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Casa da Gorda

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Ter | 30.04.19

Eu não quero ser FIT

Gorda

(imagem retirada do Google)

 

 

Cheguei recentemente a duas conclusões: a primeira é que eu não quero ser FIT, a segunda é que tenho de escrever um livro sobre o facto de não querer ser FIT, porque livros sobre pessoas que querem ser, são e aconselham a como ser já há em excesso.

 

Então e porque raio te deu para chegar a estas conclusões? Perguntam certamente as pobres almas que estão a ler estas linhas.

Porque estou farta destas modernices. Eu nasci no século passado, numa era em que as pessoas iam ao pão, faziam as próprias refeições, havia um consenso relativamente ao que fazia bem e ao que fazia mal e as pessoas faziam desporto em português. Ser FIT não é estar em forma, é fazer parte de uma espécie de tribo urbana e eu não gosto de ajuntamentos de pessoas.

Primeiro apareceram as atividades desportivas com nomes estrangeiros, se não estou em erro a primeira a cruzar a fronteira foi o Step, que consiste em subir e descer um degrau centenas de vezes e de diferentes formas. Se uma pessoa subir as escadas do prédio de forma engraçada, as pessoas pensam que somos parvos, se usarmos apenas um degrau e fizermos movimentos descoordenados com os braços, é desporto. Certo. A parte mais gira é ver pessoas pagar para cima de vinte e cinco euros para subir e descer um degrau, mas depois para subir as escadas do prédio e chegar ao segundo andar vão de elevador. Alô coerência? Estás aí?

Parece que não.

Depois disto veio o running.

O running é uma coisa que chegou de repente e trouxe consigo uma serie de parafernália cara. Relógios, calças, tops, ténis, timings, apps, e mais-não-sei-o-quê. O runner não é a mesma coisa que uma pessoa que corre. Livrem-se de achar isso. Uma pessoa que corre veste uns calções e uma t-shirt velha que já não serve para mais nada e vai para a rua dar à perna durante um determinado tempo ou por uma determinada distância. Leva relógio para não chegar atrasado à hora de jantar. O runner leva um relógio de duzentos euros, umas calças que ajudam a passar pelo vento, uns ténis de duzentos gramas, um corta vento de pele de pinguim e no telemóvel a app já está a registar o percurso para a pessoa depois publicar nas redes sociais usando o hashtag #noexcuses.

 

A pessoa FIT só faz desportos estrangeiros e eu cá gosto de fazer exercício na língua de Camões. Esse é um dos motivos.

 

Andar de bicicleta é cycling, correr é running, subir degraus é step; isto para não falar numa panóplia de aulas de grupo que têm como nome equações do 9º ano.

 

Ser fit é demasiado estrangeiro para este lombo lusitano.

 

Ao desporto acresce a necessidade de comer de uma determinada forma. A pessoa FIT não come bolas de Berlim com satisfação e porque quer. A pessoa FIT come um bolo porque é o seu dia da desgraça, ou refeição da desgraça que, como não seria de estranhar é o cheat day (lá está, para ser FIT é tudo em estrangeiro). Ao que parece para ser FIT é preciso comer muito abacate e adorar lanches que são um punhado de pevides ou latas de atum ao natural com abacate.

 

O abacate está lá sempre. Eu tenho na minha cabeça este cartoon de um abacate a passar de pantufas à porta de uma pessoa FIT. Ele não quer ser ouvido.

 

As refeições não levam açúcar, nem glúten, nem lacticínios e esbanjam ingredientes de países sul Americanos porque têm coisas super. Há sempre uma forma de cozinhar as comidas tradicionais e a palavra dieta está proibida. É reeducação alimentar. As pessoas FIT dizem não à fome e malham coisas com manteiga de amendoim da Prozis porque têm um código para dar descontos.

Quando querem um muffin comem um da Prozis e aconselham a utilização do código. Mas tem de ser um muffin, porque se for um queque não há e esses malvados têm açúcar de certeza.

As pessoas FIT fazem treinos funcionais e levantam pesos de forma valente. As pessoas FIT desejam a época de verão, preparam-se para a época de verão, tiram boas fotografias de biquíni e aconselham as pessoas a aceitar-se como são.

