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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Qui | 28.02.19

As (mais que) educadoras de infância

Gorda

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- Mãe não te esqueças de dizer à Maria que eu hoje não vou.

- Está bem.

- Quem vai é o Homem-aranha!

- Sim, eu sei. Não me esqueço, vamos pregar um grande susto à Maria.

- Pois vamos. Não te esqueças.

Quando chegamos à escola enfia a máscara na cara e finge que é o Homem-Aranha, o menino que vai todos os dias não está. A Maria faz de conta que não o encontra e ele fica radiante pela surpresa que levou a cabo.

A Maria, chamo-lhe assim para efeitos deste texto, toma conta do meu filho e de mais 24 crianças no jardim de infância. A Maria e a Sabrina, também de nome fictício. Deixam os filhos em casa e rumam para tomar conta dos filhos de outras mães, para lhes dar colo, atenção e para os ensinar aquilo que por vezes não há tempo para ensinar em casa. Lidam com birras, com tristezas e com frustrações. Gerem o temperamento de 25 pessoas em miniatura.

Têm às costas uma responsabilidade incalculável, têm nas mãos o mundo de tantas mães e pais, que lhes confiam os seus filhos porque têm de trabalhar, porque as crianças não podem viver para sempre debaixo das saias das mães.

Dois pares de olhos têm de ensinar, de cuidar, de garantir que não andam à batatada, que se entendem, que vão à casa de banho, que comem o lanche e o almoço, que não se pisgam do sítio deles. Tem de garantir o bem estar de uma sala cheia de crianças e tantas vezes gerir a parte mais difícil: os pais.

Coloco-me no lugar da Maria muitas vezes e o peito enche-se de medo e ansiedade. A responsabilidade que ela tem é tão grande que me causa uma pequena vertigem. Faz o melhor que pode, o que a experiência e a vocação lhe têm ensinado e vai para lá do seu papel quando tem de palmilhar por caminhos sinuosos ao encontro dos desejos e requisitos de pais que acreditam que o mundo se irá moldar às criaturas que trouxeram ao mundo.

"Elas têm de ver", "Elas têm de saber", "Elas têm de gerir", "Elas têm de ensinar", "Elas têm de garantir". Elas, elas, ELAS.

Elas são pessoas comuns. Pessoas que têm dores de cabeça, familiares que adoecem, filhos com febre, chatices com maridos, eletrodomésticos que avariam, acidentes de trânsito, dificuldades para pagar a renda, animais de estimação que morrem, familiares que partem, dias menos bons, filhos com birras, noites mal dormidas. Elas, têm dias como os de qualquer pessoa e mesmo assim têm de estar no jardim de infância para receber os nossos filhos, para lhes dar colo, para lhes aturar o temperamento, para os ensinar o que não tivemos tempo para ensinar e casa, para cuidar, para pôr gelo no galo que fizeram a correr para onde não deviam; têm de sorrir e estar sempre positivas.

É um trabalho hercúleo e de muito valor. Não é apenas o trabalho "delas". É mais do que isso.

Cuidam dos nossos filhos como se fossem os seus meninos durante anos, criam laços, sentem saudades e depois, tal como já sabem desde o primeiro dia, os passarinhos têm de voar e serão o que a vida permitir, um mundo de hipóteses. Chega uma nova fornada para ensinar, cuidar e amar. É preciso seguir em frente. É preciso ter coração para isto.

Sendo certo que existem más pessoas e maus profissionais em todas as profissões, estas são mais do que educadoras de infância, são o colo dos nossos filhos, são as cuidadoras, são as mães substitutas que dão carinho quando o colo da mãe não está.

Hoje ao ver a satisfação do meu filho quando mostrou a sua máscara de Homem-aranha à Maria percebi o quanto gosta dela. E se ele gosta dela, eu gosto da Maria.

Amanhã vai acontecer o desfile da escola, dezenas e dezenas de crianças mascaradas, com uma dúzia de mulheres do caraças a cuidar delas, com o coração apertado e o pensamento positivo para chegar ao fim, contar as cabeças e estar toda a gente feliz na escola.

O suspiro do "correu tudo bem, para o ano há mais". O aparente relativizar tem de existir, porque de outra forma teriam enlouquecido a pensar em tudo o que pode amedrontar um ser humano.

O meu querubim não vai ao desfile porque o acho muito pequeno para isso, mas espero que seja um sucesso, que tudo corra bem à Maria e a todas as Marias.

Não é só o trabalho delas, é muito mais do que isso.

 

 

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