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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Ter | 17.09.19

"Está lá, quem fala?"

Gorda

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Não tínhamos telemóveis nem telefones sem fios. Agitávamos os pés em frente ao móvel do corredor enquanto enrolávamos o dedo indicador no fio encaracolado do cangalho verde. Aquele que nos obrigava a demorar uma eternidade para marcar o número das amigas, uma volta por cada dígito. Não havia marcação rápida nem números identificados, o telefone tocava, nós atendíamos e do outro lado alguém haveria de esclarecer quem se tratava e porque ligava. Íamos ter com os amigos à praceta com hora para voltar e sítio delimitado para estar, a mãe não mandava uma mensagem a dizer que estava na hora de voltar, sabíamos a hora e sabíamos que íamos cumprir, senão no dia a seguir ficávamos em casa a ajudar com a limpeza do pó. De quando em vez a chamada da gracinha “posso falar com o Jesus?” e toda a gente a pensar quem seria o Jesus, se calhar algum vizinho ou o namorado novo da inquilina dos rés do chão. “Não sabemos quem é, mas qual é o assunto?”, do outro lado, de gargalhada contida, alguém esclarecia “olhe deixo recado, diga-lhe que é o Diabo!” e desligavam. A mãe ralada com “a juventude de hoje, onde é que isto vai parar, os pais a trabalhar e eles a gastar impulsos”.

Lá aparecia a vizinha do lado ou a prima que morava ao fundo da rua “tia tens aqui 20 escudos, posso usar o telefone”, os vinte escudos que não pagavam metade dos impulsos daquela hora de conversa sobre namorados e desavenças de amigas.

O irmão mais velho que queria as chamadas rápidas e o telefone desimpedido, a namorada ainda havia de ligar antes da hora de jantar. O “ninguém toca no telefone esta manhã” quando se esperava uma chamada do médico. Os recados para os vizinhos do lado que não meteram telefone em casa para que a filha não lhes gastasse uma fortuna com chamadas para o namorado, já não bastava que lá fosse jantar tanta vez ainda dar despesa com o telefone.

Outros tempos em que havia um telefone por cada casa, partilhado por uma família de seis, para deixar os vizinhos usarem e para as primas lá fazerem as pazes com os namorados e combinarem as idas ao cinema. Quando os prédios ainda tinham vida e todos nos conhecíamos, quando pedir uma xícara de açúcar era normal e “já agora, se não se importa, deixa-me fazer uma chamadita”.

Seg | 16.09.19

Coisas que me fornicam a mente

Gorda

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Ainda estive para ver se a conjugação gramatical, semântica e ortográfica estaria correta na frase que compõe o titulo, mas como estava um tanto ou quanto enjoada não me apeteceu.

Há coisas que me deixam cá fecundada da mente, como os dias de chuva quando eu precisava de sol, as tardes a passar a ferro, os dias de trabalho que ultrapassam 10 horas, os pelos dos cães na roupa, as filas de trânsito, as pessoas que não sabem dizer obrigada, os reformados que estão sempre com pressa, as reclamações sem sentido, as pessoas que se metem na vida do outros, as papas de aveia e os canais de vendas que só servem para arranjar invenções ao dinheiro e surripiar as reformas aos velhos que, à falta de ter o que fazer, encomendam frigideiras que não precisam.

Depois há aquele tipo de coisas que me deixam mesmo fodida, que são circunstâncias uma notazinha acima de ter a mente fecundada; aqui enquandram-se momentos em que alguém usa o que outro enjorcou para ter graça. Ter ideias dá trabalho, fazer piadas também, por mais que possa parecer que brotam do chão, ou do ar, quem sabe de uma qualquer condição natural jorrando como o petróleo em solo saudita. Ter uma ideia é como parir, umas vezes é um instante, outras parece que só saem a ferros.

Maneiras que cá fico um tanto ou quanto encanitada com esta coisa de ver quem tem graça à conta alheia. Que se faça então bom proveito, que haja lugar àquele arroto de satisfação e que apareçam mais para alimentar o que os outros usam para ter piadinha, já que por conta própria a coisa parece não se dar.

Agora que já vomitei este fel que estava para aqui a entupir a canalização, posso seguir à minha vida com a graciosidade costumeira.

 

Sex | 13.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #1 - Clotilde e Custódia vão à bica

Gorda

(o texto que se segue corresponde à participação desta palerma num desafio de escrita da malta dos blogs que pode ser acompanhado aqui)

 

- Ai Clotilde, desculpa-me o atraso amiga! Ai a minha vida...que canseira, que maçada, tu nem calculas, tenho andado num camadão de nerves que nem sei, acho que ainda m' apago com isto tudo.

- Ó Custódia, por favor amiga, dá cá – antes de mais nada – duas beijufas que estou tão contente por te ver (muah – muah). Então mulher para quê esse esbaforimento todo?