 

Para ser FIT eu tenho de gostar demasiado de mim e eu não consigo.

 

Eu tenho defeitos. Mas tenho defeitos a sério. Eu não acho que a pior coisa em mim é a minha falta de paciência para com pessoas parvas, ou ser demasiado persistente com a vida. Os meus defeitos não estão nos outros, estão em mim. Há coisas no meu corpo que eu não consigo mudar mas que gostava de ter o apoio de um cirurgião para o conseguir.

Ainda assim vou convivendo com o que tenho sem achar que preciso de aparecer sensual em fotografias para que se note que eu faço abdominais para caraças. Até porque não os faço.

 

Quando eu era miúda nós fazíamos exercício para estar em forma e para não sermos balofas, era simples. Agora é demasiado complicado estar em forma, é preciso inspirar e contar às pessoas que corremos e que nos sentimos melhor por isso e que o Crossfit muda as nossas vidas e que os treinos funcionais dão para qualquer um porque são curtos.

 

Ser FIT é demasiado cansativo para este lombo preguiçoso.

 

Cheguei à conclusão que não quero ser FIT. Muito porque não tenho perfil para isso e não consigo dar conta do recado.

Eu não quero ser uma devoradora de abacates.

Eu não quero tomar suplementos para prevenir não-se-o-quê mesmo fazendo uma alimentação equilibrada.

Eu não quero contar calorias.

Eu não quero fugir do açúcar. Somos amigos. Eu como-o e ele faz-me feliz.

Eu não quero ter de vestir roupa a condizer para treinar. Quero levar a minha t-shirt com buracos.

Eu não quero ter um relógio que saiba mais de mim do que eu (a menos que seja giro e fique bem com a minha roupa).

Eu não quero publicar os exercícios que faço.

Eu não quero motivar ninguém nem inspirar o que quer que seja.

E acima de tudo, eu não quero usar o hashtag #noexcuses.

 

Há poucas coisas que me fazem fechar a net mais depressa do que um bom #noexcuses. Para que é esta porra? Foste correr? Bom para ti. Ainda bem, vais ficar com umas nalgas bem boas. Eu não consegui. Ou se calhar consegui mas com tanto sacrifício e falta de vontade que só quero esquecer que essa tarefa já está feita. Se o fiz foi por mim, apesar de todas as justificações válidas que tinha para não o fazer. Não são desculpas, são justificações. Esta ideia de que as pessoas, com dias tramados, arranjam desculpas para não cuidar de si é a maior desculpa para ter o que dizer.

Por isso pessoas, é um pedido. Façam o que têm de fazer, mas deixem-se disso das desculpas, o que vos pode parecer que é uma coisa esfarrapada pode não ser na vida dos outros. Estar cansado depois de um dia que começou às seis da manhã com uma noite mal dormida não é uma desculpa, é a vida.

 

Cheguei a esta conclusão pessoas: eu não quero ser FIT. Não tenho estofo para a coisa.

 

Quero cuidar de mim o melhor que consigo, quando consigo.

Quero fazer exercício e guardar essa informação para mim, porque, afinal de contas, foi por mim que o fiz.

Quero comer uma bolacha com pepitas de chocolate todos os dias e não quero pensar nisso.

Quero beber o meu copo de vinho sem pensar que era melhor água ou chá não adoçado.

Quero beber a bica (ou descafeinado) com (pelo menos) meio pacote de açúcar sem sentir a necessidade de fazer as minhas papilas gustativas acreditar que só aprecia café quem o bebe puro (macho style).

Quero ter os cuidados mínimos com a minha alimentação, que é maioritariamente saudável e por isso inclui bolachas com pepitas de chocolate e a ocasional taça de ferradura.

Quero manter a minha sanidade mental e ter mais temas de conversa quando alguém fala comigo.

Quero fazer os treinos que me dão prazer (o possível) de entre o que há à disposição.

Quero estar em forma, na língua de Camões e deixar o fitness para quem entende disso.

 

 

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