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Casa da Gorda

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Qui | 23.05.19

Dança Javardona - Episódio 3

Gorda

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Cheguei à praia quando o sol estava a nascer, não havia turistas nem a confusão normal dos dias de agosto numa pequena praia de Albufeira. Sentei-me na areia com o balde de brincar e uma pá que roubei a um dos miúdos que estava na piscina das crianças. A zona da piscina para crianças é sempre um imbróglio, dois adultos por cada criança, ali em cima do rebento como se os filhos dos outros fossem terroristas. Fazem-se amigáveis quando na verdade só esperam o momento certo para dizer que alguém fanou a pazinha do Luizinho. Como os pais desconfiam sempre das outras crianças foi fácil e emocionante para mim desaparecer com os dois objetos que precisava.

Estava perdida nos meus pensamentos quando ouvi passos atrás de mim, era o Isaltino. Trazia vestida uma sunga com pequenos flamingos desenhados e uma t-shirt que parecia de mulher. Aparentava não ter lavado a cara porque tinha ramelas nos olhos e um fio de baba do lado direito da boca.

- Bom dia. – disse-lhe eu ao levantar-me de um salto.

- Só se for para ti. É cedo para caralho mas temos de andar com isto. Estás pronta para começar?

- Sim claro!

- Estudas?

- Sim.

- O quê?

- Direito. Eu gostava muito de ser historiadora, mas o papá diz que é melhor eu tirar um curso de direito porque tem mais empregabilidade e assim posso trabalhar para ele com vista a representa-lo em quaisquer processos…

- Caguei. Desculpa interromper, mas estava só a querer ser educado e tu agora estás a mamar-me a cabeça. Vamos começar.

- Está bem.

O Isaltino explicou-me como seria a minha primeira aula de treino. Tinha de construir vinte castelos de areia com aquele balde e depois tinha de dar graxa às rochas que estavam à beira de água.

- Wax on, wax off percebes?

- Percebo, mas isso é do karate kid que é a história de um miúdo que vai participar num torneio de karaté contra uns chavalos maus que hoje seriam definitivamente considerados bullys e depois ele ganha no fim com uma perna…

- Cala-te. Porra que tu falas que se farta. Nestes cinco minutos fiquei com uma otite só de te estar a escutar. Presta atenção, vais dar graxa às rochas e quando estiverem prontas sentas-te aqui que eu venho cá ter.

- Mas eu pensava que íamos andar a treinar o equilíbrio em cima de um tronco estrategicamente colocado por cima de um pequeno riacho, para que eu depois caísse sem querer lá dentro e tu andasses comigo ao colo.

- Isso é na versão dos anos oitenta. Aqui vais dar graxa às rochas que eu depois apareço. Nem penses que no fim disto vou andar com o teu lombo desequilibrado ao colo.

Passei as três horas seguintes a cumprir todas as tarefas, o que foi bastante difícil porque, entretanto, começaram a chegar alguns turistas e os cabrões dos putos que traziam com eles fizeram questão de pisar a maior parte dos meus castelos.

Eram onze da manhã quando o Isaltino apareceu na praia, estava vestido com calções de praia e uma t-shirt justa, cheirava a suor e estava ainda a beber o seu café.

Parou mesmo na entrada da praia, baixou os óculos e começo a dar gargalhadas; fui ter com ele, não estava a compreender o que o poderia estar a animar daquela maneira, mas estava certa de que seria um sinal de que eu tinha cumprido a minha parte do treino.

- Foda-se, tu tiveste mesmo a dar graxa às rochas.

- Sim, foi o que me mandaste fazer.

- Estava a tentar medir o teu nível de burrice, já vi que é elevado. Agora vou sentar-me aqui a beber o meu café enquanto curto as quedas dos camones que vão tirar selfies para cima dos pedregulhos. O INEM hoje não vai parar.

- Mas afinal estás a fazer pouco de mim?! É isso? Estive a manhã inteira a tentar fazer o que me pediste, quase dei uma lambada num puto que desfez metade dos castelos e tu agora estas a gozar!

Ele olhou para mim com um sorriso sensual, mirou-me como ainda não me tinha micado antes, fez-me vibrar e ficar dividida: deveria ou não chatear-me com ele. Queria tanto que me tocasse.

- Dançar é como viver, muitas vezes as pessoas pedem coisas que não querem e nós temos de manter um sorriso. Dançar é felicidade e tristeza, tudo ao mesmo tempo.

- Essa frase é linda.

- Eu sei.

- É tua?

- Não. Infelizmente. De acordo com o Facebook foi Niltché que disse, era uma espécie de buda do Tibete, mas menos gordo; um gajo culto que sabia das coisas. Agora pega neste saco e vai para a beira mar apanhar cadelinhas, não voltes ao hotel sem que o saco esteja cheio.

Passou-me um saco de plástico para as mãos, filmou mais dois franceses a cair nas rochas e virou costas satisfeito porque aquilo lhe iria render muitas visualizações no canal de Youtube dele o “Abanating with Patrick de Lagos”.

Eu fui apanhar cadelinhas. Quando acabei tinha uma dor terrível nos rins e foi muito difícil voltar à minha posição vertical.

