Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Casa da Gorda

Casa da Gorda

Seg | 27.05.19

Votar em 2019

Gorda

 

 

É exatamente igual a votar em 1919. Pelo menos na minha área de residência e no que diz respeito ao método.  Sei que em todo o distrito de Évora já houve o voto eletrónico, mas por estas bandas ainda foi tudo à la pata, o que para ser franca me faz alguma confusão. 

Primeiro o rebuliço em torno de perceber em que sala de aula de escola primária é que a pessoa tem de entrar, depois a gritante violação do GDPR no âmbito da proteção de dados pessoais. Sim porque a pessoa entra, entrega o cartão de cidadão a um individuo que nunca viu, o mesmo que passou as últimas quatro horas encostado a uma urna preta, que diz o nosso nome completo em voz alta para quem quiser ouvir e, duas criaturas munidas de um molho de folhas procuram à mão o nosso nome.  É que nem um portátil com uma folha excel para ajudar a fazer um find, não. Tem de ser à mão. 

Depois a pessoa pega no boletim de voto e vai lá para o guichê para por a cruz. 

O tipo retém o documento até que voltemos com o papelucho dobradinho e o enfiemos na ranhura à nossa frente. 

Quão difícil será tornar este processo digital e menos burocrático? É certo que os velhotes (a maioria a votar) pode preferir o papel porque ainda não foram informados que estamos numa era digital, porque aproveitam o convívio e na segunda de manhã já vão ter assunto à porta da CGD ou do posto de saúde da localidade, mas os eleitores mais novos já não estão acostumados a coisas que não estejam online. Talvez tenha sido por isso que tive dificuldades em encontrar mais do que uma pessoa com menos de vinte e cinco anos que não fosse um menor de idade forçado a acompanhar os pais.

Infelizmente, dada a diferente alfabética entre as iniciais do meu nome e as iniciais do nome do meu caro marido, tivemos a sorte de fazer um périplo por duas escolas da nossa área de residência para que ambos pudéssemos votar. Esta situação poderia ter-se tornado bastante fastidiosa - e foi - mas, como nos dizem os gurus do positivismos "temos de ver o copo meio cheio" e eu vi. Vi duas escolas carregadas de velhotes.

É por isso mesmo que pretendo dissecar o eleitor diligente da minha área de residência.

 

Temos o eleitor sénior

Este é aquele eleitor que já está reformado mas ainda anda para as curvas. Quer mais condições para os seus camaradas reformados e está capaz de se ir arrebentar para a AR porque já não tem nada a perder. Contudo, ultrapassada a fanfarronice de café e à porta da secção de voto, vai para casa fazer companhia à Maria porque é ela quem manda.

 

Temos a eleitora sénior que manda no eleitor sénior

Este tipo de eleitora vai votar arranjada para um casamento. Vestido se cetim, sapato de verniz, maquilhagem e pochete a condizer. Não conhece os candidatos nem as propostas de cada um, então vota no mais sensual porque parece bem aparentado. Julga que as mulheres não fazem nada na política e comporta-se como quem vai à aldeia no domingo à tarde.

 

Temos o eleitor velho

Já nada lhe serve. Tá tudo uma merda. A vida é uma merda. O mundo é uma merda. Talvez isto aconteça porque sabe que o mundo está a acabar, pelo menos para ele está. Está na duvida entre o PCP e o André Ventura porque este último "é um rapaz de que diz umas verdades acertadas".

 

Temos a eleitora velha que vai com o eleitor velho

Só quer que o cota se despache porque já são para cima de quarenta anos da mesma jana e os ortelhos já lhe doem porque a osteoporose não a larga.

 

Temos o eleitor idoso

Não sabe o que foi lá fazer nem para que servem as eleições para coisas na Europa porque não está certo do continente de que fazemos parte. Raramente têm a plateia toda e têm vinte centímetros curvados. Estes dificilmente estarão no planeta tempo suficiente para ter conhecimento de alguma medida, pelo que põem uma cruz porque pensam que é o totoloto.

 

Temos a eleitora que vai com o eleitor idoso

Não está certa onde pôs a cruz e invade o guichê dos outros eleitores.

 

Temos o/a eleitor/a com idades entre os 45 e os 60

Estão fartos de eleições, andam a distribuir dicas porque viram na net onde é que os outros devem votar e mandam os velhos para as secções erradas. 

 

Temos o/a eleitor/a com idades entre os 30 e os 44

Fazem-se acompanhar dos filhos para parecerem muitos, sabem onde têm de votar porque foram ver à net e estão passados dos cornos por causa dos velhos que não desamparam a loja. Têm na cara o arrependimento de quem preferia ter ido à praia.

Em 90% dos casos o seu voto foi tornado publico porque os putos perguntaram em voz alta: "papá porque é que votaste na Marisa?" ou "mamã porque é que votaste no João Ferreira?".

 

Temos o eleitor com idade entre os 18 e os 30

Todos escuteiros a tentar vender canetas à porta da escola para mais uma porra de um passeio.

 

O resto da malta estava na praia porque não concorda com os planos eleitorais de nenhum dos partidos e decidiram abster-se porque "pá tipo tava bueda sol e tipo os gajos vão é todos mamar e tipo nem quero saber e tipo para quê? para ir outros mamar e um gajo estar sempre na precariedade e tipo ya agora vou mazé estacionar ali o carro debaixo de uma árvore e engalfinhar o trânsito porque não quero o meu transporte ao sol porque me assa as nalgas".

 

Mas até é compreensível, se fosse para escolher entre uma das Kardashians, ou para dizer quem é que tem o melhor look do dia, a Cristina Ferreira ou a moça-da-TVI-cujo-nome-não-me-lembro, ou para decidir qual o melhor batido da Prozis para encomendar com o código da Rita Pereira; isso sim seriam escolhas interessantes para a vida da pessoa. Agora política. Blhec.

 

(Nota de rodapé para que não me venham moer a tola: o voto é um direito e é livre de ser usado como a pessoa entende. Pessoalmente acho que tendo a oportunidade de ir, devemos fazer uso do nosso direito enquanto dever cívico, contudo cada um sabe de si, até porque houve certamente gente a trabalhar todo o dia, gente que fez turno na noite de sábado para domingo, gente descrente do rumo do país e gente que não foi como manifestação da sua insatisfação com o sistema político. O que é lamentável é que de entre essa massa eleitores que se absteve, há muita gente que não foi porque estava tempo de praia, os mesmos que não teriam ido porque estava demasiado frio se fosse no inverno.)

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Sex | 24.05.19

Dança Javardona - Episódio 4 (último)

Gorda

Dança Javardona_episódio 4.png

 

 

Nas noites que se seguiram mal dormi no meu quarto. Esperava que o espetáculo chegasse ao fim e ia para o meu quarto, a Vanessa adormecia como uma pedra ao fim de dez minutos e os meus pais estavam entretidos a ver programas estrangeiros aos altos berros, por isso ninguém daria pela minha falta. Encontrava-me com o Isaltino à porta da casa dele e passávamos algumas horas juntos, depois ele mandava-me embora porque gostava de ter a cama só para ele e eu podia perfeitamente ir deitar-me na caminha que os meus papás estavam a pagar.

Levantava-me tarde, mas estranhamente descansada, era a última a tomar o pequeno-almoço e ia marcar lugar numa espreguiçadeira perto da berma da piscina onde o Isaltino mais tarde daria a aula para as turistas.

Num dos dias deixei-me adormecer com um copo na mão e acordei com a marca na pele, parecia que alguém tinha pousado um pénis no meu antebraço e o tinha lá deixado esquecido, por mais bronzeador falso que pudesse aquilo não disfarçava.

Nas tardes íamos para os lares sacudir-nos e trazer algum dinheiro dos velhotes, ao fim do dia praticávamos para o espetáculo de sábado em que eu iria dançar com o Isaltino sendo a sua parceira principal.

- Achas que vai correr bem? Achas que estou pronta? – perguntei-lhe certo dia.

- Não estás nem estarás, que tu tens o ritmo de um pau de vassoura, mas a Lurdes tem de ir a Pegões para que uma curandeira lhe trate dos joanetes e eu não tenho mais ninguém. De qualquer forma os camones, os avecs e os ramsteins já vão estar todos com uma cadela dos diabos e a única coisa que querem é ver carne fresca meio nua.

Achei que não era pior, só não percebia a frieza para comigo em certos momentos, será que estaria tão apaixonado quanto eu e tinha medo de se magoar porque ele era um bailarino sazonal e eu ia ser uma advogada no desemprego?

- Estás apaixonado por mim?

- Foda-se! De onde é que vem essa ideia?

- Passamos as noites juntos….

