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Casa da Gorda

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Ter | 09.04.19

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas - Episódio 7

Gorda

Vinte e quatro ponto cinco sombras castanhas_7.1.p

 

 

O último ano superou todas as minhas expetativas e sonhos. Jamais poderia acreditar que um dia eu, Cremilde da Silva Peixoto Bota Rota, seria a Presidente da Junta de Freguesia de Sarilhos Grandes. Sou uma mulher respeitada por todos, menos pelos meus colegas, até já pus unhas de gel, daquelas com diamantes no dedo anelar. Passo os meus dias a tomar decisões para o bem da freguesia e a pôr carimbos em documentos.

 

A partida do Zé deixou-me abalada e o facto de não ter entendido metade das coisas que ele escreveu na carta quase me levou a uma depressão profunda. Tudo até à manhã em que acordei indisposta, crente de que me estava a dar qualquer coisa e fui ao posto. O médico confirmou, sem sombra para duvida, que eu estava grávida de cinco meses, mas não se notava porque a minha estrutura não tinha mudado muito.

Custou-me a acreditar, tinha passado por dois amores avassaladores em menos de um ano, era presidente da junta e agora ia ver mais um sonho cumprido: ia ser mãe. É claro que não saber quem seria o pai me causou alguns transtornos, afinal de contas que tipo de mulher não sabe que homem é pai do seu filho? Fui falar com o Quim, porque ele era um dos meus melhores amigos.

 

O Quim descobriu a sua essência no retiro espiritual em Sintra. Descobriu a sua essência e um namorado, porque veio de lá noivo do Clementino. O amor é mesmo tramado, quem diria que o Quim havia de se apaixonar pelo seu rival? Estas coisas não acontecem só nas novelas.

Enquanto estiveram no retiro o Quim e o Clementino tornaram-se vegetarianos, faziam jejuns de sumos detox e alimentavam-se maioritariamente de pevides e coisas que vinham em pó de continentes como o Perú. Estavam tão enamorados um com o outro que decidiram vender as churrasqueiras e começar um negócio de sumos naturais detox e barras de proteína vegan. Viajaram para vários continentes para descobrir ingredientes novos, mas foi na Damaia que encontraram o fornecedor certo.

Naquela tarde apareceram na minha horta de tomates para lanchar. Era o meu refugio, repleto de memórias doces e de tomates que davam cor àquele jardim. Plantava para mim, para a vizinhança e vendia umas caixas de tomate na feira. O lucro servia para ajudar o lar de velhotes. Criei a fundação Sr. Clemente, nunca me perdoei o que lhe aconteceu.

- Conta-me Cremilde, como vai a vida? Estás mais magra querida? Ou é impressão minha? Tens de beber uns sumos dos nossos.

E deram um valente melo, coisa que eu preferia não ver, afinal de contas a boca do Quim já tinha sido minha e aquela coisa de o Clementino não ter os dois dentes da frente fazia-me um bocado de confusão.

- Tenho uma coisa para te contar, mas antes quero que proves os meus tomates.

- Aí Cremilde, parece que já tivemos esta conversa, mas ao contrário. Que esquisito, ahahahah!

Rimos muito. Até o Clementino achou graça.

Comemos tomate cru e depois passámos às tostas barradas com doce. Ia na décima quinta tosta quando consegui deitar cá para fora.

- Estou grávida.

Nem lhes ocorreu de quem poderia ser a criança, saltaram das cadeiras, quais doidas na gaiola dourada, contentes e aos gritos que iam ser as madrinhas.

- Quim, eu não sei quem é o pai. Podes ser tu.

Ele parou petrificado a olhar para mim. Já tinham passado muitos meses desde que nos tínhamos comido e ele não conseguia conceber a ideia.

- Como é que posso ser eu o pai, Cremilde? Tu andaste enrolada com o zarolho.

- Não sei. Sabes que sou péssima a fazer contas, mas foi tudo muito próximo. Não sei quem é. Mas vou descobrir.

