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Casa da Gorda

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Ter | 29.01.19

Telemóveis, amamentação, mamas e dois póneis dourados

Gorda

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Sempre detestei telemóveis, não sei explicar bem porquê, mas sinto uma aversão extrema àquela bugiganga sem fios que parece responder a modas e que sabe mais da nossa vida do que nós mesmos. Uma pessoa vai ao supermercado comprar uma beringela e quando sai aquilo pergunta "como foi a experiência?". Epá, no mínimo transcendente, não é?

Algures em 2015 cedi à compra de um smartphone, o meu marido já tinha tentado convencer-me a isso antes e eu insistia dizendo “não tenho utilidade para isso, quero um stupidphone”. Não conseguia identificar a necessidade de gastar um monte de dinheiro num telefone que eu ia deixar perdido na mala, para mandar uma mensagem de quando em vez e para fazer algumas chamadas por semana. Nunca ligava a internet (aliás nem sabia fazê-lo), estava alheada do conceito de app e não tinha redes sociais. Queria um telemóvel cheio de funcionalidades para quê?

Depois o meu filho nasceu e eu passei a saber o que é alimentar uma criatura com algo produzido pelo meu próprio corpo. Posso dizer que no meu caso foi fácil e praticamente indolor, mas ao fim da décima vez a coisa perde encantamento e uma pessoa começa a definhar de tédio à espera que a criança “acabe a sopa”. Por isso o maridão, homem mais dado às tecnologias, lá me ensinou como mexer na internet com o telemóvel que tinha na altura e eu comecei a entreter-me na net enquanto a criança mamava. Por essa altura também aderi às redes sociais, muito por insistência de um casal amigo que me dizia que era bom porque podíamos seguir páginas de coisas com informações úteis.

A verdade é que comecei a ficar como que “dependente” do telemóvel. O cérebro habituou-se ao entretém que um smartphone (com dados) proporciona nos tempos mortos, para não falar no sentimento de segurança que nos dá, sabendo que, se precisarmos de alguma coisa, seja lá onde estivermos, podemos sempre pedir ajuda. Se quando era só eu me estava borrifando e nem queria um tarifário livre porque “nem 10 euros eu gasto” (dizia eu), quando o miúdo nasceu passei a soar se o telemóvel não tivesse saldo ou bateria.

O telemóvel transformou-se num item indispensável. Hoje em dia, posso dizer com um nível elevado de certeza que me assusta mais a ideia de perder o telemóvel do que perder a carteira.

Na semana passada deixei o telemóvel em casa. Tinha posto o bicho a carregar e deixei-o em cima da secretária do escritório. Estava a meio da ponte Vasco da Gama quando deitei a mão à mala e percebi que o tinha deixado em casa, primeiro o coração foi aos pés, depois voltou, depois pensei em fazer o caminho todo de regresso e por fim decidi que ia passar o dia incontactável. Sem telemóvel e todo o mundo que está lá dentro.

Adorei.

Passei um dia sem sair do mundo real, estive mais atenta ao que se passava à minha volta, falei com mais pessoas, gozei com outras por fazerem aquilo que eu tantas vezes faço, o designado phubbing. Não fui ver as redes sociais e não publiquei nada. Foi um dia de descanso da vida virtual e posso dizer que foi um dia mais leve, em que não pensei mil vezes “será que não-sei-quem-disse-alguma-coisa? Deixa cá ver!”

Estava a regressar a casa ao final do dia e ocorreu-me que devia fazer isso: passar um dia da semana sem telefone, ou pelo menos um dia da semana sem internet, zero redes sociais, zero blogs, zero whatsapps; só o mundo lá fora.

 

 

Amamentei o meu filho em exclusivo (numa dicotomia mama-bebé) durante precisamente 4 meses. É verdade, não houve biberons sequer, só mama direto.

Nunca pensei em amamentar, só decidi que isso ia acontecer quando tive o puto ao meu lado, depois do parto e a coisa correu bem. Pois é! E é por isso mesmo que me espantam tanto todas as conversas em torno da amamentação, como se estivéssemos a falar de uma espécie de bicho de sete cabeças pelo qual uma pessoa deve soar postas de sangue para alcançar.

Eu tinha uma lista de coisas que queria garantir que levava para a maternidade e nesta lista estava incluída uma lata de leite em pó. Estava convencida de que não ia amamentar, não é que não me visse nesse papel, pura e simplesmente sempre pensei na coisa como certa, de maneira que ia dar leite em pó ao bebé, não queria stressar com a amamentação, por isso ia ser assim. Uma semana antes do bebé nascer um amigo nosso disse-me para não comprar, a mulher era enfermeira e sabia por experiência que às vezes as mulheres reagiam bastante bem ao processo de amamentação e não precisavam de comprar leite de lata, por isso – e considerando que não estávamos em 1899 e o pai não teria que galopar para a cidade vizinha em busca de leite – se eu não conseguisse, descíamos ao andar de baixo de qualquer hospital e podíamos comprar.

Assim fiz.

Depois de o bebé nascer, coloquei-o no peito e o processo foi fácil, com pouca dor e sem muita ansiedade. Acho que me doeu um pouco nos primeiros 5 ou 6 dias, mas depois da subida do leite passou tudo. Posso garantir que me mantive em segredo com medo que a Terra Nostra me viesse buscar, é que eu tinha leite para o meu filho e para mais 20 bezerros.

Quando regressei ao trabalho, ao fim de quatro meses, lá comecei a tirar leite com a bomba. Com a mesma facilidade com que veio desapareceu, o stress, as noites mal dormidas e o cansaço secaram a fonte em 15 dias.

 

 

A fixação dos homens pelas mamas das mulheres só pode resultar de duas coisas: a) imaginam que podem fazer brincadeiras que depois não se concretizam; b) não partilham conta bancária com uma gaja de mamas com copa maior que D, porque se assim fosse rezavam todas as noites para que as marias encolhessem, tal não é o preço da roupa interior adequada.

 

 

Vejo tanta gente a fazer coisas que não fazem sentido, a querer fazer os outros acreditar que conseguem coisas fora de serie, que achei que eu também podia fazer de tropelias do imaginário e dizer que ontem vi dois póneis dourados com cascos de diamante, disseram-me adeus e pediram-me para tomar a medicação.

 

 

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