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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Qua | 31.07.19

Um grande viva à adoção inconsciente

Gorda

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Este ano em vez de adotar um cão que depois abandonará à beira da estrada preso por uma corda ranhosa, opte por adotar uma criança. Parecendo que não, apesar das birras e de sujar os sofás lá de casa com comida e lápis de cera, pelo menos não larga pêlo no chão. Preencha os impressos, meta os papeis, indique se quer uma criança limpinha para tirar uma foto logo à saída da Instituição, ou uma mal enjorcada que venha cheia de percevejos e ranhosa, para que, dessa forma, possa tirar uma foto do antes e depois. É das coisas que lhe irá conceder mais crédito social.

Leve a criança e mostre-lhe o quarto todo decorado de acordo com a revista da moda e avise que não é para estragar porque a sua casa não é o curral que era a Instituição e debaixo do seu teto não vivem selvagens. Apresente a criança à família e seja elogiado por ser uma pessoa de tamanha candura e com a coragem de um leão, ouça as amigas dizer-lhe vezes sem conta “não sei como consegues, eu não sei se seria capaz de ter uma criança que não é minha, sabemos lá que genes tem lá dentro”, como quem se refere a um equipamento claramente contrafeito por uma fábrica chinesa de cariz duvidoso.

Aproveite o processo para fazer o enxoval e quem sabe até um baby shower duas semanas antes da entrega do aparelho infantil.

Abra uma conta nas redes sociais e publique a sua nova vida de mãe (ou pai), mostre a sua família feliz e a criança agradecida que hoje tem no seu lar, pague sessões de fotografias caras para mostrar às amigas e mandar imprimir para pôr na parede da lareira na sala. Partilhe frases inspiradoras que dizem “mãe é quem cuida” e finja que sente mesmo o que diz. Seja forte.

Depois é possível que o enredo da adoção comece a cair na normalidade e que as pessoas deixem de a estar sempre a elogiar tratando o tema com banalidade, é só a sua pessoa com a criança que é sua filha (ou filho). Perca a paciência com as birras e relembre ao pirralho que teve uma sorte do caraças em ter ido parar a uma casa onde até lhe deram um quarto decorado por uma senhora que tem uma empresa de renome em Cascais. Vá ao psicólogo e apresente o seu trauma, explique que lhe está a custar horrores não ir tantas vezes ao ginásio e que não consegue viver bem consigo quando não dorme à noite. Passe pela bruxa e veja se a criança tem mau olhado, porque o abuso pode ser uma coisa chata mas aquela parvoeira de chorar sempre que se apaga a luz é uma coisa que não se aguenta.

Comece a pensar que era melhor ter adotado um cão, até porque se o seu Tareco não gosta de cães, menos parece gostar de crianças que lhe querem servir chã a fingir.

O tempo vai passar e nem as suas publicações de mãe/pai coragem vão ter utilidade porque já ninguém quer saber de si, já há outra história em cima da mesa porque a Odete está grávida de trigémeos.

Avalie a sua vida e faça o que lhe permitir amar-se de novo, se achar melhor devolva a criatura, entregue de volta à Instituição ou a outra Instituição, assim como assim já deve estar habituada aquelas burocracias, não é? A sua pessoa é que não tem vida para isso.

De que é que importa se aquela criança nunca teve amor, atenção, compreensão? Que interesse tem se foi maltratada e atirada de lado para lado? A sua pessoa tem necessidades e não pode ser para os outros se não for para si.

Volte à sua vida habitual, recupere o seu equilibro, seja feliz aceitando-se como é.

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Agora num tom mais sério e menos paciente: é mais ou menos isto não é? Mastigar e deitar fora independentemente do que isso possa representar para um pequeno ser humano que ainda não tem condição intelectual para compreender tudo o que de errado acontece à sua volta?

Para adotar uma criança é preciso passar por um processo burocrático difícil, minucioso e invasivo. Há mil e uma oportunidades para recuar, porque raio levar até ao fim sem ter a certeza? Porque parece fácil e idílico mas não é. Porque na maioria destes casos falamos de crianças que nunca conheceram amor e numa segunda oportunidade que a vida parece dar-lhes aparecem-lhes excrementos humanos que os devolvem como se fossem artigos com defeito.

Seres vivos que adotam uma criança e a devolvem são escumalha. Digam o que disserem, argumentem as dificuldades que quiserem, são escumalha. Tiveram todas as oportunidades para dar um passo atrás e quiseram avançar, deviam ser penalizados e espero que mais tarde ou mais cedo a vida ganhe contornos que os faça entender o que é sofrer por não receber amor, por ser rejeitado como um artigo em saldo que afinal tinha uma malha. Crianças não são pedaços de têxtil, não são artigos de decoração, não são carros, não são vouchers de experiências radicais, são seres humanos que precisam desesperadamente de amor, de alguém que as abrace e com tempo as faça acreditar que a vida pode ser melhor do que a merda que lhes calhou em sorte.