- Porque a tua irmã ressona e porque alguém te tinha de tirar o atraso, eu estou desejoso que as tuas férias acabem e vocês se ponham a andar daqui.

- Mas eu julguei que…

- Bebé, eu não sou bacano para ti. Tu tens de arranjar um joly que tenha um emprego certo, uns pais que ajudem com a entrada para a casa, um tipo que tenha comido – no máximo – uma gaja na vida toda e que se contente com missionário três vezes por mês.

- Mas eu pensava…

- Não penses, o teu cérebro não foi feito para isso.

Foi no silêncio da nossa troca de argumentos que ouvimos alguém chorar e corremos cá para fora; parte da parede da casa da Lurdes tinha caído e agora estava lá um buraco. Uma parte do poster assinado da Ana Malhoa ficou danificado e ela estava inconsolável. Tinha gasto o dinheiro que eu arranjei e agora ia dormir ao relento, com o javardo do gato da vizinha a entrar lá para dentro de casa à vontade e ela era alérgica ao pêlo.

 

Saí de fininho e fui ter com o meu pai que estava a ressonar na cama meio nu. Ao que percebi ele e a minha mãe ainda tinham uma vida sexualmente ativa, o que me deixou bastante desconcertada.

- Pai, acorda.

- Qu’é que queres a esta hora?

- Preciso da tua ajuda.

- Para quê?

- Anda comigo já te explico.

Ao sairmos peguei na mala de ferramentas do meu pai. Leva-a sempre consigo e também alguns materiais que possam ajudar em qualquer situação. Pode sempre haver uma pessoa em apuros, pode sempre haver uma parede em riscos de vida.

Quando o meu pai viu a parede ficou tão desgostoso que teve de acender um cigarro, nem queria acreditar que aquilo tinha sido feito a uma parede de uma casa antiga tão estimada.

Remendou a parede e exigiu saber o que se passava entre mim e o Isaltino.

- Foi ele que rebentou a parede da casa desta moça?

- Não pai.

- Como é que sabes?

- Porque o Isaltino seria incapaz de fazer mal a uma parede.

O meu pai não aceitou e exigiu-me que me afastasse do Isaltino, queria que eu fosse para o meu quarto e me comportasse decentemente até regressarmos à Amareleja. A relação com um tipo de danças eróticas que vivia a duzentos quilómetros de distância nunca seria uma boa opção. Para além disso já lhe chegava um otário oportunista para sustentar.

 

Nos dias que se seguiram andei sempre perto da minha mãe, comi como uma lontra e ia deitar-me ao sol do lado extremo oposto de onde o Isaltino estava a dar aulas.

 

Chegou sábado e arranjámo-nos de forma especial para a última festa, afinal de contas no domingo de manhã faríamos caminho para a Amareleja e íamos voltar aos nossos dias habituais.

A minha irmã andava a saracotear-se meio despida e o triste que havia de casar com ela estava a ver se engatava uma alemã mesmo nas barbas daquela palerma.

Vimos o espetáculo de canto, o espetáculo de humor com um ventríloquo que mexia mais a boca que a Manuela Moura Guedes quando está exaltada, vimos uns algarvios mascarados de chineses a rodar pratos e uns tipos a fazer capoeira. Ia terminar com o Isaltino “Patrick de Lagos” e o seu par, mas, quando estava a chegar essa hora o gerente do hotel veio dizer que tinha havido um imprevisto e não ia haver "Zumba das Cegas". O Isaltino tinha-se despedido.

Fiquei em choque, teria sido por minha causa que ele tinha ido embora?

Foi nesse momento que o vi entrar, calças pretas, camisa branca justa, casaco de cabedal apesar do calor que se fazia sentir. Veio direto à nossa mesa e disse:

- Ninguém põe a bebé no canto.

Todos olhámos uns para os outros e o meu pai respondeu:

- Pois não, a mesa é redonda.

O Isaltino tirou o casaco e deu-me a mão, puxou-me para o palco e mandou a música tocar.

- Estás pronta?

- Não.

- Abana-te como se estivesses no lar. Ninguém vai dar pela diferença.

Zumbámos como loucos e eu afastei-me do Isaltino, fiz-lhe sinal e ele a rir disse que sim, corri como uma doida para os braços dele e quando saltei ele desviou-se e eu fui de focinho ao chão.

- Eu tenho bicos de papagaio nas costas, burra! Achas que te ia carregar.

 

Quando me levantei estava toda a gente a dançar e a zumbar como doidos, a minha mãe estava agarrada a um alemão e o meu pai fazia sinal de aprovação como se aquilo fosse normal. Ao canto estava o senhor Alfredo, que afinal não sofria de Alzheimer, mas fazia-se passar por tantã porque ninguém dava conta que ele não era residente no lar e ele passava lá as tardes para ver as moças abanar-se ao ritmo de sons latinos.

O Isaltino despediu-se de mim. Estava na hora de partir. Ainda não sabia o que ia fazer da vida dele, mas talvez fosse abrir um negócio de bifanas para Vendas Novas, quem sabe um dia ainda me viesse visitar à Amareleja. Mas era provável que não.

Nunca mais consegui esquecer o Isaltino, nem hoje, na véspera do meu casamento com o Bráulio que é contabilista na pedreira do meu pai.

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Qui | 23.05.19

Dança Javardona - Episódio 3

Gorda

Dança Javardona_episódio 3.png

 

 

Cheguei à praia quando o sol estava a nascer, não havia turistas nem a confusão normal dos dias de agosto numa pequena praia de Albufeira. Sentei-me na areia com o balde de brincar e uma pá que roubei a um dos miúdos que estava na piscina das crianças. A zona da piscina para crianças é sempre um imbróglio, dois adultos por cada criança, ali em cima do rebento como se os filhos dos outros fossem terroristas. Fazem-se amigáveis quando na verdade só esperam o momento certo para dizer que alguém fanou a pazinha do Luizinho. Como os pais desconfiam sempre das outras crianças foi fácil e emocionante para mim desaparecer com os dois objetos que precisava.

Estava perdida nos meus pensamentos quando ouvi passos atrás de mim, era o Isaltino. Trazia vestida uma sunga com pequenos flamingos desenhados e uma t-shirt que parecia de mulher. Aparentava não ter lavado a cara porque tinha ramelas nos olhos e um fio de baba do lado direito da boca.

- Bom dia. – disse-lhe eu ao levantar-me de um salto.

- Só se for para ti. É cedo para caralho mas temos de andar com isto. Estás pronta para começar?

- Sim claro!

- Estudas?

- Sim.

- O quê?

- Direito. Eu gostava muito de ser historiadora, mas o papá diz que é melhor eu tirar um curso de direito porque tem mais empregabilidade e assim posso trabalhar para ele com vista a representa-lo em quaisquer processos…

- Caguei. Desculpa interromper, mas estava só a querer ser educado e tu agora estás a mamar-me a cabeça. Vamos começar.

- Está bem.

O Isaltino explicou-me como seria a minha primeira aula de treino. Tinha de construir vinte castelos de areia com aquele balde e depois tinha de dar graxa às rochas que estavam à beira de água.

- Wax on, wax off percebes?

- Percebo, mas isso é do karate kid que é a história de um miúdo que vai participar num torneio de karaté contra uns chavalos maus que hoje seriam definitivamente considerados bullys e depois ele ganha no fim com uma perna…

- Cala-te. Porra que tu falas que se farta. Nestes cinco minutos fiquei com uma otite só de te estar a escutar. Presta atenção, vais dar graxa às rochas e quando estiverem prontas sentas-te aqui que eu venho cá ter.

- Mas eu pensava que íamos andar a treinar o equilíbrio em cima de um tronco estrategicamente colocado por cima de um pequeno riacho, para que eu depois caísse sem querer lá dentro e tu andasses comigo ao colo.

- Isso é na versão dos anos oitenta. Aqui vais dar graxa às rochas que eu depois apareço. Nem penses que no fim disto vou andar com o teu lombo desequilibrado ao colo.

Passei as três horas seguintes a cumprir todas as tarefas, o que foi bastante difícil porque, entretanto, começaram a chegar alguns turistas e os cabrões dos putos que traziam com eles fizeram questão de pisar a maior parte dos meus castelos.

Eram onze da manhã quando o Isaltino apareceu na praia, estava vestido com calções de praia e uma t-shirt justa, cheirava a suor e estava ainda a beber o seu café.

Parou mesmo na entrada da praia, baixou os óculos e começo a dar gargalhadas; fui ter com ele, não estava a compreender o que o poderia estar a animar daquela maneira, mas estava certa de que seria um sinal de que eu tinha cumprido a minha parte do treino.

- Foda-se, tu tiveste mesmo a dar graxa às rochas.

- Sim, foi o que me mandaste fazer.

