Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Casa da Gorda

Casa da Gorda

Ter | 30.04.19

Eu não quero ser FIT

Gorda

(imagem retirada do Google)

 

 

Cheguei recentemente a duas conclusões: a primeira é que eu não quero ser FIT, a segunda é que tenho de escrever um livro sobre o facto de não querer ser FIT, porque livros sobre pessoas que querem ser, são e aconselham a como ser já há em excesso.

 

Então e porque raio te deu para chegar a estas conclusões? Perguntam certamente as pobres almas que estão a ler estas linhas.

Porque estou farta destas modernices. Eu nasci no século passado, numa era em que as pessoas iam ao pão, faziam as próprias refeições, havia um consenso relativamente ao que fazia bem e ao que fazia mal e as pessoas faziam desporto em português. Ser FIT não é estar em forma, é fazer parte de uma espécie de tribo urbana e eu não gosto de ajuntamentos de pessoas.

Primeiro apareceram as atividades desportivas com nomes estrangeiros, se não estou em erro a primeira a cruzar a fronteira foi o Step, que consiste em subir e descer um degrau centenas de vezes e de diferentes formas. Se uma pessoa subir as escadas do prédio de forma engraçada, as pessoas pensam que somos parvos, se usarmos apenas um degrau e fizermos movimentos descoordenados com os braços, é desporto. Certo. A parte mais gira é ver pessoas pagar para cima de vinte e cinco euros para subir e descer um degrau, mas depois para subir as escadas do prédio e chegar ao segundo andar vão de elevador. Alô coerência? Estás aí?

Parece que não.

Depois disto veio o running.

O running é uma coisa que chegou de repente e trouxe consigo uma serie de parafernália cara. Relógios, calças, tops, ténis, timings, apps, e mais-não-sei-o-quê. O runner não é a mesma coisa que uma pessoa que corre. Livrem-se de achar isso. Uma pessoa que corre veste uns calções e uma t-shirt velha que já não serve para mais nada e vai para a rua dar à perna durante um determinado tempo ou por uma determinada distância. Leva relógio para não chegar atrasado à hora de jantar. O runner leva um relógio de duzentos euros, umas calças que ajudam a passar pelo vento, uns ténis de duzentos gramas, um corta vento de pele de pinguim e no telemóvel a app já está a registar o percurso para a pessoa depois publicar nas redes sociais usando o hashtag #noexcuses.

 

A pessoa FIT só faz desportos estrangeiros e eu cá gosto de fazer exercício na língua de Camões. Esse é um dos motivos.

 

Andar de bicicleta é cycling, correr é running, subir degraus é step; isto para não falar numa panóplia de aulas de grupo que têm como nome equações do 9º ano.

 

Ser fit é demasiado estrangeiro para este lombo lusitano.

 

Ao desporto acresce a necessidade de comer de uma determinada forma. A pessoa FIT não come bolas de Berlim com satisfação e porque quer. A pessoa FIT come um bolo porque é o seu dia da desgraça, ou refeição da desgraça que, como não seria de estranhar é o cheat day (lá está, para ser FIT é tudo em estrangeiro). Ao que parece para ser FIT é preciso comer muito abacate e adorar lanches que são um punhado de pevides ou latas de atum ao natural com abacate.

 

O abacate está lá sempre. Eu tenho na minha cabeça este cartoon de um abacate a passar de pantufas à porta de uma pessoa FIT. Ele não quer ser ouvido.

 

As refeições não levam açúcar, nem glúten, nem lacticínios e esbanjam ingredientes de países sul Americanos porque têm coisas super. Há sempre uma forma de cozinhar as comidas tradicionais e a palavra dieta está proibida. É reeducação alimentar. As pessoas FIT dizem não à fome e malham coisas com manteiga de amendoim da Prozis porque têm um código para dar descontos.

Quando querem um muffin comem um da Prozis e aconselham a utilização do código. Mas tem de ser um muffin, porque se for um queque não há e esses malvados têm açúcar de certeza.

As pessoas FIT fazem treinos funcionais e levantam pesos de forma valente. As pessoas FIT desejam a época de verão, preparam-se para a época de verão, tiram boas fotografias de biquíni e aconselham as pessoas a aceitar-se como são.

 

Para ser FIT eu tenho de gostar demasiado de mim e eu não consigo.

 

Eu tenho defeitos. Mas tenho defeitos a sério. Eu não acho que a pior coisa em mim é a minha falta de paciência para com pessoas parvas, ou ser demasiado persistente com a vida. Os meus defeitos não estão nos outros, estão em mim. Há coisas no meu corpo que eu não consigo mudar mas que gostava de ter o apoio de um cirurgião para o conseguir.

Ainda assim vou convivendo com o que tenho sem achar que preciso de aparecer sensual em fotografias para que se note que eu faço abdominais para caraças. Até porque não os faço.

 

Quando eu era miúda nós fazíamos exercício para estar em forma e para não sermos balofas, era simples. Agora é demasiado complicado estar em forma, é preciso inspirar e contar às pessoas que corremos e que nos sentimos melhor por isso e que o Crossfit muda as nossas vidas e que os treinos funcionais dão para qualquer um porque são curtos.

 

Ser FIT é demasiado cansativo para este lombo preguiçoso.

 

Cheguei à conclusão que não quero ser FIT. Muito porque não tenho perfil para isso e não consigo dar conta do recado.

Eu não quero ser uma devoradora de abacates.

Eu não quero tomar suplementos para prevenir não-se-o-quê mesmo fazendo uma alimentação equilibrada.

Eu não quero contar calorias.

Eu não quero fugir do açúcar. Somos amigos. Eu como-o e ele faz-me feliz.

Eu não quero ter de vestir roupa a condizer para treinar. Quero levar a minha t-shirt com buracos.

Eu não quero ter um relógio que saiba mais de mim do que eu (a menos que seja giro e fique bem com a minha roupa).

Eu não quero publicar os exercícios que faço.

Eu não quero motivar ninguém nem inspirar o que quer que seja.

E acima de tudo, eu não quero usar o hashtag #noexcuses.

 

Há poucas coisas que me fazem fechar a net mais depressa do que um bom #noexcuses. Para que é esta porra? Foste correr? Bom para ti. Ainda bem, vais ficar com umas nalgas bem boas. Eu não consegui. Ou se calhar consegui mas com tanto sacrifício e falta de vontade que só quero esquecer que essa tarefa já está feita. Se o fiz foi por mim, apesar de todas as justificações válidas que tinha para não o fazer. Não são desculpas, são justificações. Esta ideia de que as pessoas, com dias tramados, arranjam desculpas para não cuidar de si é a maior desculpa para ter o que dizer.

Por isso pessoas, é um pedido. Façam o que têm de fazer, mas deixem-se disso das desculpas, o que vos pode parecer que é uma coisa esfarrapada pode não ser na vida dos outros. Estar cansado depois de um dia que começou às seis da manhã com uma noite mal dormida não é uma desculpa, é a vida.

 

Cheguei a esta conclusão pessoas: eu não quero ser FIT. Não tenho estofo para a coisa.

 

Quero cuidar de mim o melhor que consigo, quando consigo.

Quero fazer exercício e guardar essa informação para mim, porque, afinal de contas, foi por mim que o fiz.

Quero comer uma bolacha com pepitas de chocolate todos os dias e não quero pensar nisso.

Quero beber o meu copo de vinho sem pensar que era melhor água ou chá não adoçado.

Quero beber a bica (ou descafeinado) com (pelo menos) meio pacote de açúcar sem sentir a necessidade de fazer as minhas papilas gustativas acreditar que só aprecia café quem o bebe puro (macho style).

Quero ter os cuidados mínimos com a minha alimentação, que é maioritariamente saudável e por isso inclui bolachas com pepitas de chocolate e a ocasional taça de ferradura.

