinhar e tem de saber limpar muito bem o aquário, porque o Asdrúbal caga muito e, misturado com os restos de camarão, fica um cheiro a bosta em casa que não se aguenta. O Asdrúbal é DJ voluntário num bar de alterne e tem como paixão não fazer um corno. Estamos ansiosos por conhecer as candidatas.

 

(Edna faz beicinho e ajeita-se gorda nos collants apertados que terminam com os pés enchouriçadamente enfiados nuns sapatos dois números abaixo)

 

Já no programa

 

Leonor Bajoja:

Olá, olá. Eu sei que tenho assim esta cara de parva e que mais vale apresentar esta merda do que arranjar um emprego decente ahahahha. Digam-me, o que esperam encontrar?

 

Edna:

Uma otária que tome conta do meu cagado. Que lhe dê de comer, que limpe a porcaria dele, que o sirva como uma escrava, que me ature e que não se importe que o meu cagado veja outras porque um cagado tem necessidades.

 

Leonor Bajoja:

Ahahahhaha claro que sim! Vamos ver se encontra o melhor para o seu filho. Ainda no dia 8 estive numa manifestação para o dia da mulher, ali a lutar forte pelos direitos e agora estou a apresentar isto, sou uma pessoa que faz multimerdas.

 

(entram para uma sala com uns cadeirões e preparam-se para a primeira entrevista)

 

Entra a entrevistada

 

Jessica Cristina:

(Enverga um vestido de costas nuas, pejado de lantejoulas onde garante apenas o encobrimento mínimo dos mamilos, a saia é de cetim e tem uma racha até Deus sabe onde. Aparenta ter chegado atrasada a um baile da escola)

Boa noite

 

Edna:

Boa noite

 

Asdrúbal:

(Nada, os cagados não falam)

 

Edna:

Sabe limpar com brio.

 

Jessica Cristina:

Não conheço o detergente brio, mas estou disposta a publicita-lo no meu Instagram @jessitaparvacristina2hot. Quanto a limpezas nunca fiz, a escrava lá de casa e a mamã. Ahahahha.

 

Edna:

Estamos mal. O meu cagado precisa de asseio.

 

Jessica Cristina:

Asseio? É uma dança africana? Posso aprender. Sou forte na kizomba.

 

Edna:

Estamos mal. Que idade tem?

 

Jessica Cristina:

Ah essa resposta eu sei: 25 anos.

 

Edna:

Menos mal. Sabe cozinhar?

 

Jessica Cristina:

Não. Isso não. Fico baralhada com os bicos do fogão. Mas aqueço bem coisas no microondas.

 

Edna:

Estamos mal. O que procura num cagado?

 

Jessica Cristina:

O meu sonho e constituir família, por isso procuro um cagado que goste de crianças e que partilhe do meu sonho.

 

Edna:

Certo, mas até haver filhos tem de procurar alguma coisa. O que é que um cagado tem de ter para si?

 

Jessica Cristina:

Isso já não sei. Eu só preparei esta frase. O que eu quero mesmo é aparecer na televisão a qualquer custo e depois ter muitos fãs nas redes sociais e não ter de trabalhar porque os meus fãs me dão coisas porque me dão valor porque eu existo. Trabalhar faz-me mal à coluna.

 

Edna:

Compreendo os seus objetivos porque eu também sou uma totó e aqui o Asdrúbal nunca trabalhou. O meu sonho e ser a Dolores Aveiro.

Quantos namorados teve?

 

Jessica Cristina:

Três. Tive uma relação com 10 anos, uma relação com 5 anos e uma relação com 6 anos.

 

Edna:

Começou a namorar com que idade?

 

Jessica Cristina:

Com 20.

 

Edna:

Sabe fazer contas?

 

Jessica Cristina:

Não.

 

Edna:

Acho que não tenho mais perguntas. Asdrúbal queres perguntar alguma coisa?