- Estava a tentar medir o teu nível de burrice, já vi que é elevado. Agora vou sentar-me aqui a beber o meu café enquanto curto as quedas dos camones que vão tirar selfies para cima dos pedregulhos. O INEM hoje não vai parar.

- Mas afinal estás a fazer pouco de mim?! É isso? Estive a manhã inteira a tentar fazer o que me pediste, quase dei uma lambada num puto que desfez metade dos castelos e tu agora estas a gozar!

Ele olhou para mim com um sorriso sensual, mirou-me como ainda não me tinha micado antes, fez-me vibrar e ficar dividida: deveria ou não chatear-me com ele. Queria tanto que me tocasse.

- Dançar é como viver, muitas vezes as pessoas pedem coisas que não querem e nós temos de manter um sorriso. Dançar é felicidade e tristeza, tudo ao mesmo tempo.

- Essa frase é linda.

- Eu sei.

- É tua?

- Não. Infelizmente. De acordo com o Facebook foi Niltché que disse, era uma espécie de buda do Tibete, mas menos gordo; um gajo culto que sabia das coisas. Agora pega neste saco e vai para a beira mar apanhar cadelinhas, não voltes ao hotel sem que o saco esteja cheio.

Passou-me um saco de plástico para as mãos, filmou mais dois franceses a cair nas rochas e virou costas satisfeito porque aquilo lhe iria render muitas visualizações no canal de Youtube dele o “Abanating with Patrick de Lagos”.

Eu fui apanhar cadelinhas. Quando acabei tinha uma dor terrível nos rins e foi muito difícil voltar à minha posição vertical.

 

Quando encontrei o Isaltino à porta do hotel para lhe entregar o saco com cadelinhas ele tinha acabado de dar uma aula de hidroginástica ao mulherio que ficava louco com ele. Todas as mulheres menos a minha mãe, que o tinha marcado de ponta desde que ele tinha manchado o meu vestido. Passou por nós e, apontado de forma acusadora para ele, disse:

- O vestido ainda está todo borrado, se aquilo não sair até ao final das férias afogo-te meu cão badalhoco.

Ele sorriu e fez uma piada a dizer que a minha mãe o adorava e ainda há dez minutos a tinha estado a papar na despensa, ao pé dos detergentes de casa de banho.

Isso era impossível porque a minha mãe adorava o meu pai. A única pessoa que ela prezava mais do que o seu querido marido era o vizinho do quarto esquerdo que dava aulas de dança erótica no lar de terceira idade.

- E agora o que é que fazemos com as cadelinhas? – perguntei eu.

- Nós nada. Eu vou cozinha-las à bulhão pato. Só me falta gamar um molho de coentros à dona Cesária. Tu vais almoçar com os papás ao buffet, depois vais ter comigo à casa da Lurdes que hoje temos um espetáculo à tarde.

O Isaltino não quis desculpas nem mais conversas, eu tinha de praticar e para isso tinha de fazer aulas de zumba, de outra forma nunca estaria preparada para o espetáculo final no sábado à noite.

 

Cheguei à casa da Lurdes eram duas em ponto, estava particularmente inchada porque quando fico nervosa como muito e por isso enfardei dois pratos de mistos de queijo, paelha, bifes grelhados, batatas fritas e um prato de diâmetro considerável com um pedaço de todas as sobremesas possíveis.

Vestiram-me com uns calções e um top de lantejoulas douradas e o Isaltino quis barrar-me com óleo de amendoim. Porque é paleo e muito mais saudável do que aqueles óleos reles de fritar. Eu estava empolgada e muito nervosa pela minha falta de preparação.

Fomos de bicicleta até ao nosso destino e para meu espanto parámos em frente a um lar de terceira idade, que eu estou bastante certa que não tinha alvará para ter atividade aberta. Na sala estavam velhotes meio acamados ou adormecidos e apenas um batia palmas antes mesmo de termos começado o espetáculo. Tinha Alzheimer e não fazia ideia do que estava ali a fazer.

A música tocou e eu não conhecia a rotina, entrei em pânico e tentei agarrar-me ao Isaltino, mas ele estava escorregadio demais para que eu conseguisse firmar as minhas mãos nos seus braços musculados.

- O que é que queres Bebé? Abana-te, os velhotes nem dão conta, só veem as luzes a dar a dar.

Sacodi-me o melhor que pude e no fim o velhote do Alzheimer veio pôr-me uma nota de cinquenta euros nos calções. À saída o Isaltino explicou-me que o senhor Alfredo tinha sido proprietário de um bar de strip e alterne no seu tempo, desde que tinha apanhado alzheimer passou a acreditar que estava sempre no seu bar e quando via mulheres com roupas brilhantes achava que eram as suas funcionárias.

Tive de dividir os cinquenta euros com o Isaltino.

 

Encostámos as bicicletas numa casa que ficava duas portas ao lado da casa da Lurdes.

- Eu moro aqui. Queres entrar e ouvir uns ritmos zumba?

- Quero.

Quando entrei vi que todo o quarto do Isaltino estava coberto de posters de danças latinas, discos de vinil por todo o lado, roupa de dança emoldurada.

- Dançavas a sério?

- Sim, dançava. Fui o campeão de Lagos e tinha um futuro promissor, depois um dia tive um acidente grave e parti duas vértebras.

- A sério?! Pobre de ti.

- Sim, ia de bicicleta para um ensaio e pisei uma puta de uma casca de banana; como os pneus da bina já estavam meio carecas derraparam e eu caí de uma ribanceira. Depois de curarem as duas vértebras descobri que tinha uma hérnia discal e propensão para bicos de papagaio. Pelo que tive de pôr no armário os sapatos de verniz.

 

O Isaltino pôs a rodar um disco de vinil, Roberto Carlos, conhecia bem a música porque a minha mãe era fã; até já tinha ido encomendado do Brasil uma fotografia tirada ao rei na varanda da casa dele. O Isaltino tirou a camisa e perguntou-me se eu queria dançar. Confirmei que sim com um aceno leve de cabeça e um par de olhos que talvez estivessem um pouco esbugalhados demais.

- Mas eu não sei dançar este ritmo.

- Eu ensino-me.

Encostou a minha mão ao peito dele e martelou com dois dedos enquanto fazia um som ao meu ouvido:

- Go-gum…go-gum.

- É o bater do teu coração….

- Não, quase ia engolindo a pastilha, mas consegui deitar para fora.

Começados a encostar os nossos corpos, derrapámos um no outro como duas enguias a tentar um abraço. Ele sabia a batatas fritas de quarta-feira, eu cheirava a ovos estrelados da manhã.

A luz permaneceu baixa enquanto me entreguei completamente ao Isaltino.

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Qua | 22.05.19

Dança Javardona - Episódio 2

Gorda

Dança Javardona_episódio 2.png

 

 

 

Tive insónias toda a noite. Não sabia ao certo se era o cheiro do óleo a fritos que tinha ficado barrado no meu vestido, se a mistura com o vinagre de limpeza que a minha mãe lá esfregou. A minha mãe é uma mulher que não confia em produtos de outra localidade que não seja a Amareleja, onde vivemos. Leva sempre um carregamento de produtos para desinfetar o quarto e as casas de banho antes que as possamos usar. Um ano, não sei se em resultado de alguma coisa estragada se por excesso de exposição solar, tive uma disenteria. A minha mãe insistiu que tinha de lavar a sanita antes com Sanasol verde. Borrei-me toda e tive de esperar três quartos de hora para me limpar.

A Alexandra ressonava como uma porca e os meus pais estavam eufóricos a ver a repetição do festival da Eurovisão. A minha mãe torcia pela música da Austrália, porque como ela própria dizia:

- Aquele sempre foi o país mais lindo da Europa. Até cangurus para lá há!

Assim que o sol nasceu saí da cama. Não tinha pregado olho e era cedo demais para ir tomar o pequeno-almoço. Quando olhei para a cama do lado vi a minha irmã com a cabeça pendida e babar-se para o chão. Uma imagem dantesca.

Não há-de o parolo querer dormir no quarto ao lado. Pensei com os meus botões enquanto me vestia.

Decidi que ia dar uma volta por Albufeira, passear-me pelas ruas pitorescas, apanhar algum ar e estar a sós com os meus pensamentos. Ainda soprava uma brisa e por isso estava bastante agradável para fazer o caminho até à praia.

Enquanto caminhava não pude deixar de reparar o quão bonita era aquela ruela, como estava limpa e a sorte que a minha irmã tinha em ter encontrado alguém para ela. Confundia-me como é que aquela panhonha tinha arranjado um namorado e eu, que até estava no ensino superior não conseguia ninguém. Sempre percebi que a minha irmã era mais agradável à vista que eu e que sempre pareci pouco desenvolvida, mas também podia ser uma mulher sensual se quisesse.

