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Casa da Gorda

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Ter | 26.02.19

Jantares de família

Gorda

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A família é das melhores coisas que a uma pessoa tem e quanto a isso não há dúvida nenhuma, a menos que a pessoa tenha uma família de ladrões, sequestradores e violadores. Ai é capaz de já não ser assim tão bom estar inserido numa família, de outra forma, à partida, é uma coisa agradável. É por isso mesmo que dar aqueles conselhos do “devias estar grata por ter uma família” e mais não sei quê, é um cliché e um lugar comum tão banal que até se me faz revirar os olhos até as órbitas ficarem confusas. Eu pessoalmente sou uma pessoa que agradece muito, começo pelo facto de agradecer sempre que vou aos sítios e os funcionários têm a amabilidade de me trazer o que eu peço, o que já é mais do que a maioria das pessoas faz, agindo como se dizer “obrigada” fosse pagar mais 20 cêntimos pela bica. Não é. Gosto de agradecer e de estar grata (que é mais ou menos a mesma coisa, mas assim dá mais caracteres e até parece que estou aqui a fazer jogos de palavras à Lobo Antunes para que este texto seja parvamente encapotado, permitindo a sua leitura por intelectuais e pseudo intelectuais, que seriam quase a mesma coisa se os segundos não fossem burros) por tudo, pela família que tenho, pelo marido que me calhou, pelo meu filho, pela saúde do meu filho, por ter um emprego, por ter órgãos dentro do corpo; parecendo que não há pessoas a quem falta peças ao nível do interior e isso é chato para caraças. Contudo, não é por ter as peças todas cá dentro que passo o dia a agradecer ao pâncreas, ou ao baço, ou aos pulmões e por aí fora, agradeço num bolo e exijo-lhes que trabalhem forte e feio sem contemplações, não vá os gajos acharem que me estão a fazer algum tipo de favor ou assim. Não estão.

O mesmo acontece com a família. A pessoa já que a tem, disfuncional, marada ou certinha (ali sem molécula de pó) está grata por isso, o que não quer dizer que a pessoa tenha de ter sempre vontade de estar com toda a gente e de conviver e de conversar e todas aquelas coisas inerentes à condição social que um evento familiar obriga.

Adoro a minha família, mas há coisas que me moem, particularmente quando são comemorações que expandem o convite à família dos familiares, que são pessoas a quem nós chamamos família afastada, mas que na realidade não são família. São pessoas com as quais existe uma ligação tão próxima como a que temos com Bocage. Está lá o fio no nosso coração mas não bate forte cá dentro.

 

Dito isto, as celebrações familiares são aqueles momentos que eu vivo com antecipada ansiedade, já sei que há coisas que inevitavelmente vão acontecer, coisas que potencialmente podem acontecer e coisas que sou eu que imagino só mesmo para me preparar para um cenário mais macabro e afinal não ter um custo tão forte.

Se eu fosse uma profissional da escrita com competências supimpas gastava agora aqui um bocado de tempo a ligar estes eventos num texto que valesse a pena ler, mas como não passo de uma preguiçosa com pouco tempo que mal terá oportunidade de ler o que está para aqui a balbuciar, vou elencar alguns fenómenos que acontecem nos jantares de família:

 

1. Há tanto tempo que não ligas, pensava que já não gostavas de nós ou que andavas chateada

 

As pessoas acham sempre que a sua vida é incomensuravelmente mais difícil que a dos outros. Elas têm sempre menos tempo, menos oportunidades, menos dinheiro, menos tudo. Mesmo que não saibam nada da vida dos outros. Isto são medidas tiradas unilateralmente e que não servem para ser contestadas, servem para cobrar. Ponto. As pessoas gostam que lhes liguemos, que nos lembremos delas, que as recordemos a cada 5 minutos das nossas vidas. As pessoas não sabem o que dizer quando veem os outros e então pegam sempre nesta merda desta frase para mostrar o quanto gostam de nós, mas nós não queremos saber delas. Gente mais tranquila e que não quer arrufos (como eu) lá se põe com conversas que matam qualquer ser humano por dentro, tentando justificar-se como se estivessem a falar com o patrão por não terem feito o seu trabalho. As pessoas mais despachadas (que são como eu gostava de ser) dizem “e tu ligaste-me?”, o que sana o tema mas deixa um filho da mãe de um clima que dá para cortar à faca.

 

2. Paulo Miguel dá lá um beijinho à tia do primo que tu nunca viste mais gorda mas que gosta muito de ti

 

As crianças devem ser educadas e cumprimentar as pessoas. Informo desde já que me estou obrando para aquela conversa de que não se deve obrigar as crianças a dar beijinhos e rebeuneubeu. Deve educar-se as crianças a ser educadas (é redundante, bem sei) e a cumprimentar as pessoas. Enfim, não querendo passar a ideia de que estou a falar de um cão, devem educar-se as crianças a ser civilizadas e sociaveis (na medida do que lhes é permitindo e excluindo quaisquer condições de saúde inerentes). Isto passa pelas crianças aprenderem que quando chegam a um sítio devem cumprimentar as pessoas presentes, seja com 2 beijinhos, seja com um aperto de mão, ou, em última instância com um “olá”. Dar dois beijinhos no rosto da tia Clotilde não rouba nada à criança. Mas, ultrapassada a forma de viver de cada um, o que importa é que toda a gente quer que as crianças digam qualquer coisa, mostrem a sua graça, por isso metem conversa, pedem beijinhos, querem que a criança conte como anda a escola. Mas a verdade é que os miúdos muitas vezes mal contam em casa quanto mais a quem devem ter como família mas mal viram. Gera-se então aquele momento constrangedor em que a criança se esconde nas pernas da mãe ou do pai e o progenitor está ali, aflito, entre despachar o familiar chato e convencer a criança de que aquilo se resolvia com um “a escola vai bem, obrigada!”.