Quero manter a minha sanidade mental e ter mais temas de conversa quando alguém fala comigo.

Quero fazer os treinos que me dão prazer (o possível) de entre o que há à disposição.

Quero estar em forma, na língua de Camões e deixar o fitness para quem entende disso.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Seg | 29.04.19

Para mães, grávidas e mulheres que andam a pensar nisso

Gorda

Nota importante para as pessoas que acreditam que os dragões cor de vinho com duas cabeças existem: este não é um post pago, isto não é publicidade e eu não sou sócia do espaço. A Mafalda, uma leitora que é enfermeira, pediu-me para divulgar esta iniciativa e eu, como achei que pode ser interessante, disse que sim.

Para chegar ao meu destino com este texto vou falar de duas memórias:

Quando eu fiquei grávida decidi ir fazer um curso pré-parto, como não conhecia nenhum sítio na minha área de residência lá me inscrevi num espaço em Lisboa. As aulas eram aos sábados de manhã e lá estavam cerca de 12 casais aterrorizados pelo que estava para vir. Falámos de inúmeras coisas úteis, muitas das quais já não me lembro porque já ultrapassei essa fase e não me quero meter nisso outra vez; aprendemos a tomar conta de bebés e as outras anotaram dicas para o parto. Sim, as outras, eu já sabia que ia ser cesariana pelo que me borrifei para andar a contar contrações e rolhões não-sei-quê. Eu brilhava a tomar conta do nenuco, afinal de contas o boneco não fazia nenhum dos três B's, não se borrava, não se babava e, acima de tudo isso, não berrava. Ainda assim deixei cair o boneco de forma aparatosa dentro da banheira e o enfermeiro disse-me "tinoni-tinoni". Eu ri-me porque o puto ainda andava às braçadas na minha barriga.
Esta é a memória número um.

Quando eu era miúda ia com os meus pais ao pão de açúcar na Cova da Piedade para fazer as compras da semana. A minha mãe tratava de tudo e o meu pai atracava-se às bancas onde estavam a dar coisas. Aprendi que não devemos desperdiçar coisas grátis.
Esta é a memória número dois.

 

Dito isto quero dar-vos a conhecer o Projeto Maria Mamã. A Mafalda (uma enfermeira e leitora simpática) contactou-me este fim de semana para saber se eu podia divulgar este projeto que tem por objetivo a saúde da mulher, com principal enfoque nos cuidados preconceção, gravidez e pós-parto.

Vão ter um Open Day no dia 4 de maio onde terão lugar algumas atividades, onde se inclui um workshop com a Mafalta Sena (Senas Saudáveis) e um showroom de lojas do Montijo.

O Open Day terá lugar no ginásio Evolution no Montijo.

Todas as atividades são gratuitas, mas é obrigatório que se inscrevam para poderem assistir. Para tal podem contactar para o Ginásio Evolution do site da Bebé Vida ou através do mail mariamamãmontijo@gmail.com.

No fim parece que ainda há umas ofertas e brindes e eu tive que amarrar o meu pai para ele não ir fingindo ser uma grávida de 9 meses. Só eu sei o que aquele homem gosta de uma coisa grátis.

Podem ver mais informações no panfleto abaixo.

 

Maria Mamã.jpg

 

Sab | 27.04.19

De esfregona e balde nas redes sociais

Gorda

 

 

Aderi às redes sociais em 2014, percebia pouco da coisa (e ainda percebo muito pouco), não achava graça nenhuma a ter Facebook e nunca tinha ouvido falar do Instagram. Era uma alheada no que à internet dizia respeito, aliás, até meio de 2015 nunca tive um smartphone, o Bucha Marido bem que me queria comprar um, mas eu dizia que estava bem com o meu stupidphone, cá agora andar agarrada ao telemóvel todo o dia.

Uns amigos começaram a insistir comigo que era giro, que não precisava de pôr fotografias, que podia apenas seguir páginas pelas quais tinha interesse e ficar a saber de informações úteis que de outra forma se calhar nem ouvia falar. Quando abri a conta e depois de mandar o meu convite para ser amiga de duas ou três pessoas mais próximas, comecei a receber pedidos de amizade, e eu “é lá! Mas comé-qu’esta gente me descobriu?”. Como a criança que fica doida com o boneco novo no Natal, achei graça aquilo e procurei pessoas que não via há mais de 10 anos. Colegas de escola e amigas cuja ligação se foi perdendo porque as vidas vão seguindo o seu rumo e quando damos conta há 3 anos que não almoçamos juntas.

Tudo muito engraçado.

Apareceram as pessoas de família que eu desejo nunca encontrar e começaram os pedidos de amizade de pessoas do trabalho com as quais nunca troquei dois dedos de conversa mas que agora, aparentemente, queriam ser minhas amigas.

Estranho.

Lembrei-me da Bárbara, a miúda que conheci no meu primeiro dia de natação, tinha eu 6 anos. Perguntou-me “queres ser minha amiga?” e eu disse que não sabia. Conhecia lá a pessoa para saber se queria estabelecer uma relação de amizade. Nunca compreendi esta coisa de se perguntar a outra pessoa se quer ser amiga, namorada ou conhecida (aquela coisa na adolescência do “posso conhecer-te?”). As coisas acontecem naturalmente, sabe lá a gente à cabeça.

Dei comigo com cerca de 100 amigos virtuais, dos quais 25% já não via há quase 10 anos, 25% são familiares de quem não gosto, 25% são colegas de trabalho que mal falam comigo e os restantes as pessoas com as quais efetivamente tenho uma ligação e de quem gosto de verdade. Comecei a estranhar as pessoas que têm mais de 1000 amigos. Como é que uma pessoa chega a ter mais de 1000 amigos? Eu não conheço 1000 pessoas, quanto mais.

 

Ao principio punha umas fotos, partilhava coisas, mas sempre me senti um pouco parva com aquela coisa de publicar as saladas, as pernas na praia, as selfies do “estou aqui”. Achava graça às fotografias acompanhadas de conteúdo verdadeiro, daquele que sabemos que saiu daquela pessoa e não foi feito por encomenda para os amigos colocarem um “gosto” na publicação.

Não foi preciso muito tempo para me fartar, as fotografias de mortos em formato passe digitalizadas com textos lamechas e declarações de amor que nunca foram ditas em palavras ou gestos às pessoas visadas, lutos por quem não se conhece estampados por cima de fotografias onde a pessoa não prescinde da sua “happy face” e da sua sensualidade (que pelos vistos vem do interior), mensagens de amor para maridos e mulheres de quem se queixaram no dia anterior, tentativas de tentar deixar os outros a pensar que as vidas são tão mais, quando na verdade são igualissimas às nossas.

 

Mas ia fazer o quê, desamigar? Até desamigava, mas as pessoas levam a peito esta coisa de as desamigarmos no Facebook. Não se ralam se não lhes desejamos boas festas por mais de 10 anos, mas se não aceitamos o pedido de amizade virtual ou se as desamigamos, aí é o que o caldo está entornado. Por isso lá andava eu, a evitar entrar no Facebook, porque me aborrecia aquela fantochada toda, mas não sabia o que fazer. Foi aí que uns colegas de trabalho iluminados me ensinaram a possibilidade de ser amigo, sem seguir. É uma coisa extraordinária diga-se de passagem, porque uma pessoa pode ser amiga de outra, mas não tem de a ver. Isso é fantástico. Devia ser aplicado a tudo na vida. Aquilo que eu não gosto, não vejo. Já dizia o outro: porreiro pá!

Nesse momento soube o que tinha de fazer, já os tinha assinalados por categorias e fiz uma razia completa. Neste momento não sigo a maior parte das pessoas que são minhas amigas no Facebook, e digo-vos que é um descanso.