 

Há mil e uma coisas que poderiam ser ditas, mas o tema é desgastante e em nada ajuda estas crianças. Esperemos apenas que estes casos sejam cada vez menos até chegar ao zero e que estas crianças um dia tenham a oportunidade de perceber que há amor para elas no mundo.

 

Entretanto, deixo apenas só mais uma nota:

Se adotou uma criança e a devolveu, se estiver a ler isto, quero que saiba que desejo muito que vá para a puta que o pariu.

 

Qua | 31.07.19

Fonhónhice com a publicidade

Gorda

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Hoje temos connosco o sôdona Crisálida Valpende que nos vem falar da sua aversão à publicidade.

 

Boa tarde sôdona Crisálida, como está?

Irritada, muito irritada, carregada de urticária de tantos nervos.

 

E porque razão está assim tão perturbada?

Um dos blogs que eu sigo acabou de colocar publicidade.

 

E então?

Tive de deixar de o seguir.

 

Mas o conteúdo deixou de prestar?

Não. O conteúdo é bom e eu gosto. Mas PUBLICIDADE NÃO, ENTRAREM-ME POMADAS PARA AS NALGAS ECRÃ ADENTRO EU NÃO ACEITO!

 

Mas estava a pagar para ler esses conteúdos?

Não. São online e o que já pago de net inclui isso tudo.

 

Acho que o serviço de internet não inclui que as pessoas que criam conteúdos para seu gáudio sejam remuneradas….

Se não são remuneradas é porque fazem as coisas por gosto.

 

Por fazerem as coisas por gosto acha que não devem ter proventos?

Acho que se fazem por gosto não incomodam os outros e não se vendem à publicidade.

 

A publicidade existe desde o princípio dos tempos, hoje ganha contornos diferentes.

A publicidade da televisão é uma coisa que a gente muda de canal, agora em sítios que a pessoa segue não pode ser.

 

Porquê?

Porque a pessoa está a passar-se para o outro lado, está a ser uma vendida, depois já não podemos confiar no que escreve.

 

Mas acha que lhe começam a mentir?

Não sei, perdem tudo. Uma pessoa está a querer ler um texto sobre a vida dessa pessoa, porque gostamos de saber como é que ela faz a vida dela, não que sejamos coscuvilheiras ou metidas em vida alheia, mas gostamos porque a pessoa quer contar e a gente não se importa de saber; de repente aparece um anuncio a pomada ou a manteiga.

 

Mas o texto desaparece por causa da pomada ou da manteiga?

Não, a gente pode clicar numa cruz e a manteiga vai embora, mas depois fica esquisito porque sabemos que aquela pessoa se está a vender.

 

Não acha que essa pessoa está apenas a tentar ganhar alguma coisa com algo que lhe dá trabalho há muito tempo?

TRABALHO! AHAHAH e desde quando é que escrever porcarias para um blog ou fazer uns vídeos para o youtube dá trabalho? Qualquer um faz aquilo. Qualquer um escreve umas patacoadas e publica online, já lá vai o tempo em que era difícil, agora é para quem quer.

 

Escrever em blogs sempre esteve disponível de forma gratuita para toda a gente. O mesmo para o youtube.

Pois, mas não interessa. No princípio as pessoas escreviam porque gostavam que a gente lesse e queriam que fossemos todos amigos e queriam leitores, mas agora isto é tudo um negócio. Querem é ganhar dinheiro a fazer uma pessoa acreditar que consomem coisas que as marcas pagam.

 

Compra tudo o que as bloggers lhe dizem para comprar?

Eu? Nem pensar, essa gente farta-se de mamar. Abrem um blog à conta de pessoas como eu, que inocentemente leem o que escrevem e têm uma vida do bom e do melhor. Dão-lhes tudo. O comer, jantares fora, férias, roupa, pagam os colégios dos filhos, oferecem as casas. Fora o dinheiro que ganham por fora.

 

Mas se é fácil e pode ter uma visa assim tão boa num estalar de dedos porque é que nunca se meteu nisso?

Porque eu não tenho vida para isso. Eu trabalho e tenho a casa para limpar, não tenho a disponibilidade destas galdérias.

 

Não acha que aquilo é capaz de obrigar a mais esforço do que parece? Ter ideias, criar o conteúdo, escrever, gravar, editar, publicar, dar atenção a leitoras, como a senhora…

Está a dizer que eu ainda lhes dou trabalho? Homessa! Eu facilito-lhes é a vida, que é graças ao meu clique que elas depois mamam coisas das marcas. As porcas.

 

Mas não acha que dá algum trabalho, não me respondeu.