- O meu Jaquim só me arranja destas, vê-me tu que me achava as carnes tensas e marcou-me uma massagem com chiclate, daquelas que barram uma pessoa toda.

- A sério? O que eu queria que o meu Asdrubal me arranjasse uma massagem, mas aquela besta só me arranja roupa para lavar e cuecas com marcas de travagem.

- Pois, mas olha que isto é de meter a pessoa com nerves em franja. Primeiros chego lá e mandam-me descascar e espetar com umas cuecas descartáveis. As minhas carnes nunca viram daquilo, parece celofane de embrulhar o pão antes d’ir pó frigorific. Depois fui meio que embrulhada para uma sala com uma marquesa e vejo a pessoa com uns potes carregados de chiclate. Eu só pensava “ai senhores que este gajo me vai borrar toda e vou ficar toda pegajosa. Ca noije!".

- Era um gajo, Custódia, era um gajo?

- Era um rapaz bem apessoado, de tronco nu e depilado. Mas sabes que eu só tenho olhes pó meu Jaquim, que Deus o mantenha perto de mim muitos e longos anos.

- A ele e ao dinheiro dele.

- Amém!

- E depois?

- Ai depois foi um cheiro enjoativo a chiclate, olha eu parecia um Tablerone, mas sem aqueles triângulos. Ao longe parecia um daqueles chiclates com coco, os Bounts ou lá o que é.

- Mas soube bem?

- Ai m’lher soube, mas aquilo o rapaz ganhou embalagem e começou a esfregar-me, a ungir-me, a chinchar-me de tal maneira que eu tive de lhe dizer “ai meu amor, olhe que isto não é para amaciar chambão pa grelha, tenha lá calma”.

- E ele?

- Foi tirando o chiclate aos poucos e deixou-me lavadinha com uma chuveirada de água morna.

- Valeu a pena, então?

- Com aquilo tudo perdi o táxi e dei de caras com a Lucrécia, tu sabes ca'gente não se afina.

- Sei. Desde que te roubou a cabeleireira.

- É isso filha. Olha são problemas, só problemas.

- É.

 

 

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Qui | 12.09.19

Diário de uma professora no regresso às aulas #2019

Gorda

 

 

Mais um ano de aulas passou e eu estou de pé a olhar pela minha janela da cozinha desde as 6 da manhã. A minha amiga Luísa Monforte (ela pede-me especificamente para me referir a ela sempre usando o seu primeiro nome e o sobrenome inventado) ofereceu-me o livro "O clube das 5 da manhã" que foi escrito por uma espécie de Buda da vida moderna, que sabe coisas sobre como crescer no interior e conseguir alcançar objetivos de uma vida de sucesso.

Quando o ano letivo 2018/2019 terminou, nas ultimas semanas, enquanto corrigia os testes e fazia as avaliações finais, aproveitei para ler o livro; a Luísa Monforte tem tanto sucesso como agente imobiliária premium, que tem de haver qualquer coisa que ela está a fazer melhor do que eu. Ao que parece o grande segredo está em acordar às 5 da manhã para ter tempo para fazer coisas importantes, adiantar a nossa vida para que não se acumulem tarefas para o fim do dia. Assim que as aulas terminaram decidi tentar, comecei a levantar-me às 5 da manhã e posso dizer que nos primeiros tempos consegui dar conta de tantas tarefas que fiquei mesmo motivada com tudo aquilo.

Deixei de dormir o número mínimo de horas porque os gémeos ficam acordados até tarde, mas estava a valer a pena.

Ganhei coragem e decidi que ia passar os meses de férias da escola a tirar o curso de agente imobiliária, a Luísa Monforte está sempre a dizer-me que eu tenho muito jeito para falar com as pessoas e que daria uma fantástica vendedora. Iria falar com maiores de 18 e não iria ter de lhes fazer perguntas de história, pelo que já era apelativo só por isso. Estava certa de que, se ouvisse mais uma pessoa a dizer que Afonso Henriques era um DJ de uma discoteca em Albufeira, eu iria passar à ignorância.

Por isso lá fui eu para as sessões de formação e cedo comecei a angariar imóveis. O mercado está em alta e vais ganhar em comissões mais do dobro do que ganhas como professora, dizia-me, só tens de melhorar o teu aspeto porque ninguém quer comprar uma casa a uma professora, a tua classe profissional está muito mal cotada neste momento. Foi com esta explicação que investi mais de metade do meu subsidio de férias em melhorar a minha aparência: comprei roupa nova, sapatos de salto alto, fui ao cabeleireiro mudar a cor do cabelo e fazer um alisamento japonês, aprendi a maquilhar-me e comprei uma mala de quatrocentos euros - porque de acordo com a Luísa Monforte a mala traça a linha entre a pelintra e a mulher que tem um imóvel para vender e não precisa que ele seja comprado.