 

Assim, estes foram os critérios:

 

Pessoas que fazem textos lamechas para mortos colocado fotografias tipo passe da pessoa falecida

Tenham dó de mim. Epá que tenham saudades das pessoas eu percebo, que queiram dizer umas palavras bonitas a uma pessoa que amavam, aceito. Agora fotografias tipo passe da pessoa falecida? Não me moam. Mais, estas são as mesmas pessoas que em vida nunca colocaram uma única publicação com a pessoa visada. Morre, pronto, todo o feed da pessoa é sobre o morto. Tenham santa paciência.

Depois as pessoas esquecem-se sempre que as conhecemos (a maioria) na vida real, sabemos que nunca deram grande atenção aos pobres que patinaram, mas agora, na senda pelo bonequinho amarelo a lacrimejar, andam anos nisto.

Não me moam.

 

Pessoas que põem fotografias sensuais acompanhadas de frases de merda que querem convencer os outros de que o interior é que importa

Se ainda não tinham sido varridas na primeira variável, são agora. Detesto sensualidade sonsa. Ora bem que a pessoa se acha sensual, pousa sensual e diz que está sensual, ou está calada. Merdas como “a beleza vem do interior” quando a pessoa tirou umas vinte selfies e escolheu aquela que deixa ver mais decote. Tenham dó de mim!

 

Pessoas que amam os cônjuges (legais ou ilegais que há muita gente a viver em pecado) no Facebook, mas que falam mal das criaturas na vida real

Não tenho pachorra! Problemas todos temos e eu não tenho um casamento santo nem perfeito. Acho que ninguém tem. Agora passar meia hora da minha vida a ouvir alguém serrar presunto no cônjuge, dizer que está para sair de casa, que a pessoa é má e não presta e o diabo a quatro e depois espetar com uma fotografia dois dias depois a dizer “a vida sem ti não faz sentido”. Puta que pariu mais esta conversa.

 

Gente que transmite momentos privados em vez de estar a conviver

Sim, falamos de pessoas que estão a jantar (exemplo: casais) e que ele diz para ela qualquer coisa no Facebook e ela responde pelo Facebook. Só estão os dois à mesa. Pessoas, quão entediados estão vocês com a companhia um do outro para estarem a elogiar a mesa de queijos e a companhia para valorização dos internautas amigos? Eu identifico 2 problemas: secura vaginal e incapacidade peniana.

É pá, a sério!

 

Pessoas que estão sempre a contar os meses de casamento

Foda-se! É o que me ocorre quando penso nesta gente. “Hoje faz 1 ano e 1 mês!”. Para quê? O que é que isso interessa? Arranjem um quarto, dispam-se e façam qualquer coisa. Por Deus!

 

Gente que parece estar morta virtualmente

São aquelas pessoas que suspeito que aceitaram o meu pedido de amizade (tipo, pessoas que andaram comigo no secundário) e que depois parecem estar inativas, eu também publico pouco, mas pronto dá-me assim a ideia que não me seguem a mim também e como eu sou a modos que vingativa, toma que não te desamigo, mas caguei para o que tu fazes.

 

E é isto, tenho uma rede social muito mais limpinha, sigo as páginas que gosto e que me fazem rir e estou muito contente com as minhas escolhas.

 

Obrigada e resto de bom fim de semana.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Qua | 24.04.19

Vamos falar de privação de sono?

Gorda

sono.png

 

 

 

Hum, que petisco.

 

Antes de avançar com este texto importa tirar do caminho um esclarecimento essencial: eu, escrevo enquanto pessoa que tecla e regista palavras e enquanto pessoa que sofre, neste preciso momento, com uma condição alucinante de privação de sono, sendo que o pouco que tem é de fraca qualidade.

É importante prestar este esclarecimento porque o mais provável é que as coisas venham a perder o sentido e eu não tenho capacidade de raciocínio para me responsabilizar pelo tempo que o leitor irá perder.

 

Dito isto e estando todos certos de que sabemos ao que vamos vou dar início à minha dissertação.

 

Amo dormir. Gosto tanto de dormir como gosto de comer um valente palmier duplo com creme de manteiga polvilhado com açúcar de confeiteiro. É um prazer. A capacidade de acordar a saber que tenho a cabeça descansada depois de horas a sonhar que faço coisas magnificas, como sonhar com histórias de amor em que eu sou uma beleza escultural e ele também, ou que sou uma multimilionária que só faz o que quer; depois de tudo isto, apesar de acordar para compreender que a realidade é muito diferente dos meus sonhos, a cabeça está contentinha.

Lembro-me de quando eu dormia a manhã toda de sábado, tudo para me levantar, vestir o robe e, depois de almoçar (ou tomar brunche que agora é mais fino, particularmente se bem escrito), ir sentar-me no sofá a ver uma sessão de filmes enquanto comia tortas Duncake intercaladas com Estrelitas.

Bons tempos.

Algumas pessoas veem o sono como algo inútil, frases como “tenho tempo para dormir quando morrer” nunca me fizeram sentido, ainda que também não as conteste a quem as profere. Cada um gosta do que gosta, cada um precisa do que precisa, enfim, como diz o meu sábio pai depois de beber um copo (a sapiência apura sempre com o álcool) “cada um é como cada qual”. E mais nada.

 

O meu bom entendimento com o sono acabou no dia em que o meu filho veio ao mundo. Dizem que Deus dá de um lado e tira do outro e talvez tenha sido isso que aconteceu. Deu-me um filho que é mais o que eu podia pedir, e suprimiu todo o sono que eu amava ter. No primeiro mês de vida do meu filho eu não dormi sequer 2 horas por noite. O miúdo tinha os sonos trocados. Eu tinha lido livros a mais e queria fazer tudo como estava escrito (lá está a eterna história da mãe perfeita que só existe nos filmes) e estava já a dar com a cabeça nas paredes.

O miúdo acabou por começar a dormir quando um dia o pousei na minha cama e apaguei de cansaço no segundo em que o pousei. Lembro-me desse momento ainda hoje. Lembro-me de ter acordado horas depois, toda torta, cheia de dores no pescoço e do pânico que senti quando percebi que tinha pousado o miúdo na minha cama, entre mim e o meu marido. Lembro-me de ter começado aos gritos proferindo todas as hipóteses de desgraça que podiam ter acontecido porque me deixei adormecer.

O meu marido, que lida melhor com a privação de sono e é mais sensato em qualquer circunstância, tentou fazer-me ver o exagero. Eu só aceitei o argumento duas semanas depois. Provavelmente porque duas semanas depois eu já estava a conseguir dormir mais e a minha cabeça estava capaz para pensar.

O sacana do puto gostava (quer dizer, gosta) de dormir na nossa cama e quando lá ficava deixava-nos contar umas ovelhas.

Pensei “que se foda, o puto dorme onde quiser, desde que consigamos dormir todos. Temos de descansar. Já estou por tudo”. Isto aconteceu mais ou menos na altura em que eu percebi que os livros que ditam regras de como se criam os miúdos de forma perfeita são escritos por pessoas que dizem coisas formatadas como se as crianças não fossem pessoas com características individuais, mas dossiers que encaixam em qualquer prateleira da mesma forma, desde que alguém limpe bem o pó.

 

A questão é que 4 anos volvidos meu miúdo ainda não dorme a noite inteira (ou raras vezes dorme a noite inteira), acorda de quando em vez, quando fica na nossa cama enche-me o corpo de pontapés e é comum acordar às 3 da manhã com um pé 28 enfiado no meu nariz. Acordo, ajeito-o e volto a pousar a cabeça na almofada. Quer dizer, desculpem, na mesa de cabeceira (é o espaço que sobra muitas vezes).

