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Casa da Gorda

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11
Set18

Regresso às aulas com pinta - na perspectiva de um encarregado de educação moderadamente revoltado

Gorda

Quando eu era miúda regressar às aulas não era um acontecimento, era uma realidade certa transportada pelo mês de Setembro. Aliás, a bem da verdade, não me lembro de alguma vez me ter sido colocada a questão “então quando é que é o regresso às aulas?”; talvez porque, quando eu era miúda, as pessoas se demonstrassem mais preocupadas em saber “quando é que começa a escola?”, o que, parecendo que não, até é bastante diferente, porque uma coisa pressupõe o regresso a algo que já se conhece, e a outra o começar de algo novo.

Pode dizer-se que o meu irmão regressou às aulas mais do que uma vez, atendendo a que chumbou uns quantos anos, pelo que regressava ao que já conhecia. Já no meu caso, que sempre fui absurdamente inteligente e sempre passei de ano, começava sempre qualquer coisa nova.

 

Em Setembro, normalmente mesmo em cima do joelho, que é como quem diz quase na véspera de começarem as aulas, lá se encomendavam os livros na papelaria da D. Odete, que não nos pedia para deixar sinal porque sabia que lá íamos comprar o passe e se ofendesse a clientela com tamanho desplante eram menos 3 passes que vendia.

 

A mochila da Monte Campo do meu irmão serviu para mim e a primeira vez que cheguei a casa com ela cheia de marcas de ténis porque a pousei no chão e os génios da minha turma a pontapearam sem razão, a minha mãe arreou-me uns calduços porque aquela mala bem estimadinha tinha de dar até ao fim do 12º.

 

No meu tempo (esta expressão de velhote à porta da CGD que tanto sentido me vai fazendo) os miúdos não tinham um regresso às aulas com pinta, antes davam-se como sortudos porque tinham a oportunidade de ir à escola e estavam satisfeitos quando começavam um ano novo sem ter chumbado à pala da gramática e das equações.

 

Agora os miúdos têm panfletos divididos por várias secções, com as “escolhas” do seu youtuber preferido o que, é em si um certo contrassenso, porque se virmos alguns dos vídeos dos jovens youtubers ficamos com a sensação (certamente errada porque aqueles miúdos mexem com a internet que é um primor) de que o único sitio onde não meteram os pés foi na escola.

 

“Tudo para que os seus filhos tenham um regresso às aulas com pinta” dizem as letras grandes dos panfletos e das campanhas de publicidade, o que indicia que, para que os miúdos tenham uma vida porreira na escola têm que ser fixes e para isso é preciso ter pinta.

Pinta de quê é que já é outra palheta, mas pinta. Eu, por exemplo, sempre tive pinta de parva. Mas é sempre pinta.

 

Malas novas todos os anos, cadernos ao preço do ouro com os bonecos dos desenhos animados, estojos a condizer, borrachas, lápis de cor, até o queijo flamengo já tem origem em leite ordenhado pela Patrulha Pata, veja-se bem.

Tudo para alimentar aquelas cabecinhas de oiro que trouxemos ao mundo. Não os queremos frustrados, exigimos que sejam os mais fixes de todos. Os médicos, os advogados, os engenheiros informáticos do futuro. Deus nos livre de querermos que eles “sejam alguém” como os nossos pais sempre nos disseram a nós. Eles têm é de ser felizes, nem que seja a fazer vídeos da avozinha a dar peidos para uma garrafa de coca cola.

 

Bom regresso às aulas que eu cá vou começar ao trabalho.

 

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