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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Qua | 04.09.19

Entrevista com pessoa que vai à praia, mas que não gosta de areia e mar

Gorda

ilha deserta.jpg

 

 

Estamos esta manhã aqui na Praia da Rainha da Costa da Caparica para tentar compreender o que leva todas estas pessoas a arrastar os seus lombos sedentários até ao areal. Aproveitamos o mês de setembro para estas entrevistas, porque agosto já lá vai e isto em principio deve estar mais desimpedido.

(dois  minutos depois, já no areal)

Ao contrário do que estávamos à espera encontramos mais gente encavalitada do que era suposto, pelo que tentaremos encontrar a pessoa indicada para despachar a entrevista.

Damos nota de pessoas com filhos, passadas dos carretos por os putos estarem cheio de areia; verdadeiros veteranos de guerra que, mais cedo ou mais tarde, precisarão de terapia para ultrapassar estas memórias. Isto é gente que vai passar a velhice no campo e que chorará copiosamente ao som da palavra “areia”. Reparamos em algumas donas de casa arrastadas pelos maridos e pelos filhos, a secção infantil da família, que as obriga para tolerar este chão sem asseio, com areia e conchas e porras. Se ao menos Nosso Senhor tivesse aspirado isto não estava assim.

Ao longe damos nota de uma veraneante que acaba de chegar, olha horrorizada à sua volta, procura um espaço por entre a imensidão de pessoas que gritam, comem sandes de mortandela e correm a salpicar água. Estende a sua toalha imaculada e sacode três ou quatro grãos de areia da ponta da toalha, deita mão ao bronzeador e estende-se como um bacalhau na seca.

Aproximamo-nos.

 

Bom dia, lamentamos incomodar, mas gostaríamos de saber se pode conceder-nos dois minutos do seu tempo para falar connosco?

Desde que não deite areia para cima da minha toalha.

 

Como se chama?

Judite Não-Faz-Sentido.

 

Com certeza. O que é que a traz à praia?

Tudo. Adoro tudo: o sol, o calor, o som das ondas do mar.

 

Entretanto passa uma criança a correr que faz parte da família que está mesmo ao lado.

 

Gosta do ambiente de praia, do convívio?

Adoro. Adoro ver as família felizes. Só detesto crianças a correr, toalhas perto da minha, pessoas que comem na praia, gente que passa molhada a menos de dois metros e a falta de silêncio, que me importuna quando quero ler.

 

Muito bem. E o que é que gosta da praia mesmo?

Ai tudo: o sol, o calor, o som das ondas do mar.

 

É seguro dizer que daqui a pouco vai dar um mergulho?

Nem pensar, a água é gelada e as ondas trazem muita areia. Depois há sempre gente a entrar à pressa e salpicam-me o chambão. Para não falar de que molhada a areia se me agarra à pele e eu fico transida.

 

Portanto a areia é uma coisa de que não gosta muito?

Ai detesto. Praia era bom sem areia.

 

Gosta então mais de piscina?

Prefiro praia porque adoro o som das ondas do mar.

 

Então gosta do mar?

Não, que disparate, detesto! As ondas são violentas e fico toda molhada, para não falar na temperatura gélida. Gosto do som.

 

Seria seguro dizer que estaria mesmo bem numa varanda de dois metros quadrados a ouvir um CD zen?

Ora e como é que eu podia presenciar o convívio humano?

 

Pensava que não gostava muito de convívio de praia, especialmente com está hoje, carregadinha de gente.

Depende, olhe ali o nadador salvador, é um convívio interessante, não lhe parece? Questiono-me se ele gostará de Dostoyevsky.

 

(o puto da toalha ao lado passa outra vez)

 

Olhando para ele, diria que é a primeira coisa que leu. Quer que eu vá lá perguntar para acabar com o seu sofrimento?

Não, a incógnita é fantástica. Ó FILHO DE UMA GANDA ÉGUA, SACANA DO PUTO PASSOU A CORRER E MANDOU AREIA PARA A MINHA TOALHA! Desculpe, as pessoas não sabem ir pôr a toalha mais longe, vêm sempre para o pé de mim, que chatice!

 

Não gosta de famílias com crianças?

Adoro crianças, mas os pais não lhes dão educação para que andem devagar, andam para aí sempre com os baldes e as pás a fazer chiqueiro.

 

É o que as crianças fazem. É normal que corram e que brinquem, faz parte da infância.

Credo, um dia que tenha filhos meto-os logo na ordem.

 

Boa sorte com isso.

 

A praia está à pinha, mal cabe uma mosca, ninguém poderia colocar-se assim tão longe – a menos que a Judite tenha uma doença infetocontagiosa grave e nesse caso arranjava-se um jeito. De todo o modo, foi a ultima a chegar, foi a Judite que colocou a toalha ao lado destas pessoas.

Porque há gente a mais. O que raio vêm estas pessoas fazer para a praia? Estamos em setembro, não deviam estar a trabalhar, ou a comprar material escolar, em vez de estarem no laréu? Não há pachorra.

 

Em princípio estão a fazer uma coisa parecida com o que a Judite pretende, mas eles gostam mesmo de cá estar.

Mas eu também gosto.

 

De quê?

Do som das ondas do mar.

 

E detesta...?

As pessoas, a areia, o molhado do mar.

 

Acho que é tudo, resto de boa praia.

 

Terminamos assim a emissão de hoje, a encontrar a mesma coerência humana de sempre.

 

 

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