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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Qua | 05.06.19

36

Gorda

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Detesto o meu dia de aniversário. Todos os anos digo para mim mesma, numa espécie de estágio de preparação, que nesse ano vai ser diferente, que não vão haver dissabores, que o dia vai correr bem e que nem o hamster da vizinha Palmira vai quinar nesse radiante dia. Depois o malogrado chega e eu retorno à conclusão habitual: detesto o meu dia de aniversário.

Recordo-me que em criança ficada excitadíssima com a minha festa, as minhas amigas iam lá para casa, cantavam os parabéns na escola; nesse dia parecia que todos eram mais meus amigos e até aqueles que mal falavam para mim pareciam interessados em ver-me alegre. Com o tempo essa sensação foi passando até chegar ao dia em que acordar no meu aniversário se apresenta um dia desgostosamente normal. Com as horas de alvorada para o trabalho, as responsabilidades do costume e os mesmos contactos de sempre para desejar um feliz aniversário e acabar por aproveitar para contar duas ou três desgraças que se lá passam para a vida de cada um. Pelas nove da noite já atendo o telemóvel com os pêlos dos braços em pé. Talvez seja por isso que eu prefira as mensagens escritas. Normalmente as pessoas têm preguiça de escrever e por isso cingem-se ao mínimo desejando um dia feliz e que conte muitos. Ao telefone parecem entrar em batalha com o silêncio e, para preencher as ondas sonoras desprovidas de ornamentos decidem contar tragédias da vida.

 

Mas então e isto dos 36?

Não gosto particularmente de fazer 36 da mesma forma que não gostei de fazer nenhum depois dos 25. Nada que tenha acontecido de especial nessa data, sou só eu que não me sinto com mais do que essa idade. É certo que tenho mais dores de costas e as maleitas de órgãos com mais anos de rotação, mas a minha cabeça nega a idade que a vida me dá. Como raio é que eu já tenho 36 anos se eu ainda ontem entrei para a faculdade?

Alguém fez um fast foward!

Mas como é obvio antes contar os malditos e chegar a velha com dentes comprados do que patinar nova e perder todas as coisas boas que a vida tem para dar, como os reality shows e trabalhar quase até aos 70.

 

De todo o modo, não tendo ideia melhor, vou listar 36 merdas que acho que sei:

 

1. Podia dizer que “já não tenho paciência para muita merda”, mas a verdade é que nunca tive. Nunca tive pachorra, a grande diferença é que já tentei disfarçar e agora estou-me cagando para o que os outros pensam.

 

2. A idade não traz mais valia nenhuma. Nenhuma. São só dores e aproximação do fim. A sabedoria raras vezes ajuda no que quer que seja, porque no que ganho em sapiência perco em pachorra. Maneiras que caralhinho para isto tudo. Com o tempo que há de humanidade uma pessoa já devia nascer com manual de instruções para lidar com toda esta filha da putice.

 

3. Já não me importo que as pessoas se assustem com o meu sábio e implacável uso do vernáculo. Eu gosto e uso. É como o baton vermelho, fica bem a quem lhe sabe dar valor.

 

4. Não gosto de aveia, nem de papas de aveia, nem de papas no geral e recuso a ideia de um dia andar a papas.

 

5. Gosto do campo e da praia e detesto a pergunta "prefere campo ou praia?". Prefiro os dois desde que esteja de férias.

 

6. Foda-se que ainda faltam 30 merdas.

 

7. Detesto o meu primeiro nome e menos ainda o segundo.

 

8. Queria um par de mamas novo, mas não tenho conta bancária para isso.

 

9. Gostava de ter o lombo da Jennifer Lopez, sem ter de treinar como ela porque sou preguiçosa.

 

10. Gosto de me rir. É um dos maiores prazeres da vida. Gosto de fazer rir porque para séria já chega a vida.

 

11. Detesto os programas da tarde e os seus dramas, mas quando estou em casa fico sempre agarrada áquela merda e só me apetece dar chapadas na minha tromba.

 

12. Arrependo-me da maioria das coisas que faço, lembro-me sempre da forma certa aproximadamente 5 minutos depois de já ter borrado a manta.

 

13. Tenho um trabalho sério e exigente, até eu me surpreendo por vezes como é que uma palerma como eu tem este nível de responsabilidades. Mas tenho.

 

14. Quero comprar uma autocaravana para fazer uma viagem pela Europa.

 

15. Todos os anos tento convencer o meu marido a oferecer-me um Jack Russel pelo meu aniversário. Todos os anos ele me manda cagar à mata mais esta conversa.

 

16. O meu pai faz anos no mesmo dia que eu. É palerma como eu. E vive feliz por saber que o meu filho vai gozar comigo mais do que eu gozo com ele.

 

17. Gosto de humor negro, é a única forma que tenho de lidar com temas como a doença e a morte.

 

18. Gostava de ser uma pessoa séria e serena, daquelas que não se perdem nos seus próprios pensamentos.

 

19. Acontece-me com frequência começar a rir-me no meio da rua por conta de uma merda qualquer que me lembrei e me pareceu engraçada.

 

20. Desde que tenho conta de Facebook que recebo muitos mais parabéns neste dia. Porque tenho amigos "imaginários" que são aquelas pessoas que são minhas amigas nas redes sociais e mal falam para mim no dia a dia. Mas no meu aniversário não falham.

 

21. Tenho pelo menos uma prima, que nunca me deu os parabéns antes de eu ter conta de Facebook.

 

22. Tenho Facebook para não me esquecer de dar parabéns às pessoas.

 

23. Faço todas as intenções de hoje ir comer uma fatia de bolo de 5 euros sem partilhar uma migalha com ninguém.

 

24. Esta merda nunca mais acaba e eu estou a ficar velha.

 

25. O meu pai faz 71 anos hoje e mais logo, quando falar com ele vai-me dizer "já viste isto, um gajo já tem quase 72 anos...". É sempre assim. Só me apetece dar-lhe lambadas nas trombas. É um conflito interior, porque é o dia dele mas também é o meu.

 

26. Estou farta das obras e ainda mais farta de viver com os meus sogros.

 

27. Não tenho sorte ao jogo, nenhuma.

 

28. Quero comprar um Tesla e estou à espera que o Musk entre em saldos, Primark style.

 

29. Adoro gastar dinheiro com merdas que não interessam para nada. Adoro bugigangas de lojas de artigos vários.

 

30. Gosto de livros. Gosto de histórias. Compro livros porque me apaixono pelas capas.

 

31. Desde que o meu filho nasceu que me passei a borrifar para a maior parte das coisas (e pessoas).

 

32. Ser mãe é a melhor e mais difícil coisa que tenho feito até hoje.

 

33. O meu filho é a minha pessoa preferida. Digo-lhe isso todos os dias. Não há ninguém à face da terra cuja companhia eu aprecie mais.

 

34. Gosto de me sentar a ver filmes choninhas uma tarde inteira enquanto enfardo merdas não recomendadas pela Organização Mundial de Saúde.

 

35. Sou hipocondriaca em grau I e gosto de gozar com isso. Ao nível do imaginário pouca gente teve mais doenças que eu.

 

36. Cá estamos. Vamos ver no que este ano vai dar. Se for como os 35, já não é para aí pior. Expectativas rasteirinhas, sempre rasteirinhas.

 

E agora fica aqui a minha música de aniversário preferida, porque é o meu dia, é a minha festa e eu digo caralhadas se eu dizer, e eu digo foda-se se eu quiser, e eu choro e faço birra se eu quiser.

 

 

 

 

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