Angariei 87,5 imóveis. O meio imóvel corresponde à casa de um velhote com 92 anos, os filhos querem ter tudo preparado para a venda da casa que fica numa rua central e cara, mas o filho de uma égua do velho não patina porque é tão ruim que nem Deus o quer, eram as palavras dos filhos.

Dos 87,5 imóveis angariados fiz visitas todos os dias, especialmente ao fim de semana e acabei com os pés em bolha na maior parte das vezes. Não vendi uma única casa. Ao que parece grande parte das pessoas que quer comprar casa não tem dinheiro para a adquirir e depois há aquelas que só querem ter com que se entreter, sonhando que talvez acabem por comprar uma habitação fora de um bairro de merda.

A lei da solvabilidade também não veio ajudar, agora não se empresta o valor total do imóvel e por isso ninguém se safa a aparecer com um montante suficiente para a entrada da casa. Emprestar dinheiro para férias de luxo muito bem, agora para comprar casa já é financeiramente perigoso. Enfim!

Quando fui ver as colocações deste ano e percebi que não me tinham recambiado para o outro lado do país tive uma conversa com o Sérgio. Tinha de voltar a dar aulas porque não tinha ganho um cêntimo com as casas. Era muito giro, mas sem vender casas não podia ser. Lembrei-o que com paciência e experiência podia conseguir ter o mesmo sucesso que a Luísa Monforte e viver como uma rainha. Ele recordou-me que há menos de um ano lhe tinham recuperado o carro porque ela não pagava a mensalidade há meses, sendo importante que eu não me esquecesse que a maior parte das coisas que ela dizia eram tanga e que estava sempre a dar a banha da cobra porque era assim que ela vivia. Afinal de contas tinha-nos vendido um apartamento tranquilo e dois dias depois percebemos que o vizinho de cima era baterista e que praticava 5 horas por dia, todos os dias úteis.

Decidi entregar a minha carteira de imóveis à Luísa Monforte e menos de 3 dias depois o sacana do velho bateu as botas e ela já tinha um comprador em vista. Só me apeteceu matar o velho, mas o jagunço já estava frio.

Tinha de seguir em frente, abraçar a minha vocação e compreender que não posso mudar os outros mas posso mudar a minha atitude. Também li isto num livro que a vaca da Luísa Merdaforte me emprestou há uns anos.

Agora dava comigo a olhar pela janela, a pasta pronta para regressar às aulas e a mais valia de ter duas turmas de 10º ano, sempre são miúdos mais crescidos, que estão no secundário e que, porventura, querem mais da vida. Toda a gente sabe que as piores turmas estão entre 7º e o 9º anos.

Arrepiei-me a pensar na Jessica que tantos transtornos me tinha causado no ano anterior; de acordo com esta aluna os EUA tinham sido descobertos pelo Jay Z e quem governava o mundo era a Beyonce e tinha a música "Runs the world (girls)" para provar isso mesmo. Tinha notas deploráveis e a mãe foi à escola falar comigo. Primeiro quis agredir-me e depois passou apenas aos insultos. De acordo com a encarregada de educação a rainha mais conhecida do mundo é a Madonna e a princesa dos seus sonhos a Britney Spears. Não consegui faze-la compreender que a cultura POP não é história. Quando lhe dei como exemplo a época dos Descobrimentos, disse-me que sobre isso só conhecia o Pavilhão dos Descobrimentos na Expo e nem sequer achava que fosse um prédio assim tão interessante, pelo que o melhor era ensinar à miúda coisas relevantes e corretas. Sugeriu que a diretora de turma me abrisse um processo disciplinar.

Comecei a ter tonturas com frequência há duas semanas e julguei que podia ser sistema nervoso, mas o Sérgio insistiu que eu devia ir ao médico. Resultou que, à conta desta treta das 5 da manhã, ando a dormir muito pouco e o corpo está à beira de um esgotamento nervoso. É muito giro acordar mais cedo se nos conseguirmos deitar a horas. O médico recomendou-me mais descanso e que, se eu queria livros que ensinam os outros a viver, que escolhesse o qualquer coisa se foda, porque assim sempre podia ter um livro de nome engraçado em cima da mesa de cabeceira, aproveite que os miúdos ainda não sabem ler.

Agora não me consigo levantar mais tarde porque a ansiedade não deixa.

O Sérgio entrou na cozinha e perguntou-me se eu estava bem, preguei-lhe um cagaço dos diabos porque parecia um fantasma. Disse-lhe que se calhar devia insistir com esta coisa da venda de imóveis.

Então, até que vendas algum ficas a tomar conta dos gémeos.

