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Casa da Gorda

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Ter | 02.04.19

Ser mãe é cocó na cara

Gorda

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Ser mãe é dar o corpo a um ser que cresce dentro de nós. É comer o que lhe faz bem, mesmo que nos faça ter vontade de revirar os olhos. Ser mãe é sentir o coração bater fora do peito, dependurado de umas mãos pequenas que atabalhoadamente brincam com a máquina que trazemos ao peito. Ser mãe e tentar fazer o melhor e falhar a maior parte das vezes. Ser mãe é ouvir os conselhos das outras e sentir-se um animal sem lugar, que se engana, que devia fazer diferente, que devia e devia, mas nem sempre consegue lá chegar. Ser mãe é ser e ter de parecer. Porque são precisos anos para saber se fizemos bem o nosso trabalho e temos de o parecer para nos poupar ao julgamento sumário, que não se arrepia dois segundos de nos acertar como um machado. Ser mãe é acreditar que tudo é bom. É obrigar-se a acreditar que o cocó dos filhos cheira a flores mesmo quando nos deixa à beira do desmaio. Ser mãe é dar o grito da liberdade e dizer que bosta é bosta e a dos nossos filhos não cheira diferente. Ser mãe é ganhar a confiança de que somos capazes do que nunca imaginámos, é empurrar a vida para a frente mesmo quando só nos apetece estar deitadas em posição fetal à espera do Apocalipse. Ser mãe é desejar que os putos estejam quietos e entrar em pânico quando os vê demasiado parados, “querem lá ver que o meu Jorge Manuel está com febre outra vez!”. Ser mãe é fazer viagens de 350 km ao som da balada “já chegámos?”. Ser mãe é acreditar que a fase terrível se cinge aos 2 anos e compreender que era tudo uma grande peta. A fase terrível é sempre aquela pela qual está a passar. O que lá foi já é fácil, afinal de contas está feito. Ser mãe é desejar ao domingo que a segunda chegue para passar os dias a escrever relatórios e não ter de ouvir “ó mãe- ó mãe- ó mãe-ó mãe-ó mãe-ó mãe-ó mãe” mais 2546256235 vezes no espaço de uma hora. Ser mãe é chegar a segunda-feira e lamentar porque o dia passou depressa e o filho já vai para a cama, mal soube como correu a vida. Se brincou, se se comportou bem, se foi um sacana que arranjou sarilhos. Ser mãe é rogar pragas à puta da roupa que cresce como uma erva daninha sem controlo, que a gaja não se lava, não se passa e não se arruma sozinha. Ser mãe é ter a casa decorada à força de Legos e Paymobils. Ser mãe é rezar por uma noite de descanso com o filho nos avós e lamentar ao entrar em casa “que silêncio sepulcral, a casa parece vazia”. Ser mãe é poder desejar um dia de descanso. Ser mãe é poder dizer que está cansada. Ser mãe é poder dizer que o filho é um sacripanta que lhe mói a tola. Ser mãe é gritar porque o patife encharcou a casa de banho de água para lavar as mãos e a seguir segredar-lhe ao ouvido “sabes que a mãe te ama muito!”, não vá ele ainda não saber. Ser mãe é ditar regras com a convicção de um general enquanto por dentro a corroem as duvidas existenciais de uma adolescente. Ser mãe é esperar o melhor, contando com a maior das calamidades. Ser mãe é acreditar que todos nos querem roubar os filhos por mais banais que eles sejam. Ser mãe é temer o futuro, é esquecer que fomos miúdas e vislumbrar os perigos mais irrealistas do mundo. Ser mãe é brincar no chão e rebolar como uma criança. Ser mãe é não gostar de brincar, é fazer de conta que se diverte a imitar vozes quando tudo o que mais quer é um copo de vinho. Ser mãe é aturar birras. Ser mãe é ameaçar ao ouvido que os brinquedos são confiscados e nada acontece quando chega a casa. Ser mãe é conter a vontade de dar uma palmada. Ser mãe é dar uma palmada sacode pó e sentir a culpa de quem sovou o mais inocente dos inocentes. É conter as lágrimas quando o tipo diz “dá-me outra, olha, aqui no rabo!”. Foi sacode pó, não doeu ao rabo que a levou, doeu à mão que a deu. Ser mãe é contar histórias, responder a perguntas e explicar os porquês que nem a mãe sabe. Ser mãe é limpar cocó, apreciar cocó e ouvir falar de cocó até à exaustão. Que não há criança que não ache graça às palavras chulé e cocó. Ser mãe é ouvir a palavra cocó mais de mil vezes ao dia. Ser mãe é cocó na cara. Cocó na cara. Cocó na cara. Ser mãe é desejar que a fase do cocó se ponha a andar com a saudade de quem já a quer de volta.

 

Ao momento o meu balanço sobre a maternidade é este: ser mãe é cocó na cara.

 

 

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