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Casa da Gorda

Casa da Gorda

05
Dez18

Marrar com o Christmas - abordagem única às expectativas natalícias

Gorda

Natal_01.jpg

(imagem retirada do Google)

 

 

Estamos em Dezembro e como é o primeiro Natal do blog achei que seria engraçado dedicar este mês a esta maravilhosa época de harmonia e amor. Por isso mesmo tinha pensado em começar com uma crónica sobre as expectativas vs realidade do Natal, uma coisa nunca antes vista em que eu relatava aquilo que a maioria de nós espera do Natal, com todos os sininhos e a família unida e o jantar em que toda gente sorri como se estivéssemos num anúncio de uma pasta dentífrica, e depois contrapunha com o descabelamento que pauta a realidade, deixando-nos sempre em estado de caos e desejosos que isto chegue tudo ao fim (por regra bastante bêbados). Magiquei cá na minha tola o que havia de dizer e como queria de compor o texto, mas depois escorreu-se-me que isto está mais do que visto, todos os anos alguém fala do que as pessoas normalmente sonham para o Natal e depois o que realmente acontece.

O que é certo é que todos (ou a maioria, vá!) contamos com aquele Natal que faz lembrar uma publicidade dos anos 80, onde inclusivamente achamos que vamos estar a ver tudo assim meio para o desfocado porque a resolução das câmaras não era grande coisa (para as pessoas que têm algumas dioptrias isto é possível, basta remover os óculos ou as lentes, agora para quem vê bem é um grande esforço…).

A verdade é que estamos cansados de saber que as coisas nunca vão ser como nos sonhos cor de rosa, em que as compras de supermercado são entregues por um jovem musculado em tronco nu (apesar do frio), jovem esse que viria montado num unicórnio branco e rosa, que, ao partir, largaria bufas com perfume a alecrim, carregadas de purpurinas douradas. A realidade acerta-nos como uma cadeira de três pernas na tromba e depois a única coisa que nos apetece fazer na noite da consoada é beber.

Por isso decidi assumir as coisas como elas são, borrifar-me para as expectativas e, marinando-me num espírito de rena Rodolfo, guiar-vos por entre as agruras natalícias, apresentando as sugestões que proponho e implemento (nada mais do que execução direta e imediata) nas minhas próprias celebrações.

 

Cá vai azevia:

 

 

1. Prendas

(ou presentes se o leitor/a for da linha)

 

Depois dos 12 vamos passar a receber mais dinheiro que presentes (é o primeiro confronto com a vida); quando entramos na idade adulta mas ainda não somos casados, não temos casa ou filhos, o mais certo é recebermos vouchers para comprar roupa, porque ninguém sabe os nossos gostos e toda a gente nos acha esquisitinhos, proferindo - quando não estamos - a célebre frase “uma pessoa nunca sabe o que lhe dar, não gosta de nada”; vamos continuar a receber as peúgas da raquete que as tias tesas nos oferecem, a grande diferença é que com a idade vamos aprendendo a dar-lhes valor, porque em crescidos temos menos tempo para ir à praça e aquilo é do mais quentinho que há para os presuntos; depois de comprarmos casa vamos receber velas e bugigangas para enfeitar o lar (forte nas molduras, se uma pessoa pendurasse aquilo tudo não se via a cor da parede; e forte nos fondues, normais, de chocolate, de queijo, you name it); depois de termos filhos deixamos de receber o que quer que seja porque “afinal de contas o Natal é das crianças”; e quando entramos nesta última fase sabemos que, se não investirmos nós numa merda qualquer que nos agrade, ficamos a chuchar.

 

Resolução

Este ano vou comprar uma prenda para mim. Está escolhida. Vou à loja, vou comprar, vou mandar embrulhar e vou pôr ao pé da puta da árvore. Já sei que alguém vai dizer “aí esta mulher está sempre com ideias” e a minha sogra vai pensar “em vez de comprar mais alguma coisa para o menino gasta dinheiro com ela”, eu vou-me estar a cagar porque vou estar demasiado bêbeda para pensar nisso.

 

 

2. As filas para embrulhar prendas

 

Falar de Natal e não falar de prendas é muito século I e menino nas palhas deitado. Pelo que vamos ser fracos e ter consciência de que: Natal = prendas + tios bêbados + desentendimentos entre cunhadas + sogras a moer o juízo + pais nostálgicos + filhos ligados à corrente à espera que o cabrão do velho gordo desça chaminé abaixo (mesmo quando a casa não tem chaminé, aaaahhhhhhh, as crianças são o melhor do mundo) + alguém contrariado e bêbado vestido de Pai Natal para horrorizar as crianças + noites longas a montar brinquedos que afinal não vêm com pilhas, resultando em birras do camandro até os miúdos adormecerem por desistência.

