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Casa da Gorda

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Qua | 03.07.19

E-mails de despedida laboral

Gorda

 

O mercado está em alta e com ele chegam mais e melhores ofertas de emprego. As empresas estão a produzir mais, a faturar outro tanto e a recuperar do buraco da crise. Depois de anos de amargura Portugal é novamente um país em que vale a pena investir e as multinacionais estão dispostas a chegar-se à frente para pagar bem por mão de obra especializada.

As pessoas estão cansadas dos empregos e acreditam piamente que o mal está centralizado na sua entidade patronal, as empresas onde trabalham os amigos e familiares são todas uma maravilha (ou então é só o que lhes dizem) e é crucial mudar. Se ao menos aparecesse uma boa oferta!

Essa oportunidade chega finalmente, é um holofote no fundo do túnel e é preciso arriscar para sentir a vida, ou assim dizem as frases partilhadas pela prima Eleutéria no Facebook, porque ela está desempregada há anos e tem tempo para descobrir os caminhos da filosofia humana.

Olhamos para o lado e vemos colegas novos todos os dias, colegas antigos a ir embora todas as semanas. Todos certos de que vão para melhor, tudo para em menos de um ano perceberam que estão exatamente no mesmo emprego, mudam as caras, mudam as secretárias, muda a geografia, mas o resto é o mesmo.

Com a saída preparada é fundamental acautelar potenciais riscos, nomeadamente aquele de a vida poder sempre dar uma volta de 360º e a pessoa acabar a bater à mesma porta para ter emprego. 

Nascem então os e-mails de despedida.

Quando as empresas não tinham e-mail a coisa era mais fácil, só sabíamos que determinados colegas tinham ido embora meses depois e a "festa" de despedida limitava-se apenas aos que eram importantes para essa pessoa e que também a gramavam. Não havia frases feitas nem agradecimentos a quadros de direção que mal sabem o nome do futuro defunto efetivo.

Mas agora, lá pinga um a uma razão de dois por cada quinze dias.

Normalmente começam assim:

Queridos colegas e amigos,

Ao fim de cinco anos na empresa blá-blá-blá o meu percurso chegou ao fim. Levo comigo memórias inesquecíveis de todas as pessoas com que me cruzei. Nesta empresa aprendi e cresci imenso profissional e pessoalmente, aprendi lições que me marcaram para a vida e por isso estou eternamente grata.

Ou seja, a pessoa está farta, tem profundos traumas das reuniões intermináveis que nunca resultavam em nada, e finalmente encaixou na sua cabecinha oca que não vale a pena fazer má cara e esgrimir argumentos. É para rir e seguir em frente. Agora, na empresa nova, já não vai arranjar atritos com os colegas palermas porque os topa à légua. De qualquer forma é ver a pessoa a esbanjar lamento, não vá daqui a um ano vir para lá um tsunami crise e ser preciso que se abra uma janela.

Nesta empresa tive inúmeras oportunidades que me ajudaram a melhorar a minha performance profissional, sem a ajuda de todos aqueles com os quais trabalhei, jamais seria capaz de o fazer. Convosco aprendi o verdadeiro sentido de trabalho de equipa.

Então, a empresa deu oportunidades ao bebé e ajudou com a performance, mas não deu mais guito, maneiras que é seguir e ir fazer melhor para outra chafarica. A pessoa aprendeu finalmente que o trabalho de equipa é uma treta, que há sempre quem se dane e sem nervos de aço uma pessoa não passa sem chegar uma lambada a alguém.

Quero deixar o meu especial obrigada à Matilde mais-longa, ao Rogério Sem-pé, à Clorilde Samora, à Josefa Maria e claro, à minha grande mentora, a Carla Vanessa.

Um beijo e um abraço

Estou certa de que nos encontraremos por aí e estarei sempre disponível no meu e-mail para saber noticias vossas.

Pessoa, se a ligação é tão unha e carne é estranho que ainda não tenhas transmitido estas palavras cara a cara. E toda a gente sabe que deste um e-mail de uma conta que não consultas há mais de seis meses.

Este último parágrafo é sempre dedicado a um conjunto de colegas (amigos, na verdade...ou não) que marcaram mesmo a vida desta que se despede. Marcaram tanto que algumas nem sabem bem de quem se trata, ou não fossem diretores e administradores que estão borrifando para lamentos de quem já não faz parte do barco. Mas lá está, se é para puxar lustro é bom que se afague uma lamparina que pode acudir em cenário de catástrofe. Depois temos aquelas duas ou três pessoas que frequentam a casa do efetivo perdido e terminamos com o mentor que mais não é que o chefe direto, aquele que, um dia, pode estender a mão se a vida der para o torto.

 

Antes de a crise ter rebentado estes e-mails não eram de todo comuns, as pessoas saiam lampeiras, de cabeça erguida, orgulhosas e certas de que a vida ia melhorar para lá de muito. Não eram como os outros ignorantes que nunca iam conhecer nada de melhor. Ninguém os tinha contactado a fazer ofertas. Depois a crise veio arrebanhar tudo e deitar a perder as oportunidades de ouro. Assim, como qualquer bom macaco a aprender a descascar bananas, as pessoas perceberam que se é para sair, informalmente, é fundamental convencer que vão deixar aquela merda e seguir para o Oásis, mas formalmente garantir que fica aberta nem que seja uma nesga da janela da casa de banho.