Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Casa da Gorda

Casa da Gorda

27
Ago18

Como conseguir um bom emprego

Gorda

Estava para aqui com alguns minutos livres, que é coisa que raramente me acontece, e, dotada de uma total incapacidade de estar quieta decidi ir ver as ofertas de emprego num site qualquer da internet.

Afinal de contas estamos a chegar ao final do mês de agosto, as pessoas estão a regressar aos seus entediantes trabalhos, todas carregadas de depressão pós-férias, imbuídas de um desejo profundo de mandar tudo às urtigas e mudar de profissão, arriscar, ver o que a vida tem para lhes oferecer, mostrar aos filhos que estão dispostos a dar um passo em frente quando estão mesmo no abismo, tudo em prol da busca pela felicidade suprema (e tudo com recurso nas frases de Facebook que os amigos postaram no dia anterior, os mesmos que detestam e que mantém como amigos porque não querem conflitos com colegas de trabalho).

Então, depois de analisar com detalhe algumas das propostas apresentadas, a única coisa que aprendi foi o seguinte: se quer arranjar um bom emprego minta com todos os dentes que tem na boca, incluindo os falsos e já agora use e abuse da placa dentária da avó. Porque sem imaginação jamais conseguirá o posto de “business analysit of a major account of slamollacomenal”.

Espero que os meus conselhos ajudem a conseguirem tudo o que mais desejam desta vida.

 

Uma coisa antes de começarmos: será que já não há ofertas de emprego em português?

Já não se oferece emprego na língua materna. Em vez disso dão-se nomes pomposos para postos de trabalho que, a ver bem, qualquer pessoa com vontade e minimamente letrada conseguia fazer.

Por exemplo, para fazer o que faço é preciso um pouco mais do que saber ler, mas uma pessoa inteligente (muito, mas mesmo muito inteligente, assim para dar a ideia que eu sou mesmo bestial), com dedicação, aprenderia. No entanto, o nome da minha função é tão mais pomposo do que aquilo que eu faço que quando alguém me anucia indicando o meu titulo profissional, eu fico a olhar para a porta à espera de ver a pessoa entrar. Uma fração de segundos depois dou conta que sou eu.

 

No meio disto tudo só é pena que os vencimentos sejam tão mais fraquinhos que as promessas.

 

É como uma gaja que é engatada por um tipo todo calmeirão, musculado, definido, cheio de falas mansas e depois quando chegam a vias de facto o caso tem de ser gerido com pinças. Ou seja, no que interessa mesmo, onde estão as mais valias, aí é tudo em português curto e…estreito, ou seja, a pessoa mantem-se pobre.

 

Entramos na proposta de emprego e há uma apresentação da equipa ou da empresa. Quando são entidades comummente conhecidas uma pessoa chega a pensar que há ali um qualquer engano, porque a descrição parece falar de uma empresa holandesa e afinal são só os tipos que gerem as auto-estradas. Se calhar é por causa disso que pagamos tanto de portagens, é para eles terem lá vários “business analysit of a major account of slamollacomenal”.

 

E os requisitos mínimos?

Tão gerais, tão gerais, mas tão gerais que aposto que copiam umas empresas das outras:

Trabalhar de forma colaborativa.

A sério que é preciso dizer isto. “Não, não, espera. Para esta função queremos especificamente um morcão, queremos mesmo assim um grunho que não fala para ninguém.” Senhores, pessoas que recrutam tipos que não colaboram, normalmente estão ligadas às mafias e afins. Empresas reconhecidas no mercado têm de colaborar.

 

Capacidade de comunicação

Comunicar é essencial. Seja para estar fechado num cubículo ou para estar na receção de um escritório (importa aqui dizer que rececionista foi a única vaga em português que encontrei).

 

Falar fluentemente inglês

Ao nível da mensagem por whatsup e abreviatura? Ou mesmo inglês? É porque ninguém esclarece. Eu cá sou ótima na primeira, porque uso muito e tenho oportunidade de praticar, mas a segunda é fucked.