 

Já fiz as pazes com a realidade de que cada mãe é uma mãe diferente e que qualquer boa mãe ama os seus filhos incondicionalmente sem ter que ser igual às outras. Já fiz as pazes com a realidade de que cada criança é uma criança e o meu filho será o melhor que ele conseguir ser, sem que eu tenha de ser o demónio porque não o levo a 245624265 workshops sensoriais por ano. Ainda não consegui fazer as pazes com o meu sono. Preciso de dormir 7 horas por noite para que a minha cabeça fique tranquila, para que a minha capacidade de raciocínio fique plena e eu ande mais tranquila e menos neurótica. Não consegui atingir isto, nem me habituar ao seu oposto.

 

A privação de sono faz-me ter náuseas. Faz-me baralhar factos e ter menos paciência. Faz-me ficar como uma criança que não sabe o que é que quer, que alguém decida por ela, mas que ao mesmo tempo tenha a capacidade de, nessa escolha, decidir o que mais lhe apetece. De outra forma tenho vontade de bater com os pés e fazer muamuamua. A privação de sono deixa-me sem saber a quantas ando, volto atrás 3 vezes para ver se a porta ficou fechada, tenho de confirmar se o carro apitou apesar de me lembrar claramente de o ouvir apitar. O problema que é as coisas misturam-se e às vezes já faço confusão se apitou de manhã ou apitou agora. As tarefas repetitivas parecem acontecer sem dar conta, sobressalto-me a troco de nada, como se estivesse sempre sob alerta à espera que um ladrão imaginário me apanhe desprevenida. Sinto dores aqui e acolá que vão embora como chegam. Aponto tarefas na agenda do telemóvel, no bloco de notas do telemóvel, no Outlook do e-mail do trabalho, na agenda de papel e mesmo assim, apesar de todos os alarmes e notas soarem sou capaz de deixar passar o dia de aniversário do meu irmão e só me lembrar em modo de pânico no dia seguinte. Sempre em modo de pânico, como se o mundo estivesse para ruir. Tenho a certeza que se me gravasse num desses momentos e tivesse a oportunidade de voltar a ver esse vídeo num dia em que a minha cabeça estivesse descansada, acharia que eu estava em cenário de terramoto de grau 9 na escalar de Richter.

 

A privação de sono faz-me desejar a cama e ter conversas interiores constantes, lembrando-me que não é a paciência que está a acabar, é a birra de sono que está a vencer.

 

Hoje, depois de ter acordado umas 6 vezes durante a noite por razão nenhuma, cheguei ao trabalho e pesquisei “how to sleep better”. Sim, em inglês, porque a gente já sabe que os sites estrangeiros têm sempre informação muito mais fidedigna que os nacionais. Fui dar com a National Sleep Foundation que nos dá algumas dicas sobre como ter uma boa noite de sono.

 

Passo a elencar:

 

  1. Ter uma rotina de sono. Deitar sempre à mesma hora e acordar sempre à mesma hora, incluindo fins de semana. Isto foi definido para pessoas muito especificas, ou seja, pessoas que não têm crianças em casa (ou que têm muita sorte com as crianças que lhe calharam) e pessoas que não têm velhotes em casa. Porque pessoas que não tenham controlo total sobre a sua vida não conseguem definir regras rígidas quanto à hora a que se deitam. Quanto muito em relação à que se levantam.
  2. Praticar uma rotina para adormecer. Isto é para rir certo? Então a pessoa chega à cama, está morta por dormir desde que se levantou, capaz de adormecer na fila para o café e depois chega à cama e faz um ritual. Tá bem abelha! O ritual é simples: zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Tudo para acordar as duas e meia sobressaltada a dizer “já tocou o despertador, hã!?”.
  3. Evitar dormir sestas. AHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Foda-se. AHAHAHAAHAHAHAHA. Não aguento. AAHAHAHHHHAHAHAHAHAHAH.
  4. Fazer exercício todos os dias. Se eu não tenho tempo para dormir onde raio arranjo tempo para fazer exercício? Eu bem tento, mas depois há chuva e eu não posso ir correr, maneiras que…
  5. Avalie o seu quarto. Diz que devemos ter uma temperatura amena, sem muita luz, sem ruídos e sem sons estranhos. Que devemos até ter em atenção a forma de dormir do nosso parceiro para que não nos incomode. Ou seja devemos preparar o quarto como se fossemos receber um concerto da Beyonce. Será que levar um pontapé na boca do meu filho constitui um mau parceiro de dormida? Vou mandar um e-mail para a fundação.
  6. Dormir num colchão confortável com uma almofada boa. Sim sinhor, nos momentos em que não durmo encostada à mesa de cabeceira vou tentar fazer isso mesmo.
  7. Usar luz forte para ajudar com o ritmo circadiano. Este cabrão não acorda às 6 da manhã no inverno para ir trabalhar, isso é certo!
  8. Evitar álcool, tabaco e refeições pesadas à noite. Amigo, se eu não beber um tinto ao jantar, não bebo tinto. Capiche! Don’t mess with my drinking!
  9. Ler antes de dormir (ou coisa parecida). Isso eu faço. Um ponto!
  10. Se não conseguirmos dormir vamos para outra assoalhada. My friend, na cama do puto fico encarquilhada e o meu sofá é barato e do IKEA, se lá passar a noite para além de passar a manhã a cuspir pelos dos cães, fico com 3 vértebras entrevadas. E não, eu não moro numa mansão com 7 quartos e 14 casas de banho. Aliás a própria ideia me deixa arrepiada. O trabalho que deve dar limpar aquilo tudo.
  11. Falar com o médico caso nada funcione. Já falei, ele diz que se eu não conseguisse dormir mesmo tendo as circunstâncias necessárias tínhamos de ver isso, mas se o problema é externo temos pena! Maneiras que…

 

Ou seja, nem numa fundação especifica do sono (e estrangeira!) eu me safo.

 

Acho que vou continuar assim, com os estores dos olhos meio encarquilhados, meio entrevados, meio coxos, meio corcundas como o Quosimodo, vamos só rezar que não tenham o mesmo azar que este último e não me ardam os fusíveis da Catedral.

 

Fim (eu disse que isto não ia fazer sentido nenhum).

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Ter | 23.04.19

Coisas que aprendi ao preparar a minha casa para as obras

Gorda

obras.png

 

 

(vamos todos respirar fundo depois deste titulo "pequeno")

 

Sabem aquela coisa de escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore? Pois é, nunca percebi a raciocínio por detrás disso. Parece-me sempre tremendamente redutor balizar os objetivos de vida em três pontos iguais, como se fossemos cópias uns dos outros. Para além disso não me lembro de um tempo na minha vida onde eu tivesse apenas três objetivos. Ou estava numa fase de deixar andar e não tinha nada em mente, ou então tinha mil planos.

Neste momento há três coisas que eu gostava de fazer na vida e muito revoltada partirei se, com os meus 120 anos (não vou patinar antes disso), não os tiver garantido. Quero ter uma vivenda, passo bem sem a piscina, mas quero espaço para um terraço e um alpendre onde eu possa ver os cães a correr doidos de um lado para o outro enquanto eu grito “se me fodem o limoeiro outra vez não há biscoitos uma semana inteira!”. Assim, alto e bom som para os vizinhos verem logo com o que é que contam. Quero comprar uma autocaravana e fazer uma viagem pela Europa, tenho particular interesse em percorrer o sul de França e o Sul de Itália. Tenho imensos planos para a autocaravana, metade deles não vou levar a cabo depois de perceber o trabalho que dá manter aquilo. Mas agora, a esta distância e sabendo que teoricamente é viável, parece-me lindamente. Quero escrever um livro de humor, sobre o quê acho que sei, mas a coisa dá o seu trabalho e não há editora que pegue nisto, pelo que vou anotando as minhas ideias e quando chegar o momento certo lá o publicarei online (que é o que faz a malta que não consegue chegar às editoras, a menos que pague).