Não sei se foi o som característico de esborrachar uma coisa mole se foi o cheiro que me fez perceber que tinha acabado de pisar merda. Um monte de bosta que podia ter sido de um dinossauro mas era apenas do labrador que seguia com o jagunço do dono vinte metros à frente. O cabrão não tinha sacos e eu estava agora a braços com uma poia gigante atracada ao meu pé. Os meus ténis brancos de sola rasa, feitos de tecido, daqueles que uma pessoa usa sem atacadores, ficaram envoltos em estrume de cão. Eu, que estava toda vestida de branco, agora tinha um apêndice castanho no pé. Esfreguei-me nas ervas e encontrei um pauzinho para limpar aquilo.

Foi quando estava recostada num candeeiro de rua a limpar o pé com uma pequena cana que encontrei, que eu ouvi uma mulher a chorar. Quando levantei os olhos percebi que era uma das bailarinas do Isaltino. Borrifei-me no pé e dei mais alguns passos para tentar ouvir a conversa.

- Olha para esta parede Isaltino! Está toda torta e ficou com dois buracos. Porque raio me fui meter com um trolha que encontrei no OLX?

- Eu avisei-te que ele não prestava, a gente via pelas mãos sem calos que o gajo não podia ser um profissional.

- Deixou-me a parede toda feita num oito e levou-me o dinheiro que eu tinha, como é que eu agora vou conseguir arranjar a parede. Como, se eu não tenho mais dinheiro? Como é que eu vou pendurar o poster assinado da Ana Malhoa numa parede assim?

- Tem calma, havemos de arranjar alguma solução.

Quando dei por mim estava demasiado chegada à porta e o Isaltino percebeu que eu ali estava.

- Espera, temos companhia. - disse para a bailarina.

Veio ter à porta, abriu-a de forma rápida e disse-me:

- Que fazes aqui miúda, não devias estar com os teus papás a gozar do tudo incluído, enquanto comem acepipes à beira da piscina.

- Não, o buffet só abre às nove e ainda são sete. Acordei cedo.

- Então o que fazes por aqui?

- A minha irmã ressona e eu não conseguia dormir mais. Vim dar um passeio, mas, entretanto, pisei merda e quando me estava a limpar ouvi alguém chorar.

- Estavas a escutar a nossa conversa?

- Sim, pensei que estavam a discutir e isso é sempre divertido de ver, é tipo um reality show mas ao vivo. Entretanto percebi que têm aqui um problema de paredes. Parece-me humidade.

- Que é que percebes disso?

- O meu pai é construtor e eu vou com ele às obras de vez em quando.

- Nós não queremos favores de filhinhas de construtores privilegiadas – arremessou a bailarina lá de trás.

- Tem calma Lurdes – disse o Isaltino – se a menina puder ajudar não temos porque recusar. O que propões?

- Eu consigo o dinheiro para contratarem outro profissional e vocês ensinam-me a dançar. É como se estivesse a pagar aulas.

- Parece-me uma boa ideia. Nós conseguimos fazer isso.

O Isaltino percorria a entrada da casa envergando uma camisola branca de cavas que tinha nódoas vermelhas. Certamente tinha jantado bolonhesa. As calças pretas eram justas e os suspensórios pendiam ao lado do corpo.

- Como te chamas miúda?

- Bernardete, mas a minha família chama-me de Bebé.

- Bebé? – disse o Isaltino num sorriso sarcástico que me desagradou.

- Sim. Todos temos alcunhas em casa.

- A da tua irmã qual é?

- Burra. Porque ela é mesmo.

 

Ficou combinado que eu iria arranjar os duzentos euros necessários para concertar a parede e erguer o poster da Ana Malhoa para que a Lurdes pudesse finalmente construir o mini templo do pimba-latino-coisas.

 

Fui ter com o meu pai nessa tarde, ele estava à beira da piscina e eu só esperei pela sexta bebida colorida; normalmente a seguir à quinta ele tornava-se muito mais recetivo e era muito provável que aceitasse dar-me o dinheiro sem fazer perguntas desde que eu lhe levasse um pires com pequenos folhados de salsicha.

Assim fiz.

Expliquei-lhe que queria comprar aulas de dança, que gostava de me inscrever no clube de zumba das tunas e que com isso ia ter desconto nas propinas. Contei-lhe o quão triste andava por ver a Vanessa sempre com o namorado e eu não tinha ninguém com que me entreter.

- Então e quem é que te vai dar as aulas?

Apontei para o Isaltino que estava nesse momento a forçar uma velha a fazer um mergulho de cabeça, mesmo depois de ela lhe ter dito que não sabia nadar. Foram precisos apenas segundos para eu confirmar que era a mesma velha do dia anterior. Acho que a frase motivadora dele terminou com a minha duvida:

- Atire-se senhora, pode ser que encontre a placa.

O meu pai parou a olhar para ele vários minutos sem dizer nada, estava com um ar desconfiado e pensativo, algo muito pouco característico no meu pai. Por regra era homem para gastar tempo com tudo, menos em pensamentos e racionalizações.

- Aquele não é o dançarinho que se esfregou em ti?

- É, mas ele fez isso com toda a gente.

- Eu sei, não estava à espera que o gajo te saltasse para a espinha, filha. Há um motivo para que eu ande a gastar uma fortuna com a faculdade ou lá o que é aquilo para que tu vais com papeis todos os dias. Tu, ao contrário da tua irmã, dificilmente deixarás um gajo contente por te ver, de maneira que mais vale apostar na escola. De qualquer forma duvido muito que aquele goste de passarinha. Dá-me a ideia, pelos calções e os brilhantes, que ele é mais piriquito.

Disse-me para retirar o dinheiro do rolo de notas que ele tinha nos calções tropicais e que trouxesse mais um pires de folhados ao paizinho.

Nessa noite apareci nas traseiras do salão de espetáculos, como combinado, entreguei o dinheiro e combinámos que as aulas começariam no dia seguinte à beira da praia. Tinha de levar um balde de criança.

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

 

Ter | 21.05.19

Dança Javardona - Episódio 1

Gorda

Dança Javardona_episódio 1.png

 

 

O paizinho ganhou gosto pelos resorts com tudo incluído. Gosta de se sentar à beira da piscina com o copo sempre cheio de bebidas coloridas, adora enfardar seis sandes mistas ao lanche e poder mamar para cima de dois pratos a transbordar de comidas variadas no buffet das refeições principais. O pai é empreiteiro da construção civil, muito respeitado entre os seus pares e aprecia gozar quinze dias de verdadeiro lazer num sítio onde a minha mãe não tenha de fazer as refeições todos os dias. Até porque a minha mãe cozinha mal como a merda e pelo menos quando está a trabalhar sempre almoça em condições porque come fora. Ao jantar há muita fome que se suplanta à força de bolachas de manteiga para acompanhar o café.

A maioria das minhas amigas faz pouco de mim, acham que já não tenho idade para ir de férias com os meus pais e a minha irmã mais velha, que leva sempre com ela o Alfredo Escaramuço, o namorado que a minha família aprova. De acordo com o meu pai, burra como a minha irmã é, temos de convencer este desgraçado a gostar de nós e que casar com a Vanessa Alexandra é a melhor coisa que lhe pode acontecer. Será certamente boa mãe e uma esposa dedicada, desde que o pobre coitado não queira que ela diga alguma coisa inteligente. Nunca conseguiu acabar o 12º ano, nem mesmo pela via profissional. Tentou um curso de cabeleireira, mas deixou uma velhota careca e anda lá para casa, a pesar na carteira dos meus pais, incapaz de manter um emprego. A última vez que trabalhou foi numa loja de calçado barato, contava às clientes todos os defeitos que os sapatos tinham e em resultado disso ninguém comprava nada. Conheceu o Alfredo Escaramuço numa festa da escola profissional, futuras cabeleireiras e futuros produtores de mirtilos biológicos juntaram-se na mesma patuscada. A Vanessa não ia acabar o curso, mas era sempre convidada para a estroinice. Nessa noite o Alfredo convenceu-a que conseguia encontrar-lhe mirtilos na piriquita e dois meses mais tarde ela disse-lhe que estava grávida porque tinha sentido o bebé dar um pontapé. Afinal não havia criança nenhuma, a minha mãe tinha feito dobrada dois dias antes e a Vanessa tinha comido demais. Mas por essa altura já era tarde, as famílias já se conheciam e o noivado já se apalavrara. Foi numa consulta de obstetrícia que se descobriu um ventre vazio. Só nesse momento é que o Alfredo percebeu que tinha sido enganado por uma burra:

- Mas o teste tinha dado positivo certo? Essas coisas devem ter uma grande margem de erro.

