Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Casa da Gorda

Casa da Gorda

Sab | 29.06.19

O mundo está a precisar de um bestseller novo que será o "Que se f@da é o c&ralhinho"

Gorda

 

 

Entrámos na mentalidade do deixa andar há muito tempo, ainda havia alguma culpa, três tostões de remorso, mas no fim lá se pinavam as responsabilidades nas costas de Deus dizendo a fatídica frase "Se Deus assim quis..." e a vida seguia. Deus certamente passado dos carretos com toda aquela responsabilidade atribuída sem ter nada que ver com aquilo. 

A responsabilização do Senhor caiu em desuso e deu lugar à aceitação do "eu", com textos e livros de ajuda a lembrar a quem os lê que não deve deixar que os outros exijam demais deles, que todos temos limites e todos temos direito a errar.

E as pessoas elevaram todo esse ensinamento tendencialmente oco a um outro nível, o do: "eu faço o melhor que posso e ninguém me pode exigir mais".

Nasce assim o movimento "Que se f@da" com um magnifico livro (que eu li) no top de vendas semanas e semanas, e as pessoas pensam "é isto, eu tenho de relativizar tudo, as coisas são como são e as pessoas têm de aceitar, eu da minha parte vou relaxar". Só que com este relaxar não vem a acalmia das ansiedades, chega a desresponsabilização e o "quero lá saber". 

"Estacionei mal o carro e ocupei dois lugares!? Que se f@da, foi o que deu naquele momento."

"Estacionei no lugar dos deficientes?! Que se f@da, não estava bem assinalado e também não há assim tantos marrecos quanto isso."

"Não fiz o meu trabalho mas estive quarenta minutos na net à procura de um vestido novo durante o meu horário de trabalho?! Que se f@da, há três anos entrei três dias mais cedo e ninguém me compensou, a empresa só quer, só quer, só quer!"

"Não estudei para o exame e chumbei mas os meus pais estão a pagar as propinas?! Que se f@da, também tenho de viver!"

"Deixei cair os papeis de publicidade no chão das escadas do prédio?! Que se f@da, eu também não pedi para me darem aquilo."

"O meu carro é um Reanault Clio de 1996 a cair de podre e já vale menos do que bina da minha vizinha Cidália, mas eu não vou apagar a beata do meu cigarro no cinzeiro do carro! Que se f@da o ambiente e a limpeza, mando é pela janela!"

"Precisas que eu acabe este relatório para que o teu trabalho fique concluído? Que se f@da, tu a mim não preccionas, não vivo em opressão, entrego quando der e tu desenrascas-te com o resto!"

E eu podia continuar até vir a mulher da fava rica, porque esta é a atitude das pessoas no dia a dia: displicente, incorreta, despreocupada, desconsiderada, arrogante e de um estou-me cagandismo estúpido que faz passar dos carretos o mais calmo dos Budas.

Esta manhã fui saber de informações sobre a entrega da minha cozinha nova, a rapariga que nos tem estado a tratar do processo, incansável, de um lado para o outro com as solas dos sapatos gastas com tanta piscina, as colegas com que me deparei, a quem ela estava a pedir apoio no tratamento das questões burocráticas, que lhes cabiam a elas, estavam-se borrifando, completamente desinteressadas comigo - a cliente que paga - e não sei se pior ou melhor, com a própria colega que andava de cá para lá para resolver uma questão que tinham dado como tratada na quinta-feira.

Perante o desagrado da cliente, um ar de superioridade irredutível, porque afinal de contas "que se f@da" elas fizeram o que deu para fazer e não vão desgastar-se por causa de um cliente que paga. Que palermice."

Ao ver aquele cena só me ocorria um "que se f@da é o c&ralhinho" , as pessoas têm de ter brio e responsabilidade no que estão a fazer, é para isso que são pagas, é para isso que o cliente paga custos de processo. 

Mas nada disto importa, porque saímos da loja e vimos que outro burgesso, cliente, tinha acabado de estacionar a peugeot 206 preta quase em cima da nossa carrinha, impedindo a entrada pelo lado do pendura, apesar de ter espaço para estacionar uma Mercedes Vito.

Só que lá está, a pessoa devia ter uma torneira para comprar, não anda nisto para gastar tempo com coisas menores e quando viu a m#rda que tinha feito pensou "que se f@da, entram pelo outro lado".

Que se f@da? Que se f@da é o c%ralhinho!

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Qua | 26.06.19

Gostava que o meu filho tivesse um irmão

Gorda

second baby.jpg

 

 

São muitas as vezes em que olho o meu filho embrenhado nas suas brincadeiras sozinho em casa e penso que talvez fosse uma ideia estupenda dar-lhe um irmão. Também me ocorre quando ele me interpela sistematicamente para que participe nas suas brincadeiras, sei que gosta que eu brinque com ele, mas também sei que o faz porque se sente sozinho e procura aquele que mais se assemelha a uma criança. Penso muitas vezes que gostava de dar um irmão ao meu filho, o problema é que, para que eu dê um irmão ao meu filho, eu tenho de ter outro filho. De outra maneira já tinha tratado disso.

Agrada-me a ideia de ter um bebé nos braços, de reviver as fases bonitas, o primeiro palrar, o primeiro sorriso, a primeira palavra, o êxtase dos primeiros passos, o ser chamada de mamã outra vez pela primeira vez. Mas o bom nunca vem desacompanhado e para que haja equilíbrio no Universo o mesmo ser que proporciona tamanha alegria também se borra até às costas, chora noites a fio, enfia-se na minha cama, vomita de forma projetada, risca os móveis, anda à lambada com o irmão enquanto grita “foi ele” ou “ele começou primeiro”, faz birras e deixa qualquer ser humano aterrorizado com o silêncio, porque toda a gente sabe que quando há silêncio a probabilidade de haver merda é astronómica. Pensar em estar grávida outra vez deixa-me em estado de terror; pança dilatada a andar como uma pata com defeito nas cruzes, sem forma para estar deitada, com a alegria do movimento do bebé acompanhada de pontapés em órgãos fundamentais que estão cada vez mais velhos e menos disponíveis para este tipo de cambalachos.

