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Casa da Gorda

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Qua | 22.05.19

Dança Javardona - Episódio 2

Gorda

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Tive insónias toda a noite. Não sabia ao certo se era o cheiro do óleo a fritos que tinha ficado barrado no meu vestido, se a mistura com o vinagre de limpeza que a minha mãe lá esfregou. A minha mãe é uma mulher que não confia em produtos de outra localidade que não seja a Amareleja, onde vivemos. Leva sempre um carregamento de produtos para desinfetar o quarto e as casas de banho antes que as possamos usar. Um ano, não sei se em resultado de alguma coisa estragada se por excesso de exposição solar, tive uma disenteria. A minha mãe insistiu que tinha de lavar a sanita antes com Sanasol verde. Borrei-me toda e tive de esperar três quartos de hora para me limpar.

A Alexandra ressonava como uma porca e os meus pais estavam eufóricos a ver a repetição do festival da Eurovisão. A minha mãe torcia pela música da Austrália, porque como ela própria dizia:

- Aquele sempre foi o país mais lindo da Europa. Até cangurus para lá há!

Assim que o sol nasceu saí da cama. Não tinha pregado olho e era cedo demais para ir tomar o pequeno-almoço. Quando olhei para a cama do lado vi a minha irmã com a cabeça pendida e babar-se para o chão. Uma imagem dantesca.

Não há-de o parolo querer dormir no quarto ao lado. Pensei com os meus botões enquanto me vestia.

Decidi que ia dar uma volta por Albufeira, passear-me pelas ruas pitorescas, apanhar algum ar e estar a sós com os meus pensamentos. Ainda soprava uma brisa e por isso estava bastante agradável para fazer o caminho até à praia.

Enquanto caminhava não pude deixar de reparar o quão bonita era aquela ruela, como estava limpa e a sorte que a minha irmã tinha em ter encontrado alguém para ela. Confundia-me como é que aquela panhonha tinha arranjado um namorado e eu, que até estava no ensino superior não conseguia ninguém. Sempre percebi que a minha irmã era mais agradável à vista que eu e que sempre pareci pouco desenvolvida, mas também podia ser uma mulher sensual se quisesse.

Não sei se foi o som característico de esborrachar uma coisa mole se foi o cheiro que me fez perceber que tinha acabado de pisar merda. Um monte de bosta que podia ter sido de um dinossauro mas era apenas do labrador que seguia com o jagunço do dono vinte metros à frente. O cabrão não tinha sacos e eu estava agora a braços com uma poia gigante atracada ao meu pé. Os meus ténis brancos de sola rasa, feitos de tecido, daqueles que uma pessoa usa sem atacadores, ficaram envoltos em estrume de cão. Eu, que estava toda vestida de branco, agora tinha um apêndice castanho no pé. Esfreguei-me nas ervas e encontrei um pauzinho para limpar aquilo.

Foi quando estava recostada num candeeiro de rua a limpar o pé com uma pequena cana que encontrei, que eu ouvi uma mulher a chorar. Quando levantei os olhos percebi que era uma das bailarinas do Isaltino. Borrifei-me no pé e dei mais alguns passos para tentar ouvir a conversa.

- Olha para esta parede Isaltino! Está toda torta e ficou com dois buracos. Porque raio me fui meter com um trolha que encontrei no OLX?

- Eu avisei-te que ele não prestava, a gente via pelas mãos sem calos que o gajo não podia ser um profissional.

- Deixou-me a parede toda feita num oito e levou-me o dinheiro que eu tinha, como é que eu agora vou conseguir arranjar a parede. Como, se eu não tenho mais dinheiro? Como é que eu vou pendurar o poster assinado da Ana Malhoa numa parede assim?

- Tem calma, havemos de arranjar alguma solução.

Quando dei por mim estava demasiado chegada à porta e o Isaltino percebeu que eu ali estava.

- Espera, temos companhia. - disse para a bailarina.

Veio ter à porta, abriu-a de forma rápida e disse-me:

- Que fazes aqui miúda, não devias estar com os teus papás a gozar do tudo incluído, enquanto comem acepipes à beira da piscina.

