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Casa da Gorda

Casa da Gorda

27
Set18

Meu querido Gregório Duvivier

Gorda

Estou lhe escrevendo esta carta tendencialmente idiota porque ambos sabemos que ela não vai ser lida, ou melhor, eu sei que não vai ser lida, você não sabe sequer que ela existe, o que é algo que me deixa bastante descansada.

Pra me fazer entender melhor – e porque tenho a mania que sou engraçadinha (o humor é o refúgio das gordas, já que a salvação só a encontramos no açúcar e no pão com manteiga) – decidi escrever essa missiva abusando dos acentos, árrastando as vogáis e exácerbando as consoantes. Dessa forma acredito que vai párecer que estou escrevendo num brásileiro que de facto não existe. Assim poderei também dar inúmeros erros que toda a gente vai achar que foi de propósito.

Pensando bem, talvez fosse boa ideia fazer meus textos sempre em brásileiro inventado – seria uma optima solução para não voltar a receber comentários de ódio da Tropa de Elite da Gramática, isso é gente fanática pela língua que fica capaz de arrancar seus próprios cabelos quando lê uma palavra com erro. Tenha cuidado com eles, estão por todo o lado e estão sempre átentos.

É isso, escrever num pseudo-brásileiro poderia parecer mais engráçado e menos ignorante.

Qui é qui cê acha?

Acha bem, né? Eu sábia.

(Tá ficando egoísta esse texto, pô! Não era essa a intenção)

Falando de coisas mais “nossas”, estou terminando de ler seu último livro e fiquei com uma vontade doida de dizer algumas coisas pra você, especialmente áquelas que eu sei que nunca te diria. Prá começár acho você brilhante. Mesmo sem purpurinas. E isso me dá uma baita de uma raiva, porque eu sou uma pessoa que é invejosa. Queria ser esperta que nem você e escrever com esse talento.

Outra coisa que eu percebi é que a gente tem um monte de coisa em comum, por exemplo: ambos somos piquenos, eu de saltos altos sou do seu tamanho; você é brasileiro e está acostumado com o calor, eu nasci no verão e meu ascendente é o sol; você escreve e vive disso, eu gosto de escrever e por isso meu chefe me manda redigir todos os relatórios de merda que ele não quer fazer.

Você já viu como a gente não é párecido? Que loucura.

Sempre achei que as pessoas mais novas ainda têm algo que aprender comigo – acho que isso acontece porque meus pais nunca me deram um irmão mais novo e eu arrasto esse trauma comigo, na terapia ainda não chegamos nessa fase -, mas lendo seu livro foi você quem me ensinou. O que é uma porra porque eu levo 3 anos de avanço na vida.

Vai daí e eu fico pensando: foi sua vida que deu certo ou a minha que deu errádo?

A vida profissional, claro! Que a vida pessoal eu prefiro a minha mil vezes.

Admiro muito um português seu amigo, o Ricardo Araújo Pereira. Já li todos os livros dele e sigo as crónicas. Nunca conheci ele. O que é bom - pra ele - porque eu não teria nada de interessante para lhe dizer.

Ainda assim às vezes penso que um dia estarei no corredor das águas de um qualquer hipermercado, tentando encontrar uma solução pra pegar a última garrafa de Evian que está na práteleira mais alta (não chego nela nem de salto); nesse momento chega Ricardo que me pergunta “posso ajudar?” e eu respondo (esquecendo a garrafa de água) “Boa tarde, gosto muito do seu trabalho. Me diz uma coisa: você alguma vez teve um caniche branco? É que eu acho que vi você uma vez, num hospital veterinário, com um caniche branco no colo”. Aí ele vai dá a garrafa pra mim e vai embora desejando o resto de uma boa tarde. Eu vou desistir de comprar a garrafa de água, porque quando faço figura de idiota tenho tendência pra perder a sede.

Se você encontrar com o Ricardo, não esquece de perguntar pra ele se ele teve um caniche branco. Caso o bicho se tenha chamado Benfica, lhe diga que isso não é nome que se dê pra um cachorrinho de dondoca.

Acho que é isso.

Vou terminar o nosso livro (seu porque o escreveu, meu porque o comprei).

Um beijinho caprichado.

 

Estou a terminar de ler o livro "Caviar é uma ova" (do Gregório Duvivier), estou a adorar e aconselho vivamente a sua leitura. Podem comprar em qualquer livraria. Podem também comprar diretamente na Tinta da China.

Caso tenham oportunidade, podem também passar por Óbidos nos próximos dias e ir ao FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos. No dia 30 podem assistir à apresentação do último livro do RAP e ainda ao "Você é o que lê", ao vivo, com a participação de Gregório Duvivier, Maria Ribeiro, Xico Sá e Matilde Campilho. Eu sei que adoraria ir, mas a vida não permite, o que é uma valente de uma porra.

 

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