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Casa da Gorda

Casa da Gorda

03
Out18

“Estar vivo aleija” – Apresentação do livro no Teatro São Luiz (eu estive lá)

Gorda

Estar vivo aleija.png

 

A capacidade que o meu marido tem de estacionar o carro em lugares apertados deixa-me sempre em completo espanto. Chegámos mesmo em cima da hora ao parque de estacionamento do Chiado, conseguimos entrar sem abalroar nenhum dos transeuntes – suecos, alemães, indianos, ingleses, holandeses, japoneses, chineses, coreanos, brasileiros, entre outros, faltando apenas um par de habitantes de Marte - que clandestina e ebriamente se pavoneavam nas estradas em torno da entrada do parque de estacionamento subterrâneo. Apesar do preço o parque estava cheio (como aliás está sempre) e uma espécie de lugar apareceu para que conseguíssemos enfiar o carro.

Corremos para o São Luiz, o marido apressado, eu – ao contrario do meu estado natural de pura ansiedade – descontraída, afinal de contas o autor é conhecido por chegar atrasado e reuniam-se as condições necessárias por não dar pelo nosso atraso.

Não que fossemos convidados ou conhecidos do mesmo, mas se é para estar, que seja a horas (ou pelo menos é a perspetiva do meu rico marido, provavelmente porque nunca se viu tão dependente da pontualidade do 701 como eu antes de ter carro).

À porta do São Luiz vejo Barbara Bulhosa, editora do Ricardo:

- Abranda homem, que ele ainda não chegou, estamos com tempo.

- Como é que sabes?

- É a Barbara Bulhosa que está à porta, cheira-me que à espera dele.

 

Entramos no teatro e confirmava-se a minha suspeita: ainda não tinha começado. Ótimo: porque assim o homem pode ficar mais calmo – afinal de contas não estava atrasado – e eu podia ir à casa de banho.

 

Nunca tinha entrado no São Luis, por isso pedi apoio a uma das moças simpáticas de fato que estava à porta:

- Sabe dizer-me onde posso encontrar a casa de banho?

Por favor diga que é perto que eu já estou com os bofes de fora, o homem fez-me vir a correr com esta calçada e dava-me mesmo jeito que fosse já aqui ao lado.

- Com certeza, é no menos dois.

Ora se as contas não me traíam eram três andares para baixo e depois três para cima.

Porque raio bebi aquela água toda antes de vir.

Cheguei esbaforida. Nós de regresso aos nossos papeis normais: eu esbaforida por qualquer razão, ele tranquilo, afinal de contas tinha chegado a horas.

 

Uns minutos mais tarde chega Ricardo Araujo Pereira – e agora tenho de fazer um comentário igual ao da senhora que à porta da igreja a caminho da missa de domingo responde a um repórter -, mais alto do que o imaginava, de fato escuro e apesar de parecer estar com um leve coxear, um sorriso rasgado no rosto.

Não pude deixar de achar que, ao vivo e muito de repente, o Ricardo se parece muito com uma mistura entre o Marcelo Rebelo de Sousa e o meu vizinho Serrano. Alto, magro, resistente (ou aparentemente) e sempre de sorriso no rosto.

Mas em novo, em muito mais novo.

 

Barbara Bulhosa fez uma leve apresentação do Ricardo e do seu mais recente livro, sendo alertada pelo mesmo (baixinho) que o Benfica jogava às 20 e já eram 19.

 

A palavra foi passada ao Ricardo que, ainda sem dizer uma palavra já enchia a sala. Todos esperam para ouvir o que tem para dizer.

 

Falou sobre o livro, como chegou ali, como chegou às crónicas para a Folha de São Paulo, da sua incursão à Rússia para escrever um conjunto de crónicas de futebol para a Folha de são Paulo e da fantástica capacidade de Barbara Bulhosa para “aproveitar lixo e fazer uma oferta aos leitores”, ou algo parecido com isto. Não esperem rigor jornalístico desta Gorda.

 

Fizeram-se algumas questões, respondidas com humor e satisfação.

Eu não perguntei nada. Devia. Querer até queria. Mas apossa-se de mim uma vergonha que não sei explicar, a ansiedade de transmitir as palavras certas toma conta do discurso e tenho a impressão que me vou engastar. É que para mim é estranha esta coisa de conhecer uma pessoa vai para cima de 10 anos e ter uma noção muito clara de que a pessoa em causa nunca me viu mais gorda. É aquela sensação de que sabemos que vamos falar com um familiar com Alzheimer, nós temos memórias com eles, mas eles sabem lá quem nós somos.

(uma comparação parva eu bem sei, mas nunca me leram dizer que sou uma peça esperta)

 

Queria dizer-lhe que sou solidária com a esposa, que esfrangalha livros quando os lê. Gosto da sensação física do livro lido. Que mostre na sua aparência que contou o que tinha lá dentro. Gostava de lhe ter perguntado: para quando um livro de humor com uma espécie de uma biografia? Um daqui ali com humor, como ele tão bem sabe fazer?

Mas só me ocorreu a formulação correta para a pergunta 10 minutos depois de a apresentação ter acabado, no carro e a caminho de casa.

 

Também não fiquei para autógrafos. Nunca soube muito bem como me dirigir à pessoa: olhe assine-me aqui isto?

Percebi que jamais seria uma funcionária das finanças competente. Ia ficar sempre constrangida perante a necessidade de pedir a um utente que assinasse um documento.

 

Acabou por volta das 19 e 30, mesmo a tempo de irmos comer qualquer coisa. Mesmo a tempo de deixar o Ricardo ainda ver o Benfica sossegado em casa – mesmo que tenha sido apenas a segunda parte.

 

Gostei de o ver pela primeira vez ao vivo. Gostei de perceber que se parece com o meu vizinho Serrano, é tudo uma questão de deixar crescer o bigode. Gostei do comportamento despretensioso e humilde a que já nos habituou. Gostei do sorriso aberto desde o primeiro instante.

 

Agora é ler as crónicas, guardar a pergunta que me ocorreu 10 minutos tarde demais e, havendo novo livro, ganhar a coragem de pedir o microfone para mim. O problema é que com a sorte que tenho, a próxima apresentação será de um livro biográfico de humor e nessa altura a questão já não faz sentido. Pode ser que nessa altura me lembre de mais uma boa pergunta cerca de 10 minutos depois da apresentação do livro.

 

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