Sei lá eu, nunca me meti nisso que eu não tenho tempo para essas brincadeiras.

 

Mas tem tempo para acompanhar muitos espaços…e comentar?

Faço isso nos transportes, e é para meia dúzia. Eu acho que acompanho cerca de…deixe-me pensar…123,5 espaços. Como vê não é nada de especial.

 

Há um que acompanha só meio?

Sim. Esse apareceu com um post sobre um aspirador de pêlo de gato que eu ainda não percebi se ela está a mentir ou se é publicidade.

 

Se for verdade?

Acho que até compro que aquilo é útil para aspirar os pelos do meu Nesquik.

 

E se for publicidade?

Deixo de seguir porque a morcona se vendeu.

 

E o equipamento deixa de prestar?

Nem sonho em comprar aquilo, deve ser uma bugiganga sem qualquer tipo de utilidade. O meu Nesquik nem larga assim tanto pêlo. A escova tradicional é o melhor.

 

O que eu não estou a perceber é o seguinte: se na verdade não gosta das pessoas que escrevem nos blogs porque motivo gasta o seu tempo a ler os conteúdos?

Mas eu gosto de blogs.

 

Fiquei com uma ideia diferente ainda agora…

O que eu não gosto é de gente vendida à publicidade.

 

Porquê?

Por causa da publicidade.

 

Portanto é contra a…

Publicidade. Detesto publicidade.

 

E se não tiver publicidade?

Desses gosto.

 

E se um que gosta meter uma coisinha lateral com publicidade e receber 1 cêntimo por clique?

Deixo de seguir. Por causa da publicidade, detesto estar a ler e saber que aquela pessoa está a ganhar um cêntimo com o meu clique.

 

Portanto gosta que lhe apresentem conteúdos de qualidade, sem que a pessoa nunca ganhe um tostão em troco do trabalho que tem?

Exatamente.

 

Mas sabe que dá trabalho?

Em princípio fazem isso lá para o tempo livre delas. É por gosto. Querem ganhar dinheiro vão arranjar um trabalho como eu.

 

E se todos os espaços de conteúdos da internet passassem a ter publicidade, o que fazia?

Deixava de os seguir a todos.

 

E passava a ler o quê?

O jornal.

 

Mas o jornal tem publicidade….

Então lia um livro.

 

O livro é pago. Porque a pessoa que escreve o seu conteúdo tem de ganhar dinheiro para viver e poder escrever mais livros. Sabe disso?

Nunca pensei nas coisas dessa forma.

 

E agora comprava o livro na mesma?

Sim.

 

Porquê?

Porque não tem publicidade.

 

Então o seu problema é só com a…?

Publicidade.

 

Muito bem. Acho que ficámos esclarecidos. Foi uma conversa enriquecedora. Obrigada e boa tarde.

 

Seg | 29.07.19

O Strada e a cambada de 27 anõezinhos

Gorda

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Era uma vez um senhor com trinta e seis anos, de calções com bolsos, t-shirt bueda dread e um boné virado ao contrário, que, munido da sua pilosidade facial um tanto ou quanto duvidosa, decidiu criar uma escola para influencers. Esta escola servia para muitas coisas úteis, dotando os pupilos de ensinamentos cruciais para a vida, ajudando-os a criar o seu próprio sustento e quem sabe até luxo e fama por via de enjorcamento de vídeos néscios que têm como propósito principal influenciar crianças e adolescentes a serem também eles palermas. Esta escola deitava para trás a necessidade de ler os entediantes Maias ou o Aparição (que valente vomito projetado), tratando-se de um estabelecimento de ensino, ou espaço de aprendizagem, ou fórum de encher de merdum a cabecinha vazia de miúdos, esses sim, tremendamente influenciáveis; que visava temas disruptivos como os testículos dos atores dos vídeos ou a “brincadeira” hilariante de “ensinar” uma miúda a limpar a cenaita. Produtos de entretenimento de aglomeram instrução, divertimento e profunda estupidez, tudo num só vídeo, qual Kinder da liberdade digital.

Mas um dia alguém achou estranho que um homem com quase quarenta anos no pandeiro andasse sempre cercado de miúdos com idade para ser seus filhos, comportando-se de forma duvidosa perante os mesmos, então, comportando-se como outro cavaleiro online atreveu-se a denunciar tamanhas patifarias.

Todo o povo pôs os olhos neste acontecimento e achou estranho, pela primeira vez. Até lá, a "Team" já tinha até sido convidada para programas de televisão, onde devem estar adultos responsáveis, competentes e com sentido cívico que não encontraram nada de anormal num adulto com quase quarenta anos nas nalgas andar aos beijos na boca e a fazer vídeos absurdos com menores.

