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Casa da Gorda

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Dom | 01.09.19

Setembro, o mês dos pseudo-recomeços

Gorda

 

 

Pelas minhas contas, em média, o comum dos mortais tem três recomeços por ano: entre o primeiro e o segundo dias de janeiro (dependendo da ressaca), depois dos compromissos celebrados passa a passa; no dia de aniversário, porque a pessoa jura a pés juntos que não faz nem mais um ano na mesma cepa torta; e em setembro, depois das férias grandes gozadas, de o mundo parecer retomar a normalidade, naquela rotina de voltar ao principio que nos fica cravejada no crânio depois de anos e anos de escola em que o setembro é sempre o mês de novidades, com os cadernos, os livros, os amigos que se voltam a encontrar e o ânimo de que este ano vamos estudar mais.

Estamos assim perante mais um dos típicos recomeços, os miúdos vão estudar mais e reclamar menos dos trabalhos para casa; os "crescidos" - chamemos-lhe assim -  vão estar com energias reestabelecidas, com a cabeça descansada e capazes de ver para lá das chatices do dia a dia, até porque aproveitaram para ler aquele livro de apoio que está no top e vendas o "qualquer-coisa-se-foda" e agora sabem que têm de estar confiantes das suas capacidades, que podem ir até onde podem ir, não vão pensar mais no trabalho depois do horário de saída e acabaram-se aquelas aporrinhações que os fazem remoer as atitudes dos colegas, desejando que um dos armários da cozinha tenha um espasmo e lhes acerte com uma porta no focinho. Já não há ansiedade pelo corpo perfeito, até porque a coleção nova conta com alguma brisa e o lombo vai estar tapadinho, pelo que o exercício pode ser só três vezes por semana (se tanto), como recomendou o médico de família. Sem exageros e com muita aceitação.

Os que têm filhos temem as reuniões de pais ao mesmo tempo que levantam as mãos aos céus, afinal de contas alguém vai aturar a criançada durante a maior parte dos dias, vão voltar cansados ao final da tarde e chegou aquele intervalo tão esperado dos dias de nervos em frangalhos sentados no jardim do parque infantil.

Ao fim da primeira semana de trabalho assenta a depressão pós-férias e quem não dava o rabinho e dois tostões para voltar às tardes de cu de molho, mesmo que fosse num apartamento minúsculo à beira da praia, na Costa da Caparica, com os putos todos aos gritos?

As tretas dos livros soam bem lá escritas mas pouco fazem pelas unhas de gel da Mónica ou pelo Alfredo que não há meio de perceber como fazer as coisas dele sem estar sempre a perguntar a mesma treta.

Com os recomeços saltam da gaveta as listas do que é preciso fazer diferente: os jantares mais cedo; o cão tem de ir ao veterinário; as aulas de natação a que é mesmo preciso ir, não basta pagar; a paciência no emprego; o cumprimento do horário, "nem um segundo a mais, nem um cagagésimo a menos".

Chegaram as "invejas boas" dos colegas que conseguem tirar férias em setembro, porque os miúdos ainda não andam na escola; esses sacanas que vão apanhar melhor tempo este ano e vão pagar menos, porque agosto é um mês do caraças com os emigrantes e vir para cá gastar bago e os turistas que não largam isto nem à lei da bala.

Os professores esperam avidamente por mais um ano letivo, cheio de criancinhas mal comportadas que mandam mensagens nas aulas e mascam pastilha de forma displicente, insistindo que D. Afonso Henriques está vivo e é um DJ famoso de uma discoteca estupenda em Albufeira.

Setembro é um mês do caneco, uma boa altura para fazer um ponto de situação com a vida, o momento adequado para olhar para a lista de 2019, perceber o que é que ainda vai a tempo de ser feito e compreender que as outras 11 coisas vão retomar os seus lugares nas passas para 2020.

 

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