- Qual teste? – retorquiu a Vanessa – eu percebi que estava grávida porque ouvi o meu corpo.

O Alfredo conteve o ímpeto de se lançar para debaixo de um autocarro em alta velocidade e decidiu manter a farsa. Afinal de contas até não era um mau casamento, os meus pais estavam desejosos para a filha casasse e estavam dispostos a investir no desgraçado que a levasse lá de casa, pelo que estava ali um bom patrocínio para o seu futuro negócio de compotas de mirtilos biológicos.

 

Fazer o check in no hotel era sempre a parte mais embaraçosa, o meu pai recusava-se a ir para o estrangeiro, porque considerava que não valia a pena ir para fora, andar horas de avião, quando tínhamos bons hotéis aqui no Algarve. O mal é que no estrangeiro ninguém perceberia o que a minha família diz e aqui, em território nacional, as coisas são diferentes. O meu pai, envergando a sua t-shirt de palmeiras dois números abaixo, que lhe deixa o baixo ventre de fora, encostava-se ao balcão e queria saber tudo a que tinha direito e as horas a que podia ser consumido. A minha mãe queria saber que aulas havia na piscina. A minha irmã e o camafeu do Alfredo envolviam-se em beijos melosos que os meus pais fingiam não ver. Eu encostei-me a um pilar à espera do dia em que ia poder viajar sem a minha família.

Estava focada no horizonte quando vi passar um homem de estatura média, com cabelo despenteado e um bigode à Fernando Pessoa, como agora está na moda. Estava em excelente forma e preparava-se para dar uma aula do que parecia ser hidroginástica. Observei-o a rodar as ancas enquanto insistia que uma velhota passasse um pau de esponja por baixo dos joelhos. A velha bateu de focinho na água e percebemos que podia apagar-se ali.

Ele gritou: Follow da líder, líder, follow da líder! Ninguém dispersa, se a velha ficar é porque Deus chamou. Temos de ser fortes!

E a velhota voltou ao de cima num sorriso que seria feliz se não tivesse deixado cair a placa no fundo da piscina.

 

Os senhores do hotel colocaram-nos as pulseiras vermelhas e cada um rumou ao seu quarto. Eu ficava com a Vanessa (porque os meus pais ainda fingiam que ela e o Alfredo não pinavam), os meus pais tinham um quarto para eles e o Alfredo ficava descansado sozinho enquanto eu aturava o ressonar da minha irmã toda a noite. Ainda hoje parece uma hipopótama a ver um espetáculo de pinguins malabaristas.

Os meus pais usufruíam de tudo o que o hotel lhes colocava ao dispor e isso queria dizer que tinham de ir ver todos os espetáculos de final de dia; enquanto a minha mãe provava acepipes, o meu pai virava copos de whiskey e bagaceira até ter a perceção de que estava a ver dois espetáculos iguais. Em simultâneo. A minha virginal irmã e o meu trambolho futuro cunhado desapareciam e eu sabia que iam para o quarto dele andar às cambalhotas. Quando os velhos perguntavam eu dizia que tinham ido ver as estrelas.

Sempre fui demasiado certinha para gostar de beber ou de festas à noite, dediquei-me sempre aos estudos, queria ser historiadora, trabalhar num museu e quem sabe dirigir uma biblioteca. Nunca tinha conhecido nenhum homem que me causasse boa impressão ou que me fizessem sentir especial. Estava cansada de ter o meu futuro-otário-cunhado a tentar impingir-me ao irmão dele. Tudo para meter as mãos ao dinheiro do meu pai.

Foi nesse momento que alguém anunciou o próximo espetáculo. Eram sempre iguais, malabarismos com pratos, danças chinesas com algarvios de olhos pintados, espetáculos de magia que só surpreendiam os espetadores embriagados e o ocasional espetáculo de humor que era um relatar de anedotas alentejanas. Uma maravilha para os estrangeiros que não percebiam uma porra e bebiam cada vez mais. Uma vez houve um pretenso mágico que levou uma galinha, a bicha pôs um ovo e toda a gente ficou espantadíssima, bateram palmas fervorosamente. A razão para tamanho espanto é algo que nunca entendi.

- Senhoras e senhores, este ano temos uma novidade para todos, Isaltino “Patrick de Lagos” apresenta “Zumba das Cegas”.

Foi aí que o vi entrar e palco, sorriso branco, com todos os dentes, corpo trabalhado e depilado, cabelo selvagem e bigode farto. Imaginei aquele bigode a subir-me o abdómen e tremi. Será que tinha piolhos? Será que podia apanhar piolhos? Será que o penteava com uma escova especial?

Com ele estavam duas bailarinas de corpo escultural, uma delas com mamas de silicone, só podiam ser. Todos vestidos de roupa justa de licra. O Isaltino barrado em óleo e coberto de purpurinas douradas.

Nunca tinha visto um homem assim, talvez porque não fosse comum haver gente barrada em óleos nos campos da faculdade.

A primeira dança terminou e logo a seguir veio mais uma música ritmada, saltaram os três para fora do palco e começaram a tirar pessoas dos seus lugares para que participassem na coreografia. O Isaltino esfregava as partes baixas nas mulheres e sorria-lhes. Uma velha pôs-lhe uma nota nos calções. Chegou perto e mim e houve alguma coisa que o fez parar. Olhou-me nos olhos como que a pedir licença (algo que agradaria às Capazes), eu acenei de leve que sim e ele pegou-me pela cintura, esfregou o volume dele no meu pacote e eu senti-me a perder as forças nas pernas. Estava a passar-lhe a mão pelo dorso quando ouço a voz da minha mãe:

- LARGA A MINHA FILHA! Estás cheio de merdas brilhantes e quem lava a roupa sou eu. Como é que eu vou lavar o filho da puta do vestido branco agora. Olha para esta merda! Nem com Skip eu safo isto. Vou ter de meter isso em vinagre de limpeza.

A minha mãe é uma mulher com um léxico vasto ao nível do vernáculo e é doente com as limpezas. Nessa noite eu levava um vestido branco, estava imaculado até o Isaltino me agarrar. Quando me vi ao espelho parecia que tinha mijado dourado, porque tinha uma mancha de gordura tremendamente brilhante mesmo à frente do meu pipi.

 

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

Podem ler o episódio 4 aqui.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Qui | 16.05.19

Quando as noticias são humor puro: Os locais mais perigosos do mundo para tirar selfies

Gorda

selfie.jpg

(foto retirada do Google)

Os textos assinalados foram retirados daqui.

 

 

Eu adoro quando o mundo conspira em meu favor. Estava para aqui cabisbaixa, sem saber o que fazer para me animar e então decidi ir ver as noticias. Foi lá que encontrei esta pérola do oceano online: os locais mais perigosos do mundo para tirara selfies. Uma pessoa pensa logo que isto quer dizer que há sítios que agridem a pessoa porque não querem aparecer na foto; mas depois, na verdade tudo se resume à estupidez humana, que, nestes casos, teve um desfecho bastante triste.

A noticia fala-nos de 32 locais, mas eu só vou falar daqueles que me parecem mais interessantes.

Vamos a isso.

 

Nova Zelândia

"Em fevereiro de 2017, uma estudante universitária foi arrastada pelas correntes da água de uma barragem, do rio Wakato, enquanto ela e as amigas estavam a tirar uma selfie. Estas ignoraram o sinal de alerta que estava na barragem. "

Causa da morte: burrice e analfabetismo

Culpado: as águas da barragem que deviam ter parado de puxar quando as moças estavam a tirar uma foto para o Estagrã.

 

Tailândia

"Em fevereiro de 2018, uma mulher de 22 anos morreu depois de ser atropelada por um comboio, enquanto tirava uma selfie, no distrito de Phaya Thai, em Banguecoque. Um amigo da vítima ainda ficou ferido no acidente. "

Onde é que estava a moça mesmo? Atendendo a que os comboios andam sempre sobre carris, ou a moça estava nos carris ou estava nos carris, não há referência a despiste da maquineta. Maneiras que fazia aquela brilhante alma nos carris de um quimboio?

 

Roménia

"Um adolescente morreu em Iaşi, em maio de 2015, quando tentava tirar uma selfie no teto de um comboio. A perna do jovem tocou acidentalmente num cabo elétrico e a vítima foi eletrocutada até à morte. Um dos amigos do jovem também teve de ser hospitalizado. "

Este gajo ou era um Einstein ou era mais burro que a tartaruga Gertrudes. O que raio estava esta criatura a fazer na parte de cima do comboio? Hum? Este gajo ia patinar, foi esturricado, mas podia ter sido da queda, ou de acertar com a mona num sinal, quer dizer, o destino até se deve ter visto à rasca para escolher.