 

Asdrúbal:

(Nada porque é um cagado e os cagados não falam)

 

(A entrevistada sai e aparece a Leonor Bajoja)

 

Bem este foi o primeiro programa de “Quem quer casar com o meu cagado?”. Percebemos hoje que a luta pela igualdade de direitos esta na merda e a culpa não é só dos homens, é também de otárias que não querem fazer um corno e que não usam a mona para nada. Querem aparecer na televisão e ser incrivelmente famosas a qualquer custo, mesmo que isso ponha em causa o papel da mulher na nossa sociedade. Ahahahahahaha.

Fantástico!

Amanhã não perca mais um programa, vamos conhecer a candidata Josefa Maria que tem 3 filhos maiores de idade, fuma 2 maços de tabaco por dia, está em péssima forma física, mas quer casar com um cagado de 21 anos. Brutal. Ahahahaha.

 

Até ao próximo programa!

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Seg | 11.03.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 2

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_2.png

 

 

Confesso que quando acordei me assustei, senti-me atormentado pela imagem ao meu lado, o cabelo desordenado, a baba no canto da boca e os olhos semiabertos como os de um robalo que morreu contrariado. Tinha fodido aquela criatura na noite anterior e sentia-me compelido a faze-lo outra vez.

Levantei o lençol para a ver nua, tinha uma mata próxima do Amazonas e eu senti-me afrouxar, não conseguia come-la de luz acesa e os estores da minha casa estavam partidos. A luz do dia é incontornável quando não temos como nos esconder dela.

Gosto de ler, sou um tipo culto para proprietário de churrasqueira. Dostoievski, Tolstoi, todos autores que me inspiram. Gosto de falar caro com as minhas galinhas, gosto que os frangos me vejam como um tipo culto. Pouca coisa me dá mais prazer do que ler poesia para os meus pintos.

Ela contorceu-se na cama libertando um ronco igual ao de um porco que já está velho demais para ser assado na brasa. Como era possível que me sentisse forçado a papar aquela foca amestrada de unicelha e bigode à Zé do táxi?

A condição humana é algo que me assusta, o tormento de um homem é o vazio que não sabe explicar, é o preenchimento que desconhece o seio do ser.

Adoro inventar frases que não fazem sentido. A maior parte das pessoas não entende, mas quando as dizemos com convicção suficiente ficam sensíveis quanto á sua própria capacidade de raciocino. É por isso que gosto de aves, cacarejam, bicam o milho e não inventam.

Levantei-me e fui fazer a minha aula de pilates. Cedo percebi que o negócio dos frangos me trazia excesso de stress, sentia-me a acumular toda a energia em mim e tinha de ter onde a libertar, foi aí que conheci a Creuza, uma brasileira de Porto Galinhas que fez um curso online de terapias alternativas e que me ajudava a encontrar o meu centro. Foi com a Creuza que eu descobri o meu eu, foi com ela que percebi que gostava de depenar galinhas antes de comer uma gaja, foi com ela que encontrei o meu escape. Mas agora já não queria a Creuza, precisava de alguém mais, a única coisa que restava era um profundo sentimento de amizade.

 

A Creuza entrou no meu quarto e viu a Cremilde deitada na cama com uma mama descaída, nitidamente flácida e carregada de estrias.

- Credo, qui é que cê viu nessi bizontchi Quim Tó. Sei que ajente já só é amigo, maiz isso é mau dje mais prá você meu amô!

- Não fales assim da Cremilde, não sei explicar porquê mas ela tem qualquer coisa de especial e eu quero mais, quero come-la depois de depenar as galinhas.

A Creuza percebeu que era sério. Percebeu pelo meu olhar que era profundo.

- Meu Deuz! Isso é sério Quim. Tenho pena dje ocê!

- Preciso de manda-la ao teu salão, quero que lhe faças umas massagens e que a convenças a depilar-se, não consigo usufruir dela como quero assim, ia passar tardes a cuspir bolas de pêlo como um gato.

Terminei a minha aula e despachei a Creuza.

Depois de decidirmos ser amigos apresentei a Creuza ao meu tio Constâncio, que é um reformado da Marinha que está viúvo. Tem uma boa reforma porque já era oficial há vários anos quando deixou o serviço militar. Ele precisava de quem o cuidasse e a Creuza estava mais do que habituada a lidar com velhos safados. Agora era gozar do que o velho Constâncio tinha e esperar que ele morra cedo para ela deitar as mãos à reforma.