Como temos mesmo de falar de prendas, temos de falar das filas para embrulhos. Quem não gosta de ir ao hipermercado comprar aquele presente grandão, que é a prenda das prendas para o filho que um dia vai pagar aquele lar e, quando se dirige para as bancas onde estão duas senhoras a ganhar para fazer aquilo que eu fazia de borla para a família toda em 93 (respira que a frase vai longa), e percebe que há 3 carrinhos de morcões carregados de merdas para embrulhar? (Pausa para visualizar tudo, relembrar Natais passados e deixar que o horror vos largue o corpo). Tentamos convencer-nos de que só vão embrulhar aquele puzzle, mas rapidamente chegamos à conclusão que vão embrulhar tudo: as caixas de 3 bom-bons, as garrafas de vinho de 3€, o bacalhau e até as couves levam uma fita vermelha.

Dá vontade de pegar no bacalhau por dessalgar e dar lambadas com o bicho à pessoa até ela ficar em estado inanimado por excesso de sódio.

 

Resolução

Nada a temer pessoas. Façam o seguinte: vão ao hipermercado, comprem um rolo de papel que custa para aí euro e meio (uma porrada de dinheiro pá, 200 escudos) e um rolo de fita cola. Cheguem a casa e envolvam o presente no papel. Fim. Custa muito pouco e poupa os nervos para lidar com a ceia.

 

 

3. As decorações de Natal

 

Quando eu era miúda os meus pais tinham em casa uma árvore com meio metro de altura e meia dúzia de enfeites, depois a minha mãe comprava um boneco de chocolate por cada pessoa da família, punha umas fitas cujas cores não combinavam, espetava com a árvore em cima de uma aparelhagem daquelas que tinham uma porta de vidro, com gira-discos em cima, espaço para cassetes e uma espécie de armário cá em baixo para guardar os discos de vinil (lembram-se? Não? Também não interessa); e estava feito. A minha tia comprava um pinheiro de verdade que dava um trabalhão do caraças a levar para o terceiro andar (sem elevador) e obrigava o desgraçado do meu pai a ajudar a acartar com aquela bosta escada abaixo quando o maldito definhava. A minha mãe passava-se porque o meu pai ajudava a minha tia e depois a minha mãe tinha de ajudar o meu pai com as mazelas nas costas. Nessa altura as coisas eram simples. A minha mãe era prática, a minha tia complicava, o meu pai estava no meio, a minha tia cagava para o que toda a gente pensava, a minha mãe ofendia a minha tia quando ela não estava e quando nos encontrávamos na noite de Natal gostávamos todos muito uns dos outros e não se falava nisso.

Agora é um stress pegado.

Senão vejamos: há árvores verdes, roxas, cor de rosa, brancas, densas ou mais nuas, com brilhantes e sem brilhantes, a dar ideia que têm neve e com pinhas; há bolas de natal de vidro, de metal, de madeira, de tecido, com brilhantes e sem brilhantes, bolas de natal com a fotografia da família lá dentro (com ou sem os cães….aiiiiii, as escolhas); sinos; Pais Natais de pano e de vidro, Pais Natais de pôr à porta e de pendurar na árvore, Pais Natais que dançam; há presépio de todos os tipos de feitios.

Enfim não há cu que aguente.

 

Resolução aplicada

Comprar 8 bolas de uma só gama com as cores preferidas, a saber: branco, dourado e vermelho; comprar duas fitas brancas que enfeitam e parecem neve; comprar uma estrela para o puto pendurar e a gente tirar uma foto que faz parecer daqui a vinte anos que tínhamos um espírito de natal do quarailho; borrifar no presépio, afinal de contas para mim ainda não há provas suficientes que o menino sempre foi deitado nas palhas e eu não gosto de ter em minha casa pessoas que não são de família. Natal é para os mais próximos e eu nunca fui apresentada formalmente ao José e à Maria. Votos que tudo corra bem lá nas palhas, mas já me chega o tio Alfredo com os copos.

Menos é mais ou com menos de 20 Euros fiz a festa.

 

 

4. Marcar jantar de Natal

 

Perfeito mesmo é a pessoa (a própria) ser filha única e que arranje um cônjuge filho único também. Dessa maneira toda a gente se junta na mesma casa para festejar o Natal, a pessoa sofre, mas gera-se o equilíbrio porque nós levamos com os sogros, mas eles/elas também. Agora a calamidade ocorre quando a pessoa tem irmãos, mais concretamente 3 como é o meu caso. Piora quando os irmãos são casados com pessoas que têm também ligações fraternas a acautelar. Arranjei de facto um marido filho único, mitigando uma parte dos problemas, mas nada posso fazer quando à irresponsabilidade dos meus pais por terem tido 3 outros filhos antes de mim.