 

Austrália

"Em março de 2016, dois homens tiravam uma selfie juntamente com uma arma, quando esta disparou acidentalmente. Um deles morreu e o outro acabou por se considerar culpado de homicídio culposo."

Este é o meu preferido. Sou só eu que acho que o gajo que lerpou tinha andado a pinar com a mulher do outro?

 

Sérvia

"Um homem de 22 anos foi fatalmente colhido por um comboio, perto da cidade de Sremska Mitrovica. A vítima estava a tentar tirar uma selfie e a tentar recriar a cena de um filme, onde a personagem corria à frente da carruagem do comboio. "

Foste tarde.

 

Vietnam

"Em julho de 2016, dois homens foram colhidos por um comboio, na província de Hung Yen, enquanto tentavam tirar uma selfie nos caminhos-de-ferro."

Sou só eu ou esta gente tem um fetiche com as linhas de comboio. Vão para lá fazer barulho e comer à grande e ainda lixam a malta que quer ir trabalhar e pensa "olha, mais um otário de um turista armando em Rambo nas linhas".

 

Turquia (ou qualquer aeroporto perto de si, desde que tenham estúpidos realmente estúpidos)

"Em dezembro de 2015, dois adolescentes foram atropelados por um camião numa estrada, junto ao aeroporto de Antália. Juntamente com três amigos, as duas vítimas estavam deitadas para assim tirarem selfies, com os aviões a servirem de cenário de fundo."

Há ideias más, há ideias piores e depois há ideias de merda que superam tudo. Recebiam o prémio não fosse estarem com o Senhor.

 

Espanha

"Durante uma corrida de touros, um homem foi colhido por um dos animais, em agosto de 2015, enquanto tentava tirar uma selfie com o touro. Noutro incidente, em novembro de 2014, uma estudante polaca morreu depois de cair do cimo da Ponte de Triana, em Sevilha, enquanto tentava tirar uma selfie. "

A estudante polaca: paz à sua alma. Teve azar.

O do touro: foste tarde.

 

Sri Lanka

"Os dois incidentes ocorreram em junho de 2017 e envolveram pessoas a tirar selfies em caminhos-de-ferro e no teto do comboio. "

Eu não digo....

 

Reino Unido

"Dois casos ocorreram em 2017 e ambos os incidentes envolveram neozelandeses. No primeiro, uma mulher de 41 anos morreu depois de tentar tirar uma selfie enquanto andava de bicicleta, em Londres. Acabou por cair e por ferir fatalmente a cabeça. "

Mãe olha sem mãos, mãe olha sem pés, mãe olha a tirar uma selfie, mãe olha sem dentes e com a cabeça aberta.

 

Nepal

"Os três incidentes ocorreram separadamente, em 2016. Num dos casos, um homem morreu enquanto tentava tirar uma selfie com um elefante. "

Não respeitaste a lei da proteção de dados meu, o elefante não estava apresentavel e tu insististe.

 

Filipinas

"Em janeiro de 2016, num dos incidentes, um estudante de 19 anos morreu depois de cair do topo de um prédio de 20 andares, em Manila, enquanto tirava uma selfie. Outros incidentes envolveram turistas a serem atingidos por veículos em andamento, enquanto tiravam selfies. "

Presumo que estavam no passeio coitados. Ele às vezes há azares.

 

China

"Em maio de 2016 um homem morreu depois de ser arrastado por uma morsa para o interior de uma piscina, no Xixiakou Wildlife Park, em Rongcheng, enquanto tentava tira tirar uma selfie com o animal que pesa mais de uma tonelada. O tratador da morsa também morreu, na tentativa de salvar o visitante. "

Só tenho pena no tratador. Quer dizer, nem desse, se o gajo estava a obrigar a morsa a trabalhar...Dá-lhe morsa.

 

México

"Num incidente, que ocorreu em março de 2017, dois adolescentes morreram depois de serem atingidos pela asa de um avião, enquanto tentavam tirar uma selfie na pista de aterragem, em Chihuahua. "

Esta gente vê muita televisão. Imaginem que isto é gente que acaba a ser médica, medo.

 

Estados Unidos

"O primeiro registo de morte por selfie, que ocorreu no país, foi em 2011, quando três adolescentes morreram enquanto tentavam tirar uma selfie nos caminhos-de-ferro, no Utah. O último caso ocorreu em março de 2017, quando uma jovem de 14 anos se afogou na cidade de Bandon, depois de cair do cimo de um tronco enquanto tirava uma selfie. "

Uma pessoa vai a um dos países com mais armas legalizadas do mundo e nem pode contar aos amigos no céu que lerpou vitima de um balázio. Nada disso, morreu por ser idiota.

Lá está: caminhos de ferro e uma que não cortou o cordão umbilical com os primos macacos.

 

Índia

"A Índia é responsável por cerca de metade das mortes que ocorreram no mundo devido a selfies. Algumas vítimas morreram ao tentarem tirar fotos com animais selvagens, outras afogaram-se depois de caírem de falésias, há quem tenha morrido ao tentar tirar fotografias com comboios em andamento e há também quem tenha sido baleado enquanto tentava tirar uma foto com alguma arma de fogo."

São os campeões com 80 mortes enquanto tiravam selfies.

Há gente que merece porque não respeita os animais. Há momentos de higiene planetária, porque malta a tirar uma selfie com um comboio em andamento num país onde os transportes tenham limite de pessoas por carruagem e não andam galinhas com crianças, é mau; escolher a Índia para esse trabalho é ser burro ao quadrado. Depois há gente que tinha a hora marcada, porque um gajo ir à Índia, estar a tirar uma selfie num guiché de caril e levar com um balázio na mona, é azar. Muito azar.

 

Depois há mais para cima de 10 locais onde patina gente porque cai de falésias e se afogam em cascatas e em rios e por aí em diante.

No fim das contas o que eu não percebo é porque raio os sítios são perigosos. Mas isso é toda uma outra questão.

Obrigada e boa tarde.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Qua | 15.05.19

A minha familia é como eu quiser

Gorda

familyday.gif

 

 

 

Neste que é o dia da família eu gostava de falar da importância de respeitar a diversidade das famílias. Não só as família de duas mães, de dois pais, de mães solteiras com pais que bateram à sola, de pais que são sozinhos porque as mães não quiseram ficar, de mãe e de pais que perderam os seus companheiros de viagem e agora enfrentam a empreitada sozinhos.

 

Todas as famílias devem ser respeitadas e, desde que haja amor, devem ser aceites e integradas na sociedade com a naturalidade do tradicional pai e mãe.

 

Mas para além destas famílias eu gostava de falar da aceitação pela normalidade do outro. A normalidade das famílias que fazem escolhas diferentes das nossas nos temas mais triviais, mas que apenas lhes dizem respeito. Que se celebrem as famílias que levam os filhos a múltiplos workshops, as famílias que não levam os filhos a workshops nenhuns, as famílias que apostam na escola publica e as famílias que fazem um esforço porque acreditam no privado. Que se aceitem os pais que emprestam o telemóvel e que se conviva com a convicção de quem acha que o telemóvel não é para os seus filhos. Que as famílias com escolhas ultra saudáveis não critiquem as que compram um chupa aos miúdos. Que não haja competição com as idades em que os filhos andam, com a capacidade intelectual de cada um, com as escolhas de minimalismos ou de acumuladores de tarecos.

 

Que olhemos para a nossa família e estejamos felizes com as nossas escolhas, conscientes de que estamos a fazer o melhor que conseguimos para que este núcleo viva aquilo que, para aquele tão especifico grupo de pessoas, faz sentido. Que nos abstenhamos de opinar sobre a forma como os outros decidem gerir a sua vida. Que retiremos os olhos da janela para a casa dos outros e que nos concentremos na nossa mesa de jantar, aquela que tantas vezes serve para comparação.

 

Que nos deixemos de generalizações bacocas baseadas em crenças infundadas que resultam apenas de ideias pré concebidas que germinamos nas nossas cabeças e que agora, queremos à força de tudo, fazer acreditar ser a única forma de viver. Que se acabem as frases “porque os miúdos depois ficam assim” ou “porque os miúdos depois ficam assado”, cada um tem a sua realidade e as escolhas que fazemos devem servir para balizar o que acreditamos ser melhor para nós e para os nossos, não para avaliar genericamente o que acontece na casa dos outros.

 

Neste dia que celebra a família, que podia ser hoje ou noutro dia qualquer, alguém me dizia “eu não concordo nada com o emprestar o telemóvel aos miúdos porque depois os miúdos ficam viciados e não querem outra coisa”. Isto depois de eu dizer que empresto o meu telemóvel ao meu filho. A minha resposta seca e certeira foi óbvia “cada pai e cada mãe deve fazer o que acha que é melhor para os seus filhos, da minha casa sei eu e da casa dos outros os outros saberão”. Ponto final.