Para além destes planos tenho mais 500, onde se incluem viagens, um jack russel de pêlo cerdoso, ter um corpo como o da Rita Pereira, ler 150 livros em menos de 3 anos, correr uma maratona e ganhar o Euromilhões.

 

Estes planos estão a uma certa distância, talvez tenha sido por isso que decidi fazer obras em casa. A autocaravana não melhoraria os azulejos da minha sala e dinheiro para a vivenda eu não tenho. Pelo que me pareceu tremendamente sensato fazer obras de fundo no meu apartamento. O problema é o mesmo que acontece com todas as minhas ideias, na teoria são fabulosas, na prática são uma merda.

Eu só tenho ideias de merda. Não há discussão nem paninhos quentes que melhorem isto.

 

Mas agora já está. O contrato está assinado, o chão e as paredes estão escolhidos, bem como a cor da cozinha e os móveis de casa de banho. No preciso momento em que escrevo este texto estão dois ou três tipos a partir a minha casa com um martelo e escopro. Mas até chegar a esse momento este lombinho teve muito que trabalhar.

 

Por isso, nos últimos 5 dias estive enfiada em casa a esventrar os meus tarecos para que a casa ficasse vazia e a magia possa acontecer. Perdi a conta às vezes que disse “só tenho ideias de merda”, mensagem essa corroborada pelo meu marido que, por sua vontade, deixaria a coisas como estavam e aproveitaria o dinheiro para ir de férias às Maldivas.

 

Nestes dias aprendi umas coisas e, como sou amiga dos meus prezados leitores, quero aproveitar este momento para vos explicar aquilo que aprendi. Vamos a isso?

 

Temos mais merda do que pensamos

Este é o primeiro ponto. É indiscutível. Assim que arredamos o primeiro móvel, assim que olhamos com atenção para a caixa de primeiros socorros, assim que escarafunchamos na última prateleira do guarda-vestidos, nós percebemos que há demasiada tralha para os gatos pingados que lá moram. É incrível como uma pessoa é capaz de guardar coisas que não gosta desde o momento em que comprou, mas depois mantém ali no armário como que para castigo por ter gasto dinheiro em porcaria.

 

O pó é o maior micro cabrão que vive à face da terra

Este gajo mete-se em todo o lado. A pessoa compra o aspirador Turbo 500 000 airblater não-sei-quê, mas o pó arranja sempre onde se esconder. Encafua-se nos cantos, mete-se entre os livros, refunde-se atrás das estantes, ocupa as frestas das portas. Tem de haver um grupo de cientistas que olhe para isto e que invente um micro herói que arrebente com este filho da mãe.

 

Guardamos demasiados medicamentos fora do prazo

Ficámos com gripe em 2016, parámos o antibiótico ao quarto dia porque já estávamos finos? Boa! Guardamos o resto dos comprimidos porque se formos atacados outra vez escusamos de ir ao médico e tomamos o resto daquilo. O problema é que quando voltamos a apanhar gripe já nos esquecemos da última vez que a tivemos, por isso vamos ao médico novamente e o processo repete-se.

É possível que uma pessoa compre uma embalagem de Batadine em 2015 porque cortou uma mão e depois guarde aquilo até 2019 porque se for preciso tem em casa.

 

Temos demasiada roupa que não sabemos que temos

Estamos em 2015 e vimos uma peça de roupa que gostámos muito, mas está caro. Decidimos esperar pelos saldos, mas quando os saldos começam ainda está caro, queremos aquele desconto de 60%, então aguardamos, não somos do tipo de deixar que a loja nos “coma por parvas”. Quando a loja fica em liquidação total entramos confiantes de que vamos comprar o que queríamos ao preço que consideramos justo. Há a peça que desejamos mas apenas em XXL. Nós vestimos o S. Então compramos, nunca sabemos quando é que não vamos engordar 25 quilos de um dia para o outro. Não é? Guardamos a peça no guarda-roupa e nunca mais pensamos nisso. Até que decidimos fazer obras. Outra hipótese também muito comum é apaixonarmo-nos por um par de sapatos, mas custam 3 dígitos e pensamos que talvez estejam fora do nosso espectro salarial. De maneiras que compramos a imitação que nos come os calcanhares. Acabam numa caixa sem ser visitados anos a fio.

 

Transformamo-nos em mestres do celofane

Para quem não sabe o celofane é aquela película aderente que uma pessoa usa para tapar os restos de comida ou para envolver o que sobrou da mesa de queijos nos almoços de família. Essa película é ótima para envolver móveis e outras coisas que vão ficar em casa em sede de obras. Eu tornei-me uma mestre em “celofanar merdas”. Primeiro achei estúpido, depois habituei-me e por fim passei a gostar tanto que acho que envolvi em celofane coisas que foram para o lixo.

 

Guardamos bugigangas que não servem para nada à espera de que um dia venham a ser úteis

Ou seja, transformamo-nos nos nossos pais.

O meu pai tem 3 casacos de cabedal com pele de ovelha guardados na despensa há mais de 30 anos. Quando éramos mais novos e lhe perguntávamos pelos casacos dizia que os guardava porque um dia os filhos podiam querer ficar com eles. Os meus irmãos não os queriam e sempre lhe disseram. Ele achava que eles iam tornar-se homens adultos e iam mudar de ideias. Não mudaram.

Hoje quando lhe perguntamos porque os mantém, diz que os netos os podem querer. Sendo que só tem 2 netos estou para ver qual dos dois será o azarado contemplado, o meu filho ou o meu sobrinho. Porque um vai ter de papar com 2 casacos.

Sempre gozei com o meu pai. Até que este domingo dei com um casaco branco que eu comprei há mais de 12 anos e nunca vesti. Estava com película em volta para não se estragar, mas tinha uma parte das mangas de fora, que, por sua vez, estavam mais amarelas que um bezerro com iterícia.

O meu pai nunca vai saber disto.

 

Guardamos demasiados cotonetes

A sério, quanta cera pode uma pessoa ter nos ouvidos? Por Deus!

 

Guardamos demasiados cremes de cabelo

A gaja compra os cremes que a Rita Pereira diz porque quer ter um cabelo como o dela. Ao fim de um mês sem melhoras compra os cremes que a Cláudia Vieira usa porque quer ficar como a Cláudia. Não há melhoras. Quando dá consigo tem o rodapé da banheira carregado de shampoos e amaciadores usados até meio. Depois tem pena de mandar fora e promete a si mesma que vai gastar o que tem em casa. Mas entretanto sai um anuncio com a Carolina Patrocínio…

 

Guardamos demasiados cabides

Eu não sei se é uma previsão de futuro, para o dia em que vamos ter um closet IMENSO, mas a verdade é que há demasiados cabides. Aquilo dá para fazer uma obra de arte da Joana Vasconcelos e ainda sobra material para uma réplica.

 

Nunca devemos dizer aos nossos filhos que podem pintar as paredes

Porque os gajos vão encontrar os únicos 20 centímetros de parede em que não podem escrever e vão lixar aquilo tudo.

O meu sogro apareceu lá em casa com o meu herdeiro. O pequeno queria ver o estado do quarto dele e aproveitar para dizer que queria que mandássemos pôr o chão em azul. (Claro! Vamos já tratar disso!) Como não parava quieto eu perguntei-lhe se ele queria pintar as paredes com caneta. Afinal de contas iam ser pintadas de novo, porque razão não havia o miúdo de se divertir. Dei-lhe uma caneta e ouço-o queixar-se que não estava a escrever. Tentava uma parede e outra e não conseguia. Entretanto eu vou à procura de um lápis, era certo que com lápis ele conseguia escrever. Nesse instante ouço-o dizer “mãe, deixa estar, já encontrei uma parede que dá!”. Quando entro na sala ele estava a pintar a pedra da lareira com caneta bic. A única coisa que se vai manter é aquela pedra.