 

Quando voltei ao quarto ela ainda roncava como uma porca, será que me sentia atraído também por suínos? Nunca tinha pensado nisso.

Fui para o duche, tinha de esfriar a cabeça e preparar-me para os meus frangos.

Segurava no chuveiro com a mão esquerda e limpava a tomatada com a mão direita quando senti que me tocavam nas costas. Voltei-me e encontrei a Cremilde toda nua. Que horror, as mamas eram ainda mais descaídas do que eu tinha visto na noite anterior. Desejei desesperadamente que ela apagasse as luzes, que tapasse aquilo ou que eu conseguisse cegar de repente como acontecia no Ensaio sobre a cegueira. Por momentos imaginei que Saramago havia escrito esta bela obra depois de um momento idêntico ao meu, serenou-me pensar que estava um pouco mais perto de um Nobel da literatura.

- Cremilde ou me esguichas detergente para os olhos ou desapareces daqui mulher! Esse lombo não vê ginásio há anos e eu conseguia fazer o penteado do Elvis com o que trazes aí em baixo.

- Está bem. Eu percebo.

Quando ouvi esta frase pensei que ela haveria de voltar costas e eu poderia pôr os olhos abertos debaixo do chuveiro fazendo com que a força do jato de água me fizesse arder a retina e dessa forma eu me esquecesse da imagem da Cremilde nua, cheia de pelo por todo o lado. Mas em vez disso ela foi buscar o lava-tudo da casa de banho, borrifou-me os olhos e disse que queria retribuir o prazer que havia sentido na noite anterior. Agradou-me a ousadia.

Estava cego como no livro do Saramago e tinha uma mulher de bigode a fazer-me um felácio. A vida só podia melhorar se eu tivesse depenado 10 frangos antes do ato. Mas tenho que reconhecer que foi bom. Muito bom. A Cremilde desafiava-me e eu gostava disso.

Quando saí de casa e a deixei a comer o pequeno almoço, toda borrada da manteiga derretida que escorria das torradas, só conseguia pensar numa forma de a voltar a ver.

Tinha de a mandar depilar-se ao salão da Creuza.

 

Quando cheguei ao carro tinha o vidro partido e um bilhete assustador.

“Ela é minha!”, era tudo o que dizia. Pensei imediatamente do Clementino das Antas, um proprietário de uma churrasqueira no Chão Duro que andava a querer comprar a galinha poedeira do meu fornecedor. Tínhamos um acordo e todos os frangos daquela galinha eram meus, eram mais tenros e os clientes adoravam-nos. Era a minha galinha dos pintos de ouro. Na semana anterior eu tinha pago por fora ao dono do aviário para me guardar todos os frangos daquela galinha, e o Clementino das Antas, sempre segundo no concurso “Churrasqueira d’Ouro de Pinhal Novo” sentia raiva para comigo.

 

À tarde liguei à Cremilde, disse-lhe que tinha hora marcada no salão da Creuza, expliquei-lhe que era uma velha amiga minha e que a ia ajudar a ser uma mulher mais sensual. À Creuza pedi que fizesse o serviço completo.

- Quero a Cremilde toda depilada, quero-a massajada para que esteja tenra como um bife de vaca, quero que lhe dês aulas de pilates 2 vezes por semana para que fique em forma, quero que a leves a uma loja para comprar roupas novas. Quero que esteja bonita.

- Quim Tó meu querido cê tá pedjindo djemaizzzz! Bonita ela nunca vai cê, mais ajentche podje tentá arrumá ela.

 

Mandei um ramo de girassóis à Cremilde, não sei que raio de flores combinam com uma gaja feia e de bigode, mas achei que rosas pudessem ser demasiado ofensivas. A acompanhar os girassóis seguia uma caixa com uma surpresa: a roupa que queria que vestisse nessa noite. O bilhete indicava as horas e onde a iria buscar. Tinha combinado com a Creuza que me ligasse logo que estivesse tudo feito e pelo menos estava a contar que não houvesse tanto cabelo à mistura. O avental ia ficar-lhe a matar. Não conseguia pensar noutra coisa.

