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Casa da Gorda

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13
Nov18

Se a Gorda fosse jornalista: entrevista com A Mãe Imperfeita

Gorda

A Mãe Imperfeita.png

 

Às vezes tenho a impressão que vivemos num mundo idílico, em que, apesar das queixas para a condição financeira do português remediado e da falta de poder de compra para adquirir um balde de lixo perto do Marquês, todos vão de férias para praias paradisíacas, super felizes, espraiados à beira mar em poses que desafiam as leis da coluna, sempre acompanhados por frases que mais parecem ter saído de uma bufa mental do que de um pensamento.

Às vezes, enquanto mãe, sinto-me frustrada com o mar de compostura que me rodeia. Todas as outras mães parecem ir à manicura, ter os cabelos alinhados, mudas de roupa de lojas de marca, os miúdos sempre com camisas XPTO e um semblante descontraído de quem dorme 8 horas todos os dias. E eu, bem eu estive este fim de semana numa festa de aniversário num parque de diversões, a fazer força para me manter com um ar satisfeito por ver os putos aos berros e a correr descontrolados; tudo isto envergando Primark da cabeça aos pés, com o verniz das unhas ratado de lavar a loiça e o cabelo desgrenhado porque estava um temporal desgraçado e a componente capilar não resistiu.

 

É por tudo isto que adoro a minha primeira entrevistada. Para estrear esta sublime rubrica entrevistei A Mãe Imperfeita.  Sem merdas, com os filtros mínimos da boa educação, apresenta as coisas como elas são de verdade. Há alguns meses que acompanho o blog e a conta de Facebook e confesso-me uma completa viciada nesta mãe de dois que encontrou um escape para os dias lixados desta coisa de ser mãe.

Tenho quase a certeza que todas as mulheres que são mães já a conhecem, mas nesta entrevista vão ler coisas que até vos vão deixar com o olho esquerdo aos saltos.

 

A Mãe Imperfeita está em alta com um blog muito visitado, uma conta de Facebook com mais de 23 mil seguidores, uma conta de Instragram muito recente que já arrebanhou mais de 3500 seguidores e, como pièce de résistance, lançou em Novembro o seu primeiro livro “Os 10 Mandamentos de uma mãe imperfeita”. Eu já comprei, já li, adorei e recomendo. Sei que a mãe da Mãe Imperfeita a achou muito mal criada, mas eu, considerando as coisas que se me saem da boca, diria que até é bastante comedida.

 

Podem (e devem) comprar o livro nas livrarias do costume (eu ajudo: Wook, Fnac…) ou directamente no site da editora. Prometo que é gargalhada garantida.

 

À Mãe Imperfeita agradeço a paciência e a disponibilidade para, com todos estes desafios, ter respondido a 7 questões profundamente néscias. Espero que gostes do resultado final.

 

Deixo-vos então com a entrevista completa.

 

CG - Tenho por hábito chamar o meu filho de trafulha e mafioso (de forma que eu pessoalmente considero carinhosa), achas que ele pode vir a ter alguns traumas por causa disso? Às vezes penso que o deveria tratar sempre por você, dizendo-lhe “venha cá à mãe, querido”.

MI - E eu por acaso tenho cara de psicóloga? Além disso acho que trafulha e mafioso não são nomes ofensivos, são carreiras com futuro. O mais que te pode acontecer por tratares assim os putos é vê-los um dia sentados na Assembleia da República a decidir os destinos do país. Já eu, que trato o mais velho por macaco líder, estou a condená-lo a uma vida de líder de claque. E isso até pode nem ser mau financeiramente mas é capaz de ser socialmente menos bem visto.

 

CG - O meu filho não tem nenhuma peça de roupa da Laranjinha, achas que alguém me devia denunciar à CPCJ? Os teus filhos têm roupa queque de marca afamada? O quê? Eu quero comprar igual rebentando com o saldo do meu visa.