Lembram-se do inicio do texto em que eu disse que só tinha ideias de merda?

 

Acho que cobri os principais pontos.

 

No final olhámos um para o outro (eu e o desgraçado que mora lá em casa), já não víamos a nossa casa assim tão despida desde o dia em que a compramos há 10 anos atrás. Ele estava cansado e melancólico. Eu estava a cansada e a pensar “foda-se finalmente vão partir esta merda e pôr tudo de novo”.

 

Sou uma romântica.

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Sex | 19.04.19

Vamos chamar isto de "Vida"

Gorda

Inspiring-Albert-Einstein-Quotes-About-Life.jpg

 

 

Há poucas coisas piores para a vida do que a própria vida. Talvez um camião cisterna a 130 km/hora se coloque ligeiramente acima, mas de resto a vida consegue fazer tudo sozinha.

A vida é como aquele tio bêbado que todas as famílias têm, está sempre a dizer que vai deixar o álcool, passa uns meses bem, recupera as rédeas e depois, mas tarde ou mais cedo, alguém vai dar com ele atravancado ao balcão de uma tasca depois de quatro garrafas de moscatel. E começa tudo de novo.

A vida é assim, persistentemente insatisfeita, a brincar de atirar bolas curvas, entretida a ver-nos espernear com os desafios que nos atira ventas adentro.

Ah o que não te mata torna-te mais forte.

Eu não quero ser mais forte, eu quero é estar descansada sem que me moam a cabeça. Sim? Obrigada e boa tarde.

Mas a vida parece entediar-se, qual miúdo hiperativo que, sem ter o que fazer parte a loiça da cristaleira. Lá está ela, sentada na sua poltrona a ver-nos assentar arraiais no descanso de que as coisas estão finalmente a andar como previsto e depois, de dedo indicador a bater compassadamente no lábio, levanta-se, ganha balanço e arreia-nos com um pontapé no cu. Qual CR7 das bolas de ouro.

Se tivermos sorte a retorcida vai-nos dando outras hipóteses, prega-nos sustos, entrega-nos o espanador para limpar a poeira que assentou nos ombros e a gente lá se vai compondo. Mais umas maleitas, mais uns ossos partidos, mais uma vez certos de que isto são dois dias e nada está certo.

A vida consegue ser o nosso maior bully. Quando andamos na escola há sempre um parvo que faz pouco do aluno certinho, "é o menino da professora". A vida faz-nos isso quando nos andamos a portar bem, até comemos como deve de ser, até fazemos exercício, na loucura até os miúdos nos andam a deixar dormir. Então começa a ficar enfadonho e rebenta com os canos lá de casa, abraça-se a uma bactéria, faz parar o shôr Parreira que temos em nós (toda a gente sabe que o shôr Parreira é o encarregado de obra do nosso interior, o coração que põe isto a andar).

Não sou naturalmente otimista. Aliás, não sou otimista de todo. Não me tento convencer de que tudo vai correr bem, digo a mim mesma que se der merda arranjaremos maneira de resolver ou andar à lambada com a vida.

Estou a preparar a casa para fazer obras e já me perpassaram pela mente todos os cenários catastróficos que se podem imaginar, e sim, incluem o facto de eu ser atropelada por um camião cisterna a 130 km/h mesmo na véspera da casa estar pronta.

Preparo-me sempre para o pior. Aliás não tenho um bunker com enlatados, caso venha de lá o Apocalipse, porque a viver num terceiro andar sem elevador é difícil dar conta desse recado.

Mas este texto tem um propósito, entreter uma moça simpática a quem a vida pregou uma rasteira, uma moça simpática que escreve num blogue que se chama Os quatro cantos da nossa casa. Uma moça cujo shôr Parreira decidiu ir para intervalo sem sequer avisar que estava cansado.

O teu shôr Parreira está armado em merdas e devias dar-lhe duas lambadas adentro e quatro biscas afora. Só para ele perceber que tu não andas aqui a brincar. 

É uma ideia.

Por isso minha gente vamos rir, vamos dar uma gargalhada para isto tudo, a vida é uma volta de carrossel e a gente nunca sabe em que estação ela para. Pelo que não vale de muito perder tempo com coisas miúdas.

Boa Páscoa para vocês que eu vou empacotar coisas.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Qua | 17.04.19

Coisas

Gorda

Dar a um post o título de "Coisas" é mais ou menos o mesmo que ir ao restaurante, perguntar de que é que é a sopa e o empregado esclarecer que é "de legumes". A pessoa não sabe na mesma o que é que vai comer mas fica com a certeza de que não é canja.

Tirei uns dias de férias para desarrumar a minha casa porque vou fazer obras de fundo e decidi que não ia desgastar a minha cabecinha linda e amorosa com escritas e afins. Afinal de contas uma pessoa tem de repousar a mente por forma a deixar a que criatividade fermente e magnificas ideias floresçam. Quais papos-secos da boa enjorcância (esta palavra não existe) de conteúdos. O mal é que esta decisão foi tomada em sede de problema gástrico severo, depois de o meu estômago ter tido um encontro imediato com meia dúzia de camarões que morreram de contra vontade e estavam menos bons. A cabeça tende a estar pouco paciente nestas alturas e a decidir coisas como «vou parar porque tenho de parar e entretanto aí que tenho uma cólica e vou à casa de banho».

Assim dou comigo estes dias em casa, a preparar-me para trabalhar mais do que estando ao serviço, por isso aproveitei para fazer aquilo que queria fazer desde que criei o blogue: melhorar o seu aspeto. Essencialmente, arranjei forma de adiar o arredar de móveis e o encaixotar de livros e o deitar fora de tralha e de pacotes de massa cuja validade terminou em 2016. Decidi melhorar o aspeto da chafarica. Podia dizer que não queria que isto chegasse a fazer 1 ano com o mesmo aspeto, mas é mesmo a minha preguiça física que me está a agarrar à cadeira.

Maneiras que, depois de um pequeno almoço tardio, arregacei as mangas e sentei-me ao computador para a tarefa hercúlea de melhorar a sua decoração. Eu tenho tanta competência para decorar coisas que acho que teria mais possibilidades de carreira como lutadora de MMA do que numa loja de cortinados. É assim, cada um nasce para o que nasce. Tenho tão pouca paciência para a decoração que, em menos e 2 horas decidi a cor de azulejos, chão, paredes, casa de banho e a escolha integral da minha cozinha. Como diria o Deadpool «maximum effort». Tudo para me evadir dessa tarefa o mais depressa possível.

Assim, não será de espantar que ao fim de 15 minutos a escolher cores para o estuque do blogue, os meus nervos já estivessem a desfazer-se de forma orgânica. Dei cabo da cabeça ao meu marido, que nestes momentos tem de me aturar a ter comportamentos impacientes de uma criança de 3 anos e, sem querer, dei comigo na área de templates da sapo. Foi como se tivesse visto o Santo Graal, mas ainda com mais entusiasmo.

Dei com este template, apliquei e até ganhei algum amor aos catos, que me parecem condizer tão bem com as histórias românticas de amor que aqui deixo.

Assim, e como aliás já vem a ser meu apanágio, fui de férias mas só faz-de-conta e afinal tive coisas para dizer. Eu tenho sempre uma merda qualquer para dizer. You just can't shut me up. Deve ser por isso que eu e o Deadpool somos almas gémeas, ele é que ainda não sabe.

Espero que gostem do novo aspeto da tasca. Eu gosto, especialmente porque não me deu trabalhinho nenhum.

Gracias Sapito, pero que eres un amphibio muy guapo.

 

(Ah, e agora podem ver na lateral o que é que a Gorda está a ler e o que leu antes, não é giro, até passo por letrada e coisas...)

