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Casa da Gorda

Casa da Gorda

06
Nov18

Respira e inspira

Gorda

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Se tivesse de me descrever diria que sou uma pessoa ansiosa, excessivamente preocupada com tudo e mais alguma coisa, demasiado stressada com os temas grandes de ainda mais com os pequenos. Sou o tipo de pessoa que usa o humor em quase qualquer situação da vida, não porque tenho uma perspectiva doce e positiva, mas porque acho que de facto, às vezes, não há mais nada a fazer para além de rir disto tudo.

 

Há uns anos inscrevi-me no Yoga. Ia uma vez por semana porque quando me inscrevi não havia vaga para mais, depois surgiu disponibilidade e eu achei que uma vez já era alinhamento de energias em excesso. Às quintas-feiras à noite lá ia eu, fazíamos respirações, fazíamos exercícios de relaxamento, fazíamos uma espécie de contorcionismo que desafiava as articulações de uma pessoa que começa a sentir que não está a caminhar para nova, no fim, para relaxar, fazíamos um pouco de meditação. Assim como quem acaba uma refeição farta com uma boa sobremesa.

Tenho uma amiga que uma vez experimentou ir a uma aula de Yoga, dez minutos depois de estar a fazer hummmmmm levantou-se e disse para a instrutora “isto é tudo muito giro, mas eu não tenho pachorra para esta merda”, foi inscrever-se no Zumba.

A meditação, dizia-nos a instrutora, servia como exercício da mente, devia ensinar-nos a estar quietos, a concentrar a nossa tola em nada. Dispúnhamos de um menu de três metodologia de concentração, na primeira olhávamos fixamente para uma vela, até os olhos começarem a arder e a querer chorar, depois fechávamos as pálpebras e devíamos ainda estar a vez a chama, o objectivo residia na nossa capacidade de continuar a ver a chama e não a perder de vista. Na altura era-me difícil, fosse agora, depois de me ter habituado a estar horas de olhar fixo, como um falcão, a ver o puto no jardim ao pé de casa e a vela ia ser para meninos. O segundo método requeria algum estrabismo, isto porque tínhamos de fechar os olhos e tentar olhar para o ponto imaginário que tínhamos entre os olhos. Ora isto cansa fisicamente os glóbulos oculares, que não estão habituados a estar tortos (Graças a Deus Nosso Senhor!). A terceira metodologia - por sinal a que mais usávamos - era a que mais me agoniava. Começava a instrutora por dizer que éramos pessoas muito pequeninas, coisa que me deixava logo desconfortável, afinal de contas se há coisa que tenho complexo é do facto de ter pouco mais de metro e meio, ir para ali aliviar a mente e acabar anã era coisa que não me apetecia nada. Mas alinhava, já que ali estava deitada. Depois devíamos imaginar-nos deitados confortavelmente numa folha fofinha (que é coisa que nunca vi) e visualizar que estávamos a descer um riacho, embalados pela corrente. Este momento começou rapidamente a ser a minha maior agonia, ninguém pensava nisso, mas a mim ocorria-me que podiam abrir uma barragem qualquer e dar-se para ali uma enchente e a pessoa, distraída em cima da folha, dava consigo a debater-se para se agarrar a um ramo na berma. Tentava fugir dessa ideia. Mas então e se batesse com as costas num valente pedregulho? É que pensando que não os riachos têm sempre zonas menos fundas e essas têm sempre uns pedregulhos aqui e ali. Com o azar que eu às vezes tenho o mais certo era que fosse arrear uma porradona numa daquelas cabronas.

Por isso lá ia eu, agarrada às bordas da folha, olhos fechados e dentes cerrados, sempre a rezar para chegar ao fim daquilo intacta.

Quando chegava ao carro depois da aula estava mais stressada do que quando aguardava que a aula começasse.

Deixei o Yoga ao fim de um ano. Contorcia-me melhor mas continuava uma desgraçada ansiosa por tudo e por nada.

 

Há dois anos marquei uma consulta com uma terapeuta. Pediu-me que preenchesse um questionário antes de ir e eu, certa das certinhas mandei tudo preenchido. Até a parte dela.

Fui à primeira consulta, depois de falar a mulher desatou a dizer que tínhamos muita coisa em comum e falou-me dela. Não sei se isso era necessariamente bom. Mas deixei “rolar”. Mandou-me uns trabalhos para casa e pediu-me para voltar quinze dias depois.

Assim foi.

Quando lá chego espeta-me com uma imitação de Nenuco ao colo, mete-me à frente uma espécie de tripé com um pau branco atravessado que piscava luzinhas de várias cores de um lado para o outro. Eu falava e tinha de seguir as luzes com os olhos. Eu não sou uma pessoa boa a fazer muita coisa em simultâneo, pelo que estranhava aquela ideia de andar com os olhos de um lado para o outro enquanto falava. A determinada altura, quando parava de falar, assaltava-me a possibilidade de que talvez devesse fazer como os gatos e lançar-me às luzes. Aguentei-me.

Quando acabou o tempo a terapeuta desligou aquilo e eu tinha os olhos cansados. Sentia-me confusa e com os glóbulos oculares doridos de tanto exercício. Calhando em ver o Estoril Open tinha ficado com menos mazelas.

Não fiz mais nenhuma sessão. Aquele pau com luzes agoniou-me. Isso e a ideia que eu era um Nenuco de marca branca, mal vestido e careca. Porra, já me chega ser pobre na realidade, que na imaginação possa ser boa, rica e bem vestida.

Mantive-me ansiosa.

 

Há uns dias íamos no carro e o meu marido buzinou ao tipo que se atravessou à nossa frente, por pouco não batemos. Como qualquer bom idiota, o maltrapilho, em vez de fazer sinal de “desculpe” pela má manobra, optou por começar a fazer marcha atrás ameaçando que nos daria uma pancada no carro. Eu puxei do telemóvel, calhando o energúmeno repetir a brincadeira poderia filmar, porque se batesse eu não ia pagar. Insatisfeito saiu do carro e exigiu explicações por eu estar com o telemóvel na mão. Era um miúdo, nem barba tinha, mas estava cheio de si. Tão cheio, mas tão cheio que não cabia nele bom senso nem educação. Perguntei-lhe se ele queria que chamasse a policia. Não acreditou. Abri a porta para sair do carro e o meu marido segurou-me. “Não faças isso”, disse-me. Ia responder-lhe o que precisava de ouvir, afinal de contas o vidro estava fechado. Quando me viu disposta a sair do carro pirou-se para o carro dele. Não sei se foi o meu olhar ensandecido que lhe causou algum medo, se a possibilidade de eu ser uma daquelas surpresas que apesar de pequena e gaja tem um cinturão arco íris numa qualquer modalidade de Artes Marciais.

Fiquei mais chateada comigo do que com o traste de leite.

 

Agora ando a pensar que me havia de mudar para o campo, comprar uma casa num monte, sair de lá a cada quinze dias. Dedicar-me a estar por casa e a viver das alfaces e das cenouras que planto. O problema é que não tenho aquelas massas para dar de entrada.

 

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