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Casa da Gorda

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Seg | 25.03.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 4

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_4.png

 

 

 

Não nos vimos durante um mês. Liguei vezes sem conta, umas para casa, outras para a churrasqueira, mas o Quim Tó não atendia. Deixava recado para que me ligasse e ele não retribuía as minhas chamadas. Estava distante, parecia estar magoado pelo que aconteceu naquela noite, apesar de me ter parecido um momento tão bonito.

Comecei a sentir-me em baixo, tentei concentrar-me no trabalho que havia na Junta, entrava mais cedo e saia mais tarde. Ofereci-me como voluntária para ler aos fins de tarde para os velhotes do dar de Chão Duro, mas ao fim de duas sessões de leitura a diretora falou comigo e pediu-me que parasse de lá aparecer. Ao que me explicou os idosos ficavam demasiado excitados com a história erótica que lhes estava a ler, perdiam as estribeiras e até já tinham arranjado um dealer de Viagra para lhes ir entregar o comprimido azul. Tinham perdido o senhor Clemente que, depois de ter tomado o "remédio", tentava saltar para a cueca da senhora Justina. Deu-lhe um enfarte e foi difícil explicar à família porque raio não conseguiam vestir o idoso, dado que havia uma área do corpo que tinha ficado numa posição pouco agradável para que fizesse uma figura decente no funeral.

- Tivemos de lhe partir o mangalho, Cremilde. Entende? O homem chega ao Céu de mangalho escangalhado. Pobre coitado, até era boa pessoa.

 

Por isso os meus finais de dia passavam-se em casa, agarrada a caixas de gelado e a ver filmes pornográficos para aprender mais truques para o dia em que o meu Quim me haveria de ligar.

 

O Zé da Pá mandava-me mensagens quase todos os dias, tinha arranjado o meu telemóvel e insistia que queria que eu fosse conhecer o seu "Império dos Tomates", era este o nome que escolhera dar ao seu pequeno negócio de tomates biológicos. Ainda só tinha vendido uma caixa à mãe dele, mas estava confiante que era apenas o começo.

Não aceitei sair com o Zé, afinal de contas compreendia as suas intenções e sabia que sentia alguma atração, não podia correr o risco de ser o tipo de mulher que sai com um homem, sabendo o que pretende e que, num breve momento de fraqueza, cede aos desejos do corpo e trai aquele que mais ama.

 

 

Estava um dia particularmente bonito naquela quarta-feira. Eu decidi vestir o meu vestido de cetim verde, umas sandálias rasas douradas e a minha mala nova com padrão floral. Estava decidida a mudar a minha atitude, não podia deixar que um homem comandasse a minha vida. Se o Quim já não me queria eu tinham quem me quisesse, quem me desejasse, um homem bom que ia ser dono de um império vegetal e que daria um tomate por mim.

Quando saí à rua tinha a caixa de correio forrada a post-its. A maioria sem nada escrito e apenas um tinha uma mensagem.

“Mandei uma caixa para a Junta hoje, veste o que lá mando e não te esqueças do apetrecho. Encontramo-nos em minha casa às vinte horas, nem mais um minuto.”

O Quim, o Quim finalmente tinha voltado a si e queria ver-me de novo.

 

Dentro da caixa estava um corpete vermelho, um vestido dourado e umas sandálias que combinavam perfeitamente com os dois. Num saco de veludo à parte encontrei um vibrador cor-de-rosa. Tinha o formato de um pénis enorme e deixou-me imediatamente excitada. Podia sentir o Quim a enfiar-me aquele objeto...ahhhh, tive de afastar o pensamento, tantos carimbos para pôr até às cinco da tarde.

O dia passou mais demorado do que vinha a ser hábito nos últimos dias, mas pelo menos desta vez as investidas da minha colega invejosa não me estavam a afetar, suspeito que o meu sorriso a estava a desafiar, estou certa de que estava perdida de curiosidade por saber o que continha a misteriosa caixa de bananas que eu pousara em cima da secretária. Mas jamais ficará a saber.

