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Casa da Gorda

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Ter | 21.05.19

Dança Javardona - Episódio 1

Gorda

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O paizinho ganhou gosto pelos resorts com tudo incluído. Gosta de se sentar à beira da piscina com o copo sempre cheio de bebidas coloridas, adora enfardar seis sandes mistas ao lanche e poder mamar para cima de dois pratos a transbordar de comidas variadas no buffet das refeições principais. O pai é empreiteiro da construção civil, muito respeitado entre os seus pares e aprecia gozar quinze dias de verdadeiro lazer num sítio onde a minha mãe não tenha de fazer as refeições todos os dias. Até porque a minha mãe cozinha mal como a merda e pelo menos quando está a trabalhar sempre almoça em condições porque come fora. Ao jantar há muita fome que se suplanta à força de bolachas de manteiga para acompanhar o café.

A maioria das minhas amigas faz pouco de mim, acham que já não tenho idade para ir de férias com os meus pais e a minha irmã mais velha, que leva sempre com ela o Alfredo Escaramuço, o namorado que a minha família aprova. De acordo com o meu pai, burra como a minha irmã é, temos de convencer este desgraçado a gostar de nós e que casar com a Vanessa Alexandra é a melhor coisa que lhe pode acontecer. Será certamente boa mãe e uma esposa dedicada, desde que o pobre coitado não queira que ela diga alguma coisa inteligente. Nunca conseguiu acabar o 12º ano, nem mesmo pela via profissional. Tentou um curso de cabeleireira, mas deixou uma velhota careca e anda lá para casa, a pesar na carteira dos meus pais, incapaz de manter um emprego. A última vez que trabalhou foi numa loja de calçado barato, contava às clientes todos os defeitos que os sapatos tinham e em resultado disso ninguém comprava nada. Conheceu o Alfredo Escaramuço numa festa da escola profissional, futuras cabeleireiras e futuros produtores de mirtilos biológicos juntaram-se na mesma patuscada. A Vanessa não ia acabar o curso, mas era sempre convidada para a estroinice. Nessa noite o Alfredo convenceu-a que conseguia encontrar-lhe mirtilos na piriquita e dois meses mais tarde ela disse-lhe que estava grávida porque tinha sentido o bebé dar um pontapé. Afinal não havia criança nenhuma, a minha mãe tinha feito dobrada dois dias antes e a Vanessa tinha comido demais. Mas por essa altura já era tarde, as famílias já se conheciam e o noivado já se apalavrara. Foi numa consulta de obstetrícia que se descobriu um ventre vazio. Só nesse momento é que o Alfredo percebeu que tinha sido enganado por uma burra:

- Mas o teste tinha dado positivo certo? Essas coisas devem ter uma grande margem de erro.

- Qual teste? – retorquiu a Vanessa – eu percebi que estava grávida porque ouvi o meu corpo.

O Alfredo conteve o ímpeto de se lançar para debaixo de um autocarro em alta velocidade e decidiu manter a farsa. Afinal de contas até não era um mau casamento, os meus pais estavam desejosos para a filha casasse e estavam dispostos a investir no desgraçado que a levasse lá de casa, pelo que estava ali um bom patrocínio para o seu futuro negócio de compotas de mirtilos biológicos.

 

Fazer o check in no hotel era sempre a parte mais embaraçosa, o meu pai recusava-se a ir para o estrangeiro, porque considerava que não valia a pena ir para fora, andar horas de avião, quando tínhamos bons hotéis aqui no Algarve. O mal é que no estrangeiro ninguém perceberia o que a minha família diz e aqui, em território nacional, as coisas são diferentes. O meu pai, envergando a sua t-shirt de palmeiras dois números abaixo, que lhe deixa o baixo ventre de fora, encostava-se ao balcão e queria saber tudo a que tinha direito e as horas a que podia ser consumido. A minha mãe queria saber que aulas havia na piscina. A minha irmã e o camafeu do Alfredo envolviam-se em beijos melosos que os meus pais fingiam não ver. Eu encostei-me a um pilar à espera do dia em que ia poder viajar sem a minha família.

Estava focada no horizonte quando vi passar um homem de estatura média, com cabelo despenteado e um bigode à Fernando Pessoa, como agora está na moda. Estava em excelente forma e preparava-se para dar uma aula do que parecia ser hidroginástica. Observei-o a rodar as ancas enquanto insistia que uma velhota passasse um pau de esponja por baixo dos joelhos. A velha bateu de focinho na água e percebemos que podia apagar-se ali.

