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Casa da Gorda

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Qua | 03.04.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 6

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_6.png

 

 

Quando li o livro Cinquenta sombras de Grey dei comigo a pensar como é que aquela pessoa que se chama só com duas letras tinha arranjado tanta merda para escrever se podia ter contado aquilo em menos de três frases. Agora já sei, a pessoa inventa, mata gente, casa e descasa, mete gente que vê mal dos olhos que tem na cara e enche conteúdo.

 

Sou inspetor da Judiciária há quinze anos e ando à procura do caso que vai levar à minha promoção. Em Portugal não há crimes à séria para fazer com que uma pessoa cresça e dependemos sempre de pequenos delitos para subir na carreira.

Há três anos convidaram-me para participar numa investigação que estava a ser feita à Junta de Freguesia de Sarilhos Grandes, existiam fortes suspeitas de que a presidente estivesse a desviar fundos para beneficio próprio e que se estivesse a preparar para fugir para Barcelos com o dinheiro, era preciso alguém que servisse de agente infiltrado. Tinha acabado de me divorciar da Telma, que tinha sido modelo de biquíni e descobriu depois do nosso casamento que gostava de mulheres. Soube quando ela me contou que estava envolvida com a nossa mulher a dias há mais de seis meses. Por isso este caso veio mesmo a calhar, até porque nas partilhas ela ficou com a casa.

Tenho treino de ator, por isso decidi criar um personagem perfeito para que nunca dessem conta de que eu seria um agente infiltrado. De meu nome verdadeiro Osvaldo da Silva, passei a ser conhecido por Zé da Pá, o zarolho. Graças a Deus nunca sofri de qualquer mal da vista, mas para levar a cabo este papel tinha de fingir que tinha um problema grave de estrabismo.

Foi fácil começar a receber informações das funcionárias, até porque a Cremilde passava o tempo todo a olhar para mim, comia-me com os olhos e eu, fingindo que por ser estrábico estava a olhar para ela quando tinha os olhos nos carimbos, conseguia que ela acreditasse que eu a mirava como um falcão. O horror daquele pneu por fora das calças, o bigode por arranjar, a sobrancelha pegada. Será que aquela mulher não conhecia uma esteticista?

Estava quase a seduzi-la quando apareceu o outro gordo, o tipo da churrasqueira. Ao que parece a Cremilde ficou completamente enamorada e deixou de ser possível mante-la pelo beiço com três ou quatro lerias como eu fazia. Ia até à Junta, encostava-me ao balcão, olhava fixamente para os papeis que ela carimbava, percebia a entrada e saída de dinheiros, e ela, embevecida, crente que eu a perscrutava ia contanto o que sabia.

Agora era preciso fazer alguma coisa.

Convidei-a para sair, mas nada. Ao que parece era fiel ao homem dos frangos. Eu tinha de arranjar uma maneira de o fazer desaparecer.

 

O dia em que o gajo deu cabo das costas foi perfeito. Fui falar com o João, era ele que me ia conseguir fazer desaparecer o Quim de cena. Tinha de voltar a ter a Cremilde atenta para que eu conseguisse ter acesso aos papeis da Junta:

- João, o gajo aleijou-se e está em casa. Preciso que o convenças a sair de Sarilhos Grandes por um tempo.

- Como é que queres que faça isso?

- Convence o gajo que ele precisa de ir para um retiro espiritual em Sintra.

- Sabes que me deixei disso.

- Tretas. Ambos sabemos que continuas a receber dinheiro de lá para mandares para lá pessoas que vão ouvir a banha da cobra.

- Não é banha da cobra, é descoberta interior.

- Tretas. João, vai ajudar o gajo. Arranja maneira de o tipo entender que ele devia ir conhecer-se lá para o teu retiro.

O João era meu conhecido de outras andanças, um vigarista da pior espécie que tinha aberto um retiro espiritual em Sintra com outro vigarista. Ele drogava os pacientes que iam para massagem, depois dizia-lhes que tinham estado sob o efeito de hipnose e convencia-os de que manifestavam gostos "interessantes" enquanto estavam na sessão. Confusas, as pessoas inscreviam-se e pagavam rios de dinheiro para ficar lá a ouvir terapeutas a fazer gemidos e cânticos que ninguém entendia.

 

Ao que parece o Quim tinha-se mesmo aleijado nas costas e o João foi-lhe aplicando Voltaren nas amolgadelas, assim ele ia ficando melhor e acreditava que estava a evoluir no seu estado de saúde. Quando ele decidiu deixar a Cremilde para se ir conhecer melhor eu soube que tinha uma aberta, mas desta vez não ia ser tão fácil como antes.

 

A Cremilde estava a chorar e eu bati os olhos nela no preciso momento em que o pombo lhe cagou em cima da cabeça.