O puto já vai com 4 anos, daqui a pouco vai para a escola primária e uma pessoa começa a fazer contas à vida, onde é que já se sente confortável para ir porque ele já tem idade para isso, quantos anos faltam para ele ir para a universidade e ser mais independente, em cima desses quantos anos faltam até ele sair de casa e fazermos aquelas chamadas sempre iguais. São as melhores, as chamadas sempre iguais, pode não acontecer muita coisa, mas pelo menos não aconteceu nada de mal e isso, por si só, é um descanso tremendo.

O miúdo tendo a vida dele também nos possibilita mais independência, se arranjássemos outra criança agora significava que, quando este chegasse à adolescência, o faroeste da parentalidade, ainda o outro estaria na fase do cocó-xixi-pum-bufa e o mais velho já só iria querer saber da vida dele. Nós, os pais, agarrados ao cocó-xixi-pum-bufa e a um adolescente que “é pá ó mãe coise, ó mãe, ó mãe, não sei, não vi, não coise, mesada, dados móveis, amigos, os pais são bueda borings”. Um cenário idílico, como bem se compreende.

No outro dia o meu filho perguntou-me se ele um dia ia ter um mano na barriga dele. Ri-me e expliquei-lhe que só as mães é que têm bebés nas barrigas, as crianças não têm bebés nas barrigas e os homens (os pais) também não. Ele perguntou-me se eu ia ter um mano na barriga. Eu disse-lhe que não me parecia. Ele não insistiu, mas eu pensei: e se tivesse? Depois ocorreu-me que se tivesse provavelmente me estaria a vomitar a toda a hora como na gravidez anterior, sempre cansada e sem fôlego, provavelmente encafuada no meu apartamento sem possibilidade de fazer a vida de dia a dia normal.

Eu sei, sou aquele tipo de pessoa inspiradora que nem vê o copo meio cheio nem meio vazio, irrito-me porque ainda não trouxeram a garrafa de água para a mesa que eu assim bebia logo do gargalo.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Seg | 24.06.19

Reformados às compras

Gorda

 

 

Há uns tempos um amigo nosso contava-nos que um conhecido seu tinha aproveitado uma oportunidade de trabalho na Suécia e que estava encantado com aquilo, para quem estava habituado às miudezas nervosas do macho latino, aquele sítio até custava a entranhar os seus costumes. As pessoas não andavam à zaragata no trânsito, ninguém tentava passar à frente nas filas, era como se o conceito de chico-espertismo tivesse ficado para trás com o sol. Esse amigo tinha-lhe contado que a princípio tinha estranhado a forma de as pessoas estacionarem os carros ao pé do emprego, é que em vez de ocuparem os lugares perto da porta, as pessoas começavam por estacionar nos espaços mais afastados e aqueles que ficavam a passo e meio da entrada só eram preenchidos por quem chegava em cima da hora ou atrasado. Após alguns meses de estranheza lá perguntou a alguém que lhe explicou que as pessoas faziam por deixar os lugares mais próximos para quem chegava tarde, para que essas pessoas não tivessem de acumular o stress do atraso com a dificuldade de arranjar lugar e ter ainda de andar muito aumentando o tempo de atraso. As pessoas pensavam nas outras e em si ao mesmo tempo, porque se um dia lhes calhasse teriam o mesmo cuidado dos demais.

Isto é mais do que civismo, é boa educação e consideração pelo outro elevado ao cubo.

Esta história ocorre-me sempre que vou comprar as minhas mercearias ao fim de semana, faço-o às "horas de ponta" porque não tenho outra escolha. Durante a semana trabalho das nove às dezoito e não tenho oportunidade, entre a casa, o trânsito, o trabalho e um filho, de ir ao supermercado tratar do que é necessário. Por isso lá vou eu e todos os pobres que, como eu, têm esse tempo para tratar das tarefas mundanas de quem não tem empregada para todo o serviço. Sabemos que temos de ir com paciência e que vamos apanhar filas, sabemos também que vamos encontrar os clientes mais impacientes de todos: os reformados. Nada contra os velhotes reformados, gosto muito, tenho três. Mas tendo todo o tempo livre e podendo optar por fazer as suas compras em horários de menor azáfama eu não entendo o porquê de tratarem destas tarefas quando sabem que vão encontrar um mar de gente. As prateleiras estão sempre cheias, há sempre produtos e as promoções começam durante a semana, pelo que me resta olhar e perguntar: porquê, meu Deus? Porquê?

Podem dizer-me que é pelo convívio, que é pelo hábito, que é pela rotina, que é porque podem e fazem o que querem. Mas eu não entendo. Pelo convívio não é, a menos que a pessoa tenha um conceito de convívio completamente deturpado. Parem para olhar para os velhotes reformados às compras e vão perceber que, em 95 % dos casos, estão sempre a reclamar. Ou porque já acabou o produto, ou porque a senhora do peixe não tem tempo para lhes dar atenção e "é sempre a despachar", porque a fila é grande demais, porque a fila anda devagar, porque só há carrinhos muito cheios e eles só têm o pão e mais vinte e cinco cangalhos para pagar. Quase nada. Há uns anos os meus sogros vieram almoçar a minha casa e o meu sogro estava particularmente esbaforido, quando lhe perguntámos se estava tudo bem explicou-nos que tinha ido comprar não-sei-quê ao hipermercado e tinha esperado imenso porque a caixa andava devagar. Eu respondi-lhe "há pouca coisa mais irritante que um reformado com pressa". É verdade. Têm tempo, são donos dos seus horários numa altura em que podem tratar dos seus afazeres a praticamente qualquer hora do dia, porque raio hão de se meter na boca do lobo?