O dia passou devagar e a minha cabeça não estava no sítio certo. Tanto assim foi que dei comigo a queimar frangos, que é uma coisa que nunca me acontece e me deixa completamente ensandecido. Pensava na Cremilde quase nua a depenar os frangos e a minha cabeça fugia-me. Como é que um trombolho daqueles estava a afetar-me de tal maneira.

 

Eram finalmente nove horas, eu estava à porta da casa da Cremilde com o meu cabelo puxado para trás com brilhantina e alguma gordura de frango, tinha tomado banho e tinha-me esfregado bem com sabão azul e branco. Faltava-me vê-la e ser surpreendido.

Vinha em direção ao carro com um vestido vermelho traçado que me parecia ter sido comprado quando ela tinha menos quinze quilos. Nos pés uns sapatos de salto alto que ela não sabia usar, tropeçou quatro vezes até chegar ao carro. Parecia que caminhava por uma falésia, pobre coitada.

O cabelo estava arranjado, a cara estava maquilhada e finalmente alguém tinha apartado as águas e podia ver duas sobrancelhas.

- Olá Quim. – disse-me numa voz que queria que fosse sexy mas que suou a uma pássara desgovernada.

- Olá Cremilde. Não posso dizer que estás bonita porque é mentira e o Senhor castiga. Mas aleijas menos à vista. Vamos?

Acenou que sim e eu não me estava aguentar de excitação.

 

Não demorámos a chegar ao meu local especial, era ali que tudo acontecia, era ali que eu tinha o prazer máximo, naquele barracão pré-fabricado verde alface. Fazia parte de um terreno agrícola que eu tinha comprado com os primeiros lucros da churrasqueira, era só meu e motivo de muito orgulho.

- Queres entrar?

Ela confirmou e pisou uma bosta de cão assim que pôs um pé fora do carro. Só me ocorria que ia espalhar merda pela barraca adentro e estava capaz de a levar de volta para casa naquele momento. Era burra que só ela, mas eu queria papa-la e não estava disposto a deitar tudo a perder.

Quando entrámos custou-me ligar o candeeiro porque é uma puxada da vivenda do lado e o proprietário é um cabrão de um caloteiro que nem sempre paga as contas dele, por isso às vezes fico lixado e sem luz. Mas não era o caso, desta vez estava só difícil a ligação.

Num alguidar estavam dez frangos por depenar, ao lado uma cama acabadinha de fazer e a minha roupa de atacar.

- Vou explicar-te como é que as coisas se vão passar Cremilde. É muito simples, está bem?

- Sim.

- Vais tirar a tua roupa atrás daquele biombo porque eu não te quero ver nua, já fui sujeito a isso uma vez e não quero sofrer novamente. Depois pões este avental da feira do chocolate de Óbidos. Estás a compreender?

- Sim.

- Enquanto isso eu vou vestir a minha roupa predileta que é esta sunga de cabedal envernizado e esta capa de super-herói. Depois, vamos depenar os frangos, vamos espalhar as penas em cima da cama e eu vou foder-te em cima das penas. Vou foder-te até que tu cacarejes. Entendes?

- Sim, Quim.

Quando acabámos de nos comer eu não estava em mim, como é que uma feia virgem estava a tomar conta da minha vida? Queria afastar a ideia da minha mente, mas no meu intimo queria dar-lhe tudo. Seria isto o espelho da paixão?

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Qui | 07.03.19

Este NÃO é um blog de humor

Gorda

sério.png

(Começo com esta fronha bem carrancuda para demonstrar a rijeza do espaço, que isto aqui não se brinca)

 

Disclamer: O texto que se segue aparentará alguma dor sentimental e incómodo ao nível do nada, o que corresponde totalmente à verdade. Sou pessoa de incomodozinhos que gosta de questionar a vida, com tendencial esquizofrenia ao nível da organização de coisas no geral.