(se não fossem estes momentos que histórias havíamos nós de contar nos casamentos das tias que apertam bochechas e da chata da mãe que obriga a cumprimentar? Hum?)

 

3. Contemplação de bebés de várias pessoas

 

Quando há bebés há contemplação. A criança tem de ser contemplada e bajulada por toda a gente. Cria-se a ideia de que quem não quer pegar na criatura não gosta muito de crianças e olham-se de lado as mães que não querem os filhos de colo em colo como se fossem um saco de batatas. É esperado que toda a gente se debruce sobre o carrinho, que venere a criança, que diga com quem considera que a criança é parecida, o que acha que vai ser o futuro dela, se tem olhos inteligentes e que se manifeste completamente abismado com o facto de já rir. Eu não bajulo nem venero ninguém, muito menos um ser humano cujo maior feito até ao momento foi fazer coco até ao pescoço e que não consegue dizer de forma inteligível a capital de, pelo menos, cinco países.

 

4. O tio bêbado

 

Há sempre um tio que bebe mais do que devia e que conta histórias do Ultramar. Este tio só é ultrapassado pelo tio que só diz baboseiras mesmo estando sóbrio.

 

5. O tio que só diz baboseiras quando está sóbrio

 

O meu pai ou está no 4 ou está no 5. Enfim, eu tinha de sair a alguém.

Nos jantares de família há sempre aquela pessoa que conta histórias do antigamente, sempre as mesmas, e que põe o cérebro de uma pessoa em estado comatoso. A pessoa fica ali a reter a baba porque só quer falecer. A pessoa quer uma ponte para poder saltar mas nunca há uma ponte à mão quando a pessoa precisa.

 

6. Isto estava bem era o tempo de Salazar

 

Porque há sempre um gajo que percebe de política como ninguém. Não dá uma para a caixa, mas se lhe derem margem transforma o jantar na Assembleia da República em menos de nada. Não concorda com nada do que faz nenhum partido e quando lhe pedimos soluções engasga-se. Este familiar só não é ministro porque não conheceu as pessoa certas e isto é um pais de cunhas.

 

7. Então quando é que têm filhos? O casamento não é a mesma coisa sem crianças. Vão conhecer o amor a sério

 

As pessoas casaram há menos de um mês, ainda andam a testar as assoalhadas da casa toda e já há malta a pressionar para que haja procriação. Minha gente, tenha calma! Se querem bebés tá a faze-los e a deixar os outros sossegados.

 

8. Ah então não vão dar um irmão ao menino? Coitadinho vai crescer tão sozinho

 

A criança ainda não tem um ano, o útero ainda está a sarar da cesariana e já há quem pergunte se estamos com coragem para ir ao segundo, se queremos mais, se vamos dar um irmão. Vão contar como queriam ter tido mais filhos, mas que não conseguiram engravidar, porventura porque andavam derreados demais para ter tempo para os fazer. Quem tem filhos sabe bem que uma pessoa às vezes, até para isso se vê à rasca. A criança não vai ficar com uma deficiência porque não tem irmãos, em princípio pode vir a ser uma pessoa perfeitamente normal, com a vantagem de que tem mais probabilidades de ter pais que se mantém sãos e é certo que não vai comer carolos, a menos que seja vitima de bullying na escola.

 

Desta feita, conhecendo as dificuldades e tendo já conjeturado todos os cenários macabros que conseguia, decidi solicitar apoio a algumas pessoas para que me dessem dicas sobre como ultrapassar um jantar de família. Constatei que a maior parte dos meus leitores são aquilo a que a gíria jurídica chama de “uns tangas”. São capazes de contrair viroses que deixam as tripas em estado calamitoso só para não porém o befe num jantar de família. Isto é malta que sabe do que fala. A outra parte sugere a ida, mas regada a muita pinga. Isto mostra porque motivo esta malta por aqui anda, tudo uma cambada de alcoólicos, sempre agarrados ao tinto.

 

Maneiras que não houve oportunidade para beber porque a gripe não o permitiu e a desculpa da disenteria não pegaria porque fiquei sentada a 1 metro da casa de banho, assim aproveitei para fazer observação e escrever este maravilhoso texto. Nada se perde, tudo se transforma. Digam lá que não é uma maravilha?

 

 

(nota de apoio à leitura: este texto não pretende ofender as famílias de pessoas muitas, nem quer mandar larachas sobre a senda do cumprimento pelas crianças, cada um lá sabe da melhor forma de educar os seus, eu cá faço o melhor que posso pelo meu e reflito apenas a minha forma de estar na vida nos meus textos, não devendo estes constituir uma afronta a malta mais sensível ou epilética)

 

 

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