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Casa da Gorda

Casa da Gorda

18
Set18

A história do segundo molar esquerdo da mandíbula

Gorda

Agosto de 1997

Dentista identifica uma carie a aconselha o seu tratamento com brevidade. Numa próxima consulta.

 

(a pessoa não vai porque carie é bicho que não se vê e porque na década de 90 só ia ao dentista pessoa sem dor se fosse rica ou um valente choninhas)

 

Julho de 1998

Dente parte-se porque não foi arranjado. Proprietário verifica se causa dor. Não causa. Faz uma análise lingual com vista a identificar se há alguma aresta que aporrinhe valentemente. Não aporrinha.

Decisão: escusado ir ao médico.

 

Dezembro de 2000

Dor lancinante no dente visado. É preciso medicação pesada e é inevitável o tratamento por uma pessoa especializada. Na consulta o dentista informa: podemos extrair ou podemos tentar salvar o dente e proceder à colocação massiva de chumbo. Pensamos no dente como um bebé que precisa de apoio, a ideia de o deitar para o lixo atormenta-nos, é como se não houvesse uma história entre a pessoa e o dente, parece demasiado radical. "Vamos salvar, custe o que custar!"

Fazem-se tratamentos de contra-vontade do dentista que mais preferia arrancar o dente em vez de estar a gastar horas a tratar de um dente cujos pagamentos receberia dentro de 6 meses (com sorte) porque a ADSE demorava a pagar.

Dente arranjado, numa gargalhada mas espalhafatosa a pessoa corre o risco de ser assaltada para lhe levarem o cromado.

Conselho: se quer rir com vontade faça-o num espaço sem manfos.

 

Janeiro de 2003

Outro dente doí. Lado oposto, ala superior da boca (não sei nome técnico nem me apetece procurar). É dada uma vista de olhos ao dente de 97 e decidido extrair o chumbo porque ficava mais bonito com uma massa branca, assim tons pérola, que se assemelhava mais ao dente.

Ação concluída findas horas na cadeira da tortura, brocas e desejos profundos de bater em si mesmo pela decisão, "ainda por cima o dente não doía".

 

Fevereiro de 2006

A massa caiu do dente há dois meses, é reconhecida a necessidade de arranjar porque a comida insiste em ficar presa naquele espaço contiguo.

Tratamento numa clínica dentária que parece tratar dos dentes dos pacientes com a mesma atenção e cuidado que os proprietários de gado vacum têm quando põem os brincos nas vacas.

Dente arranjado. Promessa de não regressar.

 

Maio de 2017

Parte da massa parte numa ponta e começa a arranhar a língua. Marca-se consulta.

Consulta cancelada por indisponibilidade de agenda.

 

Setembro de 2017

Marcada nova consulta.

Consulta cancelada por indisponibilidade de agenda.

 

Dezembro de 2017

Marcada nova consulta.

Consulta cancelada por indisponibilidade de agenda.

 

Fevereiro de 2018

A boca já se habituou à aresta. É deixar estar até haver tempo.

 

Julho de 2018

Nova consulta em clínica perto do trabalho.

Já não se colocam massas mas sim peças que completam o dente dando a impressão de que o dente está intacto.

Pessoa aceita a hipótese, afinal de contas tem seguro dentário para pagar uma parte.

Vai a segunda consulta, com outro dentista. Quando entra está contente porque vai ficar com um dente lindo.

Quando se senta deseja que acabe depressa.

Duas horas depois está para morrer e a preparação do dente já está quase pronta.

Levanta-se banzada e passa a tarde com a boca ao lado.

 

Setembro de 2018

Consulta para colocação de peça, dando a impressão à pessoa de que está cada vez mais próxima da viatura móvel que possui. Como se já não bastasse ambos rangerem em algumas articulações e dobradiças assemelhando-se bastante a abertura da porta direita com o movimento de dobrar o joelho esquerdo.

Deseja ouvir rapidamente um "já está" mas perceber que não vai acontecer quando na verdade o que ouve é um "vou dar um bocadinho de anestesia".

Meia hora depois a pessoa perde-se em pensamentos paranoicos.

"E se me fico aqui?"

"Morrer enquanto arranjo um dente é uma coisa muito estúpida!"

"Se soubesse que demorava desta forma tinha comido uma chanfana antes de vir!"

"Estou a ver uma luz muito forte. Isto não é bom sinal!"

"A luz muito forte é só um das lâmpadas embutidas no teto falso. Ufa, foi por pouco!"

Broca. Lima. Broca. Lima. Aspirador. Broca. Fio dentário.

"Devia ter arrancado o dente em 97."

"Estou farta desta merda deste dente!"

"Porque raio é que eu não pus só massa, tinha de me armar em fina com peças XPTO para um dente que nem se vê. Se ao menos fosse o dente da frente."

A dentista diz que já está e mostra o dente pelo espelho.

"Olha que lindo, valeu mesmo a pena!"

A pessoa sai para pagar, as aplicações das seguradoras são sempre lentas para processar os pagamentos, a menos que seja para receber o pagamento anual da apólice, aí funciona sempre e é rápido o suficiente para a pessoa não começar a achar que passava bem sem o seguro.

A senhora da receção lança todos os itens para pagamento.

Diz o valor.

Pede para confirmar na aplicação.

Dez minutos de pé, em fraqueza, aflita para fazer número 1 e em completa ansiedade por ver todo o espaço pelas costas.

"Olhe vou ter de lançar tudo outra vez!"

De boca ao lado, numa espécie de AVC temporário a pessoa cospe um "então vou aproveitar para ir ao WC que estou aflita".

Quando regressa espera e finalmente paga.

 

A pessoa tem um dente lindo, menos uma quantia de cento e poucos euros na conta, uma tarde de boca ao lado e a promessa interior de que, se acontecer com outro dente, é para arrancar.

 

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