Peguei na pasta e fiz caminho para a porta. Não te esqueças que hoje és tu a deixa-los no colégio, disse antes de sair.

Pelo menos são miúdos do 10º ano, que dificuldades posso encontrar?

 

Se tiverem interesse em ler a primeira entrada deste diário, podem ler aqui (tem exatamente 1 ano).

 

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Ter | 10.09.19

Diário de uma adolescente no regresso às aulas #2019

Gorda

 

 

Querido diário,

Há um ano que não nos falávamos e eu já tinha saudades. Como sabes nasci com o dom da escrita, mas com esse prodigio veio também a necessidade de todas as condições necessárias para que eu possa assentar-me a colocar por palavras os meus sentimentos. Tenho contado à Sheila os pequenos acontecimentos da minha vida pq por Whatsapp é mais fácil pq a gente pode abreviar as palavras e toda a gente entende k é mesmo assim.

Volto a este formato para te contar as minhas espetativas para este novo ano que se avisinha. Estou certa de que vai ser um ano mangnifico porque a minha mãe passousse dos cornos com a diretora de turma e decidiu pôr-me num colegio privado. Ouve algumas dificuldades de inicio porque chumbei nas provas de amissão de dois, mas depois a minha mãe ofereceu uma viagem às Balamas ao diretor do terceiro e eu entrei com honras apesar de nunca lá ter estudado. Agora que já não estou dependente de professores do Estado, pagos por um gajo que se chama Alfredo Costa, a minha vida vai ser mais fácil. A minha mãe diz-me sempre que os profs ficam frutados com a merda da reforma ou lá o que é, porque querem mamar mais e depois ensinam mal os miudos e os pais têm de gastar pipas de maça em explicações. Que foi o que a minha mãe teve de fazer comigo por conta dos meus erros de escrita, a prof (que era uma bitch do pior) estava sempre a dizer que eu tinha de escrever mais sem ser no tlm, tsipo EU, que nasci com o bixinho da escrita. Dizia que eu tinha de ler mais, mais uma sena que tsipo, nada a ver, eu leiu todas as revistas que a minha mãe traz do salão. Os livros evito porque me causam dispepsia, que é aquela coisa em que os olhos, por conta da quantidade de palavras, acabam a baralhar as letras. É muito stressante. Mesmo, tsipo, mega.

O que vale é que a minha mãe me pagou explicações e agora está mega melhor.

Vou ter pena de deixar alguns colegas pra traz, e de deixar o meu namorado que me adorava. Ele deu-me bué forças, mas eu sei que lhe custou orrores pq ele passou o ano todo agarrado à Lili por contas de estar carente e precisar de ultrapaçar este meu afastamento.

Acho que a minha mãe teve a decisão certa pq eu passei para o secundário e vou iniciar uma nova vida. Escolhi a área de ciencias porque tenho um dom para os numeros e faço equasões completas só de cabeça. Como a minha mãe diz, Deus deu-lhe um prodigio, que sou eu. Tenho um dom para os numeros e para as palavras, posso ser o que quiser. É por isso que a minha aposta vai para medicina, quero ser médica e descobrir a cura para uma coisa importante, tsipo, o pé de atleta. Uma vez a minha mãe apanhou isso na casa de banho de um namorado antigo e deu-lhe cabo dos pés que andavam sempre arranjados. Depois quero escrever, sei que quero ganhar um Mobel, aquele premio que o Jorge Sarampaio uma vez ganhou, mas eu quero ganhar antes de ser velhinha, para ainda ir a tempo de retocar os meus seios e a minha barriga.

É isso, estas férias pensei muito e agora que tenho idade para ser uma jovem adulta tenho de ter planos para o futuro. Vou ser médica neurologista daquelas que operam as cabeças das pessoas, vou ser escritora e ganhar um Mobel e vou ser uma mulher sensual ainda com mais seguidores que a Rita Pereira.

A minha mãe leu um livro de um gajo que é tsipo mega inspirador e decidiu criar o clube das 9 da manhã, que é malta que acorda tarde porque gosta de dormir e acaba apenas o que consegue, o que não dá que se foda. A minha mãe é o meu maior exemplo.

Neste novo colégio vou conseguir isso, tenho a certeza, os profs não são ressabiados, deixam os miudos estarem nas aulas com os tlms e têm grupos de Whatsapps onde avisam as perguntas dos testes antes do dia, a modos que a fazer com que os testes sejam justos.

Querido diário, contei à Sheila e ela disse que eu era maluca da mona, que só tinha ido para este colégio cheio de merdinhas porque a minha mãe tinha gasto bago e que eu de burra não ia passar. Acho que a Sheila está a passar um momento dificil porque não está a ter o mesmo apoio que eu. Um dia, quando ela for empregada de mesa e eu médica, tentarei ir almoçar todos os dias ao sitio onde ela trabalha para lhe deixar um euro de gorjeta. Faço questão de lhe dar um livro meu autografado que depois vai valer bué dinheiro e ela até vai poder comprar uma blusa bonita ou isso.

