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Casa da Gorda

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Sex | 24.05.19

Dança Javardona - Episódio 4 (último)

Gorda

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Nas noites que se seguiram mal dormi no meu quarto. Esperava que o espetáculo chegasse ao fim e ia para o meu quarto, a Vanessa adormecia como uma pedra ao fim de dez minutos e os meus pais estavam entretidos a ver programas estrangeiros aos altos berros, por isso ninguém daria pela minha falta. Encontrava-me com o Isaltino à porta da casa dele e passávamos algumas horas juntos, depois ele mandava-me embora porque gostava de ter a cama só para ele e eu podia perfeitamente ir deitar-me na caminha que os meus papás estavam a pagar.

Levantava-me tarde, mas estranhamente descansada, era a última a tomar o pequeno-almoço e ia marcar lugar numa espreguiçadeira perto da berma da piscina onde o Isaltino mais tarde daria a aula para as turistas.

Num dos dias deixei-me adormecer com um copo na mão e acordei com a marca na pele, parecia que alguém tinha pousado um pénis no meu antebraço e o tinha lá deixado esquecido, por mais bronzeador falso que pudesse aquilo não disfarçava.

Nas tardes íamos para os lares sacudir-nos e trazer algum dinheiro dos velhotes, ao fim do dia praticávamos para o espetáculo de sábado em que eu iria dançar com o Isaltino sendo a sua parceira principal.

- Achas que vai correr bem? Achas que estou pronta? – perguntei-lhe certo dia.

- Não estás nem estarás, que tu tens o ritmo de um pau de vassoura, mas a Lurdes tem de ir a Pegões para que uma curandeira lhe trate dos joanetes e eu não tenho mais ninguém. De qualquer forma os camones, os avecs e os ramsteins já vão estar todos com uma cadela dos diabos e a única coisa que querem é ver carne fresca meio nua.

Achei que não era pior, só não percebia a frieza para comigo em certos momentos, será que estaria tão apaixonado quanto eu e tinha medo de se magoar porque ele era um bailarino sazonal e eu ia ser uma advogada no desemprego?

- Estás apaixonado por mim?

- Foda-se! De onde é que vem essa ideia?

- Passamos as noites juntos….

- Porque a tua irmã ressona e porque alguém te tinha de tirar o atraso, eu estou desejoso que as tuas férias acabem e vocês se ponham a andar daqui.

- Mas eu julguei que…

- Bebé, eu não sou bacano para ti. Tu tens de arranjar um joly que tenha um emprego certo, uns pais que ajudem com a entrada para a casa, um tipo que tenha comido – no máximo – uma gaja na vida toda e que se contente com missionário três vezes por mês.

- Mas eu pensava…

- Não penses, o teu cérebro não foi feito para isso.

Foi no silêncio da nossa troca de argumentos que ouvimos alguém chorar e corremos cá para fora; parte da parede da casa da Lurdes tinha caído e agora estava lá um buraco. Uma parte do poster assinado da Ana Malhoa ficou danificado e ela estava inconsolável. Tinha gasto o dinheiro que eu arranjei e agora ia dormir ao relento, com o javardo do gato da vizinha a entrar lá para dentro de casa à vontade e ela era alérgica ao pêlo.

 

Saí de fininho e fui ter com o meu pai que estava a ressonar na cama meio nu. Ao que percebi ele e a minha mãe ainda tinham uma vida sexualmente ativa, o que me deixou bastante desconcertada.

- Pai, acorda.

- Qu’é que queres a esta hora?

- Preciso da tua ajuda.

- Para quê?

- Anda comigo já te explico.

Ao sairmos peguei na mala de ferramentas do meu pai. Leva-a sempre consigo e também alguns materiais que possam ajudar em qualquer situação. Pode sempre haver uma pessoa em apuros, pode sempre haver uma parede em riscos de vida.

Quando o meu pai viu a parede ficou tão desgostoso que teve de acender um cigarro, nem queria acreditar que aquilo tinha sido feito a uma parede de uma casa antiga tão estimada.

Remendou a parede e exigiu saber o que se passava entre mim e o Isaltino.

- Foi ele que rebentou a parede da casa desta moça?

- Não pai.

- Como é que sabes?

- Porque o Isaltino seria incapaz de fazer mal a uma parede.

O meu pai não aceitou e exigiu-me que me afastasse do Isaltino, queria que eu fosse para o meu quarto e me comportasse decentemente até regressarmos à Amareleja. A relação com um tipo de danças eróticas que vivia a duzentos quilómetros de distância nunca seria uma boa opção. Para além disso já lhe chegava um otário oportunista para sustentar.

 

Nos dias que se seguiram andei sempre perto da minha mãe, comi como uma lontra e ia deitar-me ao sol do lado extremo oposto de onde o Isaltino estava a dar aulas.

 

Chegou sábado e arranjámo-nos de forma especial para a última festa, afinal de contas no domingo de manhã faríamos caminho para a Amareleja e íamos voltar aos nossos dias habituais.

A minha irmã andava a saracotear-se meio despida e o triste que havia de casar com ela estava a ver se engatava uma alemã mesmo nas barbas daquela palerma.

Vimos o espetáculo de canto, o espetáculo de humor com um ventríloquo que mexia mais a boca que a Manuela Moura Guedes quando está exaltada, vimos uns algarvios mascarados de chineses a rodar pratos e uns tipos a fazer capoeira. Ia terminar com o Isaltino “Patrick de Lagos” e o seu par, mas, quando estava a chegar essa hora o gerente do hotel veio dizer que tinha havido um imprevisto e não ia haver "Zumba das Cegas". O Isaltino tinha-se despedido.

Fiquei em choque, teria sido por minha causa que ele tinha ido embora?

Foi nesse momento que o vi entrar, calças pretas, camisa branca justa, casaco de cabedal apesar do calor que se fazia sentir. Veio direto à nossa mesa e disse:

- Ninguém põe a bebé no canto.

Todos olhámos uns para os outros e o meu pai respondeu:

- Pois não, a mesa é redonda.

O Isaltino tirou o casaco e deu-me a mão, puxou-me para o palco e mandou a música tocar.

- Estás pronta?

- Não.

- Abana-te como se estivesses no lar. Ninguém vai dar pela diferença.

Zumbámos como loucos e eu afastei-me do Isaltino, fiz-lhe sinal e ele a rir disse que sim, corri como uma doida para os braços dele e quando saltei ele desviou-se e eu fui de focinho ao chão.

- Eu tenho bicos de papagaio nas costas, burra! Achas que te ia carregar.

 

Quando me levantei estava toda a gente a dançar e a zumbar como doidos, a minha mãe estava agarrada a um alemão e o meu pai fazia sinal de aprovação como se aquilo fosse normal. Ao canto estava o senhor Alfredo, que afinal não sofria de Alzheimer, mas fazia-se passar por tantã porque ninguém dava conta que ele não era residente no lar e ele passava lá as tardes para ver as moças abanar-se ao ritmo de sons latinos.

O Isaltino despediu-se de mim. Estava na hora de partir. Ainda não sabia o que ia fazer da vida dele, mas talvez fosse abrir um negócio de bifanas para Vendas Novas, quem sabe um dia ainda me viesse visitar à Amareleja. Mas era provável que não.

Nunca mais consegui esquecer o Isaltino, nem hoje, na véspera do meu casamento com o Bráulio que é contabilista na pedreira do meu pai.

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

 

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