O meu filho vê vídeos no telemóvel quando pede, quando eu cedo e acho que se justifica. Hoje em dia o telemóvel e os gadgets são a mesmíssima coisa que eram outros brinquedos no nosso tempo, eu acredito que é assim. O meu filho não deixa de passar horas no jardim a brincar com outras crianças, não deixa de inventar as histórias mais mirabolantes do mundo com a imaginação dele, não deixa de fazer as atividades dele, de ir à escola e de ler uma história todos os dias ao deitar.

 

O fruto proibido é e sempre foi o mais apetecido e é com base nessa premissa que eu nunca quis fazer dos gadgets um bicho de sete cabeças. Talvez seja por isso ou por mera sorte que o meu filho prefira passear, ir ao jardim ou fazer um jogo de corrida a ter o telemóvel na mão. O que é certo é que não é certamente um geek e não é o facto de ver meia dúzia de vídeos no meu telemóvel que tem feito qualquer diferença,

 

Não me interessa se os outros o fazem com os filhos deles, interessa-me apenas que deixem de lado a generalização, porque da minha casa ninguém sabe e o meu filho conheço eu.

 

Feliz dia da família e que falemos da nossa e deixemos a dos outros com os outros.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Ter | 14.05.19

Se a Gorda fosse jornalista: entrevista com Not so Fast

Gorda

Not so fast.png

 

 

A minha entrevistada esta semana já teve problemas com a lei, ou assim eu imagino. De qualquer forma já consegui a atenção do leitor que estará neste momento a salivar para saber se eu entrevistei uma madrinha da Máfia, e isso é o que realmente interessa.

Posso desde já dizer que é uma mulher que gosta de andar devagar, porque isto as coisas quando são à pressa dão asneira, toda a gente sabe. E porque me cheira que terá sido multada (bem multada) por excesso de velocidade, coisa para ter ficado sem carta para cima de seis meses. Gosta de fazer exercício, escreve lindamente (mesmo com umas belas unhas de gel; uma vénia de cabeça às canelas para a minha entrevistada) e sabe usar uma maquilhagem como pouca gente.

 

Sem mais palheta, apresento-vos a Lénia Rufino, autora do blogue Not So Fast.

 

Podem também seguir a Lénia no Facebook e no Instagram.

 

Vamos à entrevista?

 

(ultrapassado aquele momento dos dois beijinhos e do bom dia e de eu ficar com marcas de batom vermelho das bochechas e tal e coisas…)

 

CG - Para fazer esta magnânima peça jornalística eu faço bastante investigação. Não tenho fontes, mas escavo muito para perceber as profundezas do meu entrevistado. Ao vasculhar o seu Inscagram, como a boa mirone que eu sou, não pude deixar de reparar que a Lénia se apresenta muito parecida com o vinho do porto, numa espécie de síndrome de George Clooney, mas em gaja. Dito isto, eu que envelheço a passos largos e as outras pessoas que por aqui aparecem queremos saber: o que é que bebe para estar melhor com a idade quando as outras já vão buscar as marias aos calcanhares? Fez um pacto com o diabo? Se sim, diga se pode facultar o contacto depressa que já se faz tarde?

NSF - Ora bem… só não bebo água a ferver que, parecendo que não, é coisa que encarquilha uma pessoa e tudo o que qualquer Georgina Clooney quer é a pele esticadinha, esticadinha. Fiz um pacto com o diabo, sim: combinámos que ele vem em boiões de creme do Lidl e que eu vou contando o segredo. (True story: creme do “”Lidel”. Esquece os De La Mer(de) da vida. Lidl é o melhor.)

Nota da jornalista: anotado.

 

CG - Tendo em linha de conta que a má hortografia e o espasmo semantico lhe causam um certo afrontamento ocular, de zero a dés quanto é que lhe está a custar ler esta pergunta? Note que ouve um esforço em matar assentos para lhe propurcionar ainda mais praser.

NSF - Aqui jaz Lénia Rufino, falecida precocemente aos quarenta e vinte anos (ver resposta anterior), de sequência violenta de AVCs por conta de erros ortográficos. Para o funeral, em vez de gastarem dinheiro em flores que depois de amanhã já só cheiram a podre, comprem gramáticas e leiam-nas.

 

CG - Estive 10 minutos a olhar para o nome do seu blogue, destes ocupei 5 para uma sesta rápida e os restantes a matutar o que a terá levado a escolher este nome. Por mais voltas que dê imagino sempre uma situação de multa por excesso de velocidade a caminho das praias de Carcavelos, tudo na lambonice (não estou certa de que esta palavra exista) de arranjar lugar sem ter de andar muito até à praia. Quer fazer o obséquio de contar?

NSF - Vamos a factos: em primeiro lugar, não sou freguesa da praia de Carcavelos — demasiada ventania para mim; em segundo lugar, pese embora já tenha sido mandada parar 51 vezes pelas autoridades, nunca fui multada por excesso de velocidade. Porquê? Porque NUNCA conduzo acima dos limites (cof… cof…).

A história do nome do blog é gira: há muuuuitos anos, já farta de ter um blog que não era anónimo, decidi que queria escrever em modo anominato. Fechei o blog antigo e criei este. Dei duas voltas à cabeça e surgiu este nome, vindo não sei de onde. Escolhi um nickname e tudo (Marianne, alusão a Mariana que seria o nome que gostaria de ter dado a uma filha mas não calhou). A coisa deu-se e o meu anonimato durou umas vastíssimas DUAS HORAS… porque fui imediatamente topada por uma leitora do blog antigo (à época, não existia a avalanche de blogs que há agora e a malta conhecia-se toda — ainda alguém diz “malta”?).

Nota da jornalista: sim, a malta de 80.

 

CG - Vamos imaginar que está no Barreiro e apanha o cacilheiro (ou lá o que raio é o barco que usam no Barreiro) com destino a Lisboa. O comandante da embarcação tinha sonhado com a mãezinha dele e esta tinha-lhe dito que havia uma bomba no Tejo. A vida dele complica-se e então ele decide fazer rumo para a Ásia sem avisar os passageiros. Nesse barco, por azares e voltas do destino, a embarcação só tinha três passageiros: a Lénia, a Maria Leal e o Gustavo Santos. Quando se dão conta o comandante tinha atracado a embarcação numa ilha deserta, saiu do barco aos gritos e os índios limparam-lhe o cebo sebo (os índios são assim, não gramam barulho). Quando chegaram aos três passageiros perceberam que dois podiam ser indigestos, mas que a Lénia ainda podia dar um bom petisco. Não querendo ser radicais deram-lhe 4 hipóteses:

1. Todos os dias tinha de mergulhar num lago com sanguessugas usando um biquíni de tiras (onde é que eles tinham o biquíni são coisas de pormenor que não interessam agora);

2. Uma vez por semana tinha de assistir a um espetáculo da Maria Leal vestida de Lolita, seguido de quatro horas (4) de conversa com a senhora, que toda a gente sabe que assassina a gramática à catanada;

3. Dia sim, dia não iria ouvir uma palestra do Gustavo Santos e não pode tentar afoga-lo, o Gustavo tentará convencê-la que a sua insatisfação com o facto de estar presa numa ilha com ele, ambos a cheirar bastante mal, é um problema da sua mente;

4. Deixa-se comer pelos índios.

 

Qual é a sua escolha? Se não fundamentar tem uma penalização de 2 valores na nota final.

NSF - A minha primeira escolha é pedir-te que escrevas SEBO correctamente (ver resposta à pergunta nº 2).

Sobre o dilema em si… posso escolher a cor do biquíni?

Sou miúda para aguentar concertos da Maria Leal (e se levar os sapatos de dança ainda faço de bailarina javardola), mas não aguento a tipa a falar. Se o Gustavo Santos não abrir a boca, também consigo viver com ele (o tipo é giro, vá. Mas calado!). Não sei se os índios são bons a comer pessoas e calculo que não haja Tinder na ilha, portanto… evitemos. O mergulho no lago parece-me a saída ideal: sou praticamente o Michael Phelps do mergulho e despachava a coisa em poucos segundos.

 

Nota da jornalista: como prova de que esta jornalista é verdadeiramente tonta, notem que fica registado o envio de erros grosseiros numa entrevista, a pessoa é incomodada e ainda leva com farpas na vista...

 

CG - Reparei recentemente que uma das suas bicas lhe ofereceu a imagem de um pandeiro a libertar o que parecia ser um flato (inócuo, ao menos, espero…). É comum que as suas bebidas lhe providenciem imagens de partes intimas desconhecidas? Se assim for, se o café dá nalgas o que se pode esperar de um copo de tinto?