Sou um coração mole.

Acho que é isto, meu fiel e ombro amigo, a vida está toda à minha frente e eu tenho muito que fazer, tenho de comprar roupa a condizer para não ficar mal vista com as minhas colegas e tenho de comprar material caro, mas não vou plastificar os livros porque isso é de pobre, as pessoas com dinheiro rasgam as capas e escrevem nos livros, como se fosse arte. Estão a cagarsse artisticamente.

Vou tentar regressar mais vezes, mas se não conseguir uma coisa prometo, volto para o ano para te contar cada detalhe deste passo jigante na minha vida. Como disse o Luis Arvestrong "um passo numero 35 para mim, mas um 46 se fosse o Osvaldo".

 

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Qui | 05.09.19

Diário da mãe positiva - o regresso às aulas

Gorda

 

 

Ufa, hoje está a ser um dia tão preenchido das mais maravilhosas e esplendorosas formas, que quase não tive tempo para vir aqui dar-vos o meu conselho da semana. Mas tranquilizem-se, a positiva está aqui para vos ajudar e mostrar o caminho para uma vida mais alegre onde se incluem os ocasionais abraços às árvores.

A titulo de curiosidade vou contar-vos um segredo que acho que nunca contei a ninguém, para além do meu marido, as minhas irmãs, duas amigas de secundário e a minha cabeleireira. Estão prontas? Eu tenho o sonho de um dia ter uns braços tão grandes que consigo dar um abraço a uma sequoia. É verdade.

Mas adiante, que o dia já vai longo e eu ainda tenho três casas para mostrar, duas a uns casais pelintras que vemos logo que não vão ter dinheiro para a entrada; outra a um casal de reformados de vida bem posta que devem ter a conta carregada de carcanhol.

A vida é mesmo assim, não podemos ganhar sempre; é fundamental focarmo-nos no bom, ainda que tenhamos a tartaruga deprimida com indícios de potencial tentativa de suicídio por afogamento.

 

Hoje venho falar-vos do regresso às aulas para nós, mamãs e papás. Sim, porque o inicio das aulas é muito importante para os nossos querubins, mas é fulcral a nossa participação para que tenhamos mãos nesses professores e professoras perdidos, que não sabem liderar e ensinar os nossos filhos, esmifrando todo o potencial que eles têm naqueles pequenos corpinhos. Somos nós, mamãs e papás, que temos de os ter debaixo de olho para que não sejam maus exemplos do que é viver numa boa sociedade, em convivência e harmonia.

É exatamente por isso que tudo começa por uma escolha criteriosa da escola, se tiverem a oportunidade financeira devem optar por uma escola privada - porque já se sabe que nas publicas se apanha de tudo -, caso não vos seja possível, não desesperem, devem arranjar uma morada de alguém conhecido para que possam inscrever as crianças numa zona melhor que a da vossa residência. Foi o que eu fiz nos últimos dois anos, porque tinha um apartamento na Expo para vender, só que o mercado agora ficou em alta e uns sacanas de uns camones compraram aquilo. Dada esta triste situação, as minhas crias este ano estarão inscritas na escola próxima da nossa área de residência, o que significa que tenho de fazer uma pré-reunião com a professora de cada um dos meus filhos. Aconselho-vos a fazer o mesmo. Nas reuniões de pais, com toda a gente ao molho e todas aqueles questões desinteressantes, não nos conseguimos fazer ouvir, por isso é fundamental que tenhamos tempo one on one com a criatura para que saiba que a mãe daquele aluno ou aluna está ali para tudo. 

Gosto de começar por lhe explicar que está perante uma criança positiva, de uma família que aceita desafios e que iremos acompanhar o processo de instrução detalhadamente. Exijo o programa escolar e marco bem a minha decisão de querer trabalhos de casa redobrados. Há imensos pais que se queixam, mas as crianças devem estar sempre a aprender e é com os TPC's redobrados que garantimos que ensinamos os nossos filhos o que eles ainda não sabem, derivado da incompetência dos professores. Por exemplo, o ano passado o meu Luís Alfredo apareceu-me em casa com uns exercícios de matemática para fazer, eu quis dar-lhe apoio apesar de ele querer encabeçar o desafio por sua conta (é muito corajoso, o meu Luís Alfredo), dizia-me ele "ó mãe, cava daqui, estás a baralhar-me todo, ainda chumbo por tua causa". E eu a saber que no fundo o receio dele era não fazer como a professora tinha mandado. Nunca confiei nela, com aqueles sorrisos excessivos.