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Sab | 13.04.19

X- File Têxtil

Gorda

xfiles.jpg

 

 

Estava a ofender o meu vestido bordeaux de renda pela décima vez quando me ocorreu que existem pessoas, sentadas numa qualquer sala com folhas de papel à frente e lápis de cores, que são pagas para enjorcar roupas que muito provavelmente podem levar uma gaja à loucura quando esta se está a tentar vestir de manhã, ainda com os olhos meio ramelosos, sem conseguir dar com o caminho adequado para se inserir dentro do modelito.

«Ora deixa cá ver como é que eu posso criar uma coisa que uma gaja mal consiga entrar lá para dentro!», esta tem de ser a permissa para a criação de algumas peças. Como aqueles vestidos de renda, que têm uma espécie de vestido de cetim por baixo, que por sua vez está preso por pequenas linhas a áreas estratégicas da renda e a pessoa quando entra naquilo tem de conseguir enfiar os membros em dois vestidos em simultâneo. A pessoa estende a obra prima na cama, prepara com perícia certos pedaços do tecido que servem como pontos de referência, retém o ar e, ainda em apneia, tenta entrar lá para dentro. Umas vezes entra só um braço, outras fica a alça de fora. É um autêntico matrix têxtil. Quando a pessoa consegue levar a cabo a proeza estoica de ficar composta dentro daquilo, está capaz de desatar à lambada com meio mundo. Parecia tão mais simples no manequim. Ainda que o festival de cotoveladas que se deu no provador deveria ser um indicador de que as coisas pelas seis da manhã, a meia luz, podiam correr mal. Mas lá está, a pessoa quando está lançada para comprar…

...nada para a gaja nas compras.

 

O ano passado fui a uma loja de biquinis e fatos de banho para comprar uma coisa de marca. Tinha perdido os 5 quilos que tinha a mais, tinha fome mas andava contente, pelo que me apetecia uma daquelas coisas com franjas e redes e folhos, como as gaijas do Inscagram usam. Vai daí e encontrei um fato de banho preto com franjas que me luziu o olho. Passei pela montra cerca de cinco vezes até decidir entrar. Pedi para experimentar. Pessoas, eu tentei entrar de lado, tentei entrar de frente, tentei entrar por trás, tentei vestir aquilo pela cabeça. Parecia que estava nos jogos sem fronteiras da roupa de praia. Não consegui. Nunca soube se me servia porque só consegui enfiar lá dentro metade de mim.

Chego cá fora e pergunto à moça da caixa:

- Pode dizer-me como é que isto se veste? Não consigo entrar lá para dentro.

- Pois eu também não sei.

- Mas vestiram ao manequim.

- Pois foi, tiramos-lhe as pernas e os braços. Depois voltámos a montar.

 

Não comprei nada.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Ter | 09.04.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 7

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_7.1.p

 

 

O último ano superou todas as minhas expetativas e sonhos. Jamais poderia acreditar que um dia eu, Cremilde da Silva Peixoto Bota Rota, seria a Presidente da Junta de Freguesia de Sarilhos Grandes. Sou uma mulher respeitada por todos, menos pelos meus colegas, até já pus unhas de gel, daquelas com diamantes no dedo anelar. Passo os meus dias a tomar decisões para o bem da freguesia e a pôr carimbos em documentos.

 

A partida do Zé deixou-me abalada e o facto de não ter entendido metade das coisas que ele escreveu na carta quase me levou a uma depressão profunda. Tudo até à manhã em que acordei indisposta, crente de que me estava a dar qualquer coisa e fui ao posto. O médico confirmou, sem sombra para duvida, que eu estava grávida de cinco meses, mas não se notava porque a minha estrutura não tinha mudado muito.

Custou-me a acreditar, tinha passado por dois amores avassaladores em menos de um ano, era presidente da junta e agora ia ver mais um sonho cumprido: ia ser mãe. É claro que não saber quem seria o pai me causou alguns transtornos, afinal de contas que tipo de mulher não sabe que homem é pai do seu filho? Fui falar com o Quim, porque ele era um dos meus melhores amigos.

 

O Quim descobriu a sua essência no retiro espiritual em Sintra. Descobriu a sua essência e um namorado, porque veio de lá noivo do Clementino. O amor é mesmo tramado, quem diria que o Quim havia de se apaixonar pelo seu rival? Estas coisas não acontecem só nas novelas.

Enquanto estiveram no retiro o Quim e o Clementino tornaram-se vegetarianos, faziam jejuns de sumos detox e alimentavam-se maioritariamente de pevides e coisas que vinham em pó de continentes como o Perú. Estavam tão enamorados um com o outro que decidiram vender as churrasqueiras e começar um negócio de sumos naturais detox e barras de proteína vegan. Viajaram para vários continentes para descobrir ingredientes novos, mas foi na Damaia que encontraram o fornecedor certo.

Naquela tarde apareceram na minha horta de tomates para lanchar. Era o meu refugio, repleto de memórias doces e de tomates que davam cor àquele jardim. Plantava para mim, para a vizinhança e vendia umas caixas de tomate na feira. O lucro servia para ajudar o lar de velhotes. Criei a fundação Sr. Clemente, nunca me perdoei o que lhe aconteceu.

- Conta-me Cremilde, como vai a vida? Estás mais magra querida? Ou é impressão minha? Tens de beber uns sumos dos nossos.

E deram um valente melo, coisa que eu preferia não ver, afinal de contas a boca do Quim já tinha sido minha e aquela coisa de o Clementino não ter os dois dentes da frente fazia-me um bocado de confusão.

- Tenho uma coisa para te contar, mas antes quero que proves os meus tomates.

- Aí Cremilde, parece que já tivemos esta conversa, mas ao contrário. Que esquisito, ahahahah!

Rimos muito. Até o Clementino achou graça.

Comemos tomate cru e depois passámos às tostas barradas com doce. Ia na décima quinta tosta quando consegui deitar cá para fora.

- Estou grávida.

Nem lhes ocorreu de quem poderia ser a criança, saltaram das cadeiras, quais doidas na gaiola dourada, contentes e aos gritos que iam ser as madrinhas.

- Quim, eu não sei quem é o pai. Podes ser tu.

Ele parou petrificado a olhar para mim. Já tinham passado muitos meses desde que nos tínhamos comido e ele não conseguia conceber a ideia.

- Como é que posso ser eu o pai, Cremilde? Tu andaste enrolada com o zarolho.

- Não sei. Sabes que sou péssima a fazer contas, mas foi tudo muito próximo. Não sei quem é. Mas vou descobrir.

O Quim pensou que eu queria fazer um teste de NDA, mas eu só precisava que a criança nascesse, estava certa de que quando olhasse para o bebé e lhe visse os olhos tortos ia sabe-lo filha do Zé. Toda a gente sabe que o estrabismo é uma espécie de sinal de nascença e o bebé iria herda-lo do pai.

O Quim ficou surpreendentemente contente de repente, ocorreu-lhe que nunca teria outra hipótese de ser pai, pelo que o melhor era ficar com aquele bebé como seu herdeiro ou herdeira. Estavam a fazer uma fortuna com os sumos e um dia iria querer deixar o dinheiro a alguém.

Ficou decidido nesse mesmo dia que o Quim, biológico ou não, seria o pai do bebé. O Clementino ia ser o padrinho e o padrasto. Íamos amar esta criança com todas as nossas forças.

Foi nesta onda de carinho que o Clementino se sentou em cima de uma caixa de tomate que ia ser doada ao lar de velhotes. Provou o sumo dos tomates e teve um momento de lâmpada. Iam criar um sumo de tomate detox, feito com tomates biológicos e uma pitada de qualquer coisa com nome estrangeiro, porque toda a gente sabe que assim vende mais.

 

A Estrela nasceu em outubro, num dia bonito e solarengo, com os olhos direitos e bastante arregalados. O Quim registou a menina como sua filha e partilhou em todas as redes sociais o nascimento da bebé.

