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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Seg | 24.06.19

Reformados às compras

Gorda

 

 

Há uns tempos um amigo nosso contava-nos que um conhecido seu tinha aproveitado uma oportunidade de trabalho na Suécia e que estava encantado com aquilo, para quem estava habituado às miudezas nervosas do macho latino, aquele sítio até custava a entranhar os seus costumes. As pessoas não andavam à zaragata no trânsito, ninguém tentava passar à frente nas filas, era como se o conceito de chico-espertismo tivesse ficado para trás com o sol. Esse amigo tinha-lhe contado que a princípio tinha estranhado a forma de as pessoas estacionarem os carros ao pé do emprego, é que em vez de ocuparem os lugares perto da porta, as pessoas começavam por estacionar nos espaços mais afastados e aqueles que ficavam a passo e meio da entrada só eram preenchidos por quem chegava em cima da hora ou atrasado. Após alguns meses de estranheza lá perguntou a alguém que lhe explicou que as pessoas faziam por deixar os lugares mais próximos para quem chegava tarde, para que essas pessoas não tivessem de acumular o stress do atraso com a dificuldade de arranjar lugar e ter ainda de andar muito aumentando o tempo de atraso. As pessoas pensavam nas outras e em si ao mesmo tempo, porque se um dia lhes calhasse teriam o mesmo cuidado dos demais.

Isto é mais do que civismo, é boa educação e consideração pelo outro elevado ao cubo.

Esta história ocorre-me sempre que vou comprar as minhas mercearias ao fim de semana, faço-o às "horas de ponta" porque não tenho outra escolha. Durante a semana trabalho das nove às dezoito e não tenho oportunidade, entre a casa, o trânsito, o trabalho e um filho, de ir ao supermercado tratar do que é necessário. Por isso lá vou eu e todos os pobres que, como eu, têm esse tempo para tratar das tarefas mundanas de quem não tem empregada para todo o serviço. Sabemos que temos de ir com paciência e que vamos apanhar filas, sabemos também que vamos encontrar os clientes mais impacientes de todos: os reformados. Nada contra os velhotes reformados, gosto muito, tenho três. Mas tendo todo o tempo livre e podendo optar por fazer as suas compras em horários de menor azáfama eu não entendo o porquê de tratarem destas tarefas quando sabem que vão encontrar um mar de gente. As prateleiras estão sempre cheias, há sempre produtos e as promoções começam durante a semana, pelo que me resta olhar e perguntar: porquê, meu Deus? Porquê?

Podem dizer-me que é pelo convívio, que é pelo hábito, que é pela rotina, que é porque podem e fazem o que querem. Mas eu não entendo. Pelo convívio não é, a menos que a pessoa tenha um conceito de convívio completamente deturpado. Parem para olhar para os velhotes reformados às compras e vão perceber que, em 95 % dos casos, estão sempre a reclamar. Ou porque já acabou o produto, ou porque a senhora do peixe não tem tempo para lhes dar atenção e "é sempre a despachar", porque a fila é grande demais, porque a fila anda devagar, porque só há carrinhos muito cheios e eles só têm o pão e mais vinte e cinco cangalhos para pagar. Quase nada. Há uns anos os meus sogros vieram almoçar a minha casa e o meu sogro estava particularmente esbaforido, quando lhe perguntámos se estava tudo bem explicou-nos que tinha ido comprar não-sei-quê ao hipermercado e tinha esperado imenso porque a caixa andava devagar. Eu respondi-lhe "há pouca coisa mais irritante que um reformado com pressa". É verdade. Têm tempo, são donos dos seus horários numa altura em que podem tratar dos seus afazeres a praticamente qualquer hora do dia, porque raio hão de se meter na boca do lobo?

Por hábito também não me faz sentido, compreendo que possa ser o caso, mas os hábitos ganham-se e mudam-se quando é necessário. Pensem no Facebook, na altura dos nossos pais não havia, mas vamos lá a ver se eles não se habituaram a abrir conta e a partilhar ramos de flores e fotografias com os netinhos e o catano. Habituaram-se. Da mesma forma que se habituaram à medicação e às dores nas artroses. Faz parte da evolução humana, a adaptação dos hábitos ao meio.

Então mas a pessoa pode ter precisado de alguma coisa que se esqueceu! Podem dizer-me, e é verdade, mas isso simboliza meia dúzia e almas, não é dois velhotes raivosos por cada caixa.

No fim parece-me sempre que é uma pura questão de civismo e respeito pelo outro, se eu tenho a possibilidade de comprar as minhas coisas quando a maioria das pessoas que trabalham não pode, então eu vou nessa altura, chateio-me menos, ando à vontade, demoro onde quero e não sou empecilho na vida alheia. Facilito a minha realidade e a dos outros.

Mas isso obrigava a uma mudança de abordagem ao mundo e com o prognóstico de fim à vista as pessoas acham que ou reclama agora ou então, de facto, irão calar-se para sempre. E quem não quer levar riscado da bucket list o irritar de uma fila de gente para comprar duas embalagens de fraldas anatómicas?

 

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