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Casa da Gorda

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Dom | 17.03.19

Os meninos não brincam com bonecas

Gorda

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- Mãe posso escolher um brinquedo para levar?

- Podes, mas tem de ser uma coisa pequena e barata. Os brinquedos grandes e caros são especiais e para ocasiões excecionais, como o aniversário e o Natal.

- Tá bem. Posso levar o que eu quiser?

- Podes.

E aponto para todos os corredores de brinquedos.

- Mas isso não. As bonecas são para as meninas.

- Isso não é verdade. Os brinquedos são para as crianças, sejam elas meninas ou meninos. Não há bonecos de meninas e bonecos de meninas. Isso não faz sentido.

- A Maria* tem um bebé que faz xixi e cocó.

- Ai sim?! Gostavas de ter um.

- Sim. Achas que posso levar um bebé?

- Acho que podemos ver se encontramos um que seja pequeno e barato.

- Boa! Vamos.

Encontramos um boneco careca pequeno e barato. Era mesmo aquele.

- Vamos, vamos pagar que eu vou dar de comer ao meu bebé. Mãe, sabes que temos de cuidar bem dos nossos bebés?

- Sei filho, é isso que tentamos fazer contigo.

(é possível que eu tenha melhorado um pouco o português para efeitos do texto)

 

Continuámos o nosso passeio pelo Centro comercial com o nosso rapazola que trepa tudo e gosta de rebentar com coisas, que conjetura tramas incríveis e sonha com espiões, agarrado a um boneco careca do tamanho de um palmo.

Na caixa a duvida se seria para oferta.

Nas filas das outras lojas miúdos mais velhos que fingiam conter um riso idiota porque havia um menino com um bebé de brincar pela mão.

Estamos em pleno século XXI, lutamos pela igualdade de direitos entre géneros, milhares partilham frases intrincadas que pretendem passar a ideia de que homens e mulheres merecem o mesmo e que, apesar de serem géneros diferentes, não devem ser apartadas tarefas e papeis sociais para um e para outro. Ainda assim, infelizmente vigora a ideia de que há coisas para menino e coisas para menina na mais básica das acepções, como os brinquedos que os entretém.

Estas acepções não nascem connosco, são-nos entregues pelos que nos educam, pela sociedade em que nos inserimos que nos transmite que, se fizermos determinada coisa, é provável que sejamos uma outra.

Uma premissa adaptada aos símios, que nos acompanha desde o principio dos tempos. Mas depois temos reticências em aceitar que somos primos dos macacos.

 

Algures no tempo e nos espaço passou a ser aceite que uma menina brinque com um carrinho, "é Maria Rapaz" dirão, acompanhando a expressão com um encolher de ombros. O aceitar relutante de que a criança talvez não queira ser uma princesa da Disney. Contudo a mesma aceitação - ainda que com reservas - não se aplica a um rapaz. Um menino não brinca com bonecas. Afinal de contas toda a gente sabe que dar de comer a um Nenuco quando temos cinco anos é meio caminho andado para que gostemos de pénis em adultos. Não é verdade? E quanto mais brincamos com os Nenucos, para agudizamos esse apreço. Pelo que é preciso proteger o macho que trouxemos ao mundo, impingindo-lhe carros, futebol, luta livre, guerra e bonecos com aspeto de sanita. Tiros sim senhor, agora limpar o rabo a um Nenuno onde é que já se viu?!

Os pais preocupam-se em transparecer que o filho é macho e as mães, as mesmas que se queixam que os maridos não ajudam em casa, que deixam os copos por lavar dentro do lava loiça, que não sabem passar roupa e que fogem quando têm de trocar uma fralda cagada; essas pegam na mão dos filhos e dizem "parvoíce, isso é para meninas, escolhe outra coisa!".

 

A igualdade de direitos e o respeito entre homens e mulheres não vai acontecer à força de frase idiotas partilhadas nas redes sociais, para que os amigos nos achem muito evoluídos no nosso tempo, a igualdade nascerá da redefinição de conceitos retrógrados na nossa sociedade, no dia em que passar a ferro não for uma tarefa de mulher, no dia em que se deixe de enfiar goela abaixo dos nossos filhos homens que o papel deles não se limita a ver a bola ou a dar tiros com pistolas de plástico, que podem e devem limpar o chão, passar a roupa e trocar a fralda aos filhos. Porque os nossos filhos, hoje pequenos, amanhã serão homens que vão ter se saber que não há tarefas que competem apenas às mulheres.

E se gostarem do mesmo sexo gostarão porque nasceram assim, não porque brincaram com uma Barbie. Essa ideia neandertal de que a homossexualidade se aprende. O conceito dos néscios mal instruídos (redundante eu sei, se são néscios são mal instruídos, isto sim, está implícito).

O problema está aí, no medo de que se expurgue o macho à força do cor-de-rosa.

 

Sou mulher, cresci numa casa de homens, vivo numa casa de homens, gosto de carros e de desportos masculinos e nunca senti qualquer vontade de ter outra vagina na minha cama. O meu foco de atração sexual é e sempre foi centrado em homens, por incrível que possa parecer aos que acham que as mulheres, para serem senhoras têm de ser princesas sensíveis, que não usam vernáculo e não podem dar um traque.

 

Quando penso no meu papel de mãe a criar o meu filho, sei que quero o melhor para ele, quero que seja uma boa pessoa, com princípios e com respeito pelos outros, quero que seja um bom homem que respeita a pessoa que escolher para partilhar a sua vida, quero que seja um ser humano dotado da capacidade de pensamento e capaz de usar esse músculo tão importante que é o cérebro. Não quero criar um bruto, que reage como qualquer outro animal irracional.

As bonecas são de quem quer brincar com elas e isto é algo que deve ser ensinado aos nossos filhos e às nossas filhas. Só assim a sociedade pode evoluir. Guardem lá as frases feitas de redes sociais.

 

Agora que acabei de escrever, ou que me cansei de carregar nas teclas porque seria capaz de falar deste tema horas a fio, sinto tristeza por mim. Afinal de contas este é ainda um tema sobre o qual me ocorre escrever e só terei evoluído o suficiente quando me for indiferente o pensamento dos outros sobre este assunto. No dia em que não me pareça que tal seja necessário, nesse preciso instante, talvez tenha chegado ao patamar de evolução que tanto almejo.

 

*Maria é o nome ficticio de uma colega de escola do meu filho.

 

 

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