Por hábito também não me faz sentido, compreendo que possa ser o caso, mas os hábitos ganham-se e mudam-se quando é necessário. Pensem no Facebook, na altura dos nossos pais não havia, mas vamos lá a ver se eles não se habituaram a abrir conta e a partilhar ramos de flores e fotografias com os netinhos e o catano. Habituaram-se. Da mesma forma que se habituaram à medicação e às dores nas artroses. Faz parte da evolução humana, a adaptação dos hábitos ao meio.

Então mas a pessoa pode ter precisado de alguma coisa que se esqueceu! Podem dizer-me, e é verdade, mas isso simboliza meia dúzia e almas, não é dois velhotes raivosos por cada caixa.

No fim parece-me sempre que é uma pura questão de civismo e respeito pelo outro, se eu tenho a possibilidade de comprar as minhas coisas quando a maioria das pessoas que trabalham não pode, então eu vou nessa altura, chateio-me menos, ando à vontade, demoro onde quero e não sou empecilho na vida alheia. Facilito a minha realidade e a dos outros.

Mas isso obrigava a uma mudança de abordagem ao mundo e com o prognóstico de fim à vista as pessoas acham que ou reclama agora ou então, de facto, irão calar-se para sempre. E quem não quer levar riscado da bucket list o irritar de uma fila de gente para comprar duas embalagens de fraldas anatómicas?

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Sex | 21.06.19

O abatimento do drone americano é o bidé da minha casa de banho

Gorda

 

 

Tenho a casa em obras e ando já farta de tudo, o clima está tenso e a qualquer coisa que corre mal estou capaz de me descabelar, digo uma mão cheia de barbaridades e até agarro no telefone para ligar para o engenheiro e para o encarregado para dizer que não pago isto e que acho inadmissível aquilo. Mas depois páro, refreio os ânimos, falo com as pessoas, reavalio e compreendo que mais vale não piar muito alto, não vá haver azares e eu ter de ficar ainda mais tempo fora de casa.

Este fim de semana fui ver como andavam as coisas e percebi que se esqueceram dos canos de ligação do bidé do lado de fora, ou seja, eu tinha pedido para tirarem o bidé e as pessoas que estão a fazer a obra deixaram lá tudo. Gritei, descabelei-me, disse que a minha casa de banho não podia ficar assim, que estava a gastar um dinheirão para ficar com a casa de uma forma que não era a que tinha idealizado, ameacei que alguém ia pagar aquilo, tudo e mais um par de botas. Isto enquanto falava apenas com o meu marido, que tem como responsabilidade última aturar-me e deixar que a neura passe. Hoje de manhã falei com o encarregado, mais calma e serena, “isto tem solução?”, questionei, ao que ele respondeu que é rápido e é só mudar duas pedras. Regaladinha que fiquei, continuei com o meu dia como se nada se tivesse passado. Cancelei a chamada para o dono da empresa e até rejeitei a dele quando me ligou. Mero engano. Foi só alguma falta de comunicação e não vem mal maior ao mundo.

 

É o mesmo com o drone americano. O Trump quis identificar os responsáveis, ordenou ataques militares, fez ameaças nas redes sociais - o terreno de todos os indignados - mas depois mandou cancelar à última da hora. Até porque, segundo o próprio indica, se estivesse alguém a bordo do drone seria uma conversa diferente. Corrijam-me se estou errada, mas todo o conceito de drone pressupõe que o aparelhometro voe sozinho, de outra forma seria mais uma espécie de avioneta. Certo? No fim já se podia relativizar, teria certamente sido um erro de alguém sem controlo e estúpido. Claro, uma pessoa estúpida que manda abater objetos voadores. Tal como uma pessoa estúpida de penteado estranho e cor meio alaranjada que vomita coisas e depois logo se vê. Coisas como ameaças de ataques militares contra um país.

 

No fim só me fico a sentir mal com isto porque sou uma espécie de Trump das obras, vou PASSAR-ME DOS CARRETOS, mas depois quando aparece o senhor com o martelo a perguntar o que se passa só pergunto se a pedra fica mesmo assim ou não. E baixinho, para não fazer alarido para o vizinho de baixo.

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

Sab | 15.06.19

7 tipos de pessoas que podemos encontrar se formos de férias para um resort

Gorda

(eu não estive aqui, a imagem foi retirada do Google)

 

 

Antes de começar com a minha análise à fauna humana, importa esclarecer que a referência a resort feita no título é apenas uma tentativa de passar a ideia de que a minhas férias foram muito mais do que a ida para um hotel com tudo incluído no Algarve. É que uma coisa é dizer que fomos para um hotel onde nos puseram uma pulseira e nós pudemos comer como alarves, outra e explicar que estivemos num resort. Aliás, essa é a grande vantagem de fazer nove horas de voo para ir para Punta Cana, porque uma vez chegados lá pouco mais há para fazer que não seja usufruir de um bom hotel. Ou assim me contam, porque eu nunca estive tantas horas enfiada num pássaro mecânico.

No estrangeiro ou em terras lusas, assim que assentamos coutos em território "tudo incluído" aparece uma senhora simpática que nos questiona como pretendemos fazer o pagamento e, uma vez validada a condição financeira para o efeito, a mesma saca de um conjunto de pulseiras e marca-nos a todos, como fazem ao gado vacum após aquisição pelo novo novo latifundiário de estimação. A partir daí, tal como acontece com as vaquinhas felizes dos Açores, podemos comer e beber o que quisermos nos vários pontos de abastecimento que o hotel disponibiliza. Na fila temos bichesa de várias nacionalidades e rapidamente compreendemos que há gente que vai dar um prejuízo do catano. Como o par mãe e filho que, em conjunto, pesavam cerca de 250 quilos.

Malas pousadas, fatos vestidos, chapéus de palha postos, caminhamos lentamente ao som de uma música badass com destino ao primeiro lanche da tarde seguido de mergulhos na piscina. É aqui, neste momento de convivência familiar que podemos aproveitar para nos deleitar com as maravilhas da espécie humana.

