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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Sab | 06.07.19

Carta à sogra

Gorda

 

 

Querida sogra,

Conhecemo-nos há anos e nunca tive a oportunidade de lhe dizer todas as coisas boas que tem feito por mim, apesar de termos as nossas divergências a verdade é que tenho muito para lhe agradecer. 

Antes de ter entrado na minha vida eu incomodava-me com coisas pequenas, com atritos de trânsito e pessoas idiotas nas filas de supermercado, hoje, quando me deparo em tais circunstâncias, quando já estou à beira de me irritar, lembro-me que podia estar na sua companhia a ouvir as suas opiniões descabidas e a tolerar todos os sons que emite sem qualquer propósito. Fico calma e aceito a minha realidade. Antes vinte idiotas na fila que um almoço consigo.

A minha vida tinha silêncio, as tarefas simples eram feitas ao som dos objetos ou com o simples chilrear dos pássaros lá fora. O tempo passado na sua casa tem-me feito dar valor a esses momentos, porque a minha queria sogra grunhe, limpa a garganta, assobia, faz estalidos de língua. A senhora assassina o silêncio e até os pássaros vão assobiar para outra freguesia.

A casa fica resplandecente de quinze em quinze dias, porque eu uso o produto "vem cá a sacana da velha" para garantir que a senhora não anda a espalhar bairro afora que a sua nora é uma badalhoca e que o seu filho vive num pardieiro.

Mas o seu filho limpa metade que eu não sou mulher a dias de ninguém (a ver se a gente s'intende)

Graças a si compreendi as coisas que não quero fazer, espero ter o discernimento de aceitar que o meu filho um dia vai papar umas miúdas e um dia irá casar com alguma. Se for essa a escolha dele, porque se me aparecer com um namorado eu ficarei igualmente contente.

A sua postura para comigo faz-me saber que ainda existe um grande caminho para que as mulheres sejam amigas umas das outras, a forma como acha que o seu filho devia ser tratado e como não compreende que em nossa casa contamos o mesmo porque trabalhamos o mesmo e ganhamos a mesma conta, por isso as responsabilidades são iguais.

Percebo todos os dias consigo que os olhos da maternidade ainda são velhos, porque não pergunta ao seu filho onde está a roupa do neto, espera que eu apareça porque esse é um papel meu.

Agradeço-lhe todos os pratos que cozinha, especialmente aqueles em que tem o cuidado de preparar sabendo que eu não gosto de os comer. Apura o meu paladar e faz-me ter a certeza de que há mesmo porras que não me passam pelo estreito.

Obrigada por me ajudar a conhecer a pessoa que sou todos os dias, por me treinar a lidar com a palermice alheia em muitos momentos e por agilizar a minha esperteza para evitar os almoços de família.

Fico-lhe eternamente grata por tornar a minha imaginação tão acutilante e ampla, nada me diverte mais do que imaginar as diversas formas em que um pinheiro lhe podia arrear em cima da mona, ou que um cavalo alado largasse uma bigorna dos céus, ou que uma rajada de vento lhe fechasse uma porta de repente, arreando-lhe com a madeira nas ventas mesmo em cheio.

Sem a sua presença a minha vida seria mais monótona e certamente mais tranquila, mas isso, nos dias que correm, não interessa a ninguém.

 

Com a vontade imensa de lhe espetar uma lambada nas trombas, até já que o frango deve estar a chegar.

 

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