(esta é uma pergunta kinder, é só uma no titulo, são 3 coisas na realidade)

MI - Quando engravidei do primeiro era rica e não sabia e, por isso, fartei-me de derreter dinheiro em roupinhas caríssimas sendo que, metade delas, nunca chegou a usar. Lembro-me de uns bodies da natura pura a 28€ que usou três ou quatro vezes. E só de escrever isto fiquei com vontade de me açoitar. Há uns anos também comprei um vestido para a minha afilhada recém-nascida que me custou quase 100€ na Jacadi. E já estou com vontade de me açoitar outra vez. Agora a sério, os meus filhos têm a roupa do dia a dia (Primark, Zippy e assim) e depois têm meia-dúzia de peças melhorzinhas que usam quando saímos (o que acontece muito raramente). Mas nesta fase recuso-me a gastar fortunas em coisas que deixam de servir num instante. Até porque, infelizmente, o meu dinheiro é contado quase ao cêntimo e, mesmo assim, há alturas em que tenho mais mês do que ordenado.

 

CG - Para ti o que é melhor: público ou privado? É que tenho o miúdo no público e dizem-me que o miúdo pode vir a ter transtornos psicossomáticos porque há lá muitos miúdos pobres.

MI - E o teu não é pobre também? Se for rico tem cuidado porque o convívio com putos pobres pode ter efeitos secundários terríveis, tipo torná-lo mais humilde e empático ou fazê-lo perceber que há coisas muito mais importantes que o dinheiro. Também pode fazê-lo apanhar piolhos. Ai esquece, tenho visto agora nos blogues que os filhos dos ricos também apanham, a diferença é que as marcas oferecem o quitoso às mães deles. Quer dizer, acho que já não se chama quitoso mas dá para perceberes a ideia. Qual era mesmo a pergunta inicial disto antes de meter a pediculose ao barulho? Ah, sim, público ou privado, não era? Olha, onde eles forem felizes. No final do dia é só isso que importa.

 

CG - Segundo tive oportunidade de ler no teu blog, o teu filho mais velho é surdo, achas que essa condição resultou do facto de a Mãe Imperfeita consumir doçaria conventual todas as terças-feiras durante a gravidez?

MI - Só para dizer que não fizeste os trabalhos de casa. Eu sou celíaca e tive diabetes gestacional com necessidade de doses industriais de insulina. Passei as gravidezes a beber copos de água e a sonhar com Nutella. O puto saiu surdo porque foi vítima de incompetência no parto. Depois de muitas horas de sofrimento a médica que estava de serviço decidiu tentar três ventosas e uns fórceps e deixar o puto em sofrimento fetal agudo até o colega gritar que tínhamos de ir para cesariana emergente. E por favor não me digas que atendendo ao panorama tivemos sorte no facto da surdez ser a única sequela. Eu fico sempre com vontade de matar as pessoas que me dizem essa merda.

 

CG - Pelo que me foi possível investigar na conta de Instagram da Mãe Imperfeita, ao fim de semana fazes alguma pastelaria carregada de açúcar para toda a família. Considerando todo o mal que o açúcar faz e o vício que causa, não temes que os teus filhos se metam na droga por conta das tuas escolhas? Elabora.

MI - Espero que a minha pastelaria carregada de açúcar (e que é só ao fim-de-semana) os faça felizes e que a droga em que se metam seja o desporto. A sério, a paranóia com o açúcar dá cabo de mim. Os meus filhos ainda são pequenos. O mais novo só bebe leite e o mais velho, na loucura, come uma fatia fininha de bolo de iogurte ou uma bolacha Maria uma vez por festa. Mas sim, mais uns aninhos e passam a comer também os doces que eu faço, tal como eu e o pai comemos. Porque a comida também é felicidade e tudo é permitido se existir moderação.

 

CG - Não podemos ir embora sem que termines esta frase: Quando os miúdos ficam com os avós eu…

MI - Durmo! Mentira, os meus filhos nunca ficam os dois com os avós porque dão demasiado trabalho juntos. Portanto quando um fica com os avós eu fico a tomar conta do outro. E é isto.

 

CG - O que diz a tua carteira? 

MI - A minha carteira não consegue falar tal não é o estado de desnutrição em que se encontra. E se falasse o que dizia era “vê lá se arranjas cinco minutos para tirares daqui estes talões todos que estou praticamente a rebentar pelas costuras.”

Credo Gorda, fiquei cansada.

 

(também eu Mãe Imperfeita, também eu, que lido com isto tudo vai para cima de 35 anos, tu imagina o nível de desgaste do homem que me atura lá em casa...e eu nem bebo...fará se bebesse)

 

Muito obrigada por este momento de entretenimento e aprendizagem. Desejo profundamente que o teu livro tenha muito sucesso e que venda, no mínimo, mais duas paletes de livros que a Bobone.

 

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