 

1. Camores, avecs e ramsteins

Isto é malta que não teme o sol, o frio, a neve, as intempéries ou os tsunamis. Esta gente pagou para estar de férias num tudo incluído, pagaram para que estivesse sol e para usufruir das espreguiçadeiras. São os primeiros a chegar à piscina antes das nove da manhã, quando ainda está um vento frio que não se aguenta nem com uma malha grossa. Ali ficam resilientes à espera que o sol chegue, todos encarnados do escaldão, desafiadores das leis do cancro da pele.

Chegam aos buffets primeiro que todos os outros e consomem, pelo menos, três pratos cheios de alimento, mesmo antes de chegar à sobremesa. À beira da piscina viram bebidas coloridas a um ritmo de 7 por hora. 

 

2. Gente que não teme o sol

Compreendi com toda a certeza que eu tenho uma perspetiva desatualizada e retrograda da vida, por isso tendo a achar que há alturas em que o sol pode ser nocivo, especialmente para as crianças. E não, não acredito que hajam protetores solares que possam compensar tal coisa. Nada mais idiota. O sol só tem este comportamento mauzão no dia a dia, quando estamos de férias as coisas não são assim, o sol sabe que estamos a descansar e não nos causa cancro, aliás o sol, nesse período nem gosta de ouvir falar de melanomas. Chego a esta conclusão porque é comum ver chegar à praia, estrangeiros e portugueses, a horas de pico de calor. Com eles bebés de meses, sentados nos seus carrinhos, os mesmos que eles pousam à sombra, por baixo de uma rocha que assinala a possibilidade de derrocada. 

 

3. El canhon de la piscinia

Este ano não apanhei nenhum canhon nem nenhuma canhona, mas normalmente são espanhóis muito bronzeados, de calções arregaçados até as virilhas, que se pavoneiam à beira da piscina enquanto trauteiam músicas latinas e convidam a sua canhona para dançar. Vamonós dizem eles. Istá quietio dizemos nós, que já estamos fartos daquele lombo barrado de óleo a saracotear-se, até porque com o sol a bater tende a encadear-nos a vista.

 

5. Os portugueses que não gostam de encontrar portugueses

Há umas semanas uma senhora veio deixar-me um comentário dispensável numa publicação que fiz no Instagram na sequência de o Benfica ter ganho o campeonato. A única coisa que me encanitou no comentário foi o échetégue deixado pela amável senhora - que nem sequer acompanha o espaço, mas foi lá deixar a sua poia (deve ser uma espécie de síndrome de pombo, assim que vê um espelho retrovisor fica acometido de diarreia e tem de lá obrar em cima) - o qual dizia #somostodosiguais. Ora esta nota deixou-me perplexa porque eu não sou igual a nenhuma das pessoas que conheço, quanto mais igual a uma pessoa que nem sabe quem sou. Não contrapus porque ainda hoje não sei se é verdade, se sou ou não igual a esta senhora. Tenciono manter-me dessa forma. 

De todo o modo o que interessa este tema para aqui é que, no que respeita a encontrar outros tugas nas férias, eu de facto prefiro estar no meio da estrangeirada. Nada contra os portugueses, até porque gosto muito da minha nação, mas há três coisas que eu não consigo ultrapassar:

1. No meio de estrangeiros posso dizer as baboseiras que quiser que ninguém entende. Por exemplo se eu disser "aquela camona já vai na quarta jola, vai lá vai" e sorrir, a inglesa vai achar que eu estou a ser simpática e sorrir de volta.

2. Os estrangeiros não entram em competição para ver quem tem os filhos mais educados. Parecem estar-se a borrifar para isso. Isto porque aparentemente no estrangeiro, as pessoas sabem que as crianças não se comportam como adultos, pelo que não há que estranhar que sejam infantis.

3. A tendência incontornável do tuga para se sentir inferiorizado quando encontra outro nativo, tentando compensar a aparente equivalência de estatuto esclarecendo que já correu o mundo todo.

O ano passado estivemos no mesmo hotel e encontrámos um casal que, perante a existência de tantos portugueses passou o tempo todo que esteve à volta da piscina das crianças a elencar os países onde já tinham estado "essas bóias já não usamos, comprámos em Cabo verde...essas bisnaga foi no Brasil...esses chinelos foi em cascos de rolha". Ao que indicaram (por diversas vezes, saliente-se), ir para o Algarve era algo que faziam apenas por uns diazinhos, como escapadinha; não era para as férias grandes como os outros pelintras que ali estavam.

 

6. Ingleses das barracas

É verdade que nunca dei conta de estar na presença de talibãs ou membros da Al-Kaheda nos espaços que escolho para descanso, contudo, dos restantes hospedes com os quais já partilhei hotel em território nacional, os ingleses de faixa etária equivalente à minha ou inferior, são o pior que se pode encontrar. Ao contrário da versão romantizada do povo inglês que as pessoas querem acreditar, recheada de princesas Dianas e Hugh Grants, com sotaque que os dá arrepios na espinha, a verdade é que uma boa parte dos ingleses, especialmente os das cidades de interior, com sotaques macarronicos, são os pobretanas da terra deles, são burgessos e brutos. Vêm para Portugal acreditando que isto é uma espécie de Paraíso espanhol em barato, comem que nem animais, estragam coisas, fazem barulho, sujam e, mais do que qualquer outra coisa, bebem como se estivessem no deserto. À semelhança do antigo tuga emigrante, acreditam mesmo que todo o povo português é ignorante e dizem barbaridades porque pensam que ninguém os entende, isto quando uma boa parte dos portugueses fala inglês com um léxico mais correto que o deles.