As redes sociais incendeiam-se, as pessoas irritam-se e insurgem-se, perguntam onde andam os pais destes adolescentes? Será que não sabem disto?

Esta realidade só causará estranheza aos membros do povo que nunca assistiram a uma gala de um reality show, onde pais, mães, tios, tias, primos, amigos e todo o bairro aparecem para apoiar a Justina Kátia que acabou de fazer dezoito anos e está a ser “ela mesma” numa casa. Ali a viver sem fazer nada, como um hamster numa gaiola, mas com uma piscina no lugar da roda. Ou a envolver-se com o Cláudio Guilherme porque é amor "de verdade" e "eles têm sentimentos a sério", dando largas a intimidade escaldante para todo o país se entreter. Os pais dos concorrentes dos reality shows orgulham-se da prestação dos filhos, apesar de estes não estarem a fazer nada que tenha qualquer valor, estão numa casa a existir e quem sabe um dia vão arranjar maneira de ser conhecidos e ter "gostos" nas redes sociais, serão acompanhados por uma carneirada de pessoas que as admiram apenas porque existem, permitindo-lhes ganhar a vida sem nunca ter feito nada de útil à sociedade.

Os gaiatos visados insurgem-se porque os adultos conscientes que os querem ajudar a não ser macaquinhos de circo de um crescido que não parece ter tudo completo ao nível do intelecto, estão raivosos. Querem proteger o seu mentor, até porque acham que é ali que está a chave para poderem continuar na sua demanda para uma vida sem instrução mas com algum dinheiro para poderem ir à praia e fazerem penteados duvidosos dando o nome do salão na conta de Instagraine.

Resta saber se estes miúdos alguma vez vão perceber que na sua vontade cega de influenciar os outros foram sempre os maiores influenciados, que se deixaram levar por um tipo de boné para trás e calções de quem vai passear o cão e precisa de bolsos para guardar os sacos do cocó.

 

(decidi escrever aqui no blog este texto por dois motivos, sendo o primeiro porque já não publico há algum tempo e o segundo porque os miúdos nasceram todos depois de 2005, pelo que não sabem bem o que é um blog e muito menos um blogue, maneiras que não devem vir bater aqui com os costados)

Ter | 16.07.19

A vida vai normal em julho

Gorda

 

 

Gostava de poder dizer que estou a trabalhar num livro, que tenho a capacidade criativa para aí virada e que com a vida atribulada que tenho não me tem chegado tema para decompor por aqui. Mas a verdade é mais crua e tão terra a terra que se sente o cheiro a lama seca do calor que São Pedro tem enviado. O trabalho é muito, o filho é só um mas precisa de espaço na vida da mãe, naturalmente; e a casa anda em pantanas vai para três meses. Os ciclistas perderam o pódio da tipologia de pessoas coiso que menos gosto, o qual passou a ser ocupado pelos pintores. Os de paredes, por enquanto as "obras de arte" que compro em quadro são impressas, de maneiras que a danar-me com calos alheios tinha de me virar contra a impressora.

Seria magnifico poder falar de umas férias nas Maldivas ou na Polinésia Francesa, mas por aqui houve banhos no velho Algarve e a ocasional visita à Costa da Caparica, lançando-me ao matagal de gente que se saratoteia pouco pela praia, que daqui a nada há mais massa humana que grãos de areia. Até se me arrepiam as peles com medo de agosto quando os camones e os avecs e os ramesteins para aí me aparecerem, de fogareiro na bagageira, carro com dez anos e poucos quilómetros, porque na garagem diz que anda pouco e a velha tatuagem com dedicatória de amor à Cruz de Pau.

E não me lixem com o estereótipo do emigrante, respeito toda a gente e faço pouco de todos, especialmente de mim, que sou meio palerma, primo em ideias de merda e hoje ainda não se me lançou um pente à guedelha. Euzinha que escrevo esta treta com o PC pousado na mesa de brincar do meu filho enquanto o meu bofe fica achatado numa cadeira mini do IKEA e as minhas costas gritam com bicos de papagaio e torcicolos.

Por falar em torcicolos e coisas da camada geriátrica, já não há pachorra para a porra da aplicação dos velhos. Anda-me tudo a espetar a tromba com filtros durante anos, a ver se o povo morcão não percebe que ninguém acorda livre de ramelas, e agora estão por um fanico a querer saber como é que estará a fronha daqui a quarenta anos. Ai filhos, daqui a quarenta anos metade dos habitantes do planeta já levou com uma trotineta elétrica focinho adentro, deixem-se de palermices e vão mazé pá praia comer bolas de Berlim pessoas.

Gostava de poder dizer que vejo a casa quase pronta e que até sinto um vislumbre do copo meio cheio, mas a cristaleira está empacotada e eu só quero dar duas demão na cremalheira dos pintores.

