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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Seg | 18.02.19

Culpa

Gorda

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Este fim de semana pensei várias vezes nisto e esta manhã, depois de um acesso de culpa que ainda estou a deixar que se dissipe no meu organismo, decidi que, se um dia tiver uma gata, a vou chamar de Culpa.

Já me imagino a gritar por ela "bichaninha, bichaninha, Culpa anda cá comer o teu atum!".

Os gatos detestam-me. Eu gosto deles, mas ao que parece eu sou demasiado efusiva e excessivamente dengosa para os felinos, pelo que em menos de 5 minutos estou a comer com duas lambadas na cara, garras de fora e tudo.

Os gatos são "donos disto tudo", aparentam conjeturar a nossa morte de formas escabrosas e têm o poder de nos vazar uma vista. Escolhem quando querem ser mimados e apoderam-se dos espaços da forma que entendem, demonstrando uma total desconsideração pelo outro.

A culpa é mais ou menos assim, aparece sem razão justificada, cresce de forma nada fundamentada e deixa-se estar ali, a fazer corpo morto em cima do teclado quando temos coisas para fazer.

 

Sempre fui dada a sentir culpa. Acho que se houvesse condenação para crimes mundanos leves eu já estava em perpétua. Culpa por comer demais. Culpa por exercitar de menos. Culpa por não ter estudado o suficiente. Culpa por não ter arriscado naquela oportunidade. Culpa por ter arriscado noutra e não ter visto logo que não ia correr bem. Culpa por ter confiado naquela pessoa. Culpa por não fazer nada este fim de semana. Culpa por estar de rastos e não ter percebido que afinal devia ter ficado a descansar.

Eu já sei que no mundo de hoje a maioria das pessoa vive sobre duas máximas (ou diz viver): "só me arrependo do que não fiz" e "tomei a melhor decisão com a informação que tinha no momento". São frases maravilhosas mas que para mim não servem.

Eu arrependo-me de muita coisa que fiz, é raro o dia em que não me arrependo de qualquer coisa e nem sempre tomo as melhores decisões com a informação que tenho. Porventura não terei força suficiente ao nível do intelecto que me permita ser tão meticulosamente correta e de tão bom senso.

Faço merda. Faço más escolhas. Cometo erros. E mesmo quando assim não é a culpa cai em cima de mim como um martelo.

 

E quando falamos de culpa é inevitável entrar na maternidade. Hoje penso que ser mãe é saber que temos sempre um depósito de culpa atestado. Combustível suficiente para que nos sintamos farrapos em menos de nada e por razão nenhuma.

As dúvidas, as decisões, os arrependimentos pelos gritos, as festas de aniversário a que não os conseguimos levar, o colégio que poderia ser melhor e quadrilingue mas afinal é publico, as roupas, os desentendimentos, os livros, a paciência e a falta dela, os dedos acusadores, as atividades extra-curriculares-extra-sensoriais-ó-desenvolvedoras-de-super-génios (e o meu não vai ser porque não anda em nenhuma), as opiniões não solicitadas que fingimos desconsiderar mas que perduram no fundo da nossa mente com aquele toque de requinte "será? será que fizeste merda?", o não ser quanto-baste para aqueles que, afinal de contas, carregam o nosso coração de forma atabalhoada naquelas mãos pequenas e sapudas.

Porque é isso não é? Ser mãe e parir e minutos depois tirar o coração do peito, coloca-lo nas mãos daquele ser e dizer baixinho para ninguém ouvir "agora não deixes que te aconteça nada pequenito, porque se alguma coisa corre mal, o meu coração cai ao chão e vai quebrar-se em mil pedaços".

 