 

7. Progenitores cocós que são mega espertalhões

Chegam envergando roupa a condizer, cria e progenitores, para cima de três dígitos por peça, os olhinhos da cara penhorados em cartões de credito para alimentar o parecer. É fácil saber porque é preciso ser teso para ir de férias para o mesmo barraco que o pobre. A cria vai para a piscina e leva consigo as mãos carregadinhas de ar, na água, bom mesmo é chapinhar. A princípio pensamos que são minimalistas mas rapidamente compreendemos que a criança tem um saco cheio de brinquedos ao pé da toalha, mas os paizinhos, espertalhaços que são, assim que bateram olho nos arruaceiros que estavam a mandar bisnagadas na piscina, perceberam que estavam perante mini meliantes capazes do atroz furto da pazinha verde, por isso o futuro príncipe de Santa Comba Dão, preserva os seus pertences com o maior dos cuidados. Enquanto isso, o pequeno príncipe que é apenas uma criança, atira-se com unhas e dentes aos brinquedos dos mini meliantes, ávido por ter com que entreter. Os rufias começam a reclamar porque querem as suas coisas, é nesse momento que os Condes de Santa Comba Dão decidem mandar larachas como "deixe lá, o menino não gosta de partilhar...", como quem dá a dica que os filhos dos outros são egoístas. É fácil dizer que os filhos dos outros são egoístas quando os nossos não tem nada para emprestar. Ou seja, o querubim não pode emprestar a pá verde que deve estar cravejada de cristais, mas os meliantes têm de se transformar em mini madres Teresas e despojar-se de todos os seus entreténs para ver os outros divertir-se com o que lhes pertence.

O que é que eu tenho a dizer a esta gente? Barda-merda.

Espero que o João Artur cresça para ser melhor que os palermas dos pais.

 

Para quem aproveitou estes dias, espero que tenham tido umas boas férias, para quem ainda vai, votos de um bom descanso.

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Ter | 11.06.19

Coisas que dizemos que vamos fazer nas próximas férias

Gorda

(imagem retirada do Google)

 

 

Mas que na verdade nunca acontecem.

Todos os anos, quando chega ao fim aquele período de férias que marcámos para ir apanhar uns raios de sol, damos connosco a fazer uma retrospetiva dos dias passados e a planear a melhoria das coisas que, a nosso ver, podiam ser francamente melhoradas. Listamos e prometemos que no ano a seguir é que vai ser, no ano que vem é que vamos rebentar a escala das férias. É que nem a Cristina Ferreira espojada num destino paradisíaco nos vai conseguir bater.

 

1. Para o ano vamos para um sítio melhor

Todos os anos acabamos por escolher o mesmo hotel ou um parecido, preferíamos ir para as Caraíbas ou para as Maldivas, mas o carro teve de levar uma embraiagem nova e deu-nos cabo do orçamento. Por isso lá rumamos ao Algarve ou ao Sul de Espanha onde os preços são parecidos e uma pessoa com a pulseira no braço pode consumir sem ter de pensar nas refeições. Ao fim de três dias a paella e o cozido à portuguesa sabem ao mesmo e constatamos novamente que o melhor era ir para um sítio que não tivesse tudo incluído porque assim sempre experimentávamos a gastronomia local.

 

2. Para o ano vou perder uns quilos para ficar melhor de biquini

Temos o sonho de tirar umas fotografias de Instagram para a nossa conta onde os nossos amigos e, potencialmente até alguns estranhos, nos possam vir dizer que estamos com um rabo invejável, que o biquini nos fica melhor do que à modelo do cartaz publicitário e que estamos um completo estouro "no escritório ninguém imagina que és assim por baixo da roupa". Imaginamos que faremos um a figuraça a passear pela beira da piscina e, depois de algumas contas de merceeiro, planeamos inscrever-nos no ginásio em janeiro, afinal de contas para estar uma brasa em junho, seis meses devem ser suficientes. O problema que é janeiro é o mês mais deprimente do ano e uma pessoa come para esquecer, fevereiro tem o dia dos namorados e recebemos muitos chocolates porque estamos casados à anos e, para além de comida, ele já não sabe o que nos dar. Março parece ser a altura ideal mas a embraiagem do carro teve a sulipampa e afinal já não vamos para a ilha que pensámos, Abril mete os feriados e a Páscoa, há muito chocolate dos miúdos e uma pessoa come demasiadas vezes fora; maio já é muito em cima, pelo que mais vale comprar um fato de banho e encolher mais um pouco. Quanto a fotos deixamos para as piscinas que ficam sempre bem e para os filhos porque "tudo o que e pequeno é engraçado".

 

3. Vamos ser mais comedidos a comer

Quando não conseguimos perder nem dois quilos antes das férias damos a batalha como perdida e na mala só seguem camisolas largas com vista a dar espaço para que possamos alambazar-nos como lontras e leões marinhos. Contudo, quando o mês de maio até compensou e conseguimos perder aqueles três quilinhos, à força de fome e corridas de final de dia, então prometemos que vamos ter juízinho. Planeamos o pouco que vamos comer e até compramos umas bolachas diet para não entrar em desvarios. O problema é que o conceito de buffet associado à pulseira que nos garante que podemos comer o que quisermos, faz com que acabemos a levar mais de três pratos para a mesa a cada refeição. Mas não faz mal porque estava lá uma alemã com mais alguns setenta quilos que nós.

 

4. Não vou levar metade das bugigangas

Há as merdas dos miúdos, as nossas, as dos maridos, as da família, as do medo e as da estupidez, que basicamente são aquelas coisas que decidimos levar porque no nosso subconsciente achamos que o Algarve ou São Torpes são algures nos confins de África. Motivo pelo qual ficamos sempre surpreendidos quando lá encontramos um Continente. Quem havia de dizer?

 

5. Vamos alternar a tomar conta dos miúdos

Ir de férias com os filhos é proporcionar boa disposição aos petizes gerando ainda mais cansaço aos pais. Uma coisa é malta que tem filhos na casa dos vinte, outra é malta que tem filhos com quatro. 

