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Casa da Gorda

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Seg | 01.04.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 5

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_05.pn

 

 

 

Quando finalmente larguei a Cremilde naquela noite senti o meu corpo a ceder. Tive de olhar para a Cremilde de frente enquanto a comia, sendo fustigado na cara e principalmente nos olhos pelo jato de água que ela insistia que estivesse ligado. Ao que parece terá visto aquilo num filme qualquer e achou que era algo que poderíamos repetir. O mal é que burra como a Cremilde é, nunca lhe terá ocorrido que ela pesará mais trinta quilos que a atriz e eu não tenho o físico do Brad Pitt. Para acicatar a coisa ela acredita mesmo nas frases vazias que lê no Facebook e transpõe aquilo para a vida.

Sei que quando larguei o seu naco de carne pesado a minha vista ficou turva, rodei sobre mim, ficou tudo preto e eu apaguei.

Quando acordei ainda estava ligado o chuveiro e a Cremilde estava nua a meu lado, fazendo-me festas no cabelo, aquela idiota nem chamou ajuda. Quer dizer, eu podia ter-me apagado ali que ela só daria conta quando a Judiciária lhe explicasse.

- Cremilde, a água ainda está ligada. Vou pagar um horror de conta este mês.

- Eu percebo, Quim, mas estava a ficar frio e assim estamos mais aconchegados.

- Não achas que estaríamos mais aconchegados com um cobertor?

- Não pensei nisso. A nossa noite estava a ser tão linda.

Decidi não dizer mais nada. Para fugir daquela situação tentei levantar-me para ir para o quarto, mas a dor lancinante que senti nas costas impediu-me de me mexer. Gritei, gritei de horror e aquele asno ali só a olhar para mim.

- Cremilde, traz-me um cobertor e vai para tua casa. Eu tenho de ficar sozinho.

Quando ela se afastou, nua e larga, com o cabelo meio molhado fez-me lembrar o Thor, aquele super-herói que tem um martelo e pareceu-me mais uma vez sensual. Fez mexer algo em mim. Algo que se abafou pela dor que sentia na espinha.

A Cremilde trouxe-me o cobertor e depois de ouvir a porta fechar, tendo a certeza que ela tinha saído, arrastei-me até à cama.

Ali fiquei deitado por mais de dois dias.

 

Não tinha mais hipóteses, tinha de resolver o meu mal de dor e decidi ligar para o endireita dos finados. A bem que morria ou que ficava bom de novo.

Marcou consulta para o próprio dia e, sendo que eu estava mesmo muito mal, disponibilizou-se para vir a minha casa. Ao que parece era cliente da Churrasqueira e estava encantado com o sistema de pontos que eu tinha arranjado. Afinal de contas ao fim de dez frangos tinha um de borla.

 

Apareceu em minha casa e começou por me esfregar com uns óleos de cheiro duvidoso. Depois, enquanto me punha umas ventosas que me fizeram ter vontade de ganir, começou a fazer perguntas. Explicou-me que tinha estudado para mais que aquilo, mas que a área dele não estava forte na empregabilidade, pelo que fazia massagens e ajudava as pessoas a ultrapassar o seu mal conversando com elas enquanto esperava que as ventosas fizessem efeito. Era coisa para durar quarto de hora. Sempre se ocupava o tempo e parecia que fazia mais do que as pessoas pagavam para ter.

 

As sessões com o João – ele tinha nome e de facto era incorreto que o chamássemos de endireita dos finados porque uma parte dos seus pacientes falecia pouco depois de estar curado – começaram a ter mais efeito do que eu esperava porque começámos a desbravar em mim o meu interior, era como se estivéssemos a cavar o Túnel do Quim e eu estivesse a escassos metros de ver a luz.

Um dia diz-me o João:

- Olha lá Quim, dá-me a ideia que tu ás capaz de gostar de apanhar no rabo. Tenho cá para mim que isso é comum em gente que abre churrasqueiras e leva o negócio demasiado a sério.

- Eu, no rabo, mas que é que vem a ser isto? Gosto do aspeto dos mangalhos, mas é como quem aprecia arte.

- Pois, olha que nem por isso. Lembras-te daquela sessão de hipnose que experimentámos?

- Lembro.

- Eu fiz de conta que te ia ao rabo e tu estavas encantado.

- E foste?

- Não, Quim, eu gosto de gajas, pá!

O João falou comigo com calma e explicou-me que na sua apreciação técnica ao ser humano, eu dava notas de gostar de todo o tipo de seres humanos, mas que aparentava nutrir um apreço especial por homens. Especialmente se fossem homens robustos e encorpados. Como a Cremilde seria, se fosse um gajo.

Aconselhou-me a fazer uma experiência com a Cremilde, a pensar no que essa experiência me faria sentir e a partir alguns meses para um retiro espiritual em Sintra. Desapegar-me dos meus bens materiais e encontrar o que me poderia fazer feliz. Disse-me que tinha aconselhado outro paciente a fazer o mesmo e que este estava a ter resultados fantásticos.

 

Por isso mandei uma caixa para a Junta, comprei a lingerie certa e fui à sex shop de Chão Duro comprar o vibrador. Queria um que se assemelhasse a um pénis, só assim poderia tirar a prova dos nove.