 


Não sou uma entendida na blogosesfera, nunca fui, nem quero ser. Venho cá apenas algumas vezes, mas sou aquele tipo de pessoa que, quando lhe pedem alguma coisa gosta de ver algum resultado do desgaste causado a participar.
Maneiras que tenho sido diligente a responder a todas as perguntas que me fazem aqui na Sapo. Perguntas essas que acredito terão como finalidade máxima melhorar o espaço para os amantes da blogoesfera e também captar mais alguns leitores de conteúos digitais, esses sacanas esguios que se esquivam na maioria para as redes sociais. A primeira pergunta que me recordo de responder foi sobre a criação de uma categoria nova, um tema, se eu gostar de ler coisas sobre uma determinada coisa posso clicar num botão e voilá. Eu, que sou assim meio palerma e tendo a achar que para séria já chega a vida, escolhi o humor. Apenas recentemente percebi que foi criada essa categoria e pensei "olha, boa, logo que possa vou espreitar". Assim fiz. Para meu espanto há coisas que não me parece que tenham o intuito de ter graça (nada contra os blogues seleccionados e a qualidade dos conteúdos, só me parecem ( alguns) alocados à categoria errada) e muitos outros que conheço e que me fazem rir (a mim e, em alguns casos, a milhares de outras pessoas) nem vê-los.

Curiosa que sou dei uma espreitadela às outras categorias: blogs que não falam de livros na secção de livros, blogs repetidos em mais do uma categoria. Enfim, alguma desarrumação, no meu modesto entender.
Dito isto fiquei com a impressão que talvez faça sentido fazer um Querido mudei a plataforma e garantir umas remodelações para a organização do espaço, começar pelos conteúdos e aloca-los como deve de ser para que o leitor possa encontrar o que procura e se sinta satisfeito em vez de perguntar "porque é que isto está aqui?".

Escrevo isto não enquanto pessoa que escreve umas palermices, mas enquanto consumidora de conteúdos. Há coisas de que gosto e outras que me atraem menos, pelo que, se estas estiverem corretamente divididas em categorias eu posso conhecer e acompanhar mais espaços no sítio em que é suposto estarem. Ou seja, faz com que a minha experiência enquanto leitora seja mais agradável.

Como sugestão (e porque é uma coisa facílima e muito acessível) posso aventar a consulta da lista de candidatos do Sapos de Ano, uma iniciativa bem gira da malta daqui, onde estão muito bem divididos os blogs por categorias e que demonstram as escolhas de quem lê, bem como a perceção sobre a categoria dos conteúdos.

Fica a sugestão.

E já que estamos numa de fazer sugestões para a cor do chão e a textura dos azulejos da parede, porque não dinamizar um pouco mais os conteúdos na pagina principal da sapo? Em vez da lógica tradicional e aparentemente aleatória que tantas vezes resulta sempre nos mesmos e em 4 temas macambúzios, porque não ter 4 temas, por exemplo: humor, opinião, desporto e livre? Garantem variedade de temas e vão ao encontro da lógica aplicada para o Dose diária. Tudo isto enquanto permitem a divulgação de conteúdos criados de forma gratuita, gerando uma win-win situation, como dizem os americanos. A Sapo tem mais conteúdos diversificados para oferecer aos seus leitores sem qualquer custo e quem produz os conteúdos fica todo contente porque tem exposição e oportunidade de mostrar aquilo que faz de forma amadora pelo puro e simples prazer de criar, escrever e entreter.

Não têm nada que agradecer, é gratuito.

 

Ter | 05.03.19

Se a Gorda fosse jornalista: entrevista com Mães com Pinta

Gorda

instante-ana-e-olga-125.jpg

 

 

Hoje temos connosco o leopardo fêmea das mães, tenho o prazer de apresentar (uma pessoa que toda a gente conhece) a Ana Neves, autora do blog “Mães com Pinta” (Instagram e Facebook). A Ana é a mulher dos 487,4 ofícios (sete não dava para descrever a quantidade de coisas que esta mulher faz) e, apesar disso, aparece sempre com um sorriso (que não existirá quando chegar ao fim desta entrevista) e umas palavras amáveis para responder às pessoas que a contactam.