Todos os anos decidimos que no ano seguinte nos revezamos, como se trabalhássemos por turnos, dessa forma sempre conseguimos descansar e acabar de ler aquele livro que andamos para concluir há meses. Mas depois os miúdos vêm sempre à toalha chamar o progenitor que ainda não está na brincadeira ou fazem uma birra porque não querem que a mãe fique no quarto. E nós, os pais, como queremos os herdeiros felizes, cedemos e o livro avança umas dez páginas desde a ultima vez que lhe mexemos.

 

6. Não vou olhar para o telemóvel nem para as redes sociais

Vamos passar uns dias sem saber como vai a nossa vida na net, mais ou menos como dizemos que fazemos com os problemas do trabalho, aqueles que ficam sempre à porta quando saímos. Alegadamente. Vamos aproveitar o momento, estar mais presentes e até desligamos as notificações do Whatsapp por uma semana só para que não sejamos incomodados com aquelas correntes de parvoeira do grupo da malta do Zumba ou do Futsal de quinta à noite. Está tudo a correr lindamente até ao momento em que os miúdos começam a fazer birra, o tinto está à mão de semear, mas uma pessoa não pode estar com uma cadela descomunal enquanto toma conta do Joãozinho que brinca aos heróis na piscina redonda. Então vamos dar uma vista de olhos ao Facebook e vemos as colegas que acabaram corridas onde encontraram a razão de viver. Desligamos. Vamos ao Instagram e damos com  a Cristina Ferreira no resort para onde queríamos ir e rogamos pragas ao Daniel Oliveira por não ir ao Lidl de Azeitão comprar as mercearias, assim sempre nos podíamos conhecer e, quem sabe, conjeturar um programa juntos enquanto esperamos na fila porque a D. Amélia está novamente a trocar as meias de vidro.

 

7. Enfiar goela abaixo as nossas fotografias

Devem ter já passado uns dez anos desde o dia em que eu praticamente obriguei o meu irmão, a minha cunhada e a minha sobrinha a assistirem a um escorrer idiota de fotografias das nossas férias. Foram lá almoçar a casa e, como entretenimento, tive a brilhante ideia de ligar o computador à TV e de percorrer as nossas duas centenas de fotos com comentários. Eles educadamente riram e disseram que gostaram muito, mas a determinada altura já denotavam algum enfado. Na altura recordo-me de ter ficado entristecida porque o meu irmão e a minha cunhada não tinham dado valor às minhas férias. Estupidez. Pura idiotice. As únicas pessoas que têm de dar valor às nossas férias somos nós. É por isso mesmo que a maior parte das fotografias são inúteis. Servem para ser guardadas em pastas que ninguém mexe durante anos. 

É exatamente essa fome de partilha que as redes sociais veem colmatar. Com uma boa conta de instagram podemos obrigar os nossos conhecidos a ver-nos de férias. A saber para onde fomos, o tamanho da piscina e se estamos em forma ou não. Não temos de arranjar um motivo para mostrar, é normal, faz parte. E as pessoas, que mais tarde planeiam mostrar as deles, apesar de se estarem a borrifar, validam a beleza do que temos à nossa frente com um "like" ou um coraçãozinho. O problema é que raramente conseguimos levar a cabo o número 2 e por isso só mostramos palmeiras e as rochas na praia. Ainda assim lá andamos nós de máquina na mão a fotografar palmeiras com muita nitidez porque a natureza fica sempre bela e nunca é demais ter 23434524 fotos de palmeiras algarvias num disco externo.

 

Lá está, para o ano que vem é que vai ser.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

Qua | 05.06.19

36

Gorda

36.jpg

 

 

Detesto o meu dia de aniversário. Todos os anos digo para mim mesma, numa espécie de estágio de preparação, que nesse ano vai ser diferente, que não vão haver dissabores, que o dia vai correr bem e que nem o hamster da vizinha Palmira vai quinar nesse radiante dia. Depois o malogrado chega e eu retorno à conclusão habitual: detesto o meu dia de aniversário.

Recordo-me que em criança ficada excitadíssima com a minha festa, as minhas amigas iam lá para casa, cantavam os parabéns na escola; nesse dia parecia que todos eram mais meus amigos e até aqueles que mal falavam para mim pareciam interessados em ver-me alegre. Com o tempo essa sensação foi passando até chegar ao dia em que acordar no meu aniversário se apresenta um dia desgostosamente normal. Com as horas de alvorada para o trabalho, as responsabilidades do costume e os mesmos contactos de sempre para desejar um feliz aniversário e acabar por aproveitar para contar duas ou três desgraças que se lá passam para a vida de cada um. Pelas nove da noite já atendo o telemóvel com os pêlos dos braços em pé. Talvez seja por isso que eu prefira as mensagens escritas. Normalmente as pessoas têm preguiça de escrever e por isso cingem-se ao mínimo desejando um dia feliz e que conte muitos. Ao telefone parecem entrar em batalha com o silêncio e, para preencher as ondas sonoras desprovidas de ornamentos decidem contar tragédias da vida.

 

Mas então e isto dos 36?

Não gosto particularmente de fazer 36 da mesma forma que não gostei de fazer nenhum depois dos 25. Nada que tenha acontecido de especial nessa data, sou só eu que não me sinto com mais do que essa idade. É certo que tenho mais dores de costas e as maleitas de órgãos com mais anos de rotação, mas a minha cabeça nega a idade que a vida me dá. Como raio é que eu já tenho 36 anos se eu ainda ontem entrei para a faculdade?

Alguém fez um fast foward!

Mas como é obvio antes contar os malditos e chegar a velha com dentes comprados do que patinar nova e perder todas as coisas boas que a vida tem para dar, como os reality shows e trabalhar quase até aos 70.

 

De todo o modo, não tendo ideia melhor, vou listar 36 merdas que acho que sei:

 

1. Podia dizer que “já não tenho paciência para muita merda”, mas a verdade é que nunca tive. Nunca tive pachorra, a grande diferença é que já tentei disfarçar e agora estou-me cagando para o que os outros pensam.