Quando saí da sex shop passei por uma loja de roupa que tinha na montra uma camisa florida, fiquei encantado com as cores garridas e pensei para comigo «Quim, tu és dono de ti mesmo, estás encantado com a camisa, a mudança para a tua felicidade começa contigo», entrei na loja e comprei a camisa. Nem esperei que estivesse lavada, esqueci-me que outro javardo já a poderia ter vestido, senti-me eu mesmo dentro daquele tecido.

 

Quando a Cremilde saiu de minha casa naquela noite eu soube que algo tinha mudado. Eu gostava da Cremilde, mas não era por ela que estava apaixonado. Não. Era pela ideia daquela pessoa larga e parecida com um super-herói. Eu, Quim Tó de Sarilhos Grandes, dono de um império de frangos, começava a perceber agora que me tinha enganado toda a minha vida.

Só havia uma coisa a fazer, falar com a Cremilde e embarcar nesta aventura de conhecimento interior. Comprei a roupa adequada para me sentir alinhado com o universo, cravejei o pescoço de colares de contas, fiz uma tatuagem de tribal que não sei o que significa e fui ter com a Cremilde. Que pena me deu vê-la ali, a comer como uma porca desenfreada. Agarrada aos bolos. Sabe-la distante do que queria para mim, provavelmente destinada a ficar com o zarolho que achava que ia ser o rei dos tomates. Queria leva-la comigo e dar-lhe carinho, mas este momento era para mim.

Deixei-a despedaçada quando sai da pastelaria, mas a vida é feita de decisões difíceis.

 

Entreguei a gerência da Churrasqueira à Lúcia, fiz as minhas malas com togas, mantas, chinelos e colares de contas; parti para Sintra.

 

Fui recebido com toda a atenção. Faziam sessões de meditação pelo menos três vezes ao dia, faziam aulas de Yoga uma vez por dia, caminhadas pela serra e atividades para fazer desabrochar o nosso interior. Havia um cuidado extremo em respeitar o interior de cada um, por isso tínhamos momentos do dia em que cada um fazia o que mais lhe agradava. Descobri um prazer imenso no crochet. O meu interior cobria-se de alegria sempre que eu conseguia terminar mais um naperon. Imaginei a minha casa coberta de naperons; em cima da mesa, por baixo da televisão, por cima da televisão. Quem sabe com a experiência se não faria uma manta para o sofá.

 

Numa das tardes, enquanto passeava pelos trilhos verdejantes da serra, dei com uma galinha decapitada e fiquei arreliado, estava capaz de me largar aos gritos e de correr dali para fora quando senti uma mão no meu ombro direito. Uma mão larga e forte. Voltei-me e encontrei o Clementino nas Antas. A princípio a minha reação foi esquiva «que estaria o Clementino a fazer ali?», mas depois houve qualquer coisa que me serenou, talvez o semblante doce que lhe perpassava o rosto.

- Não te assustes Quim, estou aqui a bem. Estou neste retiro espiritual há um mês e estou a encontrar a minha alegria interior. Já nem como frango. Vi-te há pouco e estava indeciso se devia vir falar contigo.

- Assustei-me. Primeiro a galinha, depois tu…

- Eu percebo. Mas não sou o mesmo homem. Este retiro tem feito milagres por mim. Caminhamos juntos?

Assenti.

 

Acabámos a percorrer mais cinco quilómetros enquanto conversávamos. O Clementino contou-me que nunca tinha estado no Porto, mas que lhe tinha parecido bem dizer que vinha das Antas. Disse-me que estava sempre a pensar nos negócios e que não conseguia manter um relacionamento porque só pensava nos frangos. Contei-lhe a minha história – tudo até à noite do dildo – e percebemos que tínhamos muita coisa em comum.

Confidenciou-me que esteve a metros de pegar fogo à minha churrasqueira, sabia que eu estava a subornar o homem do aviário e queria ficar com a minha galinha poedeira. O problema é que, quando se estava a preparar para lançar uma tocha para dentro da montra, enfiou o pé direito num buraco deu cabo do ortelho. Redirecionou a raiva para a Junta e para aquela sacana daquela presidente que punha o dinheiro ao bolso e não mandava arranjar os passeios.

Mas não conseguiu pegar fogo a nenhum dos sítios, a dor era muita. Teve a sorte de estar a passar o João, que lhe deu uma mão e lhe tratou do pé. O mal é que o pé não estava a sarar bem e o João acabou por lhe explicar que havia um mal interior que não o estaria a deixar curar, era muito comum. Fizeram umas sessões de hipnose e tudo terminou com o João a perguntar-lhe se se sentia atraído por homens. Ao que parece teria mencionado isso numa qualquer sessão de hipnose.

E assim estávamos ali os dois, a percorrer a serra de Sintra, antigos amantes de aviário, agora em plena sintonia com o Universo e com a natureza.

Parámos por momentos, eu baixei-me para tirar o cantil e senti que as mãos fortes do Clementino me estavam a agarrar. Deixei que acontecesse o que eu mais queria desde que me tocou no ombro.

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

Podem ler o episódio 4 aqui.

 

 

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