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Casa da Gorda

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Seg | 18.03.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 3

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_3.png

 

Acho que ando a comer frango assado a mais. Passei a noite a sonhar que conseguia pôr ovos e que quando espirrava libertava tufos de penas. Para além disso o carvão tem-me feito mal ao estômago e eu tenho andado com mais gases do que é habitual. O Quim Tó diz que não se importa, mas eu dou conta que ele acende aqueles incensos do chinês, escolhe sempre os que têm efeito na macumba da paixão e eu derreto-me apesar de saber que os paus são sempre os mesmos, só mudam a embalagens. Os chineses são pessoas pequeninas com olhos em bico que são também muito engenhosas.

Tenho passado uma parte das noites na casa do Quim e depenamos pelo menos trinta frangos por noite. Ele é insaciável e eu não me importo. Nas ultimas noites temos só depenado os frangos e ele não me tem comido, ele promete que o vai fazer, mas quando acabamos uma caixa de dez frangos ele traz outra. Acho que deve ser porque anda com falta de empregados lá na churrasqueira e assim fazemos coisas juntos. Estou sempre a ler nas revistas de mulheres que um homem que nos ama gosta de fazer coisas connosco. O Quim gosta de depenar frangos comigo.

Estou tão envolvida neste processo que até mandei pôr unhas de gel, daquelas com nail art. Em cada dedo anelar tenho o desenho de um frango feito em cristais baratos. O Quim diz que é uma grande ideia porque estas “garras” como ele as chama, para além de me ajudarem a depenar os frangos fazem-no achar que está a papar uma galinha quando eu cravo as unhas nas costas dele.

 

Deixei-me adormecer e já não vou ter tempo de passar em casa para trocar de roupa, por isso sigo direta para a Junta, como a roupa está suja também não me parece que valha a pena tomar banho, acho que me ia fazer mais impressão. Passo os dedos pelo cabelo e saio confiante. A confiança compensa por muito.

 

Quando cheguei à porta está lá o Zé da Pá, olhava fixamente para uma poia que estava no chão e eu pensei que aquela sujidade o estaria a incomodar, afinal de contas o trabalho dele é manter Sarilhos Grandes um brinco e merda de cão no passeio é uma falta de respeito pelo trabalho dele.

- Olá Cremilde, estás especialmente bonita hoje.

- Obrigada Zé, mas nem olhaste para mim, como é que sabes?

- Eu estou a olhar para ti Cremilde. Estou sempre a olhar para ti.

- A Custódia diz que és estrábico e que não estás a olhar para mim porque tens um problema nos olhos.

- E tenho Cremilde, quando me vês a olhar para ti não estou.

- Porque não paras de olhar para aquela poia.

- Eu não estou a olhar para uma poia, qual poia?

- Aquela gigante ao pé da arvore. Deve ser merda de um Labrador.

- Ah aquela, já vou limpar.

- Finalmente estás a olhar para mim. Isto é confuso.

- Eu sei que é. Eu também estou confuso, pensava que te interessavas por mim, estava à espera do momento certo e aquele traste da churrasqueira adiantou-se.

- O Quim não é um traste.

- Roubou-te de mim.

Ia explicar ao Zé que ninguém tinha roubado ninguém quando a Ana chegou ao pé de nós. A nossa Presidente era uma mulher ilustre que só aparecia de vez em quando porque gostava mesmo era de passar tempo no salão de cabeleireira da sobrinha. Mas hoje tinha algo a anunciar e queria ser ela mesma a dize-lo.

 

Passamos o tempo do discurso da Ana lado a lado, conseguia sentir a tensão do Zé que não parava de olhar para um pisa-papeis velho e fazer olhinhos na direção do boneco que dançava lá dentro. Iam ser criadas umas hortas comunitárias e a Junta queria oferecer os primeiros terrenos aos funcionários que estivessem interessados. Estavam projetados concursos para os melhores vegetais e previa-se que o primeiro fosse para os tomates mais atraentes.

O Zé levantou logo o braço, há anos que queria ser dono de uma propriedade e quem sabe mudar de profissão tornando-se num agricultor de cultura biológica, esta seria a sua oportunidade.

 

- Acredito nas coisas que vêm da terra, Cremilde. Tenho a certeza que os legumes cheios de pesticidas me têm entortado os olhos. Vou criar um império de tomates biológicos e nem tu vais resistir aos meus tomates. Juro aqui mesmo, neste pedaço de chão da Junta de Freguesia de Sarilhos Grandes, que quando nos voltarmos a ver eu vou ser o dono de um império.