 

2. A idade não traz mais valia nenhuma. Nenhuma. São só dores e aproximação do fim. A sabedoria raras vezes ajuda no que quer que seja, porque no que ganho em sapiência perco em pachorra. Maneiras que caralhinho para isto tudo. Com o tempo que há de humanidade uma pessoa já devia nascer com manual de instruções para lidar com toda esta filha da putice.

 

3. Já não me importo que as pessoas se assustem com o meu sábio e implacável uso do vernáculo. Eu gosto e uso. É como o baton vermelho, fica bem a quem lhe sabe dar valor.

 

4. Não gosto de aveia, nem de papas de aveia, nem de papas no geral e recuso a ideia de um dia andar a papas.

 

5. Gosto do campo e da praia e detesto a pergunta "prefere campo ou praia?". Prefiro os dois desde que esteja de férias.

 

6. Foda-se que ainda faltam 30 merdas.

 

7. Detesto o meu primeiro nome e menos ainda o segundo.

 

8. Queria um par de mamas novo, mas não tenho conta bancária para isso.

 

9. Gostava de ter o lombo da Jennifer Lopez, sem ter de treinar como ela porque sou preguiçosa.

 

10. Gosto de me rir. É um dos maiores prazeres da vida. Gosto de fazer rir porque para séria já chega a vida.

 

11. Detesto os programas da tarde e os seus dramas, mas quando estou em casa fico sempre agarrada áquela merda e só me apetece dar chapadas na minha tromba.

 

12. Arrependo-me da maioria das coisas que faço, lembro-me sempre da forma certa aproximadamente 5 minutos depois de já ter borrado a manta.

 

13. Tenho um trabalho sério e exigente, até eu me surpreendo por vezes como é que uma palerma como eu tem este nível de responsabilidades. Mas tenho.

 

14. Quero comprar uma autocaravana para fazer uma viagem pela Europa.

 

15. Todos os anos tento convencer o meu marido a oferecer-me um Jack Russel pelo meu aniversário. Todos os anos ele me manda cagar à mata mais esta conversa.

 

16. O meu pai faz anos no mesmo dia que eu. É palerma como eu. E vive feliz por saber que o meu filho vai gozar comigo mais do que eu gozo com ele.

 

17. Gosto de humor negro, é a única forma que tenho de lidar com temas como a doença e a morte.

 

18. Gostava de ser uma pessoa séria e serena, daquelas que não se perdem nos seus próprios pensamentos.

 

19. Acontece-me com frequência começar a rir-me no meio da rua por conta de uma merda qualquer que me lembrei e me pareceu engraçada.

 

20. Desde que tenho conta de Facebook que recebo muitos mais parabéns neste dia. Porque tenho amigos "imaginários" que são aquelas pessoas que são minhas amigas nas redes sociais e mal falam para mim no dia a dia. Mas no meu aniversário não falham.

 

21. Tenho pelo menos uma prima, que nunca me deu os parabéns antes de eu ter conta de Facebook.

 

22. Tenho Facebook para não me esquecer de dar parabéns às pessoas.

 

23. Faço todas as intenções de hoje ir comer uma fatia de bolo de 5 euros sem partilhar uma migalha com ninguém.

 

24. Esta merda nunca mais acaba e eu estou a ficar velha.

 

25. O meu pai faz 71 anos hoje e mais logo, quando falar com ele vai-me dizer "já viste isto, um gajo já tem quase 72 anos...". É sempre assim. Só me apetece dar-lhe lambadas nas trombas. É um conflito interior, porque é o dia dele mas também é o meu.

 

26. Estou farta das obras e ainda mais farta de viver com os meus sogros.

 

27. Não tenho sorte ao jogo, nenhuma.

 

28. Quero comprar um Tesla e estou à espera que o Musk entre em saldos, Primark style.

 

29. Adoro gastar dinheiro com merdas que não interessam para nada. Adoro bugigangas de lojas de artigos vários.

 

30. Gosto de livros. Gosto de histórias. Compro livros porque me apaixono pelas capas.

 

31. Desde que o meu filho nasceu que me passei a borrifar para a maior parte das coisas (e pessoas).

 

32. Ser mãe é a melhor e mais difícil coisa que tenho feito até hoje.

 

33. O meu filho é a minha pessoa preferida. Digo-lhe isso todos os dias. Não há ninguém à face da terra cuja companhia eu aprecie mais.

 

34. Gosto de me sentar a ver filmes choninhas uma tarde inteira enquanto enfardo merdas não recomendadas pela Organização Mundial de Saúde.

 

35. Sou hipocondriaca em grau I e gosto de gozar com isso. Ao nível do imaginário pouca gente teve mais doenças que eu.

 

36. Cá estamos. Vamos ver no que este ano vai dar. Se for como os 35, já não é para aí pior. Expectativas rasteirinhas, sempre rasteirinhas.

 

E agora fica aqui a minha música de aniversário preferida, porque é o meu dia, é a minha festa e eu digo caralhadas se eu dizer, e eu digo foda-se se eu quiser, e eu choro e faço birra se eu quiser.

 

 

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.

 

 

Ter | 04.06.19

Publicidade nos blogs (e nas contas de Instagram e nessas porras todas)

Gorda

(imagem retirada do Google)

 

 

Quando eu era miúda a publicidade era uma coisa inatingível para alguém como eu, reservada para mulheres lindas e homens charmosos da televisão. Pessoas com todos os destes na boca, mesmo que se tratassem de crianças em idade de troca de dentição. Quando eu era miúda as meninas da publicidade eram loiras de olhos claros, magras e estrangeiras. Quando eu era miúda só havia publicidade na TV, na rádio e nos jornais.

