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Casa da Gorda

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Qui | 12.09.19

Diário de uma professora no regresso às aulas #2019

Gorda

 

 

Mais um ano de aulas passou e eu estou de pé a olhar pela minha janela da cozinha desde as 6 da manhã. A minha amiga Luísa Monforte (ela pede-me especificamente para me referir a ela sempre usando o seu primeiro nome e o sobrenome inventado) ofereceu-me o livro "O clube das 5 da manhã" que foi escrito por uma espécie de Buda da vida moderna, que sabe coisas sobre como crescer no interior e conseguir alcançar objetivos de uma vida de sucesso.

Quando o ano letivo 2018/2019 terminou, nas ultimas semanas, enquanto corrigia os testes e fazia as avaliações finais, aproveitei para ler o livro; a Luísa Monforte tem tanto sucesso como agente imobiliária premium, que tem de haver qualquer coisa que ela está a fazer melhor do que eu. Ao que parece o grande segredo está em acordar às 5 da manhã para ter tempo para fazer coisas importantes, adiantar a nossa vida para que não se acumulem tarefas para o fim do dia. Assim que as aulas terminaram decidi tentar, comecei a levantar-me às 5 da manhã e posso dizer que nos primeiros tempos consegui dar conta de tantas tarefas que fiquei mesmo motivada com tudo aquilo.

Deixei de dormir o número mínimo de horas porque os gémeos ficam acordados até tarde, mas estava a valer a pena.

Ganhei coragem e decidi que ia passar os meses de férias da escola a tirar o curso de agente imobiliária, a Luísa Monforte está sempre a dizer-me que eu tenho muito jeito para falar com as pessoas e que daria uma fantástica vendedora. Iria falar com maiores de 18 e não iria ter de lhes fazer perguntas de história, pelo que já era apelativo só por isso. Estava certa de que, se ouvisse mais uma pessoa a dizer que Afonso Henriques era um DJ de uma discoteca em Albufeira, eu iria passar à ignorância.

Por isso lá fui eu para as sessões de formação e cedo comecei a angariar imóveis. O mercado está em alta e vais ganhar em comissões mais do dobro do que ganhas como professora, dizia-me, só tens de melhorar o teu aspeto porque ninguém quer comprar uma casa a uma professora, a tua classe profissional está muito mal cotada neste momento. Foi com esta explicação que investi mais de metade do meu subsidio de férias em melhorar a minha aparência: comprei roupa nova, sapatos de salto alto, fui ao cabeleireiro mudar a cor do cabelo e fazer um alisamento japonês, aprendi a maquilhar-me e comprei uma mala de quatrocentos euros - porque de acordo com a Luísa Monforte a mala traça a linha entre a pelintra e a mulher que tem um imóvel para vender e não precisa que ele seja comprado.

Angariei 87,5 imóveis. O meio imóvel corresponde à casa de um velhote com 92 anos, os filhos querem ter tudo preparado para a venda da casa que fica numa rua central e cara, mas o filho de uma égua do velho não patina porque é tão ruim que nem Deus o quer, eram as palavras dos filhos.

Dos 87,5 imóveis angariados fiz visitas todos os dias, especialmente ao fim de semana e acabei com os pés em bolha na maior parte das vezes. Não vendi uma única casa. Ao que parece grande parte das pessoas que quer comprar casa não tem dinheiro para a adquirir e depois há aquelas que só querem ter com que se entreter, sonhando que talvez acabem por comprar uma habitação fora de um bairro de merda.

A lei da solvabilidade também não veio ajudar, agora não se empresta o valor total do imóvel e por isso ninguém se safa a aparecer com um montante suficiente para a entrada da casa. Emprestar dinheiro para férias de luxo muito bem, agora para comprar casa já é financeiramente perigoso. Enfim!

Quando fui ver as colocações deste ano e percebi que não me tinham recambiado para o outro lado do país tive uma conversa com o Sérgio. Tinha de voltar a dar aulas porque não tinha ganho um cêntimo com as casas. Era muito giro, mas sem vender casas não podia ser. Lembrei-o que com paciência e experiência podia conseguir ter o mesmo sucesso que a Luísa Monforte e viver como uma rainha. Ele recordou-me que há menos de um ano lhe tinham recuperado o carro porque ela não pagava a mensalidade há meses, sendo importante que eu não me esquecesse que a maior parte das coisas que ela dizia eram tanga e que estava sempre a dar a banha da cobra porque era assim que ela vivia. Afinal de contas tinha-nos vendido um apartamento tranquilo e dois dias depois percebemos que o vizinho de cima era baterista e que praticava 5 horas por dia, todos os dias úteis.

Decidi entregar a minha carteira de imóveis à Luísa Monforte e menos de 3 dias depois o sacana do velho bateu as botas e ela já tinha um comprador em vista. Só me apeteceu matar o velho, mas o jagunço já estava frio.

Tinha de seguir em frente, abraçar a minha vocação e compreender que não posso mudar os outros mas posso mudar a minha atitude. Também li isto num livro que a vaca da Luísa Merdaforte me emprestou há uns anos.

Agora dava comigo a olhar pela janela, a pasta pronta para regressar às aulas e a mais valia de ter duas turmas de 10º ano, sempre são miúdos mais crescidos, que estão no secundário e que, porventura, querem mais da vida. Toda a gente sabe que as piores turmas estão entre 7º e o 9º anos.

Arrepiei-me a pensar na Jessica que tantos transtornos me tinha causado no ano anterior; de acordo com esta aluna os EUA tinham sido descobertos pelo Jay Z e quem governava o mundo era a Beyonce e tinha a música "Runs the world (girls)" para provar isso mesmo. Tinha notas deploráveis e a mãe foi à escola falar comigo. Primeiro quis agredir-me e depois passou apenas aos insultos. De acordo com a encarregada de educação a rainha mais conhecida do mundo é a Madonna e a princesa dos seus sonhos a Britney Spears. Não consegui faze-la compreender que a cultura POP não é história. Quando lhe dei como exemplo a época dos Descobrimentos, disse-me que sobre isso só conhecia o Pavilhão dos Descobrimentos na Expo e nem sequer achava que fosse um prédio assim tão interessante, pelo que o melhor era ensinar à miúda coisas relevantes e corretas. Sugeriu que a diretora de turma me abrisse um processo disciplinar.

Comecei a ter tonturas com frequência há duas semanas e julguei que podia ser sistema nervoso, mas o Sérgio insistiu que eu devia ir ao médico. Resultou que, à conta desta treta das 5 da manhã, ando a dormir muito pouco e o corpo está à beira de um esgotamento nervoso. É muito giro acordar mais cedo se nos conseguirmos deitar a horas. O médico recomendou-me mais descanso e que, se eu queria livros que ensinam os outros a viver, que escolhesse o qualquer coisa se foda, porque assim sempre podia ter um livro de nome engraçado em cima da mesa de cabeceira, aproveite que os miúdos ainda não sabem ler.

Agora não me consigo levantar mais tarde porque a ansiedade não deixa.

O Sérgio entrou na cozinha e perguntou-me se eu estava bem, preguei-lhe um cagaço dos diabos porque parecia um fantasma. Disse-lhe que se calhar devia insistir com esta coisa da venda de imóveis.

Então, até que vendas algum ficas a tomar conta dos gémeos.

Peguei na pasta e fiz caminho para a porta. Não te esqueças que hoje és tu a deixa-los no colégio, disse antes de sair.

Pelo menos são miúdos do 10º ano, que dificuldades posso encontrar?

 

Se tiverem interesse em ler a primeira entrada deste diário, podem ler aqui (tem exatamente 1 ano).

 

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