Se quando era só eu já sentia culpa por tudo e mais alguma coisa, depois de ser mãe a tipa ganhou uma dimensão 3 vezes maior que a minha sombra. E anda sempre atrás de mim, a danada. O miúdo fica doente? O que é que eu podia ter feito para evitar isso? Se calhar não mandei o casaco certo. Se calhar estava uma corrente de ar e eu não vi. Se calhar ele já não estava a 100% e eu não tive a sensibilidade para o perceber. Caiu em casa e bateu com a cabeça? Que raio de organização é que eu arranjei para os móveis? Porque motivo não comprei mobília sem arestas? Aliás porque raio temos mobília? Afinal de contas para além do sofá pouco mais faz falta. O miúdo está a fazer birra no shopping? O que é que eu lhe ensinei mal? Porque raio o trouxe? Devia ter ficado em casa. Vou às compras e não o levo? Que raio de mãe, tão pouco tempo para estar com o meu filho, sempre a queixar-me, sempre condoída com a falta de dedicação que consigo ter e depois o que é que eu faço? Vou às compras em vez de ir com o miúdo ao jardim. Ganhou peso a mais? Que raio de alimentação lhe tenho dado? Chega de douradinhos e chega de conversa de cansaço no fim do dia de trabalho, cansaço é para fracos. Sou fraca, não consigo arranjar forças para cozinhar biológico todos os dias para o meu filho. Perdeu peso? Não tenho insistido o suficiente para que coma melhor, podia emprestar o telemóvel, podia fazer aviões, podia ler 252452 livros de parentalidade positivo-coisas para que ele conseguisse gostar de brócolos. Se calhar não gosta de brócolos porque eu não gosto de brócolos. Janta com o telemóvel? Então e o tempo de família? E as conversas à mesa? E a harmonia familiar?

Como se não bastasse a culpa da mãe, vem a culpa da profissional, que afinal não entregou mais isto e mais aquilo. Vem a culpa da esposa que não é cobrada, mas que sente que na maior parte dos dias é uma sócia e não uma mulher. Tratamos das compras, tratamos do miúdo. Tratamos do trabalho. Tratamos da casa. Desmaiamos.

Depois recomeça.

Culpa por não conseguir levar a cabo outros projectos. Amanhã faço isto, logo faço aquilo, mais tarde, daqui a nada. Nunca.

A culpa de não ser motivo de orgulho para o meu filho.

 

As férias acabaram com o puto cheio de febre na quinta-feira. Ele carregado de tosse. Eu carregada de culpa por o ter levado à neve. Se calhar não lhe devia ter atirado bolas de neve. Se calhar haviamos de ter ficado por casa.

Não dormimos 2 horas seguidas há mais de 5 noites. Nos últimos dias andava a sentir-me mais derreada e pensei que fosse só cansaço, mas não, era uma gripe das boas que se avizinhava.

Desde ontem que estou de rastos e hoje o miúdo foi para os avós, estou incapaz de tomar conta de uma criança de 4 anos. Mal me aguento em pé e tenho dores no corpo todo. Nunca pensei ser possível, mas até as pálpebras estão doridas.

Preparei o miúdo para o avó o vir buscar e estava capaz de me desfazer em choro, a mãe que se deixa ficar doente e não consegue tomar conta do filho. Culpada. Uma mãe insuficiente.

Mandei uma mensagem ao meu chefe, não podia ir trabalhar hoje, estou de rastos. Há trabalho para entregar e coisas que me comprometi fazer hoje. Vão ficar em atraso. Culpada. Uma profissional pouco dotada.

A casa está por arrumar e eu a vaguear pelas assoalhadas sem forças para a limpar. Culpada. Uma dona de casa que fica aquém.

 

Debato-me com estes sentimentos com demasiada frequência e penso o que sentiria a minha mãe que criou 4 filhos, 2 sobrinhas e ajudou com o filho da vizinha. Ela que tinha a casa sempre a brilhar e trabalhava mais de 10 horas em casa. Será que ela sentia culpa? Provavelmente. Será que relativizava? Não sei. Acho que nessa altura as pessoas aceitavam melhor as coisas pelo que elas eram, pensavam menos, ou expressavam menos.

 

Há uns dias davam uma noticia no telejornal que dizia que o sucesso escolar das crianças resulta em grande medida da condição sócio-económica da família e do nível de escolaridade da mãe. Especificamente da mãe. Ou seja o pai até pode ser o Einstein, mas se a mãe tiver a quarta classe a criança muito provavelmente a criança está entregue à ignorância.

A culpa é sempre da mãe não é?

 

Neste momento gostava de enrolar a culpa numa bola bem grande, de a pousar no chão, de dar 3 passos atrás e com toda a força que tenho correr para ela e dar-lhe um chuto como o que o CR7 dá quando marca livres. Mandar a puta para o raio que a parta.

 

(apenas para esclarecimento para o caso de leitura deste texto por pessoas do PAN, o ultimo paragrafo visa a possibilidadade de dar um chuto à culpa enquanto sentimento e não à Culpa enquanto gato, que aqui ninguém faz mal aos bichos)

 

 

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