Ele gritou: Follow da líder, líder, follow da líder! Ninguém dispersa, se a velha ficar é porque Deus chamou. Temos de ser fortes!

E a velhota voltou ao de cima num sorriso que seria feliz se não tivesse deixado cair a placa no fundo da piscina.

 

Os senhores do hotel colocaram-nos as pulseiras vermelhas e cada um rumou ao seu quarto. Eu ficava com a Vanessa (porque os meus pais ainda fingiam que ela e o Alfredo não pinavam), os meus pais tinham um quarto para eles e o Alfredo ficava descansado sozinho enquanto eu aturava o ressonar da minha irmã toda a noite. Ainda hoje parece uma hipopótama a ver um espetáculo de pinguins malabaristas.

Os meus pais usufruíam de tudo o que o hotel lhes colocava ao dispor e isso queria dizer que tinham de ir ver todos os espetáculos de final de dia; enquanto a minha mãe provava acepipes, o meu pai virava copos de whiskey e bagaceira até ter a perceção de que estava a ver dois espetáculos iguais. Em simultâneo. A minha virginal irmã e o meu trambolho futuro cunhado desapareciam e eu sabia que iam para o quarto dele andar às cambalhotas. Quando os velhos perguntavam eu dizia que tinham ido ver as estrelas.

Sempre fui demasiado certinha para gostar de beber ou de festas à noite, dediquei-me sempre aos estudos, queria ser historiadora, trabalhar num museu e quem sabe dirigir uma biblioteca. Nunca tinha conhecido nenhum homem que me causasse boa impressão ou que me fizessem sentir especial. Estava cansada de ter o meu futuro-otário-cunhado a tentar impingir-me ao irmão dele. Tudo para meter as mãos ao dinheiro do meu pai.

Foi nesse momento que alguém anunciou o próximo espetáculo. Eram sempre iguais, malabarismos com pratos, danças chinesas com algarvios de olhos pintados, espetáculos de magia que só surpreendiam os espetadores embriagados e o ocasional espetáculo de humor que era um relatar de anedotas alentejanas. Uma maravilha para os estrangeiros que não percebiam uma porra e bebiam cada vez mais. Uma vez houve um pretenso mágico que levou uma galinha, a bicha pôs um ovo e toda a gente ficou espantadíssima, bateram palmas fervorosamente. A razão para tamanho espanto é algo que nunca entendi.

- Senhoras e senhores, este ano temos uma novidade para todos, Isaltino “Patrick de Lagos” apresenta “Zumba das Cegas”.

Foi aí que o vi entrar e palco, sorriso branco, com todos os dentes, corpo trabalhado e depilado, cabelo selvagem e bigode farto. Imaginei aquele bigode a subir-me o abdómen e tremi. Será que tinha piolhos? Será que podia apanhar piolhos? Será que o penteava com uma escova especial?

Com ele estavam duas bailarinas de corpo escultural, uma delas com mamas de silicone, só podiam ser. Todos vestidos de roupa justa de licra. O Isaltino barrado em óleo e coberto de purpurinas douradas.

Nunca tinha visto um homem assim, talvez porque não fosse comum haver gente barrada em óleos nos campos da faculdade.

A primeira dança terminou e logo a seguir veio mais uma música ritmada, saltaram os três para fora do palco e começaram a tirar pessoas dos seus lugares para que participassem na coreografia. O Isaltino esfregava as partes baixas nas mulheres e sorria-lhes. Uma velha pôs-lhe uma nota nos calções. Chegou perto e mim e houve alguma coisa que o fez parar. Olhou-me nos olhos como que a pedir licença (algo que agradaria às Capazes), eu acenei de leve que sim e ele pegou-me pela cintura, esfregou o volume dele no meu pacote e eu senti-me a perder as forças nas pernas. Estava a passar-lhe a mão pelo dorso quando ouço a voz da minha mãe:

- LARGA A MINHA FILHA! Estás cheio de merdas brilhantes e quem lava a roupa sou eu. Como é que eu vou lavar o filho da puta do vestido branco agora. Olha para esta merda! Nem com Skip eu safo isto. Vou ter de meter isso em vinagre de limpeza.

A minha mãe é uma mulher com um léxico vasto ao nível do vernáculo e é doente com as limpezas. Nessa noite eu levava um vestido branco, estava imaculado até o Isaltino me agarrar. Quando me vi ao espelho parecia que tinha mijado dourado, porque tinha uma mancha de gordura tremendamente brilhante mesmo à frente do meu pipi.

 

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

Podem ler o episódio 4 aqui.

 

 

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