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Casa da Gorda

Casa da Gorda

13
Set18

O meu livro é a última página na biblioteca do deserto

Gorda

Bom tarde estamos aqui todos presentes para a apresentação do quase-livro da Odete Escrivaninha-Penico. Vamos falar um pouco com ela.

 

(entrevistador foca a atenção na quase-escritora)

 

- Olá Odete, deixe-me que lhe diga que estamos muito empolgados com este seu novo livro. Como está a ser escreve-lo?

- Bom, honestamente não sei, porque ainda não comecei. Tenho apenas um draft do rascunho da ideia.

- Excelente. Parece ótimo.

- É no mínimo brilhante.

- A sério?

- Claro que sim. Como todas as minhas obras é acutilante, assertivo, certeiro; enfim, absolutamente brilhante.

- E como é que sabe isso sem mesmo ter começado?

- Porque o rascunho está escrito numa daquelas canetas de gel que tem purpurinas. Foi a minha conselheira espiritual que ma deu e disse-me que todas as minhas ideias iriam brilhar.

- E acertou?

- Claro que sim.

- Então quando é que tenciona começar a escrever a história?

- Estou à espera que a inspiração se abata em mim. Um livro brilhante, acutilante e assertivo não se escreve de qualquer maneira, é preciso o momento e o sítio certos.

- E como tem sido o seu processo de escrita?

- Bom, tenho levado o computador comigo para todo o lado. Já o levei para a sala, para a cozinha, para a varanda, para o jardim, mas foi no dia em que tive disenteria e o levei comigo para a casa de banho que mais senti aquele frio na barriga.

- Mas isso também pode ser das cólicas…

- Pode, mas eu acredito que foi inspiração para o livro.

- Então tem escrito na casa de banho? Fantástico.

- Tenho estado a tentar encontrar a hora. Um autor não se inspira de qualquer maneira, tem de encontrar a hora certa para o livro sair. Não queremos que seja qualquer coisa.

- Estamos ansiosos. Diga-me, o seu livro anterior teve muito sucesso, estava à espera?

- Claro que estava. Como eu disse no dia da apresentação é um livro acutilante, assertivo, certeiro; enfim, brilhante.

- Recebeu essa critica de outros autores, dos seus leitores ou de algum critico literário?

- Não. Fui eu que enjorquei a avaliação sozinha. Vejamos, se eu não achasse que o livro era tudo isto não o tinha sequer editado.

- Compreendo…é só que é um pouco estranho…

- O quê?

- Que tenha sido a Odete a avaliar o seu próprio livro, seria interessante ouvir a opinião de outras vozes.

- Eu não preciso de outras vozes. A minha voz fala mais alto que todas as outras. Não podemos viver subjugados às opiniões alheias de pessoas que apenas nos querem no fosso, gente invejosa que critica sem sequer saber do que está a falar.

- Mas e a opinião dos seus leitores…?

- O meus leitores acharam o livro acutilante, assertivo, certeiro; enfim, brilhante. O meu livro é a última página na biblioteca do deserto. O único problema é que no meio do areal não há muito interesse pela leitura.

 

Vamos parar tudo para escolher uma carinha de sapo que demonstre o meu estado de espírito para esta resenha inventada, a qual resulta, de algo que vi e li e que me deixou assim como que:  (say whaaaaaatttt?!)

 

Vamos lá a ver. Portanto uma pessoa pega em si e decide escrever um livro, lança-se ao teclado do PC, martela, martela, martela, pimba, pimba, pimba.

A pessoa faz a revisão da obra e pensa para consigo "E pá ta bom. Tá forte." Arranja uma editora e faz ela própria (a pessoa) alguma publicidade. Afinal de contas tem de vender.

Até aqui estamos em casa.

Mas depois a pessoa diz, descrevendo o seu livro, que "É catártico, certeiro e acutilante". Ora sou só eu que acho que normalmente são os leitores que caracterizam os livros de forma tão assertiva ou serei apenas mais um daqueles portugueses medíocres que não sabe aceitar quando os outros têm uma auto estima alta. Muito alta.

Parece-me que gosto sempre quando mais a pessoa diz, no máximo, um: cá para mim está mesmo bom, ou bom vá, agora quem lê é que vai avaliar.

 

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