Maneiras que é isto, pobre continua pobre, ao lado do pobre e evitando estar no meio da confusão, porque gente a mais dá-me afrontamentos e eu sou pessoa que sofre com ansiedade.

 

Seg | 08.07.19

Carta aos papás e às mamãs que não tomam conta dos seus filhinhos

Gorda

 

 

Caros pais e mães de outras criaturas pequenas que não são o meu filho. Dirijo-vos esta carta porque já tenho um filho para criar e não tenho de facto disponibilidade (nem pachorra) para ter de tomar conta dos vossos também. Eu sei que ser pai ou mãe de uma criança dá trabalho, se dá, e que esta coisa de trazer uma criança ao mundo, apesar de nos dar as maiores alegrias da vida, nos rebenta com a mona em três tempos. Reconheço a necessidade de descansar dos filhos por momentos e que é fundamental ter de os manter entretidos para que possamos estar sentados a pensar em nada.

Juro que compreendo.

No entanto, já que os trouxemos ao mundo e por mais divertido que tenha sido faze-los e por mais fofinhos que sejam grande parte do tempo, cabe a cada pai e cada mãe educar o ser vivo que introduziu no mundo, procurando dota-lo de regras básicas de convivência para que não cresça para ser um traste que faz mal aos mais fracos, mal educado e sem respeito pelo outro. Cabe aos papás e às mamãs dar conta do que os seus belos rebentos andam a fazer quando estão no parque infantil ou nas aulas de atividades extra curriculares, essas mesmo, as que gostam de vangloriar nos jantares de amigos a dizer que o Zézinho é muito bom e já faz três piruetas no ar e coiso e tal.

Ricos paizinhos anoréticos de descanso, também eu me sinto tentada em deixar o sacripanta no parque e ir virar umas jolas acompanhadas de tremoços, a ver se me esqueço das noites mal dormidas, das birras e dos finais de dia de bradar aos céus, depois de uma estafante maratona de trabalho e trânsito. Mas eu tenho de garantir que o querubim que produzi se comporta em condições, que não bate em ninguém, que não tira brinquedos que não são seus, que sabe socializar com os seus pares.

Depois dou comigo mais preocupada com quem o rodeia do que com ele, a ter de me preocupar com quem lhe quer bater ou tirar as coisas que levou para brincar, e ele olha para mim porque os pais daquele que levanta a mão a todos não dão as caras para chamar a atenção ao filho como a mãe faz com ele. Pode-vos parecer estranho, mas para uma criança que tem regras, esta circunstância pode parecer injusta e uma pessoa dá consigo numa situação complicada, porque tem de ser minimamente correta, quando a vontade que tem é de explicar ao filho “sabes, a mamã está a criar-te para seres uma pessoa civilizada, os pais desta criança estão a tentar garantir um selvagem, pelo que não podes comparar”. A seguir há outro que chora ao canto porque o seu exemplar lhe tirou os brinquedos, também ele olha em volta a ver se aparecem os pais do ladrão porque o balde e a pá lhe fazem falta. A mãe cruza o olhar com as outras e todas encolhem os ombros.

Queridos papás e queridas mamãs, tomem conta dos vossos filhos. Do meu cuido eu.

Lembrem-se que é importante garantir que ele não leva umas lambadas de ninguém maior, porque a verdade é que, quando chora, vocês aparecem a correr a ver onde se encontram os culpados. O horror porque o pequeno se queixa de ter comido um aconchego de outra criança, mas enquanto é o vosso a arrear bojarda nos outros, lá se deixam estar, sentados a ver como vão as redes sociais. Afinal de contas quando é o vosso a bater nos mais pequenos vem sempre a velha máxima ao de cima “eles têm de se entender entre eles”.

Queridos camaradas da parentalidade que faltaram as aulas de regras básicas, educar uma criança é estar presente para lhes ensinar valores, mesmo quando já lá está a alguém a explicar o mesmo, porque aos nossos filhos cabe-nos a nós fazer passar a mensagem. Ninguém tem pachorra para ter de mandar vir com os filhos dos outros porque estes não se sabem comportar.

A agressividade, o bullying, o fazer pouco dos mais fracos, a violência doméstica, por mais rebuscado que vos possa parecer, começam na educação que passamos em casa, nos valores que persistimos para que lhes fiquem gravados na mente, para que saibam sempre que tirar da mão dos outros é feio, aproveitar-se dos mais fracos é cobardia, bater nunca é solução e impor-se aos mais pequenos é inaceitável.

Mas lá está, a menos que sejam os calcanhares dos vossos anjos, vocês não querem saber.

Os filhos podem sempre crecer para ser algo que nunca imaginámos, por exemplo, o vosso até pode crescer para ser um cidadão exemplar, apesar dos papás e mamãs de deixa andar.

