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Casa da Gorda

Casa da Gorda

12
Set18

Diário de uma professora no regresso às aulas

Gorda

Quando o despertador tocou eu já estava acordada e deitada em posição fetal, há 3 dias que ando em depressão pós-férias e a minha mente leva-me a pensar que devia fazer alguma coisa diferente com a minha vida.

Aprender a tosquiar cães. Dá bom dinheiro. Posso ganhar algum por fora. E o pior que pode acontecer é levar uma dentada de um Pastor Alemão com problemas de controlo de raiva. Por esta altura estou certa de que doerá menos do que ver alguém responder que o Afonso Henriques é o colega do 9D e que não sabem se terá feito alguma coisa de importante na vida, mas dizem que curtiu com a Marlene atrás do pavilhão da escola.

Desisto. A minha vocação é ensinar, mesmo que para isso tenha de moldar os miúdos. Vou inspira-los este ano.

Lembro-me do Marcelo que me arremessou com o apagador quando eu andava à procura dele. Tinha apostado com os colegas que me abria a cabeça. Conseguiu, levei 7 pontos. Se fosse como quando eu era aluna tinha-lhe arreado com a parte de madeira do apagador umas quantas vezes, a ferida da minha cabeça tinha fechado sem pontos e quando os pais viessem à escola ainda lhe arreavam mais.

Mas agora os miúdos têm sentimentos e nós temos de respeitar isso, de outra forma abrem-nos processos disciplinares e podemos ter más avaliações.

Podia concorrer ao Master Chef. Sei que cozinho quase tudo com a Bimby, mas por esta altura já sei as medidas de cor e tenho a certeza que com treino e persistência conseguia vencer o programa e abrir uma tasca minha. Fazer acepipes e umas sandes de courato. Não corria o risco de ser colocada longe de casa e ainda trazia jantar para a família. Sendo professora só trago testes para me causar desgostos.

Quando os corrijo com uma garrafa de tinto fazem-me rir, como daquela vez que uma miúda disse que as enzimas eram descendentes do açúcar que por sua vez era o maior veneno do mundo. As enzimas deviam morrer todas. A mãe faz alimentação Paleo e sempre que ouve nomes que podiam estar num rotulo de um alimento processado diz à miúda que é veneno.

A miúda não consulta os livros porque diz que só servem para nos meter na cabeça coisas que cientistas pagos pelas grandes farmacêuticas dizem. Vendidos do pior.

Podia dizer que não me levanto e ver no que é que a vida dá.

O Sérgio entra no quarto para me chamar:

- As aulas já começaram, tens de te levantar ou vais chegar atrasada.

- Estou a pensar em ficar em casa. Estou a sentir-me esgotada.

Ele lembrou-me que, caso ficasse em casa, e mesmo que me estivesse a desfazer numa disenteria sem precedente, teria de ficar com os gémeos, que se recusariam a ir para os avós sabendo que eu estou em casa.

Levanto-me num ápice.

Prefiro ir ensinar, é a minha vocação e para esses eu posso sempre dizer que a culpa é dos pais deles.

 

Entro na sala e estão todos entretidos uns com os outros, nem olham para mim. Paro e sonho acordada, como seria engraçado se eu pudesse ter uma daquelas buzinas dos camiões cisterna, daquelas que fazem com que uma pessoa deite um pedacinho de xixi sempre que se acagaça. Imagino-os aterrorizados. Calados mas aterrorizados. Aquelas carinhas parvas todas silenciosas.

Rio-me um pouco. Só para mim.

Em vez disso, bato no quadro e acabo por mandar um berro para chamar a atenção de toda a gente. Uns riem-se porque gritei, outros não estão bem certos do que está a acontecer. Há 4 repetentes do ano passado, o resto é tudo matéria nova.

Repete-se o processo com o 9D e o 9F.

Estou de rastos.

 

Chego a casa e o Sérgio já foi buscar os gémeos.

Gritam para mim como se me conhecessem desde que nasceram. Eu desejo profundamente uma garrafa de tinto. Mesmo.

Faço Legos, desenho a família de forma completamente incompetente, dou-lhes banho, limpo a casa de banho depois do tornado. Leio a história de embalar e, mesmo quando estou a dar um beijo aos dois, ali deitados, como anjos que eu ainda não tinha mesmo visto, aquele que nasceu 20 segundos depois do outro dá um flato sonoro. Mesmo a dormir aniquilam qualquer momento de ternura. São iguais ao pai. Benzádeus.

 

De manhã, quando o despertador tocou eu já estava em posição fetal. Podia abrir uma padaria, uma lavandaria self-service; podia ir vender casas para uma imobiliária de renome. Depois o Sérgio lembrou-me que se fosse ficar em casa a pensar em como organizar a minha vida – coisa da qual ele se orgulharia imenso porque é preciso ser forte para mudar -, teria de ficar em casa com os gémeos. Sozinha. Da ultima vez que isso aconteceu, aproveitei que estávamos a jogar às escondidas e esgueirei-me para o lado de fora de casa, eles continuaram a procurar – eu estava a ouvir – e os vizinhos estranharam que eu estivesse ali. Disse que estava a ensina-los a abrir a porta em caso de eu sair e perder a chave.

Eles encontraram-me quando me ouviram a falar com a cusca do 6º andar, disseram que eu era batoteira e o castigo para isso era que tinha de os encontrar o resto da tarde. Já não tinha fuga.

 

 

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