 

Quando encontrei o Isaltino à porta do hotel para lhe entregar o saco com cadelinhas ele tinha acabado de dar uma aula de hidroginástica ao mulherio que ficava louco com ele. Todas as mulheres menos a minha mãe, que o tinha marcado de ponta desde que ele tinha manchado o meu vestido. Passou por nós e, apontado de forma acusadora para ele, disse:

- O vestido ainda está todo borrado, se aquilo não sair até ao final das férias afogo-te meu cão badalhoco.

Ele sorriu e fez uma piada a dizer que a minha mãe o adorava e ainda há dez minutos a tinha estado a papar na despensa, ao pé dos detergentes de casa de banho.

Isso era impossível porque a minha mãe adorava o meu pai. A única pessoa que ela prezava mais do que o seu querido marido era o vizinho do quarto esquerdo que dava aulas de dança erótica no lar de terceira idade.

- E agora o que é que fazemos com as cadelinhas? – perguntei eu.

- Nós nada. Eu vou cozinha-las à bulhão pato. Só me falta gamar um molho de coentros à dona Cesária. Tu vais almoçar com os papás ao buffet, depois vais ter comigo à casa da Lurdes que hoje temos um espetáculo à tarde.

O Isaltino não quis desculpas nem mais conversas, eu tinha de praticar e para isso tinha de fazer aulas de zumba, de outra forma nunca estaria preparada para o espetáculo final no sábado à noite.

 

Cheguei à casa da Lurdes eram duas em ponto, estava particularmente inchada porque quando fico nervosa como muito e por isso enfardei dois pratos de mistos de queijo, paelha, bifes grelhados, batatas fritas e um prato de diâmetro considerável com um pedaço de todas as sobremesas possíveis.

Vestiram-me com uns calções e um top de lantejoulas douradas e o Isaltino quis barrar-me com óleo de amendoim. Porque é paleo e muito mais saudável do que aqueles óleos reles de fritar. Eu estava empolgada e muito nervosa pela minha falta de preparação.

Fomos de bicicleta até ao nosso destino e para meu espanto parámos em frente a um lar de terceira idade, que eu estou bastante certa que não tinha alvará para ter atividade aberta. Na sala estavam velhotes meio acamados ou adormecidos e apenas um batia palmas antes mesmo de termos começado o espetáculo. Tinha Alzheimer e não fazia ideia do que estava ali a fazer.

A música tocou e eu não conhecia a rotina, entrei em pânico e tentei agarrar-me ao Isaltino, mas ele estava escorregadio demais para que eu conseguisse firmar as minhas mãos nos seus braços musculados.

- O que é que queres Bebé? Abana-te, os velhotes nem dão conta, só veem as luzes a dar a dar.

Sacodi-me o melhor que pude e no fim o velhote do Alzheimer veio pôr-me uma nota de cinquenta euros nos calções. À saída o Isaltino explicou-me que o senhor Alfredo tinha sido proprietário de um bar de strip e alterne no seu tempo, desde que tinha apanhado alzheimer passou a acreditar que estava sempre no seu bar e quando via mulheres com roupas brilhantes achava que eram as suas funcionárias.

Tive de dividir os cinquenta euros com o Isaltino.

 

Encostámos as bicicletas numa casa que ficava duas portas ao lado da casa da Lurdes.

- Eu moro aqui. Queres entrar e ouvir uns ritmos zumba?

- Quero.

Quando entrei vi que todo o quarto do Isaltino estava coberto de posters de danças latinas, discos de vinil por todo o lado, roupa de dança emoldurada.

- Dançavas a sério?

- Sim, dançava. Fui o campeão de Lagos e tinha um futuro promissor, depois um dia tive um acidente grave e parti duas vértebras.

- A sério?! Pobre de ti.

- Sim, ia de bicicleta para um ensaio e pisei uma puta de uma casca de banana; como os pneus da bina já estavam meio carecas derraparam e eu caí de uma ribanceira. Depois de curarem as duas vértebras descobri que tinha uma hérnia discal e propensão para bicos de papagaio. Pelo que tive de pôr no armário os sapatos de verniz.

 

O Isaltino pôs a rodar um disco de vinil, Roberto Carlos, conhecia bem a música porque a minha mãe era fã; até já tinha ido encomendado do Brasil uma fotografia tirada ao rei na varanda da casa dele. O Isaltino tirou a camisa e perguntou-me se eu queria dançar. Confirmei que sim com um aceno leve de cabeça e um par de olhos que talvez estivessem um pouco esbugalhados demais.

- Mas eu não sei dançar este ritmo.

- Eu ensino-me.

Encostou a minha mão ao peito dele e martelou com dois dedos enquanto fazia um som ao meu ouvido:

- Go-gum…go-gum.

- É o bater do teu coração….

- Não, quase ia engolindo a pastilha, mas consegui deitar para fora.

Começados a encostar os nossos corpos, derrapámos um no outro como duas enguias a tentar um abraço. Ele sabia a batatas fritas de quarta-feira, eu cheirava a ovos estrelados da manhã.

A luz permaneceu baixa enquanto me entreguei completamente ao Isaltino.

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

 

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