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Casa da Gorda

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Seg | 04.03.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 1

Gorda

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Quando acordei estava a barbar-me para a almofada, há anos que é assim, deito-me de barriga para cima, com as mãos uma em cima da outra, mais ou menos como fizemos com a minha tia Lucrécia quando a deitámos no caixão. Tinha lido numa revista que dormir muito direita evitava as rugas na cara e para me inspirar imitava a tia Lucrécia. Sempre foi a minha tia favorita, primeiro porque ficava muito melhor vestida de mulher do que o meu tio Vítor, que insistia em andar com as roupas de trabalho da Josefa, que trabalhava num bar de alterne às quintas-feiras, depois porque me ensinou a ter amor próprio, a aceitar-me como sou e isso teve um valor incalculável para mim.

Por isso deitava-me e pensava “agora sou a tia Lucrécia”, fechava os olhos e deixava-me dormir. Mas os sonhos eram agitados e envolviam sempre o Zé da Pá, que guiava a máquina de limpezas de estrada da Câmara e passava lá na Junta para deitar charme e entregar umas guias.

A Custódia estava sempre a dizer que ele não estava a olhar para mim, que o Zé sofria de um mal dos olhos que se chama estrabismo e não conseguia olhar para uma a direito, mas eu sempre soube que a Custódia era uma víbora e não lhe dava ouvidos.

Tinha acabado o 12º ano com média de 10 valores, o que deixou a minha mãe muito feliz, como ela me disse “burra como és não estava nada a contar, felizmente a escola agora é mais fácil, no meu tempo estavas lixada!”. A minha mãe tentava sempre ver o lado bom das coisas e tinha uma forma muito agradável de aceitar a evolução dos tempos.

Depois de concluir os meus estudos pensei em ir para a universidade, mas a verdade é que me fizeram uma oferta irrecusável: trabalhar na secretaria da Junta de Freguesia de Sarilhos Grandes. Que honra! Sempre quis trabalhar na Junta. Lembro-me de ser muito pequena e de estar à porta da gelataria com a minha mãe a ver as senhoras a entrar importantes na Junta, sabia que um dia queria ser como elas. Consegui cedo dar os primeiros passos na carreira que queria para mim. E conseguia ir a pé para casa, o que é um privilégio, como dizia o meu vizinho Asdrúbal, que trabalhava na Câmara de Lisboa e tinha de andar de transportes mais de uma hora para chegar a casa.

Uma mulher com uma carreira e com privilégios.

A vida corria-me bem, mas faltava alguma coisa. Tinha tanto amor para dar e não encontrava o homem perfeito.

 

Fui até à casa de banho e fiz a minha higiene, um dia normal. Pus espuma do LIDL no cabelo, ajeitei a minha monocelha e penteei o meu bigode. Já tinha tentado depilar-me com cera, mas a minha pele fez alergia e eu fiquei deprimida. Porque raio me havia de acontecer a mim? Foi aí que a minha tia Lucrécia me falou da Frida Kahlo, uma pintora importantíssima que vivia num dos países espanhóis. Tinha monocelha e bigode, mas mesmo assim era uma maluca e tinha encontrado o amor. “Para além disso, mesmo sem bigode não melhoras, pelo que mais vale não te sujeitares à dor”, disse a minha tia Lucrécia. E tinha razão. A beleza vem de dentro, era o que ela me queria transmitir. Confirmei-o com um post de Facebook da Marlene. Uma grande amiga que teve um acidente de viação grave a agora sofria de alguns distúrbios mentais.

 

Cheguei ao escritório dez minutos antes da hora, como aliás fazia sempre. Gostava de ter o computador ligado quando entrasse o primeiro cliente, acho que demonstrava o meu profissionalismo e competência, apesar de ter apenas conhecimentos na ótica do utilizador para a maior parte dos programas e a Custódia acabar por me pedir para colar selos e pôr carimbos a maior parte do dia.

Mas hoje a Custódia tinha uma tarefa diferente, queria que eu fosse à Churrasqueira comprar seis frangos para o almoço de toda a equipa, ia haver uma festa qualquer e ela fazia questão de comemorarmos juntos.

Às 12 horas em ponto eu estava a entrar na Churrasqueira, estava nervosa porque era uma grande responsabilidade, se alguma coisa acontecesse aos frangos ninguém teria almoço. Entrei e vi um homem encostado à grelha, quando ele se voltou para mim senti uma coisa que nunca me tinha passado pela espinha. Estava arrepiada e estava a começar a picar-me na orelha. Foi aí que senti a pancada.

- Porra você não deu conta da aranha que lhe estava em cima da orelha? Parece que é parva!

Era a funcionária que tinha ido buscar um mata-moscas e me tinha arreado com ele na orelha para matar o aranhiço. Eu não tinha dado por nada.