A Ana é psicóloga, é mães de 2 crianças adoráveis (em foto são, na vida real apenas a Ana pode dizer, porque a criança em estático é sempre a criança em estático, dá aquele ar de sossego que não corresponde à realidade), é casada, tem o blog “Mães com pinta”, faz cake design e outras coisas de trabalhos manuais, o que para mim é wow, fora de série e, como ainda não tinha nada com que se entreter, arranjou uma cadelinha Golden Retriever que fará todos os possíveis por garantir que sua dona irá contactar de forma muito próxima com a natureza.

 

Maneiras que não me vou alongar mais com conversa da treta e vou passar à entrevista que é o que as pessoas querem ler na verdade.

(faz de conta que houve lugar àquele momento de “Bom dia. Como está? Bem obrigada.” e passamos ao que interessa)

 

CG - O nome do seu blog é “Mães com pinta”, compreendo que seja um padrão têxtil muito requisitado neste momento, mas leva-me a uma questão periclitante: o que tenciona fazer quando as riscas voltarem em força e as pintas passarem à história?

 

McP (Mães com Pinta) - Sabes Gorda não estou mesmo nada, nada preocupada com isso. Tenho a certeza que as pintas nunca passarão à história. Mas deixa-me lá explicar-te o porquê da minha convicção. Quando decidi criar o blogue, estava a passar por uma fase menos boa, tinha acabado de ser mãe, precisava desabafar e compreender o que se estava a passar comigo. Sentia-me perdida, sem chão e até sozinha. Nessa altura, recordo-me de pensar, no nome do blogue e de o querer associar às mulheres da minha vida. Não me saía da mente a minha avó e a minha mãe. Passaram mil e um nomes pela na minha cabeça, mas assim que surgiu Mães com Pinta, pensei logo é isto. É isto. É tão isto.  A minha avó foi a mulher com mais Pinta que conheci. Era muito trabalhadora, lutadora e super elegante. Tinha um cuidado exímio com tudo. A minha mãe também herdou dela muitas das suas qualidades e das suas características. Ela e a minha mãe marcaram a minha vida e a elas devo a minha existência. E este Mães com Pinta é delas, para elas e também para as minhas duas pintas Duarte e Fernandinho.

Entendes agora a minha certeza? Todas temos uma Pinta na nossa vida, uma marca ficará para sempre no nosso coração e que nunca deixará de existir, nem em padrão têxtil! 

 

CG - Se eu a convidasse para organizar a minha festa de aniversário aceitaria? Requisitos mínimos para a festa: a) tema 50 sombras de Grey (escuras como o breu, que é uma coisa que não há em inglês); b) o bolo teria de ter tamanho real (só para que não haja enganos, gostaria que fosse uma das malas da Prada que o rapaz oferece à mocinha); c) prenda mínima: cão de água português. Sempre sonhei em ter um cão com o mesmo penteado que eu.

 

McP - Opá eu organizo o que tu quiseres, o tema já está escolhido, agora é só dizeres o local e a data. Já agora, para o bolo estou a pensar num daqueles falsos, gigantes com abertura no topo. Estas a imaginar? Já falei com o Bradley Cooper e ele disse-me que terá todo o gosto em “sair” do teu bolo, até faz um striptease se pretenderes, mas aviso-te já que o orçamento irá aumentar de forma gigantesca. Quanto à prenda, essa fica para o ano, já vais ter muito com que te entreter! O Cooper agora está habituado a ter duas mulheres ao mesmo tempo, por isso terás de “dar o litro”!