Desejo profundamente que este Natal uma rena perca o GPS e acabe com um chifre enfiado no vosso recto, deixando-vos a cagar lâmpadas multicolor até ao ano novo.

Sei que ainda falta, mas as melhores prendas demoram a chegar.

 

Beijinhos e que os putos vos arreiam com o Homem-Aranha até à exaustão.

 

Sab | 06.07.19

Carta à sogra

Gorda

 

 

Querida sogra,

Conhecemo-nos há anos e nunca tive a oportunidade de lhe dizer todas as coisas boas que tem feito por mim, apesar de termos as nossas divergências a verdade é que tenho muito para lhe agradecer. 

Antes de ter entrado na minha vida eu incomodava-me com coisas pequenas, com atritos de trânsito e pessoas idiotas nas filas de supermercado, hoje, quando me deparo em tais circunstâncias, quando já estou à beira de me irritar, lembro-me que podia estar na sua companhia a ouvir as suas opiniões descabidas e a tolerar todos os sons que emite sem qualquer propósito. Fico calma e aceito a minha realidade. Antes vinte idiotas na fila que um almoço consigo.

A minha vida tinha silêncio, as tarefas simples eram feitas ao som dos objetos ou com o simples chilrear dos pássaros lá fora. O tempo passado na sua casa tem-me feito dar valor a esses momentos, porque a minha queria sogra grunhe, limpa a garganta, assobia, faz estalidos de língua. A senhora assassina o silêncio e até os pássaros vão assobiar para outra freguesia.

A casa fica resplandecente de quinze em quinze dias, porque eu uso o produto "vem cá a sacana da velha" para garantir que a senhora não anda a espalhar bairro afora que a sua nora é uma badalhoca e que o seu filho vive num pardieiro.

Mas o seu filho limpa metade que eu não sou mulher a dias de ninguém (a ver se a gente s'intende)

Graças a si compreendi as coisas que não quero fazer, espero ter o discernimento de aceitar que o meu filho um dia vai papar umas miúdas e um dia irá casar com alguma. Se for essa a escolha dele, porque se me aparecer com um namorado eu ficarei igualmente contente.

A sua postura para comigo faz-me saber que ainda existe um grande caminho para que as mulheres sejam amigas umas das outras, a forma como acha que o seu filho devia ser tratado e como não compreende que em nossa casa contamos o mesmo porque trabalhamos o mesmo e ganhamos a mesma conta, por isso as responsabilidades são iguais.

Percebo todos os dias consigo que os olhos da maternidade ainda são velhos, porque não pergunta ao seu filho onde está a roupa do neto, espera que eu apareça porque esse é um papel meu.

Agradeço-lhe todos os pratos que cozinha, especialmente aqueles em que tem o cuidado de preparar sabendo que eu não gosto de os comer. Apura o meu paladar e faz-me ter a certeza de que há mesmo porras que não me passam pelo estreito.

Obrigada por me ajudar a conhecer a pessoa que sou todos os dias, por me treinar a lidar com a palermice alheia em muitos momentos e por agilizar a minha esperteza para evitar os almoços de família.

Fico-lhe eternamente grata por tornar a minha imaginação tão acutilante e ampla, nada me diverte mais do que imaginar as diversas formas em que um pinheiro lhe podia arrear em cima da mona, ou que um cavalo alado largasse uma bigorna dos céus, ou que uma rajada de vento lhe fechasse uma porta de repente, arreando-lhe com a madeira nas ventas mesmo em cheio.

Sem a sua presença a minha vida seria mais monótona e certamente mais tranquila, mas isso, nos dias que correm, não interessa a ninguém.

 

Com a vontade imensa de lhe espetar uma lambada nas trombas, até já que o frango deve estar a chegar.

 

Sex | 05.07.19

O inferno das obras

Gorda

 

 

 

Quando um ser humano dotado de inteligência mínima e possuidor de todas as suas faculdades mentais decide fazer obras em casa é  porque este está perante um de três cenários: 

A) Rebentou um cano e não tem margem de manobra porque está a chover no vizinho enquanto o pobre dorme.

B) A esposa assim decidiu e isso é pior do que chover no vizinho.

(Não nos vamos concentrar nesta hipótese porque este é um problema do meu marido e não meu)

C) Quer ver a sua casa mais linda e sonha com um processo simples e eficiente onde, ao fim do tempo prometido, alguém entrega a chave com uma casa de sonho.

Ora a verdade é que é mais provável que o lobo da história do Capuchinho Vermelho tenha mesmo comido a velha e o caçador a tenha tirado da pança inteira do que a sua obra corra bem. É muito mais certo que um dia observe um unicórnio a cavalgar o arco íris do que a obra corra sem dificuldades, especialmente se o leitor for consumidor de uma espécie muito concreta de cogumelos.