Mas ele não ficou indiferente, quando me viu quase desfalecer correu para mim deixando os frangos em risco de ficar chamuscados.

- Estás bem?

- Acho que sim. Não vi a aranha.

- Eu percebi. Senta-te um pouco. Vou buscar-te água.

Bebi um pouco de água e quando reparei ele estava com uma das grelhas dos frangos na mão a olhar-me de forma intensa.

- Queria seis frangos, dois deles com picante. – disse a medo.

- Seis frangos? Vais come-los com quem?

- É para um almoço de equipa.

- O teu namorado está lá.

- Eu não tenho namorado.

Ele sorriu.

- Onde é que trabalhas?

- Na Junta.

- Então vinhas levantar a encomenda da Custódia. Devias ter dito, porque agora ia fazer mais seis frangos e ia ficar fodido quando percebesse que tinha estragado produto. Detesto estragar frangos.

- Desculpa. – disse sem jeito e a ficar toda vermelha.

- Passo na Junta daqui a pouco para levar os frangos. É possível que sejas burra demais para os transportar.

Quando saí ele piscou-me o olho e eu estava a soar por todo o lado. Nunca me tinha sentido assim. Que homem.

Pouco depois de eu ter chegado ele apareceu com os frangos, cumprimentou toda a gente e quando passou por mim lambeu os lábios. Não sei se estava a tentar passar uma mensagem ou se tinha ficado com um bocado de molho picante na boca.

 

Quando saí do trabalho ele estava lá à porta, tinha uma carrinha Mercedes Vito em segunda mão que tinha mandado pintar porque a tinha recuperado da sucata. Contou-me. Convidou-me para um café porque me queria fazer uma proposta. Uma proposta muito séria.

- Queres comer alguma coisa?

- Sim. Pode ser um mil folhas e um galão.

Ele pediu à empregada. Não comeu nada e ficou a ver-me comer.

- Então, o que é que me queres propor?

- Falas com a boca cheia, pareces uma porca, gosto disso. Gosto de ti Cremilde, do teu bigode, da tua unicelha, da tua forma de estar. Fazes-me lembrar uma prostituta que eu conheci e que me deixou porque casou com um velho que a tirou da vida.

- Ela deve ter sido importante para ti.

- Foi.

- Porque não ficaste com ela.

- Porque ela casou com um reformado, que provavelmente vai morrer antes de mim e ela assim fica com a reforma e não tem de voltar a atacar. Compreendes?

- Acho que sim. Atacar quem?

- Olha a minha proposta é simples: quero comer-te. Quero comer-te, mas eu tenho gostos muito especiais e para isso preciso que assines um contrato.

- Um contrato? Como um contrato de trabalho?

- Mais ou menos isso.

- Está bem.

 

No dia em que combinamos apareci em casa dele. Levava o meu vestido creme de alças. Era um pouco justo porque estava dois números abaixo e eu tinha-o comprado quando pensei em fazer dieta, mas estava sempre a adiar porque gostava muito de mil folhas. Por baixo levava as minhas cuecas de gola alta com desenhos da Minnie e o soutien de renda que herdei da tia Lucrécia.

Sentei-me e preparei-me para assinar.

- Nem vais ler? – perguntou-me ele intrigado. Estava lavadinho. Cheirava a sonasol verde e tinha o cabelo todo para trás com brilhantina, podia ver bem que lhe faltava um dente de lado e estava curiosa por ver o pendente que estava no fio que lhe entrava para a camisa meio aberta. Perdido no peito gordo e cabeludo do Quim Tó.

- Quero que me comas Quim. Estou a arder e não quero perder tempo a ler.

- Estas a arder porque te sentaste em cima da caixa de frango que eu trouxe para jantarmos.

Tirei a caixa, mas estava a arder na mesma.

- Cremilde, eu gosto de coisas.

- Eu também Quim!

- Eu gosto de depenar dez frangos antes de saltar para a espinha de uma mulher.

- A sério? Porquê?

- Porque eu amo frangos e gosto de os ver depenados, Cremilde. Quero que os depenes comigo e depois quero comer-te.

- Tá bem.

- Alguma vez depenaste frangos antes de foder Cremilde?

- Eu nunca fui tocada Quim…

- És virgem?

- Sim.

Vamos resolver isso.

 

O Quim pegou-me pela mão. Tirou-me a roupa e disse que tinha de apagar a luz quando viu as minhas cuecas. Disse que não punha a cara sem que eu me depilasse e eu não percebi bem, mas acho que teve que ver com o meu nervosismo.

Foi uma noite linda, escura, mas linda.

- Da próxima vez depenamos frangos antes. – disse o Quim.

E eu não mal conseguia esperar por esse dia.

 

 

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