 

Saí à hora certa e fui a correr para casa, tomei banho, perfumei-me e vesti a roupa que o Quim me mandou. Mais uma vez sofri com as sandálias porque o Quim não acertava com a porra do número.

Toquei à campainha e encontrei um Quim alegre e livre de dor. Tinha vestida uma camisa particularmente garrida e tinha pintado o cabelo com algumas nuances. Explicou-me que aquela noite tinha tido um impacto muito grande nele, que as dores o obrigaram a ficar de cama vários dias e, forçado a parar, tinha aproveitado para pensar na vida. Farto de agoniar recorreu ao endireita dos falecidos, que afinal tinha um nome bastante banal e se chamava João. O João era psicólogo, mas como não arranjava trabalho na área tirou um curso de massagens e começou a trabalhar por conta própria. Quando atendia os seus clientes procurava resolver os problemas de fundo, porque, segundo o João lhe havia explicado, os males nunca são apenas físicos, há sempre uma dor interior que impede que a pessoa sare e siga em frente. O João escrevia uns livros de merda nos tempos livres, daqueles que têm muitas palavras, mas na verdade não dizem nada porque são lugares comuns e absurdamente redundantes.

Numa das muitas sessões que o Quim fez com o João, este disse-lhe que ele tinha de se descobrir, que havia algo no Quim que era obscuro. O Quim, sentindo uma ligação forte com o João, acabou por lhe contar do seu vicio de depenar frangos antes de ter sexo. O João fitou-o sério por um tempo e enfiou-lhe um dedo no ânus, depois disse «Nã, pela cara de alegria que acabaste de fazer o tem mal não é depenar frangos. Faz o seguinte….»

E lá lhe explicou o que o Quim devia fazer.

- Cremilde, mandei-te essa roupa para que possamos fazer um teste, vais vendar-me os olhos, quero que fales com uma voz grossa para mim e que introduzas esse vibrador lubrificado no meu ânus.

Assim fiz. Repetidas vezes enquanto o Quim gemia de prazer e gritava pelo Thor.

Ao que parece, havia de me explicar mais tarde, quando me via de costas achava-me parecida com o Thor, o príncipe dos martelos.

 

A noite foi longa e aparentemente agradável para o Quim. Eu voltei cabisbaixa para casa, com sede de sexo e uma frase do Quim «daqui a uma semana bebemos café na casa de chá à entrada de Sarilhos Grandes.»

 

 

Eram cinco e meia da tarde quando me sentei na mesa do canto e pedi um chá de camomila e dois palmieres. Estava a levar um dos bolos à boca quando vejo o Quim entrar, trazia vestida uma espécie de toga florida e ao pescoço tinha pendurados para cima de cinco colares de contas.

- Olá Cremilde.

- Olá Quim, pareces feliz.

- Estou, Cremilde. Estou a descobrir-me, estou a descobrir o que me faz feliz.

- Ainda bem para ti.

- Ou para nós, ainda não sei. Olha Cremilde, falei com o João e ele aconselhou-me a ir três meses para um retiro espiritual em Sintra. Diz que eu tenho de estar comigo mesmo para me descobrir, para perceber o que se está a passar com os meus chakras, para ouvir as minhas vibrações. Tenho de experimentar coisas novas e não posso arrastar-te para isto. Seria injusto. Por isso proponho que nos afastemos por este período.

- Como assim Quim?

- Tu fazes a tua vida. Podes até sair lá com o Zarolho, se assim entenderes. Investe em ti, que eu vou descobrir quem sou. O que tiver de ser será, Cremilde.

Pôs os óculos Rai banni (porque eram da feira) e saiu com a mesma leveza com que entrou na sala de chá.

Acabei a comer mais seis palmieres porque os nervos dão-me fome.