Não quis desanima-lo porque sei que a confiança e o amor próprio são fundamentais para que consigamos ultrapassar as barreiras da vida. Li isso numa frase de Facebook, não entendi, mas partilhei porque me pareceu inteligente. Acho que o Zé está a precipitar-se porque amanhã tem de cá vir outra vez buscar a chave do barracão onde está a máquina de limpezas e é difícil que até lá os tomates já tenham crescido.

Mas a vida às vezes surpreende-nos.

 

Estava a acabar de ligar o meu computador quando recebo uma mensagem do Quim.

 

Que conversa vem a ser essa com o zarolho. Não gostei da forma como ele estava a olhar para ti.

 

Sorri e até achei graça aos ciúmes do Quim. Ele não faz ideia que o Zé tem problemas nos olhos e foi isso que lhe fez confusão de certeza.

 

Só tenho olhos para ti. Depenamos mais logo?

 

Respondi-lhe.

 

Não. Mais logo tenho uma surpresa para ti. Veste o que te mandei entregar em casa.

 

Quando cheguei tinha uma caixa de cartão, das que servem para transportar bananas, mesmo à porta de casa. Estranhei que ninguém me tivesse roubado a caixa, porque era das do LIDL e essas são mesmo boas para guardar coisas quando estamos a fazer mudanças.

Dentro da caixa estava um vestido prateado com alças finas e um par de sandálias que eram o número abaixo e ainda por cima tinham uma forma apertada. O vestido era lindo e as sandálias também, só me faltava saber como é que ia enfiar as minhas mamas lá dentro.

Barrei-me com óleo Johnson e consegui escorregar para dentro do vestido. As mamas ficaram dentro de um soutien de renda creme que herdei da tia Lucrécia. Era mesmo a cor da minha pele e ninguém ia dar conta que o levava vestido. Parei mais de dois minutos a pensar se devia calçar as sandálias ou não, mas depois lembrei-me que um dia ouvi alguém dizer que beleza é dor e enfiei os coutos lá dentro.

Caminhei para a entrada com pontadas de dor e uma profunda ansiedade por saber o que é que o Quim tinha preparado para nós nessa noite. Este homem era uma montanha russa de emoções e não parava de me surpreender.

 

Entrei no carro e ele vendou-me os olhos. Pensei que pudesse ter medo, mas a verdade é que todo o momento se revestiu da mais profunda sensualidade. O cuidado com a minha roupa, a Renault 4L, em vermelho esbatido pelo sol, que ele conduzia, aquela que ele tinha sempre guardada na garagem para que não se estragasse, os bancos com bolinhas de madeira que ajudam a massajar as costas, eu a deslizar porque o óleo Johnson me fazia parecer uma enguia.

Conduzimos não sei quanto tempo e quando o carro parou ouvia muito barulho, podia jurar que a Ana Malhoa estava a cantar e fiquei empolgada porque sou uma fã. O Quim tirou-me a venda e estávamos numa pista de Karts. Ia haver uma corrida e o Quim ia participar.

 

Abriu-me a porta para eu sair, fez-me rodar como um naco de carne num daqueles restaurantes de rodízio em que os senhores brasileiros gritam “maminha?”, puxou-me para ele e disse-me ao ouvido:

- Se eu ganhar esta noite quero um prémio.

- Qual?

- Quero comer-te enquanto depenas uma galinha.

- Está bem Quim. E se perderes?

- Como-te na mesma, mas tu escolhes a posição.

- Então vamos para o chuveiro, pegas em mim e comes-me enquanto tenho as minhas pernas à tua volta, ali encostada à parece sujeita a apanhar uma pneumonia.

 

O Kart do Quim avariou e ele não ganhou a corrida. Estava zangado e a caminho de casa chegou mesmo a chorar. Dizia que tinha problemas de costas e que se calhar o melhor era deixar-me em casa.

Eu insisti, uma promessa é uma promessa.

 

Comeu-me como eu quis e depois desmaiou, não sei se de alegria se de cansaço.

 

Estivemos dois dias sem nos vermos. Esteve a fazer tratamentos com o endireita aqui da terra que toda a gente sabe que faz maravilhas com o esqueleto de quem quer que seja. O meu tio Osvaldo tinha uma corcunda de nascença, um dia foi lá e saiu do barracão em que ele dá consultas mais direito que um pau. Morreu três dias depois, mas a verdade é que eu nunca o tinha visto tão alegre e tão direito.

 

Eu estava perdida com os meus pensamentos quando o Zé entrou na Junta, olhou fixamente o pisa-papéis (que raio veria o Zé no pisa-papeis?) e disse-me:

- O teu namoradinho não aparece na churrasqueira há dois dias. Os mesmos que tu vais direta para casa. Anda a ser visto pelo endireita dos finados. Acho que está na hora de te levar para que vejas os meus tomates.

 

 

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