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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Ter | 23.04.19

Coisas que aprendi ao preparar a minha casa para as obras

Gorda

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(vamos todos respirar fundo depois deste titulo "pequeno")

 

Sabem aquela coisa de escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore? Pois é, nunca percebi a raciocínio por detrás disso. Parece-me sempre tremendamente redutor balizar os objetivos de vida em três pontos iguais, como se fossemos cópias uns dos outros. Para além disso não me lembro de um tempo na minha vida onde eu tivesse apenas três objetivos. Ou estava numa fase de deixar andar e não tinha nada em mente, ou então tinha mil planos.

Neste momento há três coisas que eu gostava de fazer na vida e muito revoltada partirei se, com os meus 120 anos (não vou patinar antes disso), não os tiver garantido. Quero ter uma vivenda, passo bem sem a piscina, mas quero espaço para um terraço e um alpendre onde eu possa ver os cães a correr doidos de um lado para o outro enquanto eu grito “se me fodem o limoeiro outra vez não há biscoitos uma semana inteira!”. Assim, alto e bom som para os vizinhos verem logo com o que é que contam. Quero comprar uma autocaravana e fazer uma viagem pela Europa, tenho particular interesse em percorrer o sul de França e o Sul de Itália. Tenho imensos planos para a autocaravana, metade deles não vou levar a cabo depois de perceber o trabalho que dá manter aquilo. Mas agora, a esta distância e sabendo que teoricamente é viável, parece-me lindamente. Quero escrever um livro de humor, sobre o quê acho que sei, mas a coisa dá o seu trabalho e não há editora que pegue nisto, pelo que vou anotando as minhas ideias e quando chegar o momento certo lá o publicarei online (que é o que faz a malta que não consegue chegar às editoras, a menos que pague).

Para além destes planos tenho mais 500, onde se incluem viagens, um jack russel de pêlo cerdoso, ter um corpo como o da Rita Pereira, ler 150 livros em menos de 3 anos, correr uma maratona e ganhar o Euromilhões.

 

Estes planos estão a uma certa distância, talvez tenha sido por isso que decidi fazer obras em casa. A autocaravana não melhoraria os azulejos da minha sala e dinheiro para a vivenda eu não tenho. Pelo que me pareceu tremendamente sensato fazer obras de fundo no meu apartamento. O problema é o mesmo que acontece com todas as minhas ideias, na teoria são fabulosas, na prática são uma merda.

Eu só tenho ideias de merda. Não há discussão nem paninhos quentes que melhorem isto.

 

Mas agora já está. O contrato está assinado, o chão e as paredes estão escolhidos, bem como a cor da cozinha e os móveis de casa de banho. No preciso momento em que escrevo este texto estão dois ou três tipos a partir a minha casa com um martelo e escopro. Mas até chegar a esse momento este lombinho teve muito que trabalhar.

 

Por isso, nos últimos 5 dias estive enfiada em casa a esventrar os meus tarecos para que a casa ficasse vazia e a magia possa acontecer. Perdi a conta às vezes que disse “só tenho ideias de merda”, mensagem essa corroborada pelo meu marido que, por sua vontade, deixaria a coisas como estavam e aproveitaria o dinheiro para ir de férias às Maldivas.

 

Nestes dias aprendi umas coisas e, como sou amiga dos meus prezados leitores, quero aproveitar este momento para vos explicar aquilo que aprendi. Vamos a isso?

 

Temos mais merda do que pensamos

Este é o primeiro ponto. É indiscutível. Assim que arredamos o primeiro móvel, assim que olhamos com atenção para a caixa de primeiros socorros, assim que escarafunchamos na última prateleira do guarda-vestidos, nós percebemos que há demasiada tralha para os gatos pingados que lá moram. É incrível como uma pessoa é capaz de guardar coisas que não gosta desde o momento em que comprou, mas depois mantém ali no armário como que para castigo por ter gasto dinheiro em porcaria.

 

O pó é o maior micro cabrão que vive à face da terra

Este gajo mete-se em todo o lado. A pessoa compra o aspirador Turbo 500 000 airblater não-sei-quê, mas o pó arranja sempre onde se esconder. Encafua-se nos cantos, mete-se entre os livros, refunde-se atrás das estantes, ocupa as frestas das portas. Tem de haver um grupo de cientistas que olhe para isto e que invente um micro herói que arrebente com este filho da mãe.

 

Guardamos demasiados medicamentos fora do prazo

Ficámos com gripe em 2016, parámos o antibiótico ao quarto dia porque já estávamos finos? Boa! Guardamos o resto dos comprimidos porque se formos atacados outra vez escusamos de ir ao médico e tomamos o resto daquilo. O problema é que quando voltamos a apanhar gripe já nos esquecemos da última vez que a tivemos, por isso vamos ao médico novamente e o processo repete-se.

É possível que uma pessoa compre uma embalagem de Batadine em 2015 porque cortou uma mão e depois guarde aquilo até 2019 porque se for preciso tem em casa.