Nessa reunião devemos explicar que o cuidado educacional dos nossos filhos está a cargo daquela pessoa, pelo que exigimos que não faça observações desnecessárias e que se contenha no consumo de produtos processados em frente aos nossos filhos. Esse não é o exemplo a dar. Devem controlar-se dentro e fora de horário de expediente. É muito complexo quando encontramos um professor ou professora na secção de congelados e este a está a comprar douradinhos; explicar às crianças que nem sempre os professores são boas pessoas fora das salas de aula, é terrivelmente difícil. Devemos bater o pé para que existam produtos biológicos na cantina e que todas as festas de aniversário sejam sugar free, gluten free, dairy free, e alegria free. O futuro começa nas salas de aulas e estes professores de hoje são muito frustrados e acusam os pais de tudo.

Na ultima reunião de turma do meu Luís Alfredo, o meu João Carlos disse-me "foda-se, nunca mais venho a uma reunião contigo, já me tava a passar dos cornos com as merdas que te saíram dessa boca"; a professora insistia que o menino estava a avançar na mesma linha de desenvolvimento que os outros e eu perdi as estribeiras, o meu Luís Alfredo é um menino amamentado até aos sete anos, não tem o mesmo nível que os outros, é melhor que a média, e se não é, tal sucede por falta de estimulo escolar.

Mas a professora conseguiu virar o meu marido contra mim, certamente tentando seduzir o meu João Carlos para aquele mundo de facilitismos.

Depois da reunião com a professora, devemos garantir que adquirimos todos os livros e materiais, de preferência com origem biológica. Se não houver de origem biológica devemos escrever uma carta de desagrado à administração da empresa que produz o melhor produto do mercado. Devemos sentar os nossos filhos no sofá e ter uma conversa com eles. É neste momento que os doutrinamos para a importância da escola. A minha Alexandra Vanessa está ainda a recuperar, porque na ultima reunião decidiu roer o comando da televisão e aquilo deu-lhe um choque nos dentes da frente, pelo que este ano carecerá de paciência extra.

O pai positivo adora assistir a estas reuniões, no fim vem sempre ter comigo para me dar uma palmada nas costas e dizer "só tens ideias de merda, o que vale é que os putos sabem disso e não passam cartão", é um romântico e um apoiante fervoroso das minhas decisões.

É essencial que os pais estejam em sintonia sobre as escolhas a fazer.

Creio que por hoje é isto, entretanto tenho de ir porque os velhos já ligaram a dizer que estão à porta do apartamento para ver a casa. São mesmo assim os maltrapilhos dos idosos.

Espero que esta publicação sirva de apoio às minhas leitoras mamãs (a maioria) e os poucos casos de leitores papás, que fazer este trabalho porque casaram com mulheres destravadas.

Boa sorte e até para a semana.

Já sabem, se tiverem algum tema que queiram ver esclarecido não hesitem em mandar-me, terei todo o gosto em ajudar.

Beijos e abraços nesses corações palpitantes.

 

Qua | 04.09.19

Entrevista com pessoa que vai à praia, mas que não gosta de areia e mar

Gorda

ilha deserta.jpg

 

 

Estamos esta manhã aqui na Praia da Rainha da Costa da Caparica para tentar compreender o que leva todas estas pessoas a arrastar os seus lombos sedentários até ao areal. Aproveitamos o mês de setembro para estas entrevistas, porque agosto já lá vai e isto em principio deve estar mais desimpedido.

(dois  minutos depois, já no areal)

Ao contrário do que estávamos à espera encontramos mais gente encavalitada do que era suposto, pelo que tentaremos encontrar a pessoa indicada para despachar a entrevista.

Damos nota de pessoas com filhos, passadas dos carretos por os putos estarem cheio de areia; verdadeiros veteranos de guerra que, mais cedo ou mais tarde, precisarão de terapia para ultrapassar estas memórias. Isto é gente que vai passar a velhice no campo e que chorará copiosamente ao som da palavra “areia”. Reparamos em algumas donas de casa arrastadas pelos maridos e pelos filhos, a secção infantil da família, que as obriga para tolerar este chão sem asseio, com areia e conchas e porras. Se ao menos Nosso Senhor tivesse aspirado isto não estava assim.

Ao longe damos nota de uma veraneante que acaba de chegar, olha horrorizada à sua volta, procura um espaço por entre a imensidão de pessoas que gritam, comem sandes de mortandela e correm a salpicar água. Estende a sua toalha imaculada e sacode três ou quatro grãos de areia da ponta da toalha, deita mão ao bronzeador e estende-se como um bacalhau na seca.

Aproximamo-nos.

 

Bom dia, lamentamos incomodar, mas gostaríamos de saber se pode conceder-nos dois minutos do seu tempo para falar connosco?

Desde que não deite areia para cima da minha toalha.