Se vê programas de remodelações tire daí a ideia, aquilo é um embuste. Irmãos gémeos que despacham vivendas em três semanas já limpas e com decoração feita induzem muito a pessoa em erro.

É por tudo isto que, em resultado da minha humilde experiência, decidi deixar aqui alguns conselhos para que o caro leitor, se decidir meter-se numa empreitada destas, consiga enfrentar o touro de caras (o PAN vai-se aos arames com esta expressão) e regresse a casa com os seus nervos intactos.

 

1. Faça terapia

Caro Leitor, procure um bom profissional antes de se pôr a arranjar a casa, é fundamental que os seus tijolos mentais estejam todos no sítio antes de pensar em ter uma casa de banho melhor. Comece, no mínimo, seis meses antes da obra arrancar e peça logo medicação SOS. É que três semanas em obra já trazem um arrependimento do catano.

 

2. Uma casa para viver

Se decidir sair de casa para as obras aconselho veementemente que tente ver se consegue abrigo com um familiar, mas apenas se este não estiver a morar na casa que tem para lhe emprestar. É tudo fantástico na primeira semana, mas depois a cerimónia acaba, as pessoas regridem aos seus comportamentos habituais e o clima começa a ficar pesado. Se tiver mesmo de ficar em casa de família certifique-se de que não é a casa dos seus sogros. Eu sei que tratando-se de um casal o mais provável é que tenham apoio dos pais de um, o que estou a dizer é para si, meu caro leitor, faça por não ficar na casa dos seus sogros, eu estou-me borrifando para o bem estar do seu cônjuge já que este/a não lê o que eu escrevo.

 

4. A obra não vai acabar a horas

Durante todo o tempo, apesar de os seus olhos e o seu raciocínio mostrarem de forma evidente que está tudo no Manel Catatau, o que o empreiteiro lhe vai dizer é que a obra está controlada e o que está para vir é a parte mais fácil e mais rápida. Tretas. Tudo demora tempo e se não estiver sempre a morder os calcanhares de alguém, bem pode esperar sentada. A obra vai atrasar-se, como todas as obras se atrasam. Aliás essa regra é cumprida com maior rigor do que qualquer outra coisa na nossa Constituição da República. É tão verdade que alguém devia alterar a Constituição e escrever lá "de ora em diante, qualquer cidadão português ou qualquer habitante de território nacional fica desde já avisado que, se remodelar a casa, tem de contar com um atraso mínimo de três semanas", vou mandar um mail ao Marcelo que ele aprova isto em meia hora e ainda me vem cá dar três beijinhos.

 

5. Alguém de vai esquecer de encomendar alguma coisa

Ou vão encomendar algum item errado. A leitora vai pagar a horas para garantir a encomenda dos materiais, mas na reta final, alguma coisa falhou e o que queria comprar já não há em stock. Pode chatear-se e espernear, mas se for para esperar o empreiteiro vai encolher os ombros e é a leitora que fica mais tempo sem casa. Vai acabar por aceitar as alternativas e vai pagar mais se for preciso. E nem pia.

 

6. A única coisa que vai correr como previsto é o pagamento

Isso não foge. A leitora não paga a adjudicação, a obra não avança, o profissional não aparece, é normal porque as obras têm sempre estes percalços. Vai ver muito encolher de ombros e vai remoer-se por dentro mas não poderá fazer nada sobre isso.

 

7. Compre antes outra casa

Este é o conselho final. Eu sei que não está cheio de dinheiro e o mercado imobiliário está ao rubro, mas é melhor comer sopa com pão numa casa nova do que passar pelas obras. Por isso, caso lhe assalte esta ideia de remodelar, dê uma valente lambada na sua tromba, e vá falar com um agente imobiliário. Se não estiver para aí virado, pare a olhar para a sua casa e aceite-a como ela é. Pode não ter o aspeto exterior que deseja, mas é certamente linda por dentro e o que mais interessa é o que está por dentro.

 

Espero que estas dicas ajudem a que o caro leitor tome boas decisões na sua vida, se já enveredou por este caminho, lamento e saiba de tem deste lado um obro enervado, mas amigo.

 

Qua | 03.07.19

E-mails de despedida laboral

Gorda

 

O mercado está em alta e com ele chegam mais e melhores ofertas de emprego. As empresas estão a produzir mais, a faturar outro tanto e a recuperar do buraco da crise. Depois de anos de amargura Portugal é novamente um país em que vale a pena investir e as multinacionais estão dispostas a chegar-se à frente para pagar bem por mão de obra especializada.

As pessoas estão cansadas dos empregos e acreditam piamente que o mal está centralizado na sua entidade patronal, as empresas onde trabalham os amigos e familiares são todas uma maravilha (ou então é só o que lhes dizem) e é crucial mudar. Se ao menos aparecesse uma boa oferta!