 

Temos demasiada roupa que não sabemos que temos

Estamos em 2015 e vimos uma peça de roupa que gostámos muito, mas está caro. Decidimos esperar pelos saldos, mas quando os saldos começam ainda está caro, queremos aquele desconto de 60%, então aguardamos, não somos do tipo de deixar que a loja nos “coma por parvas”. Quando a loja fica em liquidação total entramos confiantes de que vamos comprar o que queríamos ao preço que consideramos justo. Há a peça que desejamos mas apenas em XXL. Nós vestimos o S. Então compramos, nunca sabemos quando é que não vamos engordar 25 quilos de um dia para o outro. Não é? Guardamos a peça no guarda-roupa e nunca mais pensamos nisso. Até que decidimos fazer obras. Outra hipótese também muito comum é apaixonarmo-nos por um par de sapatos, mas custam 3 dígitos e pensamos que talvez estejam fora do nosso espectro salarial. De maneiras que compramos a imitação que nos come os calcanhares. Acabam numa caixa sem ser visitados anos a fio.

 

Transformamo-nos em mestres do celofane

Para quem não sabe o celofane é aquela película aderente que uma pessoa usa para tapar os restos de comida ou para envolver o que sobrou da mesa de queijos nos almoços de família. Essa película é ótima para envolver móveis e outras coisas que vão ficar em casa em sede de obras. Eu tornei-me uma mestre em “celofanar merdas”. Primeiro achei estúpido, depois habituei-me e por fim passei a gostar tanto que acho que envolvi em celofane coisas que foram para o lixo.

 

Guardamos bugigangas que não servem para nada à espera de que um dia venham a ser úteis

Ou seja, transformamo-nos nos nossos pais.

O meu pai tem 3 casacos de cabedal com pele de ovelha guardados na despensa há mais de 30 anos. Quando éramos mais novos e lhe perguntávamos pelos casacos dizia que os guardava porque um dia os filhos podiam querer ficar com eles. Os meus irmãos não os queriam e sempre lhe disseram. Ele achava que eles iam tornar-se homens adultos e iam mudar de ideias. Não mudaram.

Hoje quando lhe perguntamos porque os mantém, diz que os netos os podem querer. Sendo que só tem 2 netos estou para ver qual dos dois será o azarado contemplado, o meu filho ou o meu sobrinho. Porque um vai ter de papar com 2 casacos.

Sempre gozei com o meu pai. Até que este domingo dei com um casaco branco que eu comprei há mais de 12 anos e nunca vesti. Estava com película em volta para não se estragar, mas tinha uma parte das mangas de fora, que, por sua vez, estavam mais amarelas que um bezerro com iterícia.

O meu pai nunca vai saber disto.

 

Guardamos demasiados cotonetes

A sério, quanta cera pode uma pessoa ter nos ouvidos? Por Deus!

 

Guardamos demasiados cremes de cabelo

A gaja compra os cremes que a Rita Pereira diz porque quer ter um cabelo como o dela. Ao fim de um mês sem melhoras compra os cremes que a Cláudia Vieira usa porque quer ficar como a Cláudia. Não há melhoras. Quando dá consigo tem o rodapé da banheira carregado de shampoos e amaciadores usados até meio. Depois tem pena de mandar fora e promete a si mesma que vai gastar o que tem em casa. Mas entretanto sai um anuncio com a Carolina Patrocínio…

 

Guardamos demasiados cabides

Eu não sei se é uma previsão de futuro, para o dia em que vamos ter um closet IMENSO, mas a verdade é que há demasiados cabides. Aquilo dá para fazer uma obra de arte da Joana Vasconcelos e ainda sobra material para uma réplica.

 

Nunca devemos dizer aos nossos filhos que podem pintar as paredes

Porque os gajos vão encontrar os únicos 20 centímetros de parede em que não podem escrever e vão lixar aquilo tudo.

O meu sogro apareceu lá em casa com o meu herdeiro. O pequeno queria ver o estado do quarto dele e aproveitar para dizer que queria que mandássemos pôr o chão em azul. (Claro! Vamos já tratar disso!) Como não parava quieto eu perguntei-lhe se ele queria pintar as paredes com caneta. Afinal de contas iam ser pintadas de novo, porque razão não havia o miúdo de se divertir. Dei-lhe uma caneta e ouço-o queixar-se que não estava a escrever. Tentava uma parede e outra e não conseguia. Entretanto eu vou à procura de um lápis, era certo que com lápis ele conseguia escrever. Nesse instante ouço-o dizer “mãe, deixa estar, já encontrei uma parede que dá!”. Quando entro na sala ele estava a pintar a pedra da lareira com caneta bic. A única coisa que se vai manter é aquela pedra.

Lembram-se do inicio do texto em que eu disse que só tinha ideias de merda?

 

Acho que cobri os principais pontos.

 

No final olhámos um para o outro (eu e o desgraçado que mora lá em casa), já não víamos a nossa casa assim tão despida desde o dia em que a compramos há 10 anos atrás. Ele estava cansado e melancólico. Eu estava a cansada e a pensar “foda-se finalmente vão partir esta merda e pôr tudo de novo”.

 

Sou uma romântica.

 

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