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Casa da Gorda

Casa da Gorda

27
Nov18

Custódia de Neve

Gorda

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Era uma vez uma miúda que ficou órfã de mãe. O pai casou com uma gaja boa, que gastava o guito todo do cota em cremes caros para as rugas. A vaca da madrasta passava o dia todo a perguntar a um espelho especial que tinha comprado em Nova York (uma coisa finória, de marca, custou para cima de uma porrada de dinheiro) se havia alguma gaja com mais seguidores que ela nas redes sociais. O espelho dizia que não, mas que ela tinha de ter cuidado com a enteada, porque a miúda estava a dar forte nas fotos sensuais e por isso estava a ganhar bué atenção.

Então a madrasta, passada dos cornos, mandou cortar os dados da enteada, mudou a password de acesso à net do palácio e sacou o I-Phone à gaiata.

A Custódia, que tinha lido um livro do Gustavo, sabia que a madrasta era uma puta de merda e que podia valer-se a si própria porque se amava a rodos. Era ofuscante o auto-amor que ela tinha dentro dela por ela mesma (porra, até me ficou a doer a cabeça depois desta frase).

Determinada, seguiu pela mata porque não era a hipótese de ser apanhada por um violador que a assustava, afinal de contas não ia ser um gajo marado da mona que a ia impedir de seguir a vida que ela queria.

Pelo caminho encontrou um tipo que era um regalo, andava aos coelhos e, quando viu a Custódia, ficou tão encantado que se ofereceu para ir gamar o I-Phone à madrasta para que a Custódia voltasse a ter net.

O nome original da Custódia era Branca de Neve, mas ela percebeu que isso não estava certo porque não era inclusivo. Era bué errado trata-la por uma cor, afinal de contas a cor não interessa. A menos que a pessoa seja daltónica. Nesse caso é uma merda porque a pessoa nunca sabe quando é que o semáforo fica verde.

A Custódia ficou rodos de ofendida com o caçador, porque não queria que um gajo fizesse nada por ela, se era para gamar, gamava ela.

Enquanto caminhavam lado a lado pela mata, a Custódia moeu a cabeça ao caçador de tal forma que o gajo já não conseguia levar com ela. Afinal de contas assim que ela percebeu que ele andava aos coelhos, tentou dar-lhe uma lavagem ao cérebro, porque ela era vegan e os coelhos tinham sentimentos e a pirâmide alimentar não passava de um embuste das grandes empresas que nos querem é meter produtos goela abaixo.

 

Sozinha pela mata a Custódia foi dar com uma casa pequena. Primeiro ficou fodida porque aquilo era zona protegida e para haver ali uma construção é porque alguém pagou luvas aos tipos da câmara.

"Os políticos são todos uns corruptos", pensou.

Entrou na casa - que tinha a porta aberta - e viu bué camas e tudo desarrumado.

Ocorreu-lhe que podiam estar ali escondidos refugiados e decidiu limpar. Afinal de contas dá sempre muitos likes ter uma causa.

Por momentos hesitou, pensou se valeria mesmo a pena, porque não tinha o telemóvel e dessa forma não podia registar o momento, e toda a gente sabe que, se não se mostrar na net, é porque não aconteceu. Mas ocorreu-lhe que um dos refugiados podia ter net e se lhe emprestasse o telemóvel ela podia publicar qualquer coisa na conta dela.

Limpou tudo e ficou tão cansada que acabou por se encostar numa das camas. Sentiu algum nojo, porque podia haver percevejos, mas estava tão fatigada que não aguentou.

Quando acordou viu que estavam sete anões à volta dela:

- Vocês são refugiados? - perguntou.

- Não, somos anões e trabalhamos na estiva.

- Então vocês são é uns porcos do caralho! Eu andei a limpar esta merda toda porque pensei que era por uma causa!

Um dos anões, que era um gajo com pensamento disruptivo, lembrou-se que podiam fazer de conta que eram refugiados. Como o Rezingão tinha dados no telemóvel emprestou-o à Custódia e ela tirou umas fotos e publicou. Teve para cima de dez mil likes e ganhou mais uns mil seguidores.

A Custódia gostou tanto de conhecer os anões que acabou por ficar lá por casa. O Rezingão tinha ideias bué bacanas e ajudava a Custódia a gerir as suas redes sociais, tendo-lhe dado imensas dicas para se tornar uma influencer das grandes.

 

Um dia foram a um mercado biológico e a Custódia aceitou provar um iogurte sem lactose, mas como aquilo já estava fora do frigorífico há muito tempo deu-lhe uma valente caganeira, de tal maneira que ela ficou mesmo mal e teve de ficar uns dias deitada. Nisto apareceu um gajo lindo que era o CEO da empresa que estava a vender os iogurtes. Assegurou à Custódia que as vacas que davam o leite já sem lactose eram felizes para caraças e lamentou o sucedido. Numa faisca de curto circuito que pode limpar o sarampo a qualquer um por via de fritura do miolo, o CEO acabou por se apaixonar loucamente pela Custódia. Ela também se sentia atraída por ele.

A determinada altura o CEO espetou com uma beijufa valente na Custódia e ela, que ainda não tinha recuperado da gastro, vomitou-se toda. Depois disse-lhe:

- Tu és bué lindo, mas és estúpido que nem uma porta, porque agora também te vais andar a borrar todo, esta merda da gastro é viral."

Passaram os dias que se seguiram juntos, em partilha de vírus e de latrina.

A Custódia explicou ao CEO que não dependia dele, que era uma gaja independente e que ele não se devia voltar a atrever a beija-la sem que ela dissesse expressamente: "espeta-me com um valente, meu garanhão".

Viveram em consentimento e respeito económico até que o CEO ficou com Alzheimer e a Custódia teve de o pôr num estabelecimento especializado. A vida continuou e a Custódia inscreveu-se na Universidade Sénior, onde voltou a encontrar o caçador e mais uma vez constatou que ele era um filho da puta de um carnívoro.

Fim.

 

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Ao que parece há muitas mães a proibir as filhas pequenas de ver filmes de princesas, porque as subjuga aos homens e as faz parecer frágeis e dependentes. Eu não sei de onde vem esta ideia e acho que estão a dar pontapés na fantasia. Deixem as crianças sonhar, por favor. Elas vão aprender mais tarde que não vão ser princesas e que não há príncipes. Quando chegarem aos 40, vão conformar-se com o facto de validarem facturas para ganhar o ordenado.

De maneira que, com vista a ajudar a Disney decidi reescrever a história da "Branca de Neve" que no século XXI se chama "Custódia de Neve". É um conto adaptado aos dias de hoje que rasga com todos os conceitos, incluindo o de bom senso.

 

(nota: nada tenho contra carnívoros, vegans, vegetarianos, omnívoros, frutívoros, daltónicos, entre outros; apenas detesto pessoas que me moem a cabeça, de resto sou amiga de toda a gente)

 

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