Essa oportunidade chega finalmente, é um holofote no fundo do túnel e é preciso arriscar para sentir a vida, ou assim dizem as frases partilhadas pela prima Eleutéria no Facebook, porque ela está desempregada há anos e tem tempo para descobrir os caminhos da filosofia humana.

Olhamos para o lado e vemos colegas novos todos os dias, colegas antigos a ir embora todas as semanas. Todos certos de que vão para melhor, tudo para em menos de um ano perceberam que estão exatamente no mesmo emprego, mudam as caras, mudam as secretárias, muda a geografia, mas o resto é o mesmo.

Com a saída preparada é fundamental acautelar potenciais riscos, nomeadamente aquele de a vida poder sempre dar uma volta de 360º e a pessoa acabar a bater à mesma porta para ter emprego. 

Nascem então os e-mails de despedida.

Quando as empresas não tinham e-mail a coisa era mais fácil, só sabíamos que determinados colegas tinham ido embora meses depois e a "festa" de despedida limitava-se apenas aos que eram importantes para essa pessoa e que também a gramavam. Não havia frases feitas nem agradecimentos a quadros de direção que mal sabem o nome do futuro defunto efetivo.

Mas agora, lá pinga um a uma razão de dois por cada quinze dias.

Normalmente começam assim:

Queridos colegas e amigos,

Ao fim de cinco anos na empresa blá-blá-blá o meu percurso chegou ao fim. Levo comigo memórias inesquecíveis de todas as pessoas com que me cruzei. Nesta empresa aprendi e cresci imenso profissional e pessoalmente, aprendi lições que me marcaram para a vida e por isso estou eternamente grata.

Ou seja, a pessoa está farta, tem profundos traumas das reuniões intermináveis que nunca resultavam em nada, e finalmente encaixou na sua cabecinha oca que não vale a pena fazer má cara e esgrimir argumentos. É para rir e seguir em frente. Agora, na empresa nova, já não vai arranjar atritos com os colegas palermas porque os topa à légua. De qualquer forma é ver a pessoa a esbanjar lamento, não vá daqui a um ano vir para lá um tsunami crise e ser preciso que se abra uma janela.

Nesta empresa tive inúmeras oportunidades que me ajudaram a melhorar a minha performance profissional, sem a ajuda de todos aqueles com os quais trabalhei, jamais seria capaz de o fazer. Convosco aprendi o verdadeiro sentido de trabalho de equipa.

Então, a empresa deu oportunidades ao bebé e ajudou com a performance, mas não deu mais guito, maneiras que é seguir e ir fazer melhor para outra chafarica. A pessoa aprendeu finalmente que o trabalho de equipa é uma treta, que há sempre quem se dane e sem nervos de aço uma pessoa não passa sem chegar uma lambada a alguém.

Quero deixar o meu especial obrigada à Matilde mais-longa, ao Rogério Sem-pé, à Clorilde Samora, à Josefa Maria e claro, à minha grande mentora, a Carla Vanessa.

Um beijo e um abraço

Estou certa de que nos encontraremos por aí e estarei sempre disponível no meu e-mail para saber noticias vossas.

Pessoa, se a ligação é tão unha e carne é estranho que ainda não tenhas transmitido estas palavras cara a cara. E toda a gente sabe que deste um e-mail de uma conta que não consultas há mais de seis meses.

Este último parágrafo é sempre dedicado a um conjunto de colegas (amigos, na verdade...ou não) que marcaram mesmo a vida desta que se despede. Marcaram tanto que algumas nem sabem bem de quem se trata, ou não fossem diretores e administradores que estão borrifando para lamentos de quem já não faz parte do barco. Mas lá está, se é para puxar lustro é bom que se afague uma lamparina que pode acudir em cenário de catástrofe. Depois temos aquelas duas ou três pessoas que frequentam a casa do efetivo perdido e terminamos com o mentor que mais não é que o chefe direto, aquele que, um dia, pode estender a mão se a vida der para o torto.

 

Antes de a crise ter rebentado estes e-mails não eram de todo comuns, as pessoas saiam lampeiras, de cabeça erguida, orgulhosas e certas de que a vida ia melhorar para lá de muito. Não eram como os outros ignorantes que nunca iam conhecer nada de melhor. Ninguém os tinha contactado a fazer ofertas. Depois a crise veio arrebanhar tudo e deitar a perder as oportunidades de ouro. Assim, como qualquer bom macaco a aprender a descascar bananas, as pessoas perceberam que se é para sair, informalmente, é fundamental convencer que vão deixar aquela merda e seguir para o Oásis, mas formalmente garantir que fica aberta nem que seja uma nesga da janela da casa de banho.