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Casa da Gorda

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03
Set18

A hora dourada no escritório

Gorda

A melhor hora para entrar ao trabalho é às 7 da manhã. Obviamente que ninguém que tenha algum amor à vida o vai fazer, porque só se vê livre da empreitada às 18, mesmo que tenha entrado mais cedo*. Mas às 7 a vida de trabalho é quase perfeita – na medida em que pode ser perfeita a vida de quem trabalha -, uma vez que não existem distrações que possam roubar a concentração que uma pessoa consegue granjear com custo.

Às 7 existem as tarefas e a pessoa. Tudo o resto é silêncio. O Joaquim ainda não chegou com os seus óculos de aviador que refletem os nossos olhos cheios de olheiras. A Margarida ainda não começou com a conversa do “cá estamos outra vez não é?! Estava tão bem na cama” e rebeubeubeu. A Clarisse ainda não começou com as histórias dos filhos e dos cães e do marido e dos pais e do raio que a parta.

Às 9 o silêncio é assassinado sem dó nem piedade.

Às 7, na pior das hipóteses, as senhoras das limpezas andam atarefadas com o aspirador, mas consegue imaginar-se que esse faz parte de um qualquer zumbido que assiste ao silêncio humano.

Inexistência de massa humana é igual a qualidade de vida no trabalho.

A partir das 9 é preciso ter uma capacidade sobre-humana para resistir a mandar os colegas para sítios menos prazerosos, de onde o seu rabo jamais sairia intacto.

A partir das 9 é preciso ter um par de phones para tapar os tímpanos, alimentando a mente de musicas das quais já está farta, ao mesmo tempo que se tenta dizer aos colegas “gostaria mesmo muito de não ter de vos ouvir”, mensagem que, a ser captada, é completamente ignorada.

A qualquer dia da semana o horário das 7 é o melhor, porque confere 2 horas de bom trabalho, sem registo de ansiedade, frustração e desejo permanente de arrebatar a lombar de um colega com uma cadeira de rodinhas.

A qualquer segunda-feira o problema fica mais agudo, num formato de pontada de pica-pau que nos confundiu com uma árvore, não temos à mão uma ponta e mola para acertar uma chumbada no pássaro.

A uma segunda-feira de regresso de férias piora tudo, voltamos para o sitio onde não queríamos ir e deixamos para trás o lugar onde queríamos estar: a nossa cama.

Estar às 7 no escritório é como ter acesso a um cálice dourado das horas, mesmo que não pago, é prazeroso saber como seria a vida num mundo em que poderíamos fazer o nosso trabalho sem que fazer sala e conviver fizessem parte da nossa avaliação anual.

 

*Excluem-se deste texto pessoas que têm a possibilidade de fazer o seu próprio horário. É gente de quem tenho uma profunda inveja e que pretendo que tenha uma valente caganeira.

 

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