Hoje a publicidade está por toda a parte e toda a gente tem alguma coisa para vender. Gradualmente perdem o sentido investimentos elevados em spots publicitários quando umas centenas de euros geram fidelização às marcas e aos produtos, crescendo com os nichos de mercado que, para além de fidelizar conferem credibilidade à marca. É aqui que entram os bloggers, os youtubers, os Instagramers e toda essa malta. É aqui que entram os acordos para que toda a gente fique a ganhar e os códigos PAPALÀMAISISTO10.

Eu não me incomodo nada com publicidade, mas há um conjunto de coisas que me parece importante esclarecer:

 

1. Não sou contra a publicidade. Aliás, não só não tenho nada contra, como fico bastante contente pela pessoa porque isso é sinal que o trabalho que tem está a ser compensado.

 

2. E sim, manter um blogue e uma conta (de...coisas várias) dá trabalho. Pode ser mais, pode ser menos, mas trabalho. Encontrar temas para escrever, perceber se funcionam, dedicar o tempo que podia ser usado a ver um filme ou a dormir a sesta para criar um conteúdo que é, em mais de 90% das vezes gratuito; trabalho.

 

3. É parvo deixar de ver os conteúdos de um site, blogue, conta (o que for) porque essa pessoa começou a fazer publicidade. (desde que seja só por essa razão)

 

4. É normal que as contas que passam publicidade mais de 50% das vezes que publicam alguma coisa se tornam entediantes e que deixem de ter interesse.

 

5. Também é verdade que quem se sente farto deve deixar de acompanhar e ir à sua vida. Cabe à pessoa que é dona do espaço fazer dele o que quiser.

 

6. Gosto de ver uma publicidade bem feita, mas a maior parte das vezes passo à frente porque não não quero saber. Já encontrei dicas boas de férias à conta deste tipo de publicidade, mas por outro lado já não posso ouvir falar de sumos detox. Não sou melhor que ninguém mas acho que é isto que se deve fazer: não se gosta de comer numa malga, é passar à frente sem cuspir no prato onde se andou a chafurdar.

 

7. A blogger/youtuber/Instagramer (seja lá o que for) que melhor fez publicidade foi a Bumba na Fofinha. Criou um conteúdo humorístico adaptado, fez um vídeo hilariante e no fim esclareceu que aquele pedaço de entretenimento tinha sido patrocinado por marca “tal e tal”. Gostei bastante e pensei “olha aqui está uma forma de fazer publicidade que não defrauda expectativas”. Ainda assim não comprei o cheirinho para a sanita.

 

8. Tudo o que é devidamente claro não me arrelia de todo.

 

9. Não gosto de publicidade encapotada, daquela em que a pessoa diz que está a adorar consumir não sei o quê e que é fantástico e o mundo e o outro. No fim tem o código para comprarmos.

 

10. Não gosto de uma coisa como a que vi ainda há uns dias: várias publicações da mesma pessoa em que numa havia dieta, noutra já havia comida de pastelaria, noutra não sei o quê. Alegadamente a pessoa estava a fazer todas. Calhando em ter uma abordagem diferente, ou seja, explicando à cabeça que tinha uma parceria com a marcas, já me tinha parecido melhor. Lá está, não gosto, mas abstenho-me de comentários porque a pessoa lá sabe da vida dela, eu tenho cabecinha para pensar e não compro só porque alguém me diz que é bom. Até porque não temos de (NEM DEVEMOS) fazer tudo o que os outros dizem, de outra forma somos umas Marias vão cazotras.

 

11. Ao contrário do que alegam, a publicidades das contas particulares de celebridades e seus derivados não é a mesma coisa que a publicidade na TV. A publicidade da TV está anunciada como tal e o expectador sabe que está a assistir a reclames. Nestes espaços tendencialmente privados o consumidor do conteúdo está a contar com dicas pessoais do dia a dia, dicas isentas de quaisquer rabos presos, informações desprovidas de interesses porque se "a pessoa não tem nada a ganhar, vai dizer se não prestar...". Convenhamos que uma marca não está para pagar a alguém para assinalar os pontos negativos do produto que tem para vender, pelo que…

 

12. Por isso importa ter presente que há muitas pessoas que seguem os conselhos destes espaços e é natural que se sintam defraudados quando percebem que afinal não era um conselho “de coração” mas um riacho de elogios pagos.

 

13. Discordo da ideia de que quem segue tenha o direito de dizer o que lhe apetece e de se indignar sobre a premissa que já li tantas vezes “se não fossem os seguidores isto não era nada”. Os seguidores, ou leitores, ou o que for são importantes mas foram lá parar aos magotes porque quiseram e tiveram interesse nos conteúdos. Ninguém os obrigou. Uns foram porque gostaram, outros foram porque não-sei-quem foi, outros foram porque toda a gentes segue. Se o telejornal fosse forte no Instagram toda a gente andava a par com as noticias.

 

14. Gosto de publicidade que faz sentido e que é honesta. Publicidade que esclarece que é publicidade. Eu, se tiver interesse, vou consumir na mesma.

 

15. Já não há cu que aguente a publicidade em massa. Correr páginas e contas e blogues e dar com a mesma pomada porque toda a gente tem o filho com o befe assado; toda a gente aconselha a mesma bebida; toda a gente compra na mesma loja e por aí em diante até cansar e terminar na Prozis que faz uma pessoa querer vomitar complexos proteicos pelozólhinhos.

 

Em resumo, a publicidade pode ser boa para todos se houver duas coisas: respeito e honestidade. Respeito para com o leitor porque há publicidades que dão aquela ideia de que quem criou o conteúdo já pensa “ah qualquer porra serve, estes já papam tudo o que eu ponho aqui”; respeito por quem cria o conteúdo, porque aquilo dá trabalho e a pessoa tem de ganhar a vida. Todos fazemos coisas que gostamos menos porque são "ossos do ofício". Honestidade porque sim, porque é bonito em qualquer situação.

 

 

Para mais conteúdos podem sempre acompanhar a Gorda no Instagram.

Ou ainda na conta de Facebook.