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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Dom | 12.05.19

Se soubesse tinha levado o meu pai

Gorda

 

 

A minha mãe dizia muita vez que, desde que tinha casado com o meu pai, nunca mais tinha tido uma arrelia com mosquitos. Tê-lo perto era o maior dos descansos, o sangue devia ser bom demais para que os bichos se servissem noutra malga. Eram comuns as histórias de o meu pai acordar cravejado de mordidelas de mosquitos, depois de uma noite sem descanso a tentar limpar o sarampo ao intruso e a minha mãe nem uma picadela para confirmar o desassossego de uma noite.

Ainda hoje é assim, quando o meu pai está num sítio onde aparecem mosquitos (de qualquer estirpe) sabemos que ele vai ser o festim dos malditos. É como se a mosquitagem estivesse a caminho de qualquer lugar e de repente um diz para os outros "malta vai ali um farnel". A partir daí dá-se o Rocky do percevejo. O meu pai tem todos os tipos de mata moscas em casa, incluindo um com formato de raquete de tenis que tem uma luz o "frita" os malditos; ouve-se um tzzt e sabemos que o mosquito partiu.

Anunciaram que este domingo seria o dia mais quente do ano até ao momento, já se esperavam praias cheias e nós, com uma criança pequena e um adulto que fica coisinho com o calor (eu), decidimos chegar por volta das cinco da tarde. Estávamos a entrar no parque da praia da Rainha na Costa da Caparica quando nos deparamos com uma debandada geral; uma vez que o Benfica jogava hoje pensámos que aquilo era tudo gente à procura de chegar a tempo para preparar os petiscos e ver o seu Benfica em paz. Arranjámos lugar perto da entrada para a praia e eu carreguei o pequeno que tinha aproveitado para uma power nap. Quando estamos a chegar ao pé do bar da praia vem ter connosco uma senhora:

- Não vale a pena ir para ali (para a praia). Está a haver um surto de mosquitos e as pessoas estão todas a ir embora por causa disso. Olhe eu mal ali cheguei fiquei logo toda picada.

Vimos as picadelas e a filha confirmou que também estava toda picada. Aquilo era o arrastão dos culices arceant*.

Viemos embora. Fomos comer um bolo. Porque entre comer e ser comida prefiro sempre ser eu a bater o dente.

De caminho, já no carro, ainda matei uma serie de bicharada que estava alapada a mim; é que eu tenho um sangue como o do meu pai, quando estou num sítio onde há bicharada desta, os outros estão em paz. A única situação em que sou poupada é quando o meu pai também está. É como se fosse vinho do Porto, quanto mais velho melhor.

Estávamos sentados na pastelaria a comer o nossa petisco quando me ocorreu que mais valia ter levado o meu pai. Se soubesse que ia estar aquele descalabro de mosquitagem tinha levado o velhote, tinha-o sentado numa cadeira de praia e depois era só esperar, seria apenas uma questão de tempo até que ele estivesse coberto de pequenas pintinhas pretas e nós estaríamos descansados. Seria como acenar com um farnel a um faminto, ou como quando se cobre um espantalho de alpista para atrair a passarada e dar descanso às couves.

 

*mosquitos em latim, só mesmo para parecer esperta.

 

 

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