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Casa da Gorda

Casa da Gorda

Seg | 11.03.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 2

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_2.png

 

 

Confesso que quando acordei me assustei, senti-me atormentado pela imagem ao meu lado, o cabelo desordenado, a baba no canto da boca e os olhos semiabertos como os de um robalo que morreu contrariado. Tinha fodido aquela criatura na noite anterior e sentia-me compelido a faze-lo outra vez.

Levantei o lençol para a ver nua, tinha uma mata próxima do Amazonas e eu senti-me afrouxar, não conseguia come-la de luz acesa e os estores da minha casa estavam partidos. A luz do dia é incontornável quando não temos como nos esconder dela.

Gosto de ler, sou um tipo culto para proprietário de churrasqueira. Dostoievski, Tolstoi, todos autores que me inspiram. Gosto de falar caro com as minhas galinhas, gosto que os frangos me vejam como um tipo culto. Pouca coisa me dá mais prazer do que ler poesia para os meus pintos.

Ela contorceu-se na cama libertando um ronco igual ao de um porco que já está velho demais para ser assado na brasa. Como era possível que me sentisse forçado a papar aquela foca amestrada de unicelha e bigode à Zé do táxi?

A condição humana é algo que me assusta, o tormento de um homem é o vazio que não sabe explicar, é o preenchimento que desconhece o seio do ser.

Adoro inventar frases que não fazem sentido. A maior parte das pessoas não entende, mas quando as dizemos com convicção suficiente ficam sensíveis quanto á sua própria capacidade de raciocino. É por isso que gosto de aves, cacarejam, bicam o milho e não inventam.

Levantei-me e fui fazer a minha aula de pilates. Cedo percebi que o negócio dos frangos me trazia excesso de stress, sentia-me a acumular toda a energia em mim e tinha de ter onde a libertar, foi aí que conheci a Creuza, uma brasileira de Porto Galinhas que fez um curso online de terapias alternativas e que me ajudava a encontrar o meu centro. Foi com a Creuza que eu descobri o meu eu, foi com ela que percebi que gostava de depenar galinhas antes de comer uma gaja, foi com ela que encontrei o meu escape. Mas agora já não queria a Creuza, precisava de alguém mais, a única coisa que restava era um profundo sentimento de amizade.

 

A Creuza entrou no meu quarto e viu a Cremilde deitada na cama com uma mama descaída, nitidamente flácida e carregada de estrias.

- Credo, qui é que cê viu nessi bizontchi Quim Tó. Sei que ajente já só é amigo, maiz isso é mau dje mais prá você meu amô!

- Não fales assim da Cremilde, não sei explicar porquê mas ela tem qualquer coisa de especial e eu quero mais, quero come-la depois de depenar as galinhas.

A Creuza percebeu que era sério. Percebeu pelo meu olhar que era profundo.

- Meu Deuz! Isso é sério Quim. Tenho pena dje ocê!

- Preciso de manda-la ao teu salão, quero que lhe faças umas massagens e que a convenças a depilar-se, não consigo usufruir dela como quero assim, ia passar tardes a cuspir bolas de pêlo como um gato.

Terminei a minha aula e despachei a Creuza.

Depois de decidirmos ser amigos apresentei a Creuza ao meu tio Constâncio, que é um reformado da Marinha que está viúvo. Tem uma boa reforma porque já era oficial há vários anos quando deixou o serviço militar. Ele precisava de quem o cuidasse e a Creuza estava mais do que habituada a lidar com velhos safados. Agora era gozar do que o velho Constâncio tinha e esperar que ele morra cedo para ela deitar as mãos à reforma.

 

Quando voltei ao quarto ela ainda roncava como uma porca, será que me sentia atraído também por suínos? Nunca tinha pensado nisso.

Fui para o duche, tinha de esfriar a cabeça e preparar-me para os meus frangos.

Segurava no chuveiro com a mão esquerda e limpava a tomatada com a mão direita quando senti que me tocavam nas costas. Voltei-me e encontrei a Cremilde toda nua. Que horror, as mamas eram ainda mais descaídas do que eu tinha visto na noite anterior. Desejei desesperadamente que ela apagasse as luzes, que tapasse aquilo ou que eu conseguisse cegar de repente como acontecia no Ensaio sobre a cegueira. Por momentos imaginei que Saramago havia escrito esta bela obra depois de um momento idêntico ao meu, serenou-me pensar que estava um pouco mais perto de um Nobel da literatura.

- Cremilde ou me esguichas detergente para os olhos ou desapareces daqui mulher! Esse lombo não vê ginásio há anos e eu conseguia fazer o penteado do Elvis com o que trazes aí em baixo.

- Está bem. Eu percebo.

Quando ouvi esta frase pensei que ela haveria de voltar costas e eu poderia pôr os olhos abertos debaixo do chuveiro fazendo com que a força do jato de água me fizesse arder a retina e dessa forma eu me esquecesse da imagem da Cremilde nua, cheia de pelo por todo o lado. Mas em vez disso ela foi buscar o lava-tudo da casa de banho, borrifou-me os olhos e disse que queria retribuir o prazer que havia sentido na noite anterior. Agradou-me a ousadia.

Estava cego como no livro do Saramago e tinha uma mulher de bigode a fazer-me um felácio. A vida só podia melhorar se eu tivesse depenado 10 frangos antes do ato. Mas tenho que reconhecer que foi bom. Muito bom. A Cremilde desafiava-me e eu gostava disso.