- Não, o buffet só abre às nove e ainda são sete. Acordei cedo.

- Então o que fazes por aqui?

- A minha irmã ressona e eu não conseguia dormir mais. Vim dar um passeio, mas, entretanto, pisei merda e quando me estava a limpar ouvi alguém chorar.

- Estavas a escutar a nossa conversa?

- Sim, pensei que estavam a discutir e isso é sempre divertido de ver, é tipo um reality show mas ao vivo. Entretanto percebi que têm aqui um problema de paredes. Parece-me humidade.

- Que é que percebes disso?

- O meu pai é construtor e eu vou com ele às obras de vez em quando.

- Nós não queremos favores de filhinhas de construtores privilegiadas – arremessou a bailarina lá de trás.

- Tem calma Lurdes – disse o Isaltino – se a menina puder ajudar não temos porque recusar. O que propões?

- Eu consigo o dinheiro para contratarem outro profissional e vocês ensinam-me a dançar. É como se estivesse a pagar aulas.

- Parece-me uma boa ideia. Nós conseguimos fazer isso.

O Isaltino percorria a entrada da casa envergando uma camisola branca de cavas que tinha nódoas vermelhas. Certamente tinha jantado bolonhesa. As calças pretas eram justas e os suspensórios pendiam ao lado do corpo.

- Como te chamas miúda?

- Bernardete, mas a minha família chama-me de Bebé.

- Bebé? – disse o Isaltino num sorriso sarcástico que me desagradou.

- Sim. Todos temos alcunhas em casa.

- A da tua irmã qual é?

- Burra. Porque ela é mesmo.

 

Ficou combinado que eu iria arranjar os duzentos euros necessários para concertar a parede e erguer o poster da Ana Malhoa para que a Lurdes pudesse finalmente construir o mini templo do pimba-latino-coisas.

 

Fui ter com o meu pai nessa tarde, ele estava à beira da piscina e eu só esperei pela sexta bebida colorida; normalmente a seguir à quinta ele tornava-se muito mais recetivo e era muito provável que aceitasse dar-me o dinheiro sem fazer perguntas desde que eu lhe levasse um pires com pequenos folhados de salsicha.

Assim fiz.

Expliquei-lhe que queria comprar aulas de dança, que gostava de me inscrever no clube de zumba das tunas e que com isso ia ter desconto nas propinas. Contei-lhe o quão triste andava por ver a Vanessa sempre com o namorado e eu não tinha ninguém com que me entreter.

- Então e quem é que te vai dar as aulas?

Apontei para o Isaltino que estava nesse momento a forçar uma velha a fazer um mergulho de cabeça, mesmo depois de ela lhe ter dito que não sabia nadar. Foram precisos apenas segundos para eu confirmar que era a mesma velha do dia anterior. Acho que a frase motivadora dele terminou com a minha duvida:

- Atire-se senhora, pode ser que encontre a placa.

O meu pai parou a olhar para ele vários minutos sem dizer nada, estava com um ar desconfiado e pensativo, algo muito pouco característico no meu pai. Por regra era homem para gastar tempo com tudo, menos em pensamentos e racionalizações.

- Aquele não é o dançarinho que se esfregou em ti?

- É, mas ele fez isso com toda a gente.

- Eu sei, não estava à espera que o gajo te saltasse para a espinha, filha. Há um motivo para que eu ande a gastar uma fortuna com a faculdade ou lá o que é aquilo para que tu vais com papeis todos os dias. Tu, ao contrário da tua irmã, dificilmente deixarás um gajo contente por te ver, de maneira que mais vale apostar na escola. De qualquer forma duvido muito que aquele goste de passarinha. Dá-me a ideia, pelos calções e os brilhantes, que ele é mais piriquito.

Disse-me para retirar o dinheiro do rolo de notas que ele tinha nos calções tropicais e que trouxesse mais um pires de folhados ao paizinho.

Nessa noite apareci nas traseiras do salão de espetáculos, como combinado, entreguei o dinheiro e combinámos que as aulas começariam no dia seguinte à beira da praia. Tinha de levar um balde de criança.

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

 

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