 

Como se chama?

Judite Não-Faz-Sentido.

 

Com certeza. O que é que a traz à praia?

Tudo. Adoro tudo: o sol, o calor, o som das ondas do mar.

 

Entretanto passa uma criança a correr que faz parte da família que está mesmo ao lado.

 

Gosta do ambiente de praia, do convívio?

Adoro. Adoro ver as família felizes. Só detesto crianças a correr, toalhas perto da minha, pessoas que comem na praia, gente que passa molhada a menos de dois metros e a falta de silêncio, que me importuna quando quero ler.

 

Muito bem. E o que é que gosta da praia mesmo?

Ai tudo: o sol, o calor, o som das ondas do mar.

 

É seguro dizer que daqui a pouco vai dar um mergulho?

Nem pensar, a água é gelada e as ondas trazem muita areia. Depois há sempre gente a entrar à pressa e salpicam-me o chambão. Para não falar de que molhada a areia se me agarra à pele e eu fico transida.

 

Portanto a areia é uma coisa de que não gosta muito?

Ai detesto. Praia era bom sem areia.

 

Gosta então mais de piscina?

Prefiro praia porque adoro o som das ondas do mar.

 

Então gosta do mar?

Não, que disparate, detesto! As ondas são violentas e fico toda molhada, para não falar na temperatura gélida. Gosto do som.

 

Seria seguro dizer que estaria mesmo bem numa varanda de dois metros quadrados a ouvir um CD zen?

Ora e como é que eu podia presenciar o convívio humano?

 

Pensava que não gostava muito de convívio de praia, especialmente com está hoje, carregadinha de gente.

Depende, olhe ali o nadador salvador, é um convívio interessante, não lhe parece? Questiono-me se ele gostará de Dostoyevsky.

 

(o puto da toalha ao lado passa outra vez)

 

Olhando para ele, diria que é a primeira coisa que leu. Quer que eu vá lá perguntar para acabar com o seu sofrimento?

Não, a incógnita é fantástica. Ó FILHO DE UMA GANDA ÉGUA, SACANA DO PUTO PASSOU A CORRER E MANDOU AREIA PARA A MINHA TOALHA! Desculpe, as pessoas não sabem ir pôr a toalha mais longe, vêm sempre para o pé de mim, que chatice!

 

Não gosta de famílias com crianças?

Adoro crianças, mas os pais não lhes dão educação para que andem devagar, andam para aí sempre com os baldes e as pás a fazer chiqueiro.

 

É o que as crianças fazem. É normal que corram e que brinquem, faz parte da infância.

Credo, um dia que tenha filhos meto-os logo na ordem.

 

Boa sorte com isso.

 

A praia está à pinha, mal cabe uma mosca, ninguém poderia colocar-se assim tão longe – a menos que a Judite tenha uma doença infetocontagiosa grave e nesse caso arranjava-se um jeito. De todo o modo, foi a ultima a chegar, foi a Judite que colocou a toalha ao lado destas pessoas.

Porque há gente a mais. O que raio vêm estas pessoas fazer para a praia? Estamos em setembro, não deviam estar a trabalhar, ou a comprar material escolar, em vez de estarem no laréu? Não há pachorra.

 

Em princípio estão a fazer uma coisa parecida com o que a Judite pretende, mas eles gostam mesmo de cá estar.

Mas eu também gosto.

 

De quê?

Do som das ondas do mar.

 

E detesta...?

As pessoas, a areia, o molhado do mar.

 

Acho que é tudo, resto de boa praia.

 

Terminamos assim a emissão de hoje, a encontrar a mesma coerência humana de sempre.

 

 

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Ter | 03.09.19

Meti-me no Desafio da Passarada - o início

Gorda

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Meti-me numa salgalhada blogoesférica, diz que durante as próximas dezassete semanas vou participar num desafio organizado por uma maltinha aqui da terra dos blogues. O desafio consiste em escrever um texto curto sobre dezassete temas diferentes, um tema por semana. Como são só quatro meses, eu achei que era mesmo o que eu precisava e inscrevi-me. Estou sempre a ver como é que consigo levar a minha cabeça fica à beira do tilt.

Maneiras que isto, começa com um texto sobre o porquê da inscrição, eu escrevi o que está abaixo. Se quiserem acompanhar o processo de escangalhamento de um projeto engraçado, é ir dando conta dos textos que vão aparecer semanalmente.

Prontes.

 

Texto:

Era uma vez uma Gorda que estava sentada a fazer tarefas enfadonhas, deu consigo a consultar o seu blogue e percebeu que tinha um comentário da Caracoleta. Dizia a bicharoca largadora de matéria viscosa “fiz um link lá para uma coisa de um desafio, havias ver que ias gostar”. A Gorda explicou à bicharoca lenta de casa às costas que não percebia de links e que se estava a ver à rasca para saber da coisa.