 

Estava de rastos e caminhei para casa com o peso de quem sabe que acaba de perder o amor para sempre. Balança a mala na mão direita de forma distraída e acabei por acertar uma mocada num pombo que estava entretido a bicar uma fatia de pão. O pombo era claramente um animal vingativo, porque veio atrás de mim e cagou-me na cabeça.

Estava desesperada a limpar a merda que tinha no alto da pinha quando apareceu o Zé da Pá.

- Olá Cremilde.

- Olá Zé.

- O que é que aconteceu?

- O pombo para o qual estás a olhar cagou-me em cima.

- Qual pombo? Eu estou a olhar para ti.

- Esquece, estou de rastos e preciso descansar.

- Se calhar precisas de carinho. Já sei que o Quim vai para um retiro espiritual?

O Quim teria contado a toda a gente antes de falar comigo? Traste.

- Como é que sabes? Eu acabei de saber.

- Porque o Quim deixou a gerência da churrasqueira com a Lúcia e ela está a fazer uma festa lá no tasco. Deves estar de rastos, deixa-me dar-te carinho.

Quebrei nos braços do Zé, nem reparei se ele estava a olhar para mim, mas era natural que não estivesse. Pobre coitado, com uma doença nos olhos e agora com uma mulher esborratada nos braços.

 

Não me lembro do caminho, só sei que falei sem parar e chorei como uma Madalena. Acho que o Zé não me ouviu, é o que me consola, porque fomos de trator até à horta comunitária e aquilo faz tanto barulho que não conseguimos ouvir nada do que o outro diz a menos que gritemos muito alto.

O Zé era um homem que investia no futuro, acreditava no seu império por isso, assim que recebeu aqueles cinquenta metros quadrados de chão biológico foi ao banco e pediu dinheiro emprestado para comprar um trator. Não tinha onde o usar, mas como ele próprio dizia, se queria ser tinha de parecer. Pelo menos no cheiro a estrume já conseguia.

 

Quando entrei na horta vi uma pequena mesa de plástico com uma vela acesa quase toda queimada, o Zé queria que tivesse impacto ao chegar, mas esqueceu-se que a cera queima depressa e que mal íamos ter vela para a noite. Foi uma sorte que ele tivesse comprado um pack de seis velas quando foi ao Intermarché. Este Zé pensava em tudo.

Comemos salada com tomates biológicos, esparguete com refogado de tomates biológicos e no fim, como sobremesa, comemos tostas barradas com doce de tomate.

- Cremilde, o que eu gostava mesmo era de te barrar toda com esta compota.

- Aí Zé não digas isso.

Ato continuo o Zé levanta-se da cadeira e arrebata-me com um beijo. Sabia a tomate. Pousou-me em cima da mesa, mas como era de plástico, velha e com muitas horas passadas à torreira do sol, assim que as pernas da mesa sentiram o meu peso cederam e nós esbardalhamo-nos no chão. A terra estava fofa e por um milímetro não fiquei com uma estaca enfiada no rabo.

- Ai Cremilde, dás cabo de mim.

- Então olha para mim. Estás sempre a olhar para os tomates.

- Mas eu estou a olhar para ti Cremilde. Estou sempre a olhar para ti.

Despimo-nos e ele possuiu-me com vontade. O Zé percebia de tomates e sabia como comer uma mulher. Recordo-me de esborrachar dois tomates chucha no auge do prazer, os sucos a escorrerem por entre as minhas mãos. Uma sensação indescritível.

 

Deixámo-nos cair exaustos no chão, habituados ao cheiro da terra estrumada, saciados da paixão.

- Vais ser a rainha deste Império, “Cremilde, a rainha dos tomates”, isso posso prometer-te.

 

Foram as últimas palavras do Zé antes de o sol nascer e eu, inebriada pela sensação de ser amada por dois homens, adormeci encostada a um tomateiro enquanto sonhava com uma coroa vermelha.

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

 

 

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