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Casa da Gorda

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Sab | 06.04.19

Curriculum Vitae

Gorda

 

 

Se eu fosse uma pessoa brilhante não me sentia compelida a falar de mim. Encontrava temas banais e faria com que parecessem matérias de essência fundamental à tolerância da vida quotidiana. Escusando-me assim a falar da pessoa mais desinteressante que conheço: eu.

Se eu fosse uma pessoa isenta de vaidade não me punha a falar de mim. Mas o egocentrismo que não admito de forma transparente obriga-me a faze-lo.

Se eu fosse uma pessoa criativa não lucrava de ideias alheias, ajustadas a meu gosto para parecer que penso fora da caixa.

Antes de pensar em criar um blogue não há nada como coscuvilhar outros, sim coscuvilhar, porque se fosse ler apenas, visitar, não seria com a intenção de perceber como o fazem. Eu leio porque gosto, mas aproveito para perceber como se faz. Não raras vezes encontro um botãozinho que diz "sobre mim" ou "sobre o autor" ou algo similar. A pessoa que escreve quer que saibamos que está a falar-nos dela, como se os demais textos não fossem, na realidade, também sobre si. Afinal de contas são as suas ideias, as suas opiniões, os seus raciocínios. São um "sobre mim" que é mais um "sobre mim que pensa sobre determinado tema" mas que não está escarrapachado de que fala sobre si. Apresenta-se como uma lista de características da pessoa que detém as opiniões que divulga com determinada periodicidade, só mesmo para que quem lê saiba mais ou menos com quem está a lidar.

Não sei se me parece uma excelente ideia, tenho argumentos contra e argumentos a favor. Na dúvida decidi fazer parecido.

Mas eu não gosto muito de falar "sobre mim" e andei para trás e para a frente sobre como deixar aqui umas noções de apresentação que tivessem um cunho, quiça, mais profissional.

Deparei-me então com a crónica de Ricardo Araújo Pereira "Curriculum Vitae" e pensei, é isto, o que é preciso é de um curriculum no blogue. Uma lista de características e formações adquiridas por experiência de vida ou por imposição inata, que fazem com que a personagem que escreve tenha um determinado valor para ela própria. Uma vez que a sociedade não tem a menor noção da sua existência.

 

Desta feita decidi criar o meu Curriculum Vitae, que contem desde já uma lista de informações atuais, respeitantes a competências presentes e passadas, o qual, com o tempo, se espera que seja enriquecido.

 

Começamos?

1. Gosto que a colher que uso para mexer o galão tenha um tamanho adequado para o copo que me foi disponibilizado. Detesto quando tenho de usar uma colher de sopa.

 

2. Sinto-me frequentemente empobrecida de mente quando leio grandes autores. Canso-me a pensar como terão conseguido aquilo. Detenho-me na minha insignificante estupidez e lamento apenas ser espetadora dos grandes. Invejas.

 

3. Tenho como principal defeito a inveja. Invejo os corpos esculturais das musas do cinema, invejo a riqueza fácil de quem já nasce herdeiro, invejo a inteligência de quem nasce mais dotado cognitivamente do que eu, invejo quem tem a sorte de estar no sítio certo à hora certa. Parece ser o momento para o qual chego sempre atrasada.

 

4. Começo projetos e muitas vezes não os acabo. Não só por preguiça e falta de tempo, mas porque receio dar-me a uma imensa trabalheira para resulta em "nada de jeito".

 

5. Uma vez disseram-me que, se eu queria aprender a escrever melhor com menos palavras deveria ler a história de 6 palavras que Hemingway - alegadamente - terá escrito. Procurei e, após muito ponderar, apenas me ocorreu que podia ser uma frase retirada do OLX, respeitante a uma mãe que procurava vender os sapatos que ofereceram ao filho e nunca lhe serviram.

 

6. Ao contrário da maior parte das pessoas do planeta, que se irrita ainda mais quando os outros lhes dizem "tem calma", eu compadeço-me da posição dos outros. A menos que o "outro" seja o meu marido. Aí passo-me mesmo dos carretos.

 

7. Não tenho grande apreço por fotografia. Desagrada-me o uso de filtros porque são um embuste de imagem. Significa que o sítio que estamos a ver, na verdade, não existe no planeta terra e que eu, caso lá vá, só vou sentir desgosto porque não encontro o que estava à espera. É o mesmo que prometer a uma criança uma nave pelo Natal e, apenas nessa altura, o petiz perceber que afinal não cabe lá dentro e que nunca irá ao espaço naquilo.

 

8. Gosto de ver fotografias antigas de casamentos. Não porque seja romântica, mas porque há pouca coisa mais cómica do que as indumentárias dos anos 90 em casamentos, com as mises e os cabelos cheios de laca. A noiva rigidamente quase deitada na cama, numa pose que tem tudo menos sensualidade. Ou o noivo que ajeita a gravata ao espelho mas que não está a olhar para o que está a fazer. Ou a prima Lurdes que veio lá da aldeia com um vestido de lantejoulas douradas, justo, que deixa transparecer todo o perímetro abdominal excessivo.

 

9. Escrevo com o coração na ponta dos dedos, e isso é mau. As piores decisões que se podem tomar são aquelas dotadas de pouco raciocínio, com uma componente emocional exacerbada em que nem metade dos ângulos é usado para ponderar. 

 

10. Sou preguiçosa que chegue para falar da preguiça que tenho para completar estes 10 pontos.

 

 

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