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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Qua | 30.01.19

Coisas sobre A Gorda, ou lá o que é

Gorda
A minha mãe era diabética e só tinha bebés gordos. Eu nasci fora de horas, vim ao mundo numa forma de estar que se arrasta até hoje: contra a vontade e a expectativa de todos. Decidi que havia de vir e vim. Não houve contracetivo que evitasse a minha chegada.
Sabem aquela coisa do 99% de fiabilidade? Eu sou o 1%.
Nasci gorda e feia como uma foca obesa, era o maior bebé da maternidade e os meus irmãos, perante tal texugo, decidiram envolver-me no seu clã fraterno sendo fundamental que eu carregasse uma alcunha menos bela.
Eu seria para sempre "A Gorda".
 
O amor fraterno é o amor mais arisco e brutalmente honesto que podemos encontrar, ninguém nos dá carolos como um irmão mais velho, ninguém nos chama de estúpidos como um irmão mais velho, ninguém sai em nossa defesa, contra tudo e contra todos, como um irmão mais velho.
 
Em miúda gostava de todo o mundo dos livros, do cinema, tudo o que envolvesse criatividade. Não brincava na praceta porque nunca me soube defender decentemente de uma porradona de um vizinho, a violência física deixava-me sem reação e por isso acabava em casa, com dissertações filosóficas sobre como as crianças do bairro se deviam comportar. A minha mãe só queria que eu aprendesse a dar um papo-seco a alguém.
A minha mãe era uma mulher com muita paciência.
Corria pouco e mal, era uma nódoa a jogar ao elástico, tinha medo de fazer o pino e se me punham à baliza a jogar à bola fugia da bicha quando ela vinha em minha direção. Era escolhida em último e com razão.
 
Passei pela adolescência num io-io de pesos que nunca me levou à obesidade, invejando todos os dias a cintura de vespa da Paula, que comia como uma lontra e parecia a Ariel sem barbatanas.
 
Quando entrei para a faculdade comecei também a trabalhar. O peso que tinha a mais foi desaparecendo, afinal de contas tinha pouco tempo para comer e muita coisa para fazer.
 
Posso dizer que não sou gorda, sou "A Gorda". É a minha alcunha, foi o nome de gang que os meus irmãos escolheram para mim. Quando alguém pergunta pela Gorda, eu olho. Afinal de contas sou eu.
Quando os meus irmãos dizem um para o outro "foi ali a Gorda que não-sei-quê...", eu volto ao apartamento minúsculo onde cresci, às tardes de sábado cheias de sol em que uma família de 6 arranjava maneira de se sentar num sofá de 4 para ver o Macgyver, volto às historias incríveis que o meu irmão mais novo me contava, sobre aquele personagem que "fazia uma bomba com uma pastilha e um palito" e eu ficava com medo de espetar um palito numa pastilha, afinal de contas podia arrebentar com a casa toda.
Volto a um período da minha vida em que só me lembro de dias quentes e felizes, em que eu não tinha preocupações, quando eu ainda acreditava que os que amo viveriam para sempre e que eu seria uns dias a Ariel e outros a Babe do Dirty Dancing.
 
Sou péssima a escolher nomes, por isso quando chegou o dia de criar um blog foi uma valente dor de cabeça arranjar alguma coisa para lhe chamar. Diz que nome é obrigatório. Pareceu-me que a Casa da Gorda seria uma boa opção, afinal de contas é a minha casa virtual e "A Gorda" sempre fui eu.
 
Desta feita resta-me dizer:
Sejam bem-vindas e bem-vindos a este espaço (olhem para mim a ser bué inclusiva). Não vou ensinar nada a ninguém, não vou contar um processo de perda de peso, não vou dar lições de vida nem vou contar o meu dia a dia como se ele fosse alguma coisa de especial, posso falar-vos da rijeza que é trabalhar para manter os meus quilitos num percentil piqueno (gozando com os meus dilemas por não poder encher o bandulho de bolos a torto e a direito), porventura irei desconstruir a banalidade dos meus dias para que eu própria me consiga rir deles, posso oferecer-vos a minha visão tola do mundo, aquela que me faz rir sozinha quando estou a enjorcar os textos que escrevo.
 
Aqui procura-se uma gargalhada por dia, é como a fruta mas em melhor. Porque a vida é séria que chegue para que andemos sempre aporrinhados com tudo e mais alguma coisa.
 
 

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