Três voltas e meia depois, a Gorda chega à publicação do desafio. Quando lê dezassete semanas pensa “Uatafaque, dezassete semanas? Isso em meses dá quanto?”, mal que assalta a Gorda desde a gravidez, quando toda a gente fala de uma métrica temporal que confunde e baralha, sem que haja um propósito suficientemente fundamentado para esse efeito.

Depois de duas regras de três simples e três teoremas de Pitágoras, a Gorda percebe que são sensivelmente quatro meses, então pensa para consigo “um emprego a tempo inteiro, duas horas de trânsito por dia, cães, casa e filho, estava mesmo a precisar de alguma coisa para me entreter durante um quarto de ano!”.

A Gorda acaba inscrita para júbilo de nenhuma pessoa.

Toda a gente fica infeliz para sempre.

Fim.

 

Podem acompanhar todos os outros textos aqui.

 

Dom | 01.09.19

Setembro, o mês dos pseudo-recomeços

Gorda

 

 

Pelas minhas contas, em média, o comum dos mortais tem três recomeços por ano: entre o primeiro e o segundo dias de janeiro (dependendo da ressaca), depois dos compromissos celebrados passa a passa; no dia de aniversário, porque a pessoa jura a pés juntos que não faz nem mais um ano na mesma cepa torta; e em setembro, depois das férias grandes gozadas, de o mundo parecer retomar a normalidade, naquela rotina de voltar ao principio que nos fica cravejada no crânio depois de anos e anos de escola em que o setembro é sempre o mês de novidades, com os cadernos, os livros, os amigos que se voltam a encontrar e o ânimo de que este ano vamos estudar mais.

Estamos assim perante mais um dos típicos recomeços, os miúdos vão estudar mais e reclamar menos dos trabalhos para casa; os "crescidos" - chamemos-lhe assim -  vão estar com energias reestabelecidas, com a cabeça descansada e capazes de ver para lá das chatices do dia a dia, até porque aproveitaram para ler aquele livro de apoio que está no top e vendas o "qualquer-coisa-se-foda" e agora sabem que têm de estar confiantes das suas capacidades, que podem ir até onde podem ir, não vão pensar mais no trabalho depois do horário de saída e acabaram-se aquelas aporrinhações que os fazem remoer as atitudes dos colegas, desejando que um dos armários da cozinha tenha um espasmo e lhes acerte com uma porta no focinho. Já não há ansiedade pelo corpo perfeito, até porque a coleção nova conta com alguma brisa e o lombo vai estar tapadinho, pelo que o exercício pode ser só três vezes por semana (se tanto), como recomendou o médico de família. Sem exageros e com muita aceitação.

Os que têm filhos temem as reuniões de pais ao mesmo tempo que levantam as mãos aos céus, afinal de contas alguém vai aturar a criançada durante a maior parte dos dias, vão voltar cansados ao final da tarde e chegou aquele intervalo tão esperado dos dias de nervos em frangalhos sentados no jardim do parque infantil.

Ao fim da primeira semana de trabalho assenta a depressão pós-férias e quem não dava o rabinho e dois tostões para voltar às tardes de cu de molho, mesmo que fosse num apartamento minúsculo à beira da praia, na Costa da Caparica, com os putos todos aos gritos?

As tretas dos livros soam bem lá escritas mas pouco fazem pelas unhas de gel da Mónica ou pelo Alfredo que não há meio de perceber como fazer as coisas dele sem estar sempre a perguntar a mesma treta.

Com os recomeços saltam da gaveta as listas do que é preciso fazer diferente: os jantares mais cedo; o cão tem de ir ao veterinário; as aulas de natação a que é mesmo preciso ir, não basta pagar; a paciência no emprego; o cumprimento do horário, "nem um segundo a mais, nem um cagagésimo a menos".

Chegaram as "invejas boas" dos colegas que conseguem tirar férias em setembro, porque os miúdos ainda não andam na escola; esses sacanas que vão apanhar melhor tempo este ano e vão pagar menos, porque agosto é um mês do caraças com os emigrantes e vir para cá gastar bago e os turistas que não largam isto nem à lei da bala.

Os professores esperam avidamente por mais um ano letivo, cheio de criancinhas mal comportadas que mandam mensagens nas aulas e mascam pastilha de forma displicente, insistindo que D. Afonso Henriques está vivo e é um DJ famoso de uma discoteca estupenda em Albufeira.

Setembro é um mês do caneco, uma boa altura para fazer um ponto de situação com a vida, o momento adequado para olhar para a lista de 2019, perceber o que é que ainda vai a tempo de ser feito e compreender que as outras 11 coisas vão retomar os seus lugares nas passas para 2020.