 

CG - Vi no seu Estagrã que ofereceu uma cadelinha ao seu filho mais velho. Este é um espaço seguro e eu faço ocasionais constatações sobre a vida. Dito isto, como pode calcular, sendo um Golden Retriever é a mãe da criança que o vai passear nos próximos 9 anos e 6 meses. Depois o seu rebento será adolescente e vai ter coisas melhores para fazer, por exemplo namorar com uma rapariga que a mãe não aprova. Assim, e passando aos temas que definem o Universo, importa saber se pretende adquirir uma flexi leash ou uma trela curta (tipo cabo de barco) e 10 sessões de treino com o Cesar Millan para a bicharoca? Recomendo a primeira se gostar de natureza, porque é provável que, mesmo sem vontade, acabe a abraçar muita árvore.

 

McP - Estou fodida (desculpa a linguagem) com a cadela. Nem imaginas. Já a amo de paixão mas este primeiro mês já pensei devolvê-la montes de vezes. Ela estraga tudo, come tudo, gosta de roer tudo, quando digo tudo é mesmo tudo. Degraus, porta, tapetes, sofás, brinquedos, cadeiras, cortina, por isso acho que vou optar mesmo pelas 10 sessões de treino com o Cesar Millan. Como ele diz “nunca trabalhe contra a mãe natureza”, então ele que a ensine pf.

 

CG - A amamentação é um tema que a aporrinha, na medida em que pessoas estranhas se sentem no direito de decidir o que deve fazer com as suas mamas (doravante passarei a referir-me às suas mamas como Claudileine e Maria do Pecado, pareceu-me correto dar-lhes nome para que sintam que não são mais duas na multidão, têm rosto). Dito isto, concorda com os nomes? Gosta de sopa passada ou, como boa mulher do Norte prefere sopa de entulho? Acha que Claudileine e Maria do Pecado são mesmo propriedade sua ou que 50 % passou a pertencer ao seu marido, em resultado do casamento por comunhão de bens?

(temos sempre uma questão kinder, não é de chocolate, mas cria 3 vezes mais satisfação)

 

McP - Concordo em pleno com os nomes! Relativamente à sopa, eu adoro a sopa de entulho, com muito feijão, carne, couve, batata, nabo, etc ,mas o meu intestino não concorda. A “minha” doença de crohn, queixa-se automaticamente e eu é que sofro, portanto é algo que me vejo obrigada a evitar.  Em relação à Claudileine e Maria do Pecado são minha propriedade, estão até registadas no INP, mas de vez em quando até deixo o meu marido usar! Ele merece, não é fácil me aturar!

 

CG - Em 2030 o seu filho mais velho pede-lhe que lhe financie uma volta ao mundo, mas a Ana considera que é excessivo e não está preparada para que o seu filho ande por terras menos seguras, por isso oferece-lhe uma viagem a Ibiza. Anos mais tarde, em 2065, a Ana compreende que a velhice está a atacar e diz ao seu filho que gostaria de ir para um bom lar (daquelas residenciais sénior todas dondocas com vista mar e coiso). Ele coloca-a num asilo, com um quarto sem janela, em que a única atividade disponível é jogar à sueca às quartas-feiras à tarde.

Qual das seguintes emoções lhe causou esta perspetiva de futuro:

a) Ficou tão arrepiada que não vai conseguir continuar a trabalhar;

b) Começou uma conta poupança para patrocinar a viagem ao miúdo, caso se verifique esse pedido;

c) Ficou com uma profunda vontade de espetar um valente banano à entrevistadora;

d) Está arrependida de ter aceite participar nesta palermice.

Por favor, se ainda tiver estômago, fundamente a sua resposta.

 

McP - Resposta B, ele tem uma conta poupança desde que nasceu. Aos 18 anos que faça o que quiser com o dinheiro mas filho, se por acaso tiveres a ler esta entrevista, em 2030 e se me quiseres levar contigo, eu vou com todo gosto e prometo não ser estorvo na tua viagem.

 

CG - Ora pois que não podemos ir embora sem que complete a seguinte frase “Quando consigo pespegar com os putos na casa de amigos ou família eu…”

 

McP - …penso que estou no céu!

 

CG - O que diz o seu estômago depois de comer uma francesinha?

 

McP - Soube-me a pato!

 

Obrigada Gorda por esta entrevista e tenho a certeza que és uma Mãe cheia de PINTA!

OBRIGADA

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Pág. 1/2