NSF - Só houve uma bica, além dessa, que me ofereceu uma imagem. Era um coração. Depois a vida aconteceu e até no café já só me sai merda. Enfim. O que é que me dá o vinho? Olha…dá-me ressacas, de vez em quando.

 

CG - O que dizem os seus sapatos de dança?

NSF - Ui… muitas coisas. Mas what happens on the dance floor stays on the dance floor.. e olha que já aconteceram coisas que não lembra a ninguém… Mas não posso contar, portanto, dou a resposta politicamente correcta: queixam-se de que já fizeram mais quilómetros do que os ténis com que fui a pé a Fátima. E deram-me muito menos chatices.

 

CG - Não podemos ir embora sem que complete a seguinte frase: “Quando os putos estão na escola e eu de férias, aproveito para…”

NSF - Bom… nunca aconteceu! Acontece é o inverso, eles de férias e eu a trabalhar, que isto eu sou é uma moira... Mas, se acontecesse, a resposta seria… aproveito para… namorar (com F) sem ter de me preocupar com o barulho!! (Ai, desculpa… vamos fingir que eu respondi que aproveito para limpar a casa em condições e assim…)

 

Nota da entrevistada (uma espécie de gorjeta pelo serviço prestado...coitada, está em terapia depois disto): Deixa-me só acrescentar isto, para informação da tua clientela: quando recebi as perguntas, tinha acabado de estacionar o carro. Fiquei lá dentro sozinha, a rir à gargalhada. Era isto. Obrigada e bom dia!

 

É tudo, por agora. (tã-tã-tã tã-rã-rã tã-tã-tã-rã-rã)

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Dom | 12.05.19

Se soubesse tinha levado o meu pai

Gorda

 

 

A minha mãe dizia muita vez que, desde que tinha casado com o meu pai, nunca mais tinha tido uma arrelia com mosquitos. Tê-lo perto era o maior dos descansos, o sangue devia ser bom demais para que os bichos se servissem noutra malga. Eram comuns as histórias de o meu pai acordar cravejado de mordidelas de mosquitos, depois de uma noite sem descanso a tentar limpar o sarampo ao intruso e a minha mãe nem uma picadela para confirmar o desassossego de uma noite.

Ainda hoje é assim, quando o meu pai está num sítio onde aparecem mosquitos (de qualquer estirpe) sabemos que ele vai ser o festim dos malditos. É como se a mosquitagem estivesse a caminho de qualquer lugar e de repente um diz para os outros "malta vai ali um farnel". A partir daí dá-se o Rocky do percevejo. O meu pai tem todos os tipos de mata moscas em casa, incluindo um com formato de raquete de tenis que tem uma luz o "frita" os malditos; ouve-se um tzzt e sabemos que o mosquito partiu.

Anunciaram que este domingo seria o dia mais quente do ano até ao momento, já se esperavam praias cheias e nós, com uma criança pequena e um adulto que fica coisinho com o calor (eu), decidimos chegar por volta das cinco da tarde. Estávamos a entrar no parque da praia da Rainha na Costa da Caparica quando nos deparamos com uma debandada geral; uma vez que o Benfica jogava hoje pensámos que aquilo era tudo gente à procura de chegar a tempo para preparar os petiscos e ver o seu Benfica em paz. Arranjámos lugar perto da entrada para a praia e eu carreguei o pequeno que tinha aproveitado para uma power nap. Quando estamos a chegar ao pé do bar da praia vem ter connosco uma senhora:

- Não vale a pena ir para ali (para a praia). Está a haver um surto de mosquitos e as pessoas estão todas a ir embora por causa disso. Olhe eu mal ali cheguei fiquei logo toda picada.

Vimos as picadelas e a filha confirmou que também estava toda picada. Aquilo era o arrastão dos culices arceant*.

Viemos embora. Fomos comer um bolo. Porque entre comer e ser comida prefiro sempre ser eu a bater o dente.

De caminho, já no carro, ainda matei uma serie de bicharada que estava alapada a mim; é que eu tenho um sangue como o do meu pai, quando estou num sítio onde há bicharada desta, os outros estão em paz. A única situação em que sou poupada é quando o meu pai também está. É como se fosse vinho do Porto, quanto mais velho melhor.

Estávamos sentados na pastelaria a comer o nossa petisco quando me ocorreu que mais valia ter levado o meu pai. Se soubesse que ia estar aquele descalabro de mosquitagem tinha levado o velhote, tinha-o sentado numa cadeira de praia e depois era só esperar, seria apenas uma questão de tempo até que ele estivesse coberto de pequenas pintinhas pretas e nós estaríamos descansados. Seria como acenar com um farnel a um faminto, ou como quando se cobre um espantalho de alpista para atrair a passarada e dar descanso às couves.

 

*mosquitos em latim, só mesmo para parecer esperta.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Qua | 08.05.19

As 10 melhores farpelas dos Met Awards e o que elas nos dizem

Gorda

O tempo está uma merda porque aparentemente o São Pedro está a passar por alguma depressão nervosa e então dá em escangalhar o bem estar dos condenados que estavam já a contar com o calorzinho do verão e que até já tiraram dos sacos plásticos de vácuo as trapos frescos. Há trânsito por todo o lado e a pessoa precisa de se animar.

Maneiras que me tenho entretido com as fatiotas que as moçoilas escolheram para os Met Awards, que, a bem da verdade eu nem sei o que são. Posso apenas dizer que deviam arranjar festas destas todas as semanas (ou de 15 em 15 dias, vá) porque isto é um regado no âmbito de entretém.

Vamos então às 10 +

(querédoooo, até pareço uma blogger e coisas a falar de roupas, daqui a nada vou estar a dizer que almofadas ficam melhor com as vossas lareiras, é só esperar).

 

(isto não está por ordem de acidente têxtil, é ao calhas que isto não é sítio de pouca organização)

 

Farpela número 1

met - gemma shan.jpg

"Acabei de sair de dentro de um tesouro pirata e condecoro-me vossa protetora solar, façam-me uma vénia servos!"

Isso, ou a moça foi a uma loja ver de um candeeiro para a sala e levou com um candelabro na mona. Nunca se sabe, a vida às vezes dá voltas do arco da belha.

 

 

Farpela número 2

met - cara delavinhe.jpg

"Não tinha onde estacionar a roulotte das farturas então espetei com ela no alto da pinha. Alguém quer algodão doce?"

Parece que o meu filho de 4 anos costurou isto de olhos fechados.

 

Farpela número 3

met - gaga_2.bmp

"Jarbas apanha aí os ovos que hoje temos omelete de espargos para o jantar."

Para além de cocorococo, não me ocorre mais nada útil para dizer.

 

Farpela número 4

met - katy perry.jpg

"I put a plug in my butt and I liked it..."

"Alguém adivinha onde é que eu liguei a ficha para esta merda estar toda acessa?"

Todo um outro conceito de dar à luz.

 

Farpela número 5

met - janelle money.jpg

"Pareço o big brother com olhos por todo o lado."

É a primeira vez que vejo uma gaja com 5 olhos, vejamos: 2 na cara, 1 na mama esquerda, 1 na mão e outro no befe. Em princípio os cegos estão em maioria.

 

 Farpela número 6

met - kim.jpg

"Mexe o cu Kanye, vamos chegar atrasados à reunião de pais da escolinha da Faroeste. Com esta fatiota quero ver quem é que vai falar de piolhos!"

Fuodaci! É a única coisa que me ocorre.

 

 Farpela número 7

met - mulher do coiso.jpg

"Comprei 7 metros deste tecido para fazer uns cortinados para a sala, se sobrar ainda faço umas almofadas para os cães."

Não sei se esta farpela é deste ano, mas também não interessa.

 

Farpela número 8

met - rihana.bmp

" Vim de um inferno frio depois de fumar umas brocas e vou fazer-vos cocegas até à inconsciência. Sou bueda má!"

Parece que roubou o chapéu ao papa.

 

Farpela número 9

met - jlo.jpg

"Não se baralhem com os blings da minha trunfa, eu continuo a ser a Custódinha da Freguesia. Antes tinha pouco e agora estou na mesma. Não importa onde vou porque nunca me esqueço de comprar o passe. Yeap. Props for the pessoas from my terra."

Sempre a minha preferida. Isto é só inveja Jenninha!

 

Farpela número 10

gaga_wdp.bmp

"Anda cá mauzão, mete-te debaixo da minha roda e depois a gente vai ao jardim brincar na areia, seu safadão."

Impressão minha ou isto é um "Alerta conjuntivite". Com umas pestanas daquelas....

 

E é isto pessoas, amanhã é só escolher e levar um destes para o trabalho. Ou são promovidas ou vão para a casinha dourada 1 mês até acertarem a medicação.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Pág. 1/2