Quem tem irmãos vive o fenómeno do “deixa-me ligar primeiro para que o tenha de comprometer a vir à minha casa e assim conseguirei uma consoada plena de amor e harmonia com todos cá em casa para dar a ideia ao puto que isto é que é Natal” (e sim, isto é pensado sem pausas para respirar porque temos de ser rápidos no gatilho do contacto).

Ligamos e raras vezes vamos a tempo, especialmente se formos os mais novos (que é o meu caso), já há um histórico de jantares em casa de outros, antes de nós termos tido o desplante de crescer, tornarmo-nos pessoas adultas que até casaram e tiveram filhos. Tamos uns quexidos pá!

Invariavelmente há lugar a um momento de danamento porque “é sempre a mesma merda!”, seguido da consciencialização de que vamos aturar outra vez a lamuria dos pais que “nunca conseguem passar a consoada com os filhos todos”.

 

Resolução

Cagar de alto para o assunto. Ou seja, este ano planeio: ligar e dizer logo “maneiras que vais para casa de sicrano, verdade? Então é só para dizer que, caso mude alguma coisa podem jantar aqui, há bacalhau, couves e 3 filhoses que não estou para esbanjar dinheiro com comida e depois deitar fora!”. Assunto arrumado, quem quiser ir vai, quem não quiser não vai. Assim como assim vou estar metade do tempo a beber e a outra a montar brinquedos para os quais não tenho pilhas.

 

 

5. O jantar de Natal a acontecer

 

Vão estar os sogros, em principio o pai. Com sorte um dos irmãos até aparece porque afinal os cunhados vão passa o Natal fora este ano, porque leram um artigo qualquer e querem fazer uma coisa diferente. A sogra vai-se queixar do ponto de cozedura das couves, de que o bacalhau ainda tem muito sal “ou então alguém lhe deu uma posta muito alta”, que as filhoses que ela faz são melhores que as de compra e o raio que a parta. O sogro vai beber um copito para deixar de ouvir a mulher (ou ouvi-la com outra melodia). O pai vai estar a virar uns copos de tinto “porque não consegue ter os filhos todos juntos pelo Natal, nem os netos…”. A cunhada presente vai tentar encontrar tudo o que pode para fazer pouco das escolhas da pessoa porque não-sei-quem faz assim e não-se-que-outro faz de outra forma. E nem vamos falar na cunhada que tem uma irmã da mesma idade. Alô comparações permanentes! Porque as pessoas criam rivalidades e competições que só acontecem dentro das suas cabecinhas tolas. O puto vai andar às voltas com os primos dando cabo da casa toda, questionando a cada 10 minutos quando é que recebe os “pejentes”. Eu vou remeter a responsabilidade para o Pai Natal (porque se o gajo descobre que sou eu que pago, rebenta-me com a tola) e o primo mais velho vai logo foder o esquema dizendo “Ó tia o Pai Natal não existe, toda a gente sabe isso”. A pessoa fica capaz de lhe arrear uma porradona ou de o pendurar o estendal, ao frio, por quarto de hora, só mesmo para arejar ideias.

 

Resolução

Beber. Beber. Beber mais um pouco. Encontrar forma de dizer que o Pai Natal ligou a dizer que passa mais cedo, porque quando os putos começam a abrir os presentes as pessoas focam-se nisso e deixam de comentar o que as rodeia. Abrir os presentes e fingir que estamos muito atentos/as a montar os brinquedos, até que chega a hora das pessoas irem para suas casas. Nós ficamos com a vida na merda, porque os putos ganham uma energia suplementar quando recebem as prendas e arrastamo-nos até para lá da uma da manhã a brincar à Patrulha Pata ou aos PJ Masks.

 

 

Resumo: A harmonia geral

 

No fim tudo acaba na mesma merda, mas há muito amor, porque há sempre vinho que chegue para que uma pessoa, em vez de mandar a sogra ir sentar a peida num cato, possa preencher a faringe com liquido bordeaux desejando que tal informação se lhe apague da memória. Há sempre harmonia porque a pessoa se põe numa espécie de vinha de alhos com cristais e óleos essenciais e até nem vai acabar a consoada a gritar porque está na hora de ir para a cama e “amanhã logo brincas mais, para o ano fazemos como era no meu tempo, só abres os presentes no dia seguinte, vaizaver!”.

 

É isto. Natal é amor. Natal é harmonia. Natal é família. Natal é, depois de bebermos muito, um trenó levado por uma rena de nariz cintilante que larga caganitas de cristal quando cavalga em direção ao firmamento com um velho gordo de léxico limitado às costas.

 

 

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