«Merda, para além de tudo ainda vai cheirar a bosta.» Foquei-me na minha promoção, sabia que tinha de comer a Cremilde, tinha de a deixar contente e com vontade de mais.

A distribuição das hortas comunitárias foi um golpe de sorte, eu não tinha casa ainda, andava a dormir na sala de um amigo, não tinha onde levar a Cremilde. Os tomates surgiram como uma distração, percebi que afinal de contas gostava mais daquilo do que podia pensar. Há mesmo alguma coisa de especial em comer tomate criado da terra, biológico, sentia-me melhor comigo, mais feliz.

A Cremilde comeu tudo e eu pensei «tenho de a lamber», por isso barrei-a com doce de tomate. Depois tive a certeza «tenho de a comer», por isso pus os meus olhos estrábicos, imaginei que estava a pinar um tomateiro e fiz a Cremilde.

Ela queria mais, mas eu disse-lhe que um homem que vive de coisas biológicas não pode pinar duas vezes seguidas, a segunda já tem origem transgénica. Ela, burra que dói, acreditou e pensou que eu estava a fazer o melhor por ela.

Pobre coitada, será sempre comida por toda a gente.

 

Nas duas semanas que se seguiram eu e a Cremilde passávamos muito tempo juntos. Umas vezes em casa dela, outras na horta comunitária. Foi fácil faze-la entender que não conseguia leva-la a minha casa, afinal de contas conduzia a carrinha da Junta todo o dia e ao fim da tarde ia trabalhar no meu Império.

Foi numa dessas tardes que a Cremilde me contou que a presidente estava a pensar ausentar-se da Junta por algumas semanas, que tinha pedido que carimbasse mais papeis do que era habitual e que tinha ouvido falar lá na Junta em desvio de fundos. Mas ela não sabia o que eram fundos, pelo que pensou que estavam a falar nas mudanças de mobiliário do escritório da presidente.

- Foda-se Cremilde que tu és mesmo burra.

- Como?

- És a burra mais linda que conheço. Um homem que ama a terra vê animais em quem mais deseja.

- Ah, que doce que és.

Não me aguentei. Então a gaja tinha ouvido falar em desvio de fundos e achava que era tudo normal?! Decidi convence-la de que tinha uma pancada com dar uma pinocada no chão da Junta depois de ler documentos importantes. Doida como era por andar às cambalhotas a tonta nem questionou, foi a casa buscar a chave e lá fomos nós. Estava lá tudo, todos os documentos. A Presidente Ana andava a desviar os fundos das obras publicas para abrir um salão de estética em Barcelos. Por isso é que as estradas estavam uma desgraça.

 

Conseguimos apresentar queixa contra a presidente que, apesar das provas ficou em liberdade condicional. Como não quis desmascarar o meu disfarce para o publico em geral a Judiciaria disse a todos que tinha sido a Cremilde, enquanto funcionaria e cidadã diligente, que tinha descoberto tudo e salvo o dinheiro das pessoas de Sarilhos Grandes.

Ela não percebeu nada do que aconteceu e estranhou quando alguém do Partido dos Animais, das Plantas e dos Burros a convidou para se candidatar à presidência da Junta.

Eu desapareci, mas deixei-lhe uma carta:

 

Cara Cremilde,

É muito provável que nunca venhas a entender um terço das coisas que te escrevo nesta carta, mas tinha de te contar isto porque sou um tipo honesto e porque quero que tenhas uma boa vida. Afinal de contas és feia até à dor, mas não és má pessoa.

O meu nome é Osvaldo, tenho uma profissão secreta e o meu trabalho terminou em Sarilhos Grandes, importa apenas que saibas que tiveste um grande contributo no meu destino. Nunca esquecerei os momentos que passámos juntos, até porque me deixaram traumatizado e estou a fazer terapia porque tenho dificuldade em manter relações sexuais com outras mulheres. Sinto-me enjoado, como se estivesse a andar de barco com tempestade em alto mar.

O Quim não é homem para ti. Ele quer outras coisas da vida e penso que rapidamente saberás disso. Não vás ao endireita dos finados, ele não é endireita, é um vigarista da pior espécie. Aceita o convite que te foi feito, acho que darás uma excelente presidente, dedicada, atenciosa e burra que chegue para nunca roubar ninguém.

Antes de sair de Sarilhos Grandes passei os direitos do terreno agrícola para ti. Acho que aquilo pode dar alguma coisa, ou quem sabe até vir a ser um hobbie giro para ti. Um hobbie é uma coisa que as pessoas fazem nos tempos livres.

Desejo-te o melhor do mundo.

 

P.S.: Eu nunca tive nenhuma doença dos olhos, só que me custava muito olhar para ti.

 

Desejoso de que nunca mais nos encontremos,

Zé.

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

Podem ler o episódio 4 aqui.

Podem ler o episódio 5 aqui.

 

 

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