No mesmo dia o Clementino anunciou que estávamos milionários, os sumos estavam a vender como ginjas e eu, como principal fornecedora de tomate, estava carregada de dinheiro. Tinha comprado uma grande vivenda e tinha comprado todos os terrenos agrícolas do município para expandir a minha área de produção. Afinal de contas o Zé sempre tinha razão “eu sou a rainha dos tomates”.

 

Mas ser rainha não chegava, estava na hora de mudar de vida. Quando a minha vida começou a melhorar eu encontrei uma frase no Facebook que me fez pensar. Dizia: “se estás gorda mexe o cu, ninguém o pode fazer que não tu".

Inscrevi-me num grupo de mães fit. Assumi-me como alguém que não cuidava de si e procurava apoio. Arranjaram-me dietas, planos alimentares e alguma fome. Deram-me o nome de personal treiners, que são pessoas a quem nós pagamos para nos aleijar. Comecei a fazer exercício seis vezes por semana e a comer essencialmente pevides e coisas com a marca biológica. No meu léxico passaram a constar nomes de alimentos fantásticos que eu consumo em batidos, apesar de nem dar conta que eles lá estão.

Hoje posso dizer que tenho um corpo de aço, se quiser parto nozes com os meus glúteos. Faço treinos funcionais e arredo moveis melhor que o Octávio Escaramuça. Vou para a junta de roupa ainda mais junta, consigo carregar os sacos das compras todos de uma vez e publico os meus treinos do Instagram para inspirar outras mulheres a fazer igual.

Nós somos capazes do que queremos.

 

Pouco tempo depois de o Zé desaparecer soubemos que o João, o endireita dos finados, se tinha mudado para o Barreiro, ao que sabemos terá aberto um gabinete de apoio onde dá consultas de psicologia humana e animal. Tanto quanto consta tem tido resultados extraordinários com os São Bernardos.

 

E eu aqui estou, como comecei esta história: à procura de amor. Muito mais rica depois de conhecer o Quim e o Zé, uma profissional de sucesso, confiante da mulher que sou. Mãe de uma Estrela e dona de dois cagados.

A vida corre-me bem porque penso positivo e acredito que podemos ser tudo o que quisermos.

 

Fim

 

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

Podem ler o episódio 4 aqui.

Podem ler o episódio 5 aqui.

Podem ler o episódio 6 aqui.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Sab | 06.04.19

Curriculum Vitae

Gorda

 

 

Se eu fosse uma pessoa brilhante não me sentia compelida a falar de mim. Encontrava temas banais e faria com que parecessem matérias de essência fundamental à tolerância da vida quotidiana. Escusando-me assim a falar da pessoa mais desinteressante que conheço: eu.

Se eu fosse uma pessoa isenta de vaidade não me punha a falar de mim. Mas o egocentrismo que não admito de forma transparente obriga-me a faze-lo.

Se eu fosse uma pessoa criativa não lucrava de ideias alheias, ajustadas a meu gosto para parecer que penso fora da caixa.

Antes de pensar em criar um blogue não há nada como coscuvilhar outros, sim coscuvilhar, porque se fosse ler apenas, visitar, não seria com a intenção de perceber como o fazem. Eu leio porque gosto, mas aproveito para perceber como se faz. Não raras vezes encontro um botãozinho que diz "sobre mim" ou "sobre o autor" ou algo similar. A pessoa que escreve quer que saibamos que está a falar-nos dela, como se os demais textos não fossem, na realidade, também sobre si. Afinal de contas são as suas ideias, as suas opiniões, os seus raciocínios. São um "sobre mim" que é mais um "sobre mim que pensa sobre determinado tema" mas que não está escarrapachado de que fala sobre si. Apresenta-se como uma lista de características da pessoa que detém as opiniões que divulga com determinada periodicidade, só mesmo para que quem lê saiba mais ou menos com quem está a lidar.

Não sei se me parece uma excelente ideia, tenho argumentos contra e argumentos a favor. Na dúvida decidi fazer parecido.

Mas eu não gosto muito de falar "sobre mim" e andei para trás e para a frente sobre como deixar aqui umas noções de apresentação que tivessem um cunho, quiça, mais profissional.

Deparei-me então com a crónica de Ricardo Araújo Pereira "Curriculum Vitae" e pensei, é isto, o que é preciso é de um curriculum no blogue. Uma lista de características e formações adquiridas por experiência de vida ou por imposição inata, que fazem com que a personagem que escreve tenha um determinado valor para ela própria. Uma vez que a sociedade não tem a menor noção da sua existência.

 

Desta feita decidi criar o meu Curriculum Vitae, que contem desde já uma lista de informações atuais, respeitantes a competências presentes e passadas, o qual, com o tempo, se espera que seja enriquecido.

 

Começamos?

1. Gosto que a colher que uso para mexer o galão tenha um tamanho adequado para o copo que me foi disponibilizado. Detesto quando tenho de usar uma colher de sopa.

 

2. Sinto-me frequentemente empobrecida de mente quando leio grandes autores. Canso-me a pensar como terão conseguido aquilo. Detenho-me na minha insignificante estupidez e lamento apenas ser espetadora dos grandes. Invejas.

 

3. Tenho como principal defeito a inveja. Invejo os corpos esculturais das musas do cinema, invejo a riqueza fácil de quem já nasce herdeiro, invejo a inteligência de quem nasce mais dotado cognitivamente do que eu, invejo quem tem a sorte de estar no sítio certo à hora certa. Parece ser o momento para o qual chego sempre atrasada.

 

4. Começo projetos e muitas vezes não os acabo. Não só por preguiça e falta de tempo, mas porque receio dar-me a uma imensa trabalheira para resulta em "nada de jeito".

 

5. Uma vez disseram-me que, se eu queria aprender a escrever melhor com menos palavras deveria ler a história de 6 palavras que Hemingway - alegadamente - terá escrito. Procurei e, após muito ponderar, apenas me ocorreu que podia ser uma frase retirada do OLX, respeitante a uma mãe que procurava vender os sapatos que ofereceram ao filho e nunca lhe serviram.

 

6. Ao contrário da maior parte das pessoas do planeta, que se irrita ainda mais quando os outros lhes dizem "tem calma", eu compadeço-me da posição dos outros. A menos que o "outro" seja o meu marido. Aí passo-me mesmo dos carretos.

 

7. Não tenho grande apreço por fotografia. Desagrada-me o uso de filtros porque são um embuste de imagem. Significa que o sítio que estamos a ver, na verdade, não existe no planeta terra e que eu, caso lá vá, só vou sentir desgosto porque não encontro o que estava à espera. É o mesmo que prometer a uma criança uma nave pelo Natal e, apenas nessa altura, o petiz perceber que afinal não cabe lá dentro e que nunca irá ao espaço naquilo.

 

8. Gosto de ver fotografias antigas de casamentos. Não porque seja romântica, mas porque há pouca coisa mais cómica do que as indumentárias dos anos 90 em casamentos, com as mises e os cabelos cheios de laca. A noiva rigidamente quase deitada na cama, numa pose que tem tudo menos sensualidade. Ou o noivo que ajeita a gravata ao espelho mas que não está a olhar para o que está a fazer. Ou a prima Lurdes que veio lá da aldeia com um vestido de lantejoulas douradas, justo, que deixa transparecer todo o perímetro abdominal excessivo.

 

9. Escrevo com o coração na ponta dos dedos, e isso é mau. As piores decisões que se podem tomar são aquelas dotadas de pouco raciocínio, com uma componente emocional exacerbada em que nem metade dos ângulos é usado para ponderar. 

 

10. Sou preguiçosa que chegue para falar da preguiça que tenho para completar estes 10 pontos.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Pág. 1/2