O Quim pensou que eu queria fazer um teste de NDA, mas eu só precisava que a criança nascesse, estava certa de que quando olhasse para o bebé e lhe visse os olhos tortos ia sabe-lo filha do Zé. Toda a gente sabe que o estrabismo é uma espécie de sinal de nascença e o bebé iria herda-lo do pai.

O Quim ficou surpreendentemente contente de repente, ocorreu-lhe que nunca teria outra hipótese de ser pai, pelo que o melhor era ficar com aquele bebé como seu herdeiro ou herdeira. Estavam a fazer uma fortuna com os sumos e um dia iria querer deixar o dinheiro a alguém.

Ficou decidido nesse mesmo dia que o Quim, biológico ou não, seria o pai do bebé. O Clementino ia ser o padrinho e o padrasto. Íamos amar esta criança com todas as nossas forças.

Foi nesta onda de carinho que o Clementino se sentou em cima de uma caixa de tomate que ia ser doada ao lar de velhotes. Provou o sumo dos tomates e teve um momento de lâmpada. Iam criar um sumo de tomate detox, feito com tomates biológicos e uma pitada de qualquer coisa com nome estrangeiro, porque toda a gente sabe que assim vende mais.

 

A Estrela nasceu em outubro, num dia bonito e solarengo, com os olhos direitos e bastante arregalados. O Quim registou a menina como sua filha e partilhou em todas as redes sociais o nascimento da bebé.

No mesmo dia o Clementino anunciou que estávamos milionários, os sumos estavam a vender como ginjas e eu, como principal fornecedora de tomate, estava carregada de dinheiro. Tinha comprado uma grande vivenda e tinha comprado todos os terrenos agrícolas do município para expandir a minha área de produção. Afinal de contas o Zé sempre tinha razão “eu sou a rainha dos tomates”.

 

Mas ser rainha não chegava, estava na hora de mudar de vida. Quando a minha vida começou a melhorar eu encontrei uma frase no Facebook que me fez pensar. Dizia: “se estás gorda mexe o cu, ninguém o pode fazer que não tu".

Inscrevi-me num grupo de mães fit. Assumi-me como alguém que não cuidava de si e procurava apoio. Arranjaram-me dietas, planos alimentares e alguma fome. Deram-me o nome de personal treiners, que são pessoas a quem nós pagamos para nos aleijar. Comecei a fazer exercício seis vezes por semana e a comer essencialmente pevides e coisas com a marca biológica. No meu léxico passaram a constar nomes de alimentos fantásticos que eu consumo em batidos, apesar de nem dar conta que eles lá estão.

Hoje posso dizer que tenho um corpo de aço, se quiser parto nozes com os meus glúteos. Faço treinos funcionais e arredo moveis melhor que o Octávio Escaramuça. Vou para a junta de roupa ainda mais junta, consigo carregar os sacos das compras todos de uma vez e publico os meus treinos do Instagram para inspirar outras mulheres a fazer igual.

Nós somos capazes do que queremos.

 

Pouco tempo depois de o Zé desaparecer soubemos que o João, o endireita dos finados, se tinha mudado para o Barreiro, ao que sabemos terá aberto um gabinete de apoio onde dá consultas de psicologia humana e animal. Tanto quanto consta tem tido resultados extraordinários com os São Bernardos.

 

E eu aqui estou, como comecei esta história: à procura de amor. Muito mais rica depois de conhecer o Quim e o Zé, uma profissional de sucesso, confiante da mulher que sou. Mãe de uma Estrela e dona de dois cagados.

A vida corre-me bem porque penso positivo e acredito que podemos ser tudo o que quisermos.

 

Fim

 

 

 

Podem ler o episódio 1 aqui.

Podem ler o episódio 2 aqui.

Podem ler o episódio 3 aqui.

Podem ler o episódio 4 aqui.

Podem ler o episódio 5 aqui.

Podem ler o episódio 6 aqui.

 

 

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