Quando saí de casa e a deixei a comer o pequeno almoço, toda borrada da manteiga derretida que escorria das torradas, só conseguia pensar numa forma de a voltar a ver.

Tinha de a mandar depilar-se ao salão da Creuza.

 

Quando cheguei ao carro tinha o vidro partido e um bilhete assustador.

“Ela é minha!”, era tudo o que dizia. Pensei imediatamente do Clementino das Antas, um proprietário de uma churrasqueira no Chão Duro que andava a querer comprar a galinha poedeira do meu fornecedor. Tínhamos um acordo e todos os frangos daquela galinha eram meus, eram mais tenros e os clientes adoravam-nos. Era a minha galinha dos pintos de ouro. Na semana anterior eu tinha pago por fora ao dono do aviário para me guardar todos os frangos daquela galinha, e o Clementino das Antas, sempre segundo no concurso “Churrasqueira d’Ouro de Pinhal Novo” sentia raiva para comigo.

 

À tarde liguei à Cremilde, disse-lhe que tinha hora marcada no salão da Creuza, expliquei-lhe que era uma velha amiga minha e que a ia ajudar a ser uma mulher mais sensual. À Creuza pedi que fizesse o serviço completo.

- Quero a Cremilde toda depilada, quero-a massajada para que esteja tenra como um bife de vaca, quero que lhe dês aulas de pilates 2 vezes por semana para que fique em forma, quero que a leves a uma loja para comprar roupas novas. Quero que esteja bonita.

- Quim Tó meu querido cê tá pedjindo djemaizzzz! Bonita ela nunca vai cê, mais ajentche podje tentá arrumá ela.

 

Mandei um ramo de girassóis à Cremilde, não sei que raio de flores combinam com uma gaja feia e de bigode, mas achei que rosas pudessem ser demasiado ofensivas. A acompanhar os girassóis seguia uma caixa com uma surpresa: a roupa que queria que vestisse nessa noite. O bilhete indicava as horas e onde a iria buscar. Tinha combinado com a Creuza que me ligasse logo que estivesse tudo feito e pelo menos estava a contar que não houvesse tanto cabelo à mistura. O avental ia ficar-lhe a matar. Não conseguia pensar noutra coisa.

O dia passou devagar e a minha cabeça não estava no sítio certo. Tanto assim foi que dei comigo a queimar frangos, que é uma coisa que nunca me acontece e me deixa completamente ensandecido. Pensava na Cremilde quase nua a depenar os frangos e a minha cabeça fugia-me. Como é que um trombolho daqueles estava a afetar-me de tal maneira.

 

Eram finalmente nove horas, eu estava à porta da casa da Cremilde com o meu cabelo puxado para trás com brilhantina e alguma gordura de frango, tinha tomado banho e tinha-me esfregado bem com sabão azul e branco. Faltava-me vê-la e ser surpreendido.

Vinha em direção ao carro com um vestido vermelho traçado que me parecia ter sido comprado quando ela tinha menos quinze quilos. Nos pés uns sapatos de salto alto que ela não sabia usar, tropeçou quatro vezes até chegar ao carro. Parecia que caminhava por uma falésia, pobre coitada.

O cabelo estava arranjado, a cara estava maquilhada e finalmente alguém tinha apartado as águas e podia ver duas sobrancelhas.

- Olá Quim. – disse-me numa voz que queria que fosse sexy mas que suou a uma pássara desgovernada.

- Olá Cremilde. Não posso dizer que estás bonita porque é mentira e o Senhor castiga. Mas aleijas menos à vista. Vamos?

Acenou que sim e eu não me estava aguentar de excitação.

 

Não demorámos a chegar ao meu local especial, era ali que tudo acontecia, era ali que eu tinha o prazer máximo, naquele barracão pré-fabricado verde alface. Fazia parte de um terreno agrícola que eu tinha comprado com os primeiros lucros da churrasqueira, era só meu e motivo de muito orgulho.

- Queres entrar?

Ela confirmou e pisou uma bosta de cão assim que pôs um pé fora do carro. Só me ocorria que ia espalhar merda pela barraca adentro e estava capaz de a levar de volta para casa naquele momento. Era burra que só ela, mas eu queria papa-la e não estava disposto a deitar tudo a perder.

Quando entrámos custou-me ligar o candeeiro porque é uma puxada da vivenda do lado e o proprietário é um cabrão de um caloteiro que nem sempre paga as contas dele, por isso às vezes fico lixado e sem luz. Mas não era o caso, desta vez estava só difícil a ligação.

Num alguidar estavam dez frangos por depenar, ao lado uma cama acabadinha de fazer e a minha roupa de atacar.

- Vou explicar-te como é que as coisas se vão passar Cremilde. É muito simples, está bem?

- Sim.

- Vais tirar a tua roupa atrás daquele biombo porque eu não te quero ver nua, já fui sujeito a isso uma vez e não quero sofrer novamente. Depois pões este avental da feira do chocolate de Óbidos. Estás a compreender?

- Sim.

- Enquanto isso eu vou vestir a minha roupa predileta que é esta sunga de cabedal envernizado e esta capa de super-herói. Depois, vamos depenar os frangos, vamos espalhar as penas em cima da cama e eu vou foder-te em cima das penas. Vou foder-te até que tu cacarejes. Entendes?

- Sim, Quim.

Quando acabámos de nos comer eu não estava em mim, como é que uma feia virgem estava a tomar conta da minha vida? Queria afastar a ideia da minha mente, mas no meu intimo queria dar-lhe tudo. Seria isto o espelho da paixão?

 

 

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