 

Iniciativa e Proatividade

O que é que querem com isto concretamente? Iniciativa para quê? E proatividade para o quê concretamente? Como é que uma pessoa manifesta isto se ainda vai aprender a função? Pode ser iniciativa para ter mandado o curriculum e proatividade para pedir já aumento?

 

Foco no atingimento de objetivos

Lá a ver, isto é coisa que pessoas da função publica não são obrigadas a ter. No privado somos sempre pressionados para fazer um pouco mais. No publico sempre pressionados para fazer um pouco menos porque podemos deixar o colega que só chamou 3 senhas mal visto. Ser vagaroso também é um objetivo, certo?

 

Capacidade de tomar decisões e resolver problemas

Ainda esta manhã decidi, sem espinhas, o que ia ser o meu pequeno almoço. Tinha a camisa rosa amachucada – o que é um problema – e decidi que a blusa branca com flores amarelas também ficava bem com as calças xadrez. Resolvi e decidi em simultâneo.

Sou mestre a decidir e CEO a resolver.

 

Capacidade de pesquisa, análise e aprendizagem

De pesquisa?

De analisar o quê?

Se aprendo bem? Já viram aquele macaco que aprendeu a separar o lixo? Sou ainda mais rápida, mas só aceito euros, não queiram pagar-me em bananas.

 

Para isto é preciso, no mínimo, um mestrado e 2 anos de experiência.

 

E que mais? É para já um estágio. Porque mesmo com mestrado e mesmo com experiência, é preciso ter a certeza de que a pessoa já sabe como se trabalha na empresa antes de para lá entrar.

 

Ora vejamos: quantas são as empresas que gerem auto-estradas neste país?

Exato. Uma porrada delas e estamos mesmo a ver um caramelo que está há 2 anos numa casa, ali forte e empenhado, provavelmente nos quadros, a largar tudo para ir para um estágio. É o sonho de qualquer pessoa parva. Como se sabe.

 

Desta feita, sem mais delongas, e depois de ler os requisitos, para conseguir este emprego é fundamental ter:

 

A iniciativa, proatividade e inovação de criar um curriculum que mais parece escrito pelo Tolkien. Pura fantasia.

Pesquisar no Google translater as palavras para apresentar o dito em inglês.

Resolver o problema da inexistência de mestrado, decidindo identificar um mestrado no exterior numa universidade que entretanto faliu e que por isso não há certificado a comprovar (tem funcionado muito bem para pessoas em cargos de política).

Ter como principal foco garantir que se consegue ludibriar a pessoa que nos entrevista, à partida será fácil porque a pessoa também foi para ali trabalhar nos mesmos pressupostos: fingiu perceber do que na verdade nunca ouviu falar.

Mostrar que se aprende com facilidade, papagueando pequenas coisas que se leram na internet sobre a empresa.

 

No fim a pessoa é contratada, para ganhar meia dúzia de tostões, dão-lhe mil palmadas nas costas por ter “conseguido aquela oportunidade” de pesquisar a melhor forma de tirar cópias, até ao dia em que chega agosto, quem toma decisões borrifa-se e vai de férias, deixando a pessoa com as decisões de coisas importantes porque quem é bem pago “vai estar incontactável no exterior”, ou numa barragem qualquer a caminho do litoral, mas onde não há rede.

 

Com sorte, se a pessoa for suficientemente tangas e incompetente, receberá uma oferta de emprego e uma retificação salarial. Se for preocupada, ansiosa, zelosa e estiver sempre a ser picuinhas para que as coisas sejam bem feitas, será dispensada após o estágio, porque lhe falta a capacidade de liderança necessária, tem pouco foco nos objetivos da empresa, não encabeça o lema da casa e tem sérios problemas de comunicação, uma vez que incomodou o chefe que estava de férias em Ibiza, com uma cadela fora de série, só porque tinha receio de tomar a decisão errada sobre um processo que estava com ele e a pessoa nunca havia visto na vida.

Devia ter inventado como fez na entrevista.

6 